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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A morte como obra de arte em The Following

Quando uma série inicia ao som de “Sweet Dreams”, reproduzida pela voz abissal de Marylin Manson, você já pode ter ideia do que vem por aí. Pois assim como o nome do referido cantor, The Following é uma mistura de dois clássicos, um da beleza e outro da loucura assassina. Mais uma série de sucesso produzida nos EUA, sua narrativa conta a história de Joe Carrol (interpretado por James Purefoy), um professor que dava aulas de literatura numa universidade e que se torna um serial killer. Como se isso não bastasse, ele realiza seus crimes em referência a obra de seu ídolo, o escritor Edgar Allan Poe (1809-1849). Ryan Hardy (por Kevin Bacon) é o policial mocinho da parada. Depois de ser afastado da polícia por problemas de saúde (física e psicológica), Hardy é chamado para recapturar o assassino do “verbo encarnado”. Isso mesmo! O primeiro episódio (vou narrar trechos) mostra Joe Carrol fugindo da penitenciária, após ter matado uma dúzia de agentes e fugir com as roupas e o carro deles, numa cena que lembra bastante as ações de Hannibal. Esse evento acontece alguns dias antes da execução marcada do psicopata, que havia matado até então 14 mulheres. Hardy prendera Joe em 2004 e agora terá que fazer novamente.

O contraste entre os dois protagonistas é um ponto forte da série. Enquanto Joe é carismático, articulado, influente, sedutor e confiante, Hardy é... digamos, o Kevin Bacon. (Brincadeira!). Na verdade o policial parece ser o oposto do assassino. Tem dificuldades de se relacionar, sofre com o álcool em excesso e com o marca-passo no coração, é solitário, azarado, traumatizado e sem amigos. Não dá nem para chamá-lo de herói. Por mais sombrio e calculista que Joe Carrol seja, a falta de luz parece estar mesmo é do outro lado. E isso faz com que o público se simpatize mais pelo vilão do que pelo mocinho. Para além desta apresentação aos leitores do TS, a seguir pretendo comentar dois elementos centrais da série. O fenômeno dos seguidores de Joe Carrol e a relação da arte com a vida na teoria humanóide.

1. Assassinatos, literatura, polícia... E você que não é espectador da série deve estar se perguntando o que afinal o título tem a ver com a série. É que ele se refere aos “seguidores” de Joe Carrol (tradução possível para “the following”). O carisma do algoz é tamanho que ele consegue atrair uma porção de fãs, tudo graças à cobertura midiática sobre seu caso e, sobretudo, a dois livros publicados, o de Carrol, fracasso de crítica e de público antes de sua prisão e o outro, de Ryan, escrito após a resolução do caso (o que torna o policial um especialista nas “táticas psicopatas” de Joe Carrol). Além disso, dentro da penitenciária o homicida usa sua sagacidade para acessar a Internet e recrutar seguidores, inclusive, um dos guardas, killer dog (tudo isso estará apenas no primeiro episódio, prometo não estragar as surpresas!). Na cadeia, Carrol recebe cartas e visitas de seus seguidores cujo fanatismo vai ao ponto de tirarem suas próprias vidas em prol da “arte”. O método de recrutamento de Carrol é bastante verossímil. Ele se aproveita de pessoas solitárias, fragilizadas, instáveis e carentes; correspondendo-as com carinho, atenção e encorajamento; fazendo-as acreditar serem fortes e iluminadas. A maneira de líderes de seitas religiosas ou de outras ordens, o ex-professor arruma uma posição/função para seus fieis, fazendo com que então passem a se sentirem acolhidos e dêem sentido a suas existências diante do caos da vida e do mundo.

Estas são técnicas de persuasão comuns em partidos, grupos, corporações e igrejas. Quem conhece o carisma de um pastor evangélico ao acolher um fiel, compreendendo seu sofrimento e tocando-lhe na ferida, sabe bem do que é feito o veneno/remédio de Joe Carrol. Igualmente permeado por ritos e rituais, rodeado a palavras que querem ganhar vida, a iniciação de batismo à seita do ex-professor, ao que parece, consiste em fazer o membro cometer um homicídio e sentir o gosto de sangue abençoado pela arte de Poe. Assim é construído o “comum”, tal qual uma linha que separa o “eles” do “nós”. A técnica desse recrutamento pode servir também para compreensão do contexto no qual a obra se insere enquanto produção fílmica.

