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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A historiografia marxista inglesa

Revista inaugurada pelo
 marxismo inglês
O que é? Um conjunto de trabalhos produzidos por um grupo de historiadores e de teóricos de outras áreas formado na década de 60, que adotou uma linha de pesquisa da história a partir da obra de Marx, porém em contraposição a perspectiva dogmática do marxismo, chamada de “marxismo vulgar” por Eric Hobsbawm. Esse historiador é um dos expoentes do marxismo inglês, assim como E. P. Thompson, Christopher Hill, Perry Anderson, Tom Nairn, Raymond Williams e outros.

Existem divergências teóricas e metodológicas entre os pesquisadores marxistas dessa corrente de pensamento, porém podemos dizer que a proposta do grupo busca construir uma análise da sociedade como uma totalidade em movimento, na qual a experiência humana não se encontra submissa a qualquer forma de determinismo mecânico. Mais do que isso, além das abordagens socioeconômicas relativas ao interesse sobre os processos estruturais de desenvolvimento do capitalismo, bastante comuns à tradição do marxismo, também há abordagens ao cultural que até então era uma carência no pensamento marxista.

A renovação da perspectiva marxista surgiu após o diálogo com as obras de história produzidas pela revista francesa dos Annales, que destacaram o papel do social e do econômico em combate a historiografia praticada no século 19 que alçava a esfera política como centro da história protagonizada por heróis, reis, autoridades, Estado, Igreja através da narração de eventos factuais e lineares pesquisados em documentos oficiais, considerados neutros. O marxismo inglês foi também uma resposta contrária a política stalinista da União Soviética e a produção historiográfica ligada a ela.

Hobsbawm (1911-2012)
Segundo Hobsbawm (1998), o marxismo vulgar, do qual quer se distanciar, não representa o pensamento marxista maduro e está calcado mais em escolhas de pontos da obra de Marx do que em sua totalidade. Ele elenca sete características presentes nas pesquisas do “marxismo vulgar”. Primeira, uma interpretação economicista da história. A economia é o fator fundamental do qual os demais seriam apenas reflexos. Segunda, o modelo de “base e superestrutura”, usado como simples relação de dependência da primeira sobre a segunda. Terceira, a superestrutura era explicada simplesmente pelo interesse de classe e pela luta de classes. Quarta, defesa de leis históricas e inevitabilidade histórica. Acreditava-se acertadamente no desenvolvimento sistemático e necessário da sociedade humana na história, com exclusão do contingente em longo prazo. Só que isso acabava por cair numa regularidade rígida e imposta de determinismo mecânico, a ponto de não admitir alternativas na história. Quinta, os temas de investigação da história derivavam dos próprios interesses de Marx; ou então (sexta), dos movimentos sociais animados por sua teoria. Sétima, a natureza e os limites científicos da historiografia eram justificados pela história economicista, supostamente estes serviam para explicar motivações e métodos de historiadores que diziam fazer a busca pela verdade de maneira imparcial. Embora houvessem grandes problemas neste tipo de pesquisa, o marxismo vulgar, no entender de Hobsbawm, serviu para destruir paulatinamente a velha história (do séc. 19).

Para o historiador inglês, a maior importância do marxismo foi penetrar as ciências sociais com a teoria da "base e superestrutura" que disserta sobre os diversos níveis em interação na sociedade, independentemente se o pesquisador aceita ou não uma hierarquia entre eles. Mais do que isso, a teoria estrutural-funcionalista do marxismo criticou o positivismo por querer estudar fatos humanos baseado em fatos não-humanos, ou seja, equiparar as ciências sociais às ciências naturais da maneira de Comte. Dois fatores principais tornam o marxismo diferente das outras teorias estrutural-funcionalistas: a hierarquia dos fenômenos sociais – tais como base e superestrutura –, e a existência de tensões internas (contradições) na sociedade que contrabalançam a tendência do sistema se manter como um interesse vigente, ou seja, a insistência na mudança através da história (tempo).

