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sábado, 23 de maio de 2015

Uso das fontes e escrita da vida em "O queijo e os vermes" e "Eu, Pierre Rivière": Ginzburg e Foucault - historiografia e acontecimento (2/4)

Dando continuidade ao texto anterior em que iniciei um debate sobre as concepções e usos do conceito de acontecimento na historiografia, neste post apresento as obras citadas no título e desenvolvo discussão sobre o “uso da ordem” e a “individualidade do personagem histórico” em tais. Em edição brasileira, os respectivos trabalhos de Ginzburg e Foucault, intitulam-se O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição, publicado em 1976, na Itália, e Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão... um caso de parricídio no século 19, edição original de 1973, na França.

O livro escrito por Ginzburg trata-se de uma história sobre a trajetória de vida de um moleiro (Domenico Scandella, vulgo Menocchio) que passou por um processo inquisidor da Igreja Católica, durante a Contra-Reforma, no século 16, por ser acusado de heresia e ligação a seitas de bruxaria. Conforme o historiador italiano, a pesquisa sobre um indivíduo comum, ainda que não representativo de sua comunidade, permitiu a descrição da fisionomia de sua cultura e do contexto no qual ele se moldou e, mais, uma hipótese geral sobre a cultura camponesa da Europa pré-industrial (GINZBURG, 1987, p. 12).

Em contrapartida, a obra de Foucault não se trata da narrativa de um único autor. Foucault é o organizador e apresentador de um conjunto de documentos que compõem um dossiê do inquérito que apura um triplo assassinato cometido por um jovem camponês (Pierre Rivière), no século 19. O dossiê é composto por relatórios policiais e jurídicos, depoimentos de testemunhas, interrogatórios, notícias de jornais sobre o caso, relatórios médicos sobre a sanidade mental do acusado, pareceres médicos-legais de reconhecidos profissionais da medicina da época (Marc, Orfila e Esquirol) e, sobretudo, pelo memorial escrito por Rivière, quando preso, narrando seu crime e suas motivações. Foucault assina a apresentação inicial da obra e um dos sete artigos que são escritos ao término. Os outros seis são produções do grupo de pesquisadores do seminário no Collège de France onde Foucault lecionava nos anos 70.¹ Posto isso, a análise teórica do acontecimento na obra centrar-se-á sobre a apresentação e o artigo intitulado “Os assassinatos que se conta” no qual Foucault comenta o caso.   

Ambas as obras centralizam sua organização em torno de acontecimentos ligados a instâncias jurídicas, o primeiro ligado à Inquisição promovida pela Igreja Católica no século 16 e o segundo, à justiça criminal francesa do século 19. Nos dois casos, os personagens principais das narrativas morrem na prisão. Rivière se suicida, Menocchio é punido com a execução. As duas obras partem de análises do cotidiano ou do microcosmo para extrair conclusões referentes ao contexto ou à estrutura social e política. Ambas lidam com escritas de uma vida, ou, pelo menos, com fragmentos de uma vida que, em certa medida, servem não só às obras historiográfica e filosófica como também aos processos judiciários pesquisados por elas. Contudo, a despeito destes, entre outros pontos de encontro, é possível perceber nas produções diversos pontos de dessemelhança, dos quais recorto apenas quatro para compreender as características a partir das quais os autores articulam a noção de acontecimento.

As fontes documentais: o uso da ordem

Os materiais escritos que servem de documentos ao trabalho de Ginzburg são partes do processo inquisidor encontrado nos arquivos da Cúria Episcopal da cidade de Udine, na Itália. Na narrativa, são usados como referências os interrogatórios do moleiro, os testemunhos de pessoas que moravam na aldeia em que o acusado vivia e a lista de livros considerados “heréticos”, encontrados na casa de Menocchio. Durante os anos 70, o historiador pesquisava sobre seitas heréticas e crenças camponesas durante o processo da Inquisição católica e acabou chegando por acaso em Menocchio. Ginzburg diz que devido a “uma farta documentação, temos condições de saber quais eram suas leituras e discussões, pensamentos e sentimentos: temores, esperanças, ironias, raivas, desesperos” (1987, p. 12).

Neste sentido, podemos perceber uma primeira característica no uso de fontes por Ginzburg. Há uma valorização na quantidade delas e a confiança de que, sendo assim, documentos oficiais de uma instituição ou não possam servir como meios para enunciar as maneiras de pensar e de sentir de uma pessoa que viveu no século 16. Entretanto, isso não se dá de forma simplista, pois, conforme o historiador:

“A ideia de que as fontes, se dignas de fé, oferecem um acesso imediato à realidade ou, pelo menos, a um aspecto da realidade, me parece igualmente rudimentar. As fontes não são nem janelas escancaradas, como acreditam os positivistas, nem muros que obstruem a visão, como pensam os cépticos: no máximo poderíamos compará-las a espelhos deformantes. A análise da distorção específica de qualquer fonte implica já um elemento construtivo” (GINZBURG, 2002, p. 44).

Assim, implicitamente, podemos compreender que munido de ferramentas teórico-metodológicas garantidas por uma formação profissional, o historiador terá os instrumentos necessários para formar a realidade através deste “espelho deformante”, selecionando e organizando essa massa de materiais desorganizados e disformes, o conhecimento histórico é construído. Ao que nos interessa neste trabalho, conseguirá ele explicar adequadamente o acontecimento e reconstruir a realidade.

Enquanto Ginzburg defende que, mediada pelos recursos técnicos e teóricos do saber historiográfico, o uso da ordem no contato aos documentos possibilita a compreensão e explicação do acontecimento, Foucault em vez de organizar as informações contidas nos documentos para construir uma narrativa, realiza, no máximo, apenas uma organização externa a partir da cronologia e os expõe integralmente. Dispondo num plano horizontal o processo jurídico de Rivière (contendo dados biográficos, testemunhos, interrogatórios, etc.) os relatórios médicos, os anúncios de jornais e o memorial que tentam explicar o acontecimento (os assassinatos), o filósofo pretende exacerbar o conflito de sentidos e a batalha discursiva entre eles (FOUCAULT, 2007, p. XIII), revelando assim, a fragilidade epistemológica na qual os saberes se apóiam ou a impossibilidade de uma única explicação para o acontecimento. Escreve Foucault:

“[...] um acontecimento em torno do qual e a propósito do qual vieram se cruzar discursos de origem, forma, organização e função diferentes: o do juiz de paz, do procurador, do presidente do tribunal do júri, do ministro da Justiça; do médico de província e o de Esquirol; o de aldeões com seu prefeito e seu cura. Por fim o do assassino. Todos falam ou parecem falar da mesma coisa: pelo menos é ao acontecimento do dia 3 de junho que se referem todos esses discursos. Mas todos eles, e em sua heterogeneidade, não formam nem uma obra nem um texto, mas uma luta singular, um confronto, uma relação de poder, uma batalha de discursos e através de discursos” (Idem, p. XII).

Apoiados em instituições sociais distintas, cada documento almeja estabelecer uma ordem necessária entre os eventos para fundamentar a lógica de sua argumentação e chegar a uma conclusão sobre o acontecimento. Querem produzir um fim. Mas na medida em que diferentes saberes, narrativas e interpretações são reunidas pelo autor, a impossibilidade da ordem é o que se apresenta. As distintas conclusões se anulam. Assim como Ginzburg, Foucault usa os documentos a contrapelo, porém não os interpreta, não os lê como se quisesse dar novo significado a eles, tampouco neutraliza, através de uma crítica interna, o que eles enunciam para determinar