Não é de hoje que os estadunidenses possuem um interesse desmedido por serial killer. É só contar a quantidade de séries e filmes que envolvem esse tema. Inclusive é possível traçar uma série das séries dos assassinos em série. Deixo para vocês fazerem esse trabalho! O que quero destacar aqui é o raciocínio segundo o qual liga a insegurança de uma sociedade a suas produções fílmicas. Enquanto o teórico Fredric Jameson destaca, sobre o filme Tubarão, que esse tipo de produto cultural é composto por um fator positivo responsável pelo consumo do público, que é a promessa de redenção utópica sob o signo do final feliz, o filósofo Gilles Lipovetsky e o cineasta Michael Moore salientam que este tipo de produção visa estimular ainda mais a insegurança e o medo. O objetivo é claro. Com a população fragilizada e insegura é possível aprovar uma centena de leis absurdas de segurança nacional. Inclusive aquela que, mesmo sem provas factíveis, o acusado de terrorismo fica automaticamente sob custódia. Além do mais, a insegurança alimenta a indústria de segurança interna e externa. Tanto vendendo armas, alarmes, câmeras e cercas elétricas, como incitando a espontânea contribuição financeira às forças armadas. É sabido que um fator de insegurança e fragilidade tomava conta do Estado alemão antes da eleição do partido nazista. Não à toa Hitler exaltava a força e apresentava o destino glorioso do povo alemão. Os escolhidos! Deu-se o encantamento, combustível para o motor daquela tragédia. Em 1964, o golpe de Estado no Brasil usou de um método parecido. Alardearam ao máximo o perigo da implantação forçada do comunismo no país e a repetição das atrocidades da URSS até que a sociedade civil apoiasse a intervenção militar. Houve resistência “comunista” em 64? Nenhuma! Onde estavam os vermelhos perigosos? Não importa. A mentira já estava plantada. Fiquem atentos, pois, a história se repete... só que diferente.  

2. Na bibliografia ocidental é recorrente a relação entre arte e vida ou da ética como estética. A proposta da série é explorar a obra de Edgar Allan Poe como expoente mais extremo desta relação, a que leva a um fim macabro. Enquanto para Nietzsche a vida se confundia com a arte e a dobradinha Deleuze-Foucault, de inspiração nietzschiana, exaltava a vida como obra de arte e defendia uma estética da existência, Poe compreendia a insanidade como arte e via como possível a equivalência entre morte e beleza. Reconhecido como inventor do conto policial, Poe é o tipo de escritor que, ao percorrer as zonas mais obscuras da mente humana, deixa o leitor angustiado até o final. Ou até depois. Ao menos nestes dois quesitos a série faz jus à referência do autor. Joe Carrol, ao tomar Poe como Bíblia, comete os assassinatos sem classificá-los como crime, para ele trata-se tão somente de arte. Mas a diferença entre a leitura que a série faz de Poe e as concepções da tradição nietzschiana é mais do que questão de grau. A segunda pensa a (est)ética relacionada a uma subjetivação, é um efeito de relação de força que o indivíduo provoca em si mesmo; diferente da moral, coletiva e coercitiva, trata-se de “um conjunto de regras facultativas que avaliam o que fazemos, o que dizemos, em função do modo de existência que isso implica”, escreve Deleuze. Este processo se utiliza das chamadas “técnicas de si” (que Foucault foi buscar nos gregos antigos) para produzir modos de vida, estilos de existência que não são imutáveis. Tal técnica artística, ao contrário de Poe, multiplica vidas dentro de uma única existência, enquanto a leitura de Poe por Joe Carrol é uma arte que tem como suporte não exatamente a si próprio, mas o corpo e a vida alheios. É no outro que é produzido o quadro no qual o artista fúnebre desenha. A fixação pelos olhos, “as janelas da alma” para Poe, é trabalhada na série: as vítimas geralmente têm os olhos perfurados. No entanto, cabe mencionar que, a despeito das diferenças das concepções filosóficas, os dois pólos de “vida/assassinato como arte” têm um ponto em comum: o suicídio: uma ação do indivíduo sobre si mesmo.