R. Williams (1921-1988)
Por outro lado, preocupados com questões socioculturais ou culturais, autores como Raymond Williams e Edward P. Thompson criticaram o modelo estrutural-funcionalista de base econômica absoluta do marxismo. Thompson não poupou críticas nem a membros do marxismo inglês como Perry Anderson e Tom Nairn. Tanto Thompson, como Williams, propõe uma interpretação inovadora do conceito “modos de produção” da teoria materialista de Marx. Modos de produção, na opinião destes teóricos, não se referem somente às esferas produtivas da economia, do trabalho e de suas relações sociais durante o processo de fabricação de produtos e mercadorias; ou seja, de uma suposta “base econômica” que hierarquicamente determina a cultura. Porém, se referem às maneiras através das quais os sujeitos em suas relações sociais com os outros e com o ambiente (através de suas experiências) produzem cultura. A consciência é determinada pelo ser social em diferentes práticas, econômicas e/ou não-econômicas. Apesar do trabalho de Williams ser voltado para a literatura (para entender contra-hegemonia), o qual poderíamos situar como uma especialidade dos estudos culturais, o conceito de cultura nestes dois autores é mais abrangente, tomada num significado antropológico de totalidade dos fenômenos humanos. Nesse sentido, todas as práticas sociais, inclusive as artes, as religiões, os costumes, os rituais são modos de produção da realidade e constituem a maneira como os sujeitos pensam e agem. É a chamada “história de baixo para cima”.

Para Williams (2005), a teoria da cultura no marxismo clássico leva em conta a base determinante e a superestrutura determinada. Mas deve-se abandonar este princípio por outro: “a proposição de que a existência social determina a consciência”. Pois, Marx rejeita a ideologia que enfatiza o poder de certas forças exteriores ao homem como uma consciência abstrata determinante, e coloca a origem da determinação nas próprias atividades humanas. O significado de determinação comporta dois sentidos pelo menos: o de teologia, de que uma força controla de fora toda a atividade humana; e o de experiência da prática social, uma noção de determinação como algo que estabelece limites e exerce pressões. Em geral o marxismo tem usado o “segundo” como se fosse o “primeiro”, de previsão e controle. É preciso, portanto, se afastar dele para não acreditar que os modos de produção são estáticos e homogêneos.

Thompson concorda com boa parte das proposições de Williams. O autor se tornou conhecido após escrever A Formação da Classe Operária Inglesa [1963], uma obra em três volumes que solapa as interpretações deterministas econômicas do marxismo clássico, inclusive algumas ideias de Engels. Para Thompson (1987), a classe operária inglesa não foi um produto mecânico da exploração do trabalho na Revolução Industrial, todavia sua consciência foi formada a partir de um modo de produção cultural ligado as experiências sociais anteriores ao trabalho nas fábricas. Numa análise histórica de transformação das condições materiais do ambiente, muitos fatores são considerados para a constituição da consciência de classe: o cercamento de terras no “pré-capitalismo”, as especificidades dos ofícios de trabalho, com mais autonomia ao trabalhador, mudanças nas maneiras de viver, sobretudo com o tempo do relógio, os direitos consuetudinários sobre a terra produtiva, as tradições coorporativas que uniam e protegiam os trabalhadores, o florescimento de religiões evangélicas (como o metodismo) que solidificavam os laços entre os membros em momentos de fraqueza, o imaginário social da Inglaterra sobre um tempo mítico, a fragmentação das concepções morais calcadas nos usos e costumes e etc. São tantas especificidades relativas a cada grupo e região que o autor prefere usar o termo “classes operárias” para operacionalizar conceitualmente a pluralidade de trabalhadores e ofícios.

