Podemos considerar que foram os historicistas
alemães os precursores da discussão acerca da verdade, do método e dos
documentos no ofício do historiador. Júlio Bentivoglio salienta que o
historicismo possui uma dívida com o pensamento de Chlaudenius, autor que, no
século 18, apresentou concepções avançadas para a pesquisa histórica.
Chlaudenius teria destacado o ponto de vista dos sujeitos históricos e dos
historiadores-narradores, revelando que o conhecimento histórico é marcado pela
crítica, tanto da perspectiva do historiador, quanto dos testemunhos. Isso não
quer dizer que o trabalho estivesse contaminado pela subjetividade, que
impossibilitaria o método, mas sim que era preciso reconhecê-la como uma
ferramenta para a compreensão correta sobre a verdade.
Contudo, os autores que mais se destacaram no
historicismo alemão do século XIX foram Droysen e Ranke. O primeiro escrevendo um
manual de teoria da história que ainda hoje é lido, por sua composição
epistemológica particular; e o segundo, o historiador de uma produção vasta
concebida pelo domínio da prática e pela defesa do método caro ao seu trabalho.
Ranke, assim como outros historicistas, possui uma nítida inspiração da
história de Hegel, quando expõe que o ponto de vista do historiador deve ser
divino e a verdade acerca do tema retratado deve permanecer única mesmo que
várias obras sejam escritas. De acordo com Pedro Caldas, a busca por
objetividade de Ranke fez com que ele negasse um grau de subjetividade. Que
grau era esse? A subjetividade vetada é aquela caracterizada pelo simples
arbítrio, pela atribuição prévia de um sentido ao texto. Por isso, o
historiador não deve ler o texto com preconceitos ou significados previamente
determinados, do contrário, toda investigação será ociosa e a verdade nunca
encontrada além do “já sabido”.
Ranke desenvolveu um pensamento crucial à
discussão acerca dos documentos e fontes históricas. O autor desconfiou dos
relatos sobre o passado, criticando àqueles pesquisadores que faziam história
com base no que foi dito por outros a partir de outras histórias, por isso se
segurou na autoridade exclusiva do imediato e na importância das fontes. Entretanto,
ao contrário do que comumente se acredita na comunidade de historiadores, de
acordo com Pedro Caldas, Ranke critica a passividade perante os documentos,
pois estes não seriam a residência fixa da verdade, mas somente “papéis mortos”
que a vida se revelaria pouco a pouco quando o espírito do leitor (a maneira da
interpretação luterana) penetrasse no texto. Não é a imparcialidade que
caracteriza a obra de Ranke, porém seu receio de tomar partido, uma cautela
fundamental para a cientificidade, conforme argumenta Caldas. A importância de
Ranke se dá não somente pelo que ele defendia, mas também pela recepção do
autor, que acabou causando uma formação discursiva cara a historiografia
moderna do século 20. Vejamos do que se trata essa recepção interpretativa.
Peter Burke atribui à crítica que foi feita a
prática historiográfica de Ranke mais aos seus seguidores (os rankeanos) do que
propriamente a ele, porém, não há dúvidas que alguns desses elementos aparecem
também no trabalho de Ranke. Usualmente o autor virou uma sinonímia do
historicismo, o que acreditamos ser uma consideração problemática visto a gama
de historiadores heterogêneos que se inserem a essa corrente. A primeira
crítica a Ranke é dirigida em relação à sua suposta defesa da neutralidade, uma
interpretação da exposição na qual o autor diz que “quer fazer a história do
modo que ela aconteceu”. A busca da verdade por Ranke lhe valeu a alcunha de
historiador eunuco por Nietzsche, quando o filósofo disserta sobre a “febre da
história” que marcava o momento intelectual da crítica à metafísica em prol da
consciência histórica. Mais do que isso, a historiografia moderna criticou a
história rankeana por ela ser eminentemente política, eixo a partir do qual
submetiam as outras esferas da sociedade. Por conta desse privilégio do
político, os historiadores rankeanos faziam uma espécie de hierarquização dos
documentos, dizendo que os documentos escritos e oficiais, ligados ao Estado e
preservados em arquivos, eram mais importantes e confiáveis que os demais. Nada
incomum, se situarmos esses historiadores em seu contexto social do período.