Ainda a respeito da relação entre vida e arte, outro paralelo possível é a questão da narrativa como uma ficção produzida pela imaginação artística. No primeiro episódio da série, Joe Carrol “convida” Ryan Hardy para escreverem um novo livro. Mas não é um convite para se sentarem juntos em volta de uma mesa ou de um computador. A narrativa deste livro não será outra coisa senão os próprios acontecimentos dos assassinatos-artísticos que envolvem os dois personagens, herói e vilão. Isto é, não só os homicídios são obras de arte em si mesmas, mas o conjunto serial desses, a tentativa de resolução e captura dos criminosos fazem parte de uma trama maior. Tem-se então a descrição do próprio formato do que é a produção fílmica de uma “série continuada”. Ou seja, em cada capítulo narra-se uma estória da qual o público possa no mínimo acompanhar e compreender sem necessariamente saber de tudo o que aconteceu antes e que acontecerá depois. A evolução destes capítulos, com nó e desenlace, produz uma história que só pode ser compreendida em “longa-duração”, uma totalidade das partes em o todo fundamentado em princípio, meio e fim.

Conhecido pela proposta de analisar a Historiografia através de estruturas literárias, Hayden White acredita que um mecanismo parecido com uma produção artística é colocado a campo quando o historiador pretende contar uma história. Partindo da não oposição entre ficção e realidade, mas de complemento, ele acredita que a história faz a mediação entre acontecimentos neutros ou caóticos (reais) e as estruturas de enredo previamente reconhecidas numa dada cultura (ficção). O objetivo seria então tornar familiar aquilo que era estranho. Ao articular acontecimentos numa totalidade formal, já conhecida, o historiador produz sentido. Um filme recente foi mais longe. Com o título de Mais Estranho Que a Ficção, a comédia conta a história de um homem comum que tem sua vida narrada por alguém de fora. Tudo vai bem até que ele escuta o escritor de sua vida dizer que ele vai morrer em breve. Então ele corre para descobrir quem é o autor e convencê-lo a lhe deixar vivo. Para mim, o melhor da obra é propor o seguinte questionamento: se nossa vida for um destino escrito, qual é seu gênero ficcional? Romance, tragédia, comédia, epopéia, sátira, etc. Para White, isso vai depender do valor maior ou menor que atribuímos a determinados eventos.

Agora que já dei tantas voltas e que usei a série como desculpa para falar sobre história, filosofia e teoria é hora de acabar o post. A segunda temporada de The Following estréia em terras tupiniquins na próxima sexta-feira, amanhã (31/01). Fica a indicação. Apesar de a obra deixar a desejar, por perder a verossimilhança em algumas cenas (algo comum em filmes e séries de suspense), creio que o enredo é interessante e válido como entretenimento para as bucólicas tardes de domingo. Abaixo vou deixar um link para o download da primeira temporada. Hasta luego!

Referências e recomendações:

DELEUZE, Gilles. A vida como obra de arte. In:______. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 1992, p. 122-130.
JAMESON, Fredric. Marcas do visível. Rio de Janeiro: Graal, 1995.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade, vol. 3: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Barueri, SP: Manole, 2005.
MOORE, Michael. Tiros em Columbine. Estados Unidos, 2002. 1 (105 min.), DVD, son., color., documentário, legendado.
WHITE, Hayden. O texto histórico como artefato literário. In:_____. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: Edusp, 1994, p. 97-116.
MAIS Estranho Que a Ficção. Direção de Marc Forster. Produção de Lindsay Doran. Estados Unidos: Columbia Pictures, 2006. 1 (113 min.), DVD, son., color. Legendado.

The Following (download):

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Palestina contemporânea em três filmes

Este post é bem simples. Quero compartilhar com vocês a indicação de três filmes que assisti recentemente e que considero interessantes para conhecer e pensar as questões políticas ligadas ao conflito Palestina-Israel a partir do século 20; sobretudo para serem trabalhadas em sala de aula. Obviamente, isso deve ser feito através dos aparatos técnicos e teóricos de cada disciplina para estabelecer a crítica fílmica. No texto que se segue não farei uma análise das três obras cinematográficas, apenas uma apresentação dos enredos e algumas questões que podem ser suscitadas por cada um deles. Feito isso, compartilharei links para baixá-los via torrent.