Em Costumes em Comum, Thompson (1998) novamente volta sua atenção para os costumes ingleses do século 18 e 19. Através de uma perspectiva etnográfica, ele quer compreender determinados rituais enquanto formas de resistências e lutas da cultura popular à cultura da elite. O historiador desenvolve também o conceito de “economia moral”, baseado na ideia de que o termo economia designava um significado um pouco diferente do que temos hoje em relação a época em que Marx escreveu. Esta noção se refere às práticas culturais antigas que regulamentavam os costumes, inclusive, as relações de troca, evitando os açambarcamentos e possíveis usuras dos comerciantes. Entre outras coisas, era aquilo que impedia moralmente os fazendeiros de venderem suas colheitas para intermediários, obrigando-os a irem vender seus produtos no mercado para que o preço não aumentasse com a inclusão de atravessadores nas transações comerciais.

Sobre as concepções marxistas que ressaltam a primazia do econômico (como “mais real”) a partir da qual as normas, os costumes, os hábitos e os pensamentos seriam meramente reflexos secundários (“menos reais”), Thompson escreve o seguinte: “Uma divisão arbitrária como essa, de uma base econômica e uma superestrutura cultural, pode ser feita na cabeça e bem pode assentar-se no papel durante alguns momentos. Mas não passa de uma ideia na cabeça. Quando procedemos ao exame de uma sociedade real, seja qual for, rapidamente descobrimos (ou pelo menos deveríamos descobrir) a inutilidade de se esboçar respeito a uma divisão assim. Incluídos os marxistas, os antropólogos têm insistido longamente sobre a impossibilidade de se descrever a economia de sociedades primitivas independentemente tanto dos sistemas de parentesco segundo os quais estas se estruturam quanto das obrigações e reciprocidades de parentela que são endossadas quanto impostas pelas normas e pelas necessidades. Mas é igualmente verdade que nas sociedades mais avançadas, distinções daquele mesmo tipo não são válidas. Mal podemos começar a descrever as sociedades feudal ou capitalista em termos ‘econômicos’, independentemente das relações de poder e dominação, dos conceitos de direito de uso ou de propriedade privada (e leis correspondentes), das normas culturalmente sancionadas e das necessidades culturalmente formadas características de um modo de produção. Nenhum sistema agrário fica em pé após um dia sem os complexos conceitos de direito de uso, de acesso e de propriedade. Onde devemos colocar esses conceitos: na ‘base’ ou na ‘superestrutura’? (2001, p. 254-5)".

Leia também: "A receita de Marx".

Referências:

BARBOSA, W. Marx e a Historiografia no século XX. In: ALENCAR, M. (Org.). A História da História. Goiânia: Editora UCG, 2002, p. 65-103.
HOBSBAWM, E. O que os historiadores devem a Karl Marx? In:______. Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SHUELER, A. Marxismo e historiografia no reino de Vitória: as contribuições de Edward Palmer Thomspon. Verinotio: Revista On-line de Educação e Ciências, nº 6, ano III, maio de 2007.
THOMPSON, E. P. Folclore, antropologia e história social. In:______. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas: Ed. Unicamp, 2001, p. 227-269.
THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
WILLIAMS, R. Base e superestrutura na teoria marxista. Revista USP, São Paulo, nº 65, p. 201-224, março/maio, 2005.

sábado, 18 de agosto de 2012

A receita de Marx

O ancião anglo-egípcio Eric Hobsbawm com quase um século dedicado à historiografia marxista continua publicando como se fosse um pesquisador motivado pelas bolsas-produtividade da Capes. No livro lançado ano passado no Brasil, intitulado Como mudar o mundo: Marx e o marxismo, ele reúne uma série de textos sobre a história do marxismo. O segundo capítulo é dedicado a descrever quais foram as inspirações intelectuais na elaboração da obra teórica de Marx e Engels. Tentaremos neste texto resenhar os pontos principais do seu escrito, sobretudo com o intuito de demonstrar, para o público alheio ao comunismo marxista, que Marx não recebeu uma entidade supraterrestre ao escrever. E nem era uma.