Boa parte desses autores integrava os projetos de Estado-nação e unificação da
Alemanha, alguns como conselheiros diretos do rei.
Outra corrente historiografia, a Escola Metódica
Francesa, seguia uma linha parecida (de condução da pesquisa) a dos
“rankeanos”. Priorizava os documentos escritos aos quais à crítica do
historiador só deveria se reportar para destruir informações ilusórias, nunca
criando outras. Em busca da verdade, Langlois e Seignobos, expoentes desta
vertente, dizem que a crítica apenas classifica, nos mostra probabilidades
criando etiquetas: afirmação sem valor, afirmação suspeita (fortemente ou
fracamente), afirmação provável ou muito provável, afirmação de valor
desconhecido. Esses autores procuravam adotar um modelo de história que
estivesse adequado a ciência natural que, embora constituísse um procedimento
próprio, nunca poderia entrar em confronto com as ciências físicas consideradas
“exatas”.
Segundo Peter Burke, o surgimento da chamada
“Nova História” no século XX rompe com o paradigma tradicional da
historiografia, que era visto como o único jeito de fazer se história. Os
historicistas e os metódicos são considerados os representantes deste paradigma
tradicional, que não raras vezes (ambos) são chamados de positivistas, por
conta da leitura que os aproxima das ciências naturais e da tentativa de
neutralidade. Para Burke, algumas mudanças foram claras em relação ao modo de
fazer história tradicional. Com a Escola dos Annales, há o interesse por toda a
atividade humana, tudo tem um passado e uma história. Daí, a expressão
“história total” cara aos autores dos Annales. Desta maneira a história
política deixa de ter privilégio sobre as demais, aliás, devido à inspiração
marxista, apontada por Jacques Julliard, a política é relegada ao segundo
plano, pois estaria ligada aos acontecimentos que seriam apenas espumas
trazidas pelas ondas do mar da história de longa duração, protagonizada pelo
econômico e social (expressão de Braudel, da segunda geração dos Annales).
A partir da Escola dos Annales, muito em
função do interesse por toda a atividade humana, houve uma expansão da
documentação no trabalho do historiador, deixando de ser restrita aos
documentos escritos e oficiais produzidos pelo Estado. Nesta geração de
pesquisadores, todos os documentos passam a ser utilizados como evidências: os
documentos orais e visuais, os objetos e utensílios, as estatísticas e os
dados, fabricados em diversas esferas da sociedade com as quais a pesquisa
pretende investigar. Tudo que for indício da atividade humana é incorporado à
documentação da pesquisa história, pois como escreveu metaforicamente Marc
Bloch, o historiador deve ser como o ogro da lenda que fareja carne humana atrás
de sua caça.
A defesa da interdisciplinaridade pelos
Annales provocou a inserção de outras ciências humanas e sociais como
auxiliares na pesquisa histórica. Mais do isso, conforme salienta Burke, a Nova
História rejeita a ideia de história objetiva de Ranke, a que queria contar “os
fatos da maneira que eles aconteceram”. Pois, embora a história seja um
conhecimento cientificamente conduzido através de um método, a objetividade é
impossível sem a subjetividade, pois nossas mentes não refletem diretamente a
realidade, mas só percebemos o mundo através de uma estrutura de convenções,
esquemas e estereótipos, um entrelaçamento que varia de uma cultura para outra.
Nossa percepção dos conflitos é certamente mais realçada por uma apresentação
de pontos de vista opostos do que por uma tentativa de articular um consenso.
Segundo Canclini, essa exposição da Nova História está baseada na crítica à
consciência absoluta do sujeito cartesiano feita inicialmente por Nietzsche,
que descreveu a genealogia da moralidade da consciência cristã ocidental, Marx,
que particularizou as consciências históricas conforme os interesses de classe
e, Freud, que diagnosticou os conflitos internos da consciência, onde “o ‘eu’
não é senhor dentro da própria casa”.