[1º] Ocupação 101: a voz silenciada da maioria (Occupation 101)

“O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância... é a ilusão do conhecimento”. É com esta frase do físico Stephen Hawking que este documentário produzido em 2006 nos Estados Unidos se inicia. O filme procura fazer uma abordagem histórica do conflito no território a partir do sionismo do final do século 19, que seria então uma forma de resposta ao repúdio que os judeus sofriam em toda a Europa antes mesmo do Holocausto. Defendendo a ideia de que o lugar era densamente ocupado por palestinos e não se tratava de uma terra devoluta, como algumas posições antipalestinas advogam, a obra almeja demonstrar que havia um acordo após a Segunda Guerra Mundial para a constituição de dois Estados: um israelense e outro palestino. No entanto, embora a população fosse majoritariamente palestina, o projeto fronteiriço recortava uma parte maior destinada à criação do Estado de Israel que, por sua vez, obteve também o solo mais produtivo.

A isto se seguiu uma ocupação forçada das cidades tidas como dentro do território israelense. Pessoas foram retiradas de suas casas através da violência do aparato bélico de Israel. É a partir daí que começarão os conflitos que assistimos hoje entre israelenses e palestinos, entre judeus e árabes, naquela terra. E não como a visão hegemônica costuma entender, dizendo que sempre existiu essa “guerra” ou que ela dura mais de dois mil anos. Por meio de entrevistas com intelectuais (como Noam Chomsky) e de depoimentos de testemunhas, o documentário afirma que, antes da ocupação forçada, árabes e judeus conviviam pacificamente na Palestina. Outra questão interessante alçada pela obra refere-se aos lobbies políticos que os judeus possuem com o governo dos EUA, financiando campanhas eleitorais e se beneficiando do acordo entre empresas judias e políticos estadunidenses. Aspecto este retratado também numa recente série de sucesso na terra do Tio Sam, chamada House of Cards.

Não encontrei o trailer do filme com legendas em português, por isso deixarei abaixo um trecho do filme legendado. Nesta cena se destaca as crianças como personagens do conflito e a maneira como este as afeta psicológica e fisicamente.
 
Link para baixar o filme completo via torrent: clique aqui!

Outra possibilidade é assistir o filme através do YouTube. Porém, ele se encontra fragmentado em nove partes. Segue aqui a primeira:

[2º] Cinco câmeras quebradas (Five broken câmeras, 2011)

Este documentário singular, em todos os sentidos, foi gravado por um camponês palestino, Emad Burnat, em 2005, ano em que houve a construção de um muro (como tantos outros) numa cidade na região da Cisjordânia com a justificativa de proteção, porém com o intuito de ocupação de terras palestinas pelos colonos judeus. A produção que concorreu ao Oscar 2013, como melhor documentário estrangeiro, narra e vivencia o cotidiano dos diversos conflitos, imposições e resistências na cidade de Bil’in. As cinco câmeras quebradas as quais o título do filme se refere são os aparelhos de filmagem utilizados por Emad e que são destruídos pelas mãos ou por balas dos soldados israelenses durante os conflitos que ele gravou. O que me chamou atenção na obra foi a ligação da família palestina com o Brasil, afora as crianças vestidas com uniforme da seleção brasileira de futebol, há também bandeiras do Brasil na porta da casa de Emad e em uma de suas câmeras. No filme diz que durante algum tempo, sua esposa, Soraya, morou no Brasil. Outro fato curioso, externo à produção em si, foi a breve detenção de Emad e de sua família no aeroporto estadunidense quando aportaram em Los Angeles para a festa de premiação do Oscar deste ano. Michael Moore foi quem mediou a liberação de Emad. “Parece que eles não conseguiam entender como um palestino podia ter sido indicado ao Oscar”, afirmou Moore. Vejam a notícia completa e uma apresentação mais detalhada do filme no Brasil de Fato.

Trailer do filme com legendas em inglês (não achei em português):



Link para baixar o filme completo via torrent: clique aqui!

Cabe aqui também apresentar as importantes intervenções feitas pelo um grupo anarquista, formado por israelenses, conhecido como “Anarquistas Contra o Muro”. Esta organização luta em favor da derrubada dos muros em construção ou já construídos pelo governo israelense, pois entendem que estes são dispositivos de um Apartheid que cerceia a liberdade dos palestinos. Para saberem mais deixo alguns links:

Site da organização (em inglês).
Apresentação do grupo pelo Wikipedia.