Inicialmente Hobsbawm desconsidera que autores como Platão, Campanella e Thomas Morus, e as comunidades dos primeiros cristãos tenham tido alguma relevância na construção da teoria marxista, pois compunham a fase da “pré-história do socialismo” que não inspirou, de maneira legível, os autores do socialismo moderno. Tais autores eram citados na maioria das vezes apenas para dar verossimilhança às propostas políticas ou usados para críticas sociais ao capitalismo, já que este se opunha aos ideais de quase todas as sociedades antigas, sobretudo as de ideologia cristã. Todavia, o título do livro de Morus (A utopia) teve uma importância significativa, tendo em vista que, depois dele, qualquer tentativa de proposta de uma sociedade ideal era descrita como utópica; e em meados do séc.19 utopia tornou-se sinônimo de comunismo. Enfim, vamos logo à descrição das correntes, escolas e acontecimentos que inspiraram Marx.

Socialismo francês – a história contínua do comunismo moderno começa na ala esquerda da Revolução Francesa. Mais especificamente na “Conspiração dos Iguais” de Babeuf. Entretanto, Engels não via com bons olhos esse “comunismo ascético, derivado de Esparta” (como rotulou em Werke), e Marx alegou que era a crueza e a unilateralidade desse comunismo que faziam com que outras doutrinas socialistas (como as de Proudhon e Fourier) fossem contra ele. O comunismo babôvista e neobabôvista foi importante porque integrava a teoria da revolução a uma doutrina da práxis política, organização, estratégia e tática. E porque a partir de 1830 esse movimento atraia os trabalhadores, ao contrário do socialismo utópico. Foi nesse movimento francês que o nome “comunista” foi usado pela primeira vez, por volta de 1840. Marx só se declararia comunista em 1843, antes se considerava “democrata”, palavra com acepção diferente da que temos hoje.

Socialismo utópico – o primeiro a usar o nome “utopia” para significar uma sociedade socialista foi o francês E. Cabet. Hobsbawm utiliza o termo para se referir a pensadores socialistas antes de Marx, mas especificamente a três: Robert Owen, Saint-Simon e Charles Fourier. A importância de Owen se dá por sua crítica inicial à propriedade privada, à religião e ao casamento da maneira como acontecia na época. Além disso, por ser dono de fábrica sua experiência com as relações de produção era maior do que as dos socialistas franceses que, por extensão, não tinham seu senso prático e objetivo. Há tantos pontos de aprendizado com Saint-Simon que ele merece um parágrafo a parte.

Saint-Simon (1760-1825)
Foi de Saint-Simon que Marx tirou a ideia de que os membros da indústria produtiva devem ser os controladores políticos e sociais, aqueles que vão moldar o futuro da sociedade: uma teoria da Revolução Industrial. Para Saint-Simon os fatos sociais são determinados pelo modo de organização da propriedade, a evolução histórica repousa no desenvolvimento do sistema produtivo e o poder da burguesia se apoia na propriedade dos meios de produção. O pensador francês já tentava compreender a história através da luta de classes, de maneira não tão sofisticada como Marx. Por exemplo, a história (simplista) da França era a luta entre gauleses e francos. As relações de dominação substituíram escravos por servos, e depois por proletários. Mais do que isso, era conhecida sua tese de que a política estava submetida à economia, como também da abolição do Estado na sociedade futura, onde “a administração de coisas” substituiria “o governo dos homens”. Tanto para Saint-Simon, quanto para Marx, o Estado significava o governo dos homens, quando houvesse apenas a gestão das coisas na sociedade socialista, o Estado, nesta acepção particular, deixaria de existir. Entretanto, como o próprio Hobsbawm salienta num dos seus textos, Marx não deixou nada claro sobre esta situação, porque se recusava a prever minunciosamente o “momento pós-revolução”. Outras máximas são creditadas a Saint-Simon: “a exploração do homem pelo homem”, “de cada um conforme sua capacidade, a cada um conforme seu trabalho”, “a todo homem deve ser garantido o livre desenvolvimento de suas capacidades naturais”. Enfim, o marxismo deve muito a filosofia saint-simoniana, mas não é possível precisar com exatidão o que é originalmente dele ou o que havia saído de suas leituras. A própria abordagem inédita da “luta de classes” é relativizada por Hobsbawm: “era provável que qualquer pessoa que houvesse estudado a Revolução Francesa, ou que a tivesse vivenciado, descobrisse a luta de classes na história. De fato, Marx atribui tal descoberta aos historiadores burgueses da Restauração Francesa” (p. 37).