Embora já houvesse a atenção de alguns autores
historicistas para o caráter subjetivo da pesquisa historiográfica e para a
necessidade da crítica do pesquisador frente aos documentos, foi mesmo com os
Annales que ela foi, pelo menos, popularizada e sintetizada. Jacques Le Goff,
integrante da fase tardia do Annales, num artigo escrito no final do século XX,
advoga a importância de tratar os documentos como monumentos. Para o
historiador, os monumentos nunca são neutros, nem a própria existência dos
mesmos, estes só chegam até o presente por conta de forças impostas e
vencedoras do passado que querem transmitir algum tipo de imagem da sociedade
que os produziram. São as escolhas dos historiadores que determinam quais
monumentos que serão utilizados como documentos, mas os dois são uma coisa só.
Le Goff critica Fustel de Coulanges, autor que teria dito que “a única
habilidade do historiador consiste em tirar dos documentos tudo o que eles
contêm e em não lhes acrescentar nada do que eles não contêm. O melhor
historiador é aquele que se mantém o mais próximo possível dos textos”. Segundo
Le Goff, esse era um postulado típico da “escola positivista”, a qual defendia
a primazia dos documentos, que assumiam o lugar de prova, logo de comprovação
da verdade. Le Goff acredita que a Escola dos Annales proporcionou uma
revolução documental em duas medidas. Primeira, quantitativa e, segunda,
qualitativa.
Quantitativa: houve uma
ampliação que já foi explicada, e através dela operou-se o trato da
documentação em massa, medido por seu valor em série, onde há a confrontação de
vários tipos de documentos, sob várias perspectivas através das quais o objeto
de pesquisa pode ser estudado. Por exemplo, ao investigar as revoluções
européias de 1848 o historiador poderia acumular documentos produzidos pelas
elites, pelos líderes políticos de massa, pelos filósofos, pelas classes pobres
ou fazer uma análise cruzando acontecimentos políticos a dados econômicos e de
crescimento demográfico, numa escala comparativa de curta ou longa duração. Na
era do computador e do processamento de dados, uma vertente da história
quantitativa cresceu bastante, chegando ao ponto de determinados pesquisadores
da linha (os chamados “cliometras” segundo Joseph Fontana) dizer que somente
esse tipo de história pode ter um conhecimento científico seguro.
E. P. Thompson fez uma crítica consistente ao
tipo de história que se baseia apenas no valor quantitativo dos documentos,
para o historiador inglês, os números de um cálculo estatístico pouco dizem ao
historiador se não levarmos em conta o fator cultural e a mudança de um
determinado contexto histórico. Ele aponta como exemplo o crescimento da média
dos salários do operariado inglês durante a Revolução Industrial, que
obscurecem a compreensão da conjuntura se não olharmos o crescimento
proporcional do número de pobres com o aumento da população e a mudança nos
costumes cotidianos destas pessoas, a noção do tempo fabril regrando a vida é
uma delas.
Qualitativa: Lucien
Febvre diz que o mais apaixonante do historiador é fazer falar as coisas mudas,
fazê-las dizer o que elas próprias não dizem sobre os homens, sobre as
sociedades que as produziram. Com os Annales, a crítica ganha um papel
essencial na pesquisa histórica. Agora o historiador não precisa estar cada vez
mais colado ao texto para produzir conhecimento sobre o passado, como quis
Coulanges, mas sim, é necessário questionar os documentos. Diante dos
enunciados escritos, por exemplo, é preciso fazer as três perguntas do método
básico de análise: O que é? Por quê? Para quem? Cabe ao historiador investigar
as intencionalidades por trás da existência do documento, como também o que ele
diz e, portanto pretende esconder e mostrar; não mais simplesmente
reproduzi-lo, pois não existe documento inócuo, objetivo, neutro, primário, todos
devem ser compreendidos como instrumentos de poder. Foucault já havia apontado
sobre o aspecto monumentalista de todo documento, mas ao contrário dos Annales,
o filósofo-historiador não quis fazer os documentos falarem, e sim através do
método arqueológico descrever os monumentos, fazendo séries e investigando a
produção dos regimes de verdade, ligados as instituições de poder e saber, e as
regras discursivas pelas quais tornaram possível pensar, falar e agir da
maneira que pensamos, falamos e agimos a partir da modernidade.
Referências:
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