[3º] O limoeiro (Lemon Tree, 2008)

Dirigido pelo israelense Eran Riklin, O limoeiro, diferentemente dos outros dois filmes mencionados, não se trata de um documentário, mas de uma narrativa representada por atores profissionais, baseada em acontecimentos reais. Sem dúvida é um dos filmes mais doces e singelos que já assisti. A trama se inicia quando o Ministro da Defesa israelense muda-se para a fronteira entre Israel e Cisjordânia (o lado oeste do rio Jordão). Sua vizinha Salma Zidane é uma viúva palestina que mora sozinha e possui uma humilde plantação de limão, da qual retira sua renda. Os governantes israelenses então entendem que a plantação representa um perigo a suas integridades, alegando que ela poderia ser usada como esconderijo para ataques terroristas. E decidem através da lei destruir as árvores da sra. Zidane. Daí segue-se um longo litígio que repercute internacionalmente. O interessante no filme é perceber como questões macro-políticas interferem de maneira direta na vida cotidiana das pessoas comuns. A posição delicada de uma mulher viúva na cultura islâmica também é colocada em xeque na medida em que a personagem principal relaciona-se com seu advogado e sofre repúdios de membros de sua comunidade, para os quais a figura do marido falecido deve ser sempre respeitada.

Trailer do filme em espanhol (não encontrei com legendas em português):

Link para baixar o filme completo via torrent: clique aqui!

Espero que gostem!
 
Referências:

ABRÃO, Baby Siqueira. A palestina vai ao Oscar. E é detida no aeroporto. In: Brasil de Fato: uma visão popular do Brasil e do mundo. São Paulo, 21 fev. 2013.
CINCO Câmeras Quebradas (5 Broken Cameras). Direção: Emad Burnat & Guy Davidi. Gênero: Documentário. País: Palestina/Israel/França/Holanda. 2011. DVD, colorido, 94min.
LIMOEIRO, o. (Lemon Tree – Etz Limon). Direção: Eran Riklis. Roteiro: Eran Riklis e Suha Arraf. Gênero: Drama. País: Israel/França/Alemanha. 2008. DVD, colorido, 106min.
OCUPAÇÃO 101: a voz da maioria silenciada (Occupation 101: Voice of the Silenced Majority). Direção e produção: Sufyan Omeish & Abdallah Omeish. Gênero: Documentário. País: Estados Unidos. 2006. DVD, colorido, 90min.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

História: arte ou ciência?

O estatuto científico ou artístico da História é ainda uma das discussões mais acaloradas entre estudiosos e curiosos da área. Marc Bloch situa seu início por volta de 1800, possivelmente durante o processo de institucionalização da História, marcado sobretudo pelas disputas com disciplinas vizinhas como a Filosofia e a Teologia. Como quase tudo que é particular a História, não há consenso sobre o assunto, entretanto por entenderem que esse debate não sai do lugar-comum, muitos historiadores se recusam a refletir sobre tal e, por isso, não conseguem sequer formular uma resposta adequada a qualquer pessoa que os indagam – o filho, o aluno, o filósofo, o porteiro, a tia do interior... Neste post pretendo descrever brevemente as considerações de pensadores sobre a questão, e fazer modestas considerações pessoais explicitando minha posição.

Se os saberes ocidentais são herdeiros da cultura grega, convém começar com Aristóteles. Na Poética, o filósofo ao comparar e separar os ofícios do poeta e do historiador desenvolveu argumentos que serão contrapostos e reafirmados por variados historiadores modernos, muitas vezes sem o saberem. Para o grego, o historiador narra o que aconteceu, enquanto o poeta representa o que é possível acontecer segundo a verossimilhança e a necessidade. “Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente ao universal, e esta ao particular. Por ‘referir-se’ ao universal entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e ações que, por liame de necessidade ou verossimilhança, convém a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que dê nomes às suas personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Alcebíades ou o que lhe aconteceu”, escreve Aristóteles (1984, p. 249).

Pode-se pensar, a partir da exposição acima, que a história descreve os acontecimentos passados sem o dever de utilizar a necessidade e a verossimilhança como elementos para conectá-los; ela apenas relata, enquanto a poesia se utiliza de artifícios específicos para estabelecer conexões, embora os eventos não tenham efetivamente ocorrido. A história fala do particular, do fragmentário, do individualizado, já a poesia fala do universal, pois, para Aristóteles, ela constrói um todo, com princípio, meio e fim (1984, p. 242). Ora, se você, leitor, estuda história, saberá que a disciplina abandonou a simples pretensão de narrar os eventos sem encontrar (ou seria inventar?) uma conexão necessária ou verossímil entre eles desde o século 19, quando almeja constituir-se como ciência. É por isso que Hayden White disse que a narrativa da história moderna é essencialmente uma poética, ou seja, arte. White (1995) não descarta em hipótese alguma que a história tenha um momento de empiria quando recolhe e classifica os documentos a partir dos quais o texto historiográfico será escrito, entretanto, para arrolar os eventos “descobertos” através dos documentos, o historiador precisará dispor de recursos da narrativa literária.