Eric Hobsbawm (nascido em 1917)
Engels elogia Fourier por sua crítica ao comportamento burguês e à sociedade burguesa como um todo; sua defesa da emancipação das mulheres; e sua concepção dialética da história. Mas, sua importância principal foi a análise do trabalho. Ele desconfiava da indústria e do progresso como nenhum outro, embora dissesse que “a roda da história” não podia girar para trás. Em tese, Fourier era um pensador individualista que acreditava que se todos os indivíduos fizessem o que sabiam de acordo com suas habilidades e desejos isso causaria uma satisfação geral. O trabalho e o prazer eram idênticos, este, um ponto de aproximação com Marx que entendeu o trabalho como realização do homem – claro numa sociedade sem exploração de classes. Fourier pregava aos indivíduos que liberassem seus instintos e pulsões; como feminista que era, defendia a libertação sexual das mulheres. Todavia, Marx via alguns problemas nos autores utópicos: falta de senso prático que beirava o ridículo, formação de seitas semirreligiosas; não tinham uma classe específica para a qual pudessem divulgar suas ideias; e eram apolíticos, aspecto que não contribuía para que a transformação que acreditavam ocorresse além do simples espontaneísmo na formação de comunas. Os utópicos não superavam os socialistas franceses que defendiam a luta revolucionária e política de classes. Além disso, uma de suas carências era a deficiência na análise econômica da propriedade, algo que os socialistas franceses já tinha feito, ultrapassando o utopismo.

Proudhon – Rousseau já havia dito que a propriedade privada era a causadora da desigualdade social. Contudo, embora esse autor tenha motivado tantos outros a defenderem a igualdade, ele não propunha a socialização dos meios de produção, mas somente a distribuição equitativa. Quem desenvolveu a reflexão mais elaborada sobre a propriedade na época foi P-J. Proudhon. É bem conhecido o elogio de Marx ao filósofo francês Proudhon, assim que leu O que é a propriedade? (1840). Marx chegou a considerá-lo como um dos maiores autores socialistas, devido sua originalidade e por ser um trabalhador. Porém, Hobsbawm relativiza sua importância dizendo que Marx não considerava Proudhon um bom analista da economia política e não tinha nada a aprender com ele; apenas ressaltou seu avanço em relação ao aspecto deficitário dos utópicos, a análise da propriedade. Aliás, diz que Proudhon era “menos” teórico do que os socialistas utópicos. Aqui vemos o ranço que o marxismo de Hobsbawm tem para com o proudhonismo e o anarquismo. Até porque num dado momento o autor é obrigado a considerar que dos filósofos socialistas “pré-marxistas”, Proudhon é o único lembrado ainda hoje mais do que (somente) em teses acadêmicas.

Economia política britânica – o contato de Marx com os autores britânicos se deu por intermédio de Engels. Esse fato proporcionou a Marx certa superioridade aos socialistas franceses que não os conheciam. As teses sobre a Divisão Internacional do Trabalho saíram da observação ao proletariado inglês e do diálogo com o utilitarismo de Jeremy Benthan e, sobretudo com os economistas socialistas inspirados nas ideias de David Ricardo (W. Thompson, J. Gray, J. F. Bray e T. Hodgskin). Os socialistas ricardianos já haviam desenvolvido a teoria da exploração econômica dos trabalhadores (algo bem próximo da mais-valia) através da inspiração da teoria valor-trabalho formulada por Ricardo. Já as crises de periodicidade no capitalismo são embasadas na obra de John Wade de 1835.