Historicismo alemão:

Em 1821, o historiador alemão Wilhelm Humboldt apresentou um programa para o ofício do historiador no qual comparava novamente ao trabalho do poeta. Neste texto, Humboldt diz que a tarefa máxima do historiador é expor os acontecimentos, sendo ele, neste ponto, receptivo e passivo. Entretanto, considera que isso não basta. É necessário também que o historiador “faça” a conexão entre esses acontecimentos para que encontre a verdade essencial no todo. Como o historiador consegue fazer essa conexão? Segundo Humboldt, ele usa a fantasia. Aqui ele se iguala ao poeta por ser criativo e autônomo. Porém, diferentemente do poeta, o historiador usa a fantasia a partir dos eventos “expressos” pelos documentos e não de uma abstração geral na qual os eventos só se encaixarão. Contudo, Humboldt deixa escorregar que é preciso se livrar de eventos desviantes, contingentes e acidentais para bem adequar os acontecimentos ao “todo” em que se inserem. Penso! Será que esse “universal” (o todo) já não está previamente instaurado pela imaginação (ou fantasia) do historiador, tendo em vista a impossibilidade de construí-lo a partir da reunião de todos os “particulares” (os acontecimentos)? Quer dizer, para Humboldt está implícito que o historiador escolhe os acontecimentos que melhor se adequam a esse contexto causal. Em resumo, a resposta do historiador alemão sobre a questão levantada no título poderia ser a seguinte: a história é uma ocupação científica que se utiliza de operações artísticas. Em seu produto final, ela é ciência e arte, ao mesmo tempo.

Ranke (1795-1886)
A resposta de outro historiador alemão do século 19 é parecida. Para Leopold Ranke a história é ciência, mas ela se diferencia das demais por ser também uma arte. Assim ele escreve: a história “é ciência na medida em que recolhe, descobre, analisa em profundidade, e arte na medida em que representa e torna a dar forma ao que é descoberto, ao que é apreendido” (2010, p. 202). Ranke critica os filósofos que acreditam que a verdade da história em totalidade está num esquema abstrato construído a priori, e que passam a adequar os eventos ao seu conceito, só aceitando como verdadeiros os eventos que se submetem a tal. É a mesma crítica que direcionei a Humboldt. Esta crítica pode servir para apontar os limites de muitas “metafísicas da história” como aquela que diz que seu motor é a luta de classes. Quer dizer, se não houver luta de classes não tem história, não tem movimento, nem mudança? A luta de classes explica todos os acontecimentos? Obviamente isso não quer dizer que a luta de classes não exista.

Escola dos Annales:

Em uma perspectiva de pesquisa distinta, o historiador francês Marc Bloch deu outra resposta à questão em 1944. Ele se contrapôs aos pesquisadores inspirados nos dizeres de Durkheim que, em seu entender, quiseram banir da razão positiva as coisas humanas como, por exemplo, os acontecimentos. Mas também criticou os historiadores “historizantes” que, ao perceberem que a história não se adequava ao esquema físico das ciências naturais, caíram num modelo puramente “estético”. Para o historiador, houve uma mudança da concepção de ciência do século 19 – a teoria cinética dos gases, a mecânica einsteiniana e a teoria dos quanta flexibilizaram a ciência. “Estamos agora bem melhor preparados para admitir que, mesmo sem se mostrar capaz de demonstrações euclidianas ou de imutáveis leis de repetição, um conhecimento possa contudo pretender ao nome de científico”, argumenta Bloch (2001, p. 49). O autor reitera que a certeza e o universalismo são agora uma questão de grau. Para Bloch, a história é uma ciência (a ciência dos homens no tempo), mas toda ciência tem uma estética de linguagem que lhe é própria. Para penetrar os fatos históricos é necessária uma grande fínesse de linguagem. Assim, a arte em vez de excluir a cientificidade, complementa-a. Já seu colega na fundação da Escola dos Annales, Lucien Febvre, apontou que a história é um estudo cientificamente conduzido, desenvolve problematizações, levanta hipóteses, traça objetivos e se utiliza de métodos críticos, contudo não a considera como uma ciência (1989, p. 30).

Foucault:

Partindo de uma linha de raciocínio distinta e com preocupações diferentes dos historicistas (Humboldt e Ranke) e dos historiadores da Escola dos Annales (Bloch e Febvre), o filósofo Michel Foucault, ao fazer uma arqueologia do “conhecimento” moderno, disse que “a história talvez não tenha lugar entre as ciências humanas nem ao lado delas: é provável que entretenha com elas uma relação estranha, indefinida, indelével e mais fundamental do que seria uma relação de vizinhança num espaço comum” (1999, p. 508). A posição da história é de um saber perigoso e privilegiado. Diferentemente da História da Idade Clássica (período entre o Renascimento e a Revolução Francesa), que era preocupada com leis gerais e constantes sob uma visão na qual homem e o mundo se incorporavam num só movimento e numa história única, a História que vem a tona no século 19 diz respeito a historicidade própria de cada coisa, por exemplo, da linguagem, da riqueza e da vida. Tal “historicidade de cada coisa” confere a possibilidade de existência de ciências humanas como a filologia (linguagem), a economia (riqueza/relações de produção) e a biologia (vida). Os objetos de estudo de cada uma destas ciências não respeitam simplesmente a cabeça dos homens, mas suas dinâmicas próprias de funcionamento e de transformação com suas leis gerais. A partir de então o homem encontra-se esvaziado de historicidade já que está apartado de tudo isso. Essa forma nua de historicidade humana aponta o fato de que o homem enquanto tal está exposto ao acontecimento (da vida, da linguagem, das relações produtivas). Entretanto, o saber positivo sobre o homem só pode existir a partir do ponto em que se entende que ele é um ser que fala, que trabalha e que vive. Esse é o escândalo das ciências humanas! A linguagem, o trabalho e a vida se encarnam no homem ou é o homem que se encarna na linguagem, no trabalho e na vida? Os dois, eu diria. Ele modifica tais coisas e é modificado por elas, é duplamente sujeito e objeto, o chamado “empírico-transcendental” ao qual a ciência nunca chega, sempre está em descompasso. Por isso, o saber histórico ao não poder isolar seu objeto (o homem) sempre recorre aos outros campos do conhecimento para construir explicações. Paul Veyne, já salientara que existem acontecimentos históricos, mas não explicações históricas: “a História informa [no sentido de dar forma] seus materiais recorrendo a uma outra ciência, a Sociologia. De maneira análoga, existem de fato fenômenos astronômicos, mas, se não me engano, não existe explicação astronômica: a explicação dos fatos astronômicos é física” (1983, p. 05).

Marxismo inglês:

Sob uma perspectiva marxista, o historiador inglês E. P. Thompson apontou que “a tentativa de designar a história como ‘ciência’ sempre foi inútil e motivo de confusão. Se Marx, e, mais ainda, Engels, por vezes incidiram nesse erro, então podemos pedir desculpas, mas não devemos confundir a pretensão com seus procedimentos reais” (1981, p. 50). Contudo, para Thompson, há uma lógica histórica que orienta ou deve orientar os historiadores. O historiador rechaça a opinião de pesquisadores que dizem que o passado está em constante mudança, pois segundo ele o que muda são as perguntas e as perspectivas, mas não os fatos. Conforme Thompson, o conhecimento histórico é provisório, incompleto, seletivo, limitado e definido pelas perguntas que são feitas às evidências (documentos) e, embora ele não possa ser confirmado através de demonstração positiva, sua falsidade pode ser identificada. Dentro de tais ressalvas ele é, portanto, não só possível como verdadeiro.