Filosofia alemã – essa inspiração é pouco desenvolvida por Hobsbawm. É conhecida a influência do hegelianismo sobre Marx, que disse que viraria Hegel de ponta a cabeça. Alguns teóricos são considerados importantes, como Moses Hess, o primeiro comunista na Alemanha, e principalmente Ludwin Feuerbach, que escreveu a obra A essência do cristianismo fazendo uma análise materialista da religião. Já que as forças produtivas e materiais estavam pouco desenvolvidas na Alemanha em relação a França e Inglaterra, não restava aos pensadores alemães nada mais do que radicalizar as abstrações, na opinião de Hobsbawm.

Máquinas da Revolução Industrial
Acontecimentos – para dar coerência a sua teoria do materialismo-histórico dialético, muitas das ideias de Marx partiram das observações e análises dos acontecimentos na história mundial. Seu estudo sobre a Revolução Francesa é o modelo que serviu de direção para pensar a evolução da história através da luta de classes. Além disso, a formação do proletariado inglês e o desenvolvimento da Revolução Industrial na Inglaterra, país que Marx morou boa parte de sua vida, foram importantes para a tese de que as forças produtivas transformavam a sociedade e, a que via o proletariado como a classe revolucionária por excelência. A partir de 1840 o proletariado surgira como “problema” na literatura.

Dê a Marx o que é de Marx: Hobsbawm tenta defender porque Marx superou os socialistas anteriores ao mostrar três proposições “inéditas” criadas por ele: 1ª) Marx substituiu uma análise parcial da sociedade capitalista por uma análise abrangente, baseada num exame da relação econômica que regia a sociedade. Sua análise ultrapassava os fenômenos superficiais acessíveis à crítica empírica, pois também considerava a atuação de uma “falsa consciência”, historicamente determinada pelas ideologias e motivações de classe, que atrapalhara outras análises. 2ª) “Ele inseria o socialismo no quadro de uma análise histórica evolucionista, o que explicava duas coisas ao mesmo tempo: por que o socialismo surgiu como teoria e como movimento; e por que o desenvolvimento histórico do capitalismo deve por fim gerar uma sociedade socialista” (p. 49-50). Hobsbawm ainda considera que ao contrário de muitos marxistas, Marx acreditava que a nova sociedade não era um produto acabado, mas que continuaria a evoluir historicamente, de modo que somente parte de seus contornos e princípios gerais poderiam ser previstos e projetados. 3ª) Marx “elucidava a forma de transição da antiga sociedade para a nova: o proletariado seria seu executor, através de um movimento de classe empenhado numa luta de classes que só alcançaria seu objetivo através da revolução – ‘a expropriação dos expropriadores’” (p. 50). Esses pontos fizeram o socialismo deixar de ser “utópico” para se tornar “científico”.

Karl Marx
O historiador quer deixar claro que Marx não só superou os outros socialistas, mas também os “suplantou”, os engoliu em sua síntese. A receita de Marx usou a filosofia socialista, o hegelianismo e a economia britânica como ingredientes indispensáveis, além disso, contou com um bom forno, o desenvolvimento histórico da Europa na modernidade, mas sem uma boa mão do cozinheiro na originalidade do modo de preparo essa receita teria sido um fracasso. Contudo, Marx a desenvolveu para aplicar a uma sociedade específica num momento determinado, ou seja, às sociedades que tinham como sua anatomia a economia política. Ele deixou claro que conforme as mudanças acontecessem seria necessário alterar a “receita” também. Daí o grande problema de seus seguidores preguiçosos terem adotado categorias fixas para analisar todas as sociedades dentro de qualquer temporalidade, como se a preponderância da economia fosse um elemento “trans-histórico” aplicável a qualquer situação social.


Referências:

HOBSBAWM, Eric. Marx, Engels e o socialismo pré-marxiano. In:______. Como mudar o mundo: Marx e marxismo. São Paulo: Cia da Letras, 2011, p. 25-52.
HOBSBAWM, Eric. Marx, Engels e a política. In:______. Como mudar o mundo: Marx e marxismo. São Paulo: Cia da Letras, 2011, p. 53-87.


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