Ciência e Dialética:

Voltemos a Aristóteles para dar um desfecho ao texto. Na busca de uma explicação didática sobre a fundamentação de um discurso científico podemos recorrer à teoria dos silogismos aristotélicos. O silogismo é o raciocínio em que uma conclusão é obtida através da consequência necessária de assertivas anteriores. Exemplo clássico: Todo homem é mortal. Sócrates é um homem. Logo, Sócrates é mortal. Aristóteles divide os silogismos em diferenciados tipos, ao que nos interessa aqui há duas definições distintas: o silogismo científico (ou demonstração) e o silogismo dialético. O primeiro (científico) além de correto é verdadeiro, pois precisa proceder de premissas verdadeiras, enquanto o segundo (dialético) é baseado em premissas constituídas pela opinião, quer dizer, em afirmações aceitas por todos, pela maioria ou pelos sábios e cuja veracidade é somente provável e não verdadeira (PEREIRA, 2001). Neste sentido, Aristóteles diferencia a ciência da dialética em relação à verdade (premissa demonstrável) e à verossimilhança (opinião da maioria). Ao contrário do silogismo dialético que opera por dedução a partir das premissas expressas pela opinião (doxa) da comunidade, o silogismo científico se fundamenta pelo método de indução ou de intuição que devem ser inteligíveis por si, não precisam de justificação que prescinda deles.

“A indução é o processo pelo qual se extrai o particular do universal. Ela começa pela experiência dos dados particulares e ocorre quando abstraímos destes dados um enunciado universal” (CAMPOS, 2010, p. 11). Exemplo: desconsiderando o vento, o clima e a densidade do ar, joga-se um objeto de determinado peso e medida de uma altura de cinco metros por seguidas vezes e extrai-se a média de velocidade ao calcular o tempo que ele gasta para cair. Outra coisa é o dedutivo, como um historiador dizer que só foi possível um determinado indivíduo das classes pobres criticar a Igreja no século 16 por ter acontecido a Reforma Protestante e a Invenção da Impressa. Neste caso, há uma diferença considerável entre a necessidade – é inevitável que naquelas condições postas o objeto atinja uma certa velocidade demonstrada através dos testes realizados – e a possibilidade – é possível que os motivos que fizeram com que fulano reagisse contra a Igreja estivessem relacionados com os “grandes” acontecimentos da época, mas poderiam ser outros.

Pitacos Safados!

Para fim de conversa, vale ressaltar que reconheço a densidade da teoria silogística para ser apresentada num espaço tão curto. Também sei do limite da definição entre discurso científico e dialético (retórico, poético, etc.) expressado inclusive na impossibilidade da ciência se fundamentar através de um saber inteiramente científico, buscando socorro à dialética ou em princípios indemonstráveis (axiomas) para se justificar. Não é a toa que Ari (para os íntimos) preferia os homens de arte aos homens de ciência, pois considerava aquela atividade acima desta.

Ao contrário do que afirma boa parte dos historiadores, creio que a História não seja ciência nem arte. Tampouco as duas juntas. E isso não é diminuí-la. A História é uma atividade diferente. Ela não necessita se fundamentar fora dela mesma, nem respeitar uma hierarquia que coloca a ciência acima de tudo, para possuir e construir valores para a vida. Se ela deve se submeter a algo, então que seja a vida – a vida plena, a pulsão ao existir, não apenas ao sobreviver (aliás, a sobrevivência ultimamente tem atentado contra a vida). Exceto isso, não me parece que a História deva ter uma função social “universalista” e “determinada” (como já teve em outras ocasiões, levando em algumas vezes ao desastre), porém “particularista”, que comporte o quão maior número de diferenças e novidades. Que ela se preste a criação e a denúncia do que atrapalha a criação. Que não se reduza ao possível para pensar outras formas de viver e de sentir. É por estas razões que acredito que antes de ser um discurso textual e uma pesquisa, a História é uma posição no mundo, uma maneira de descobrir não simplesmente o passado, mas de olhar para o futuro.

Referências:

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BLOCH, Marc. Apologia da história: ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BOAS, Crisoston T. Vilas. Para ler Foucault. Ouro Preto: Imprensa Universitária da UFOP, 2002.
CAMPOS, Sávio. A teoria dos silogismos: o primado do intelecto intuitivo na analítica aristotélica. Universidade Federal do Mato Grosso – Instituto de Filosofia. Cuiabá, 2010.
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FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
HUMBOLDT, Wilhelm. Sobre a tarefa do historiador [1821]. In: MARTINS, E. R. (org.). A história pensada. São Paulo: Contexto, 2010, p. 82-100.
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RANKE, Leopold v. O conceito de história universal [1831]. In: MARTINS, E. R. (org.). A história pensada. São Paulo: Contexto, 2010, p. 202-215.
THOMPSON, Edward Palmer. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
VEYNE, Paul. O inventário das diferenças. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.
WHITE, Hayden. Meta-história: A imaginação histórica do século XIX. São Paulo: EDUSP, 1995.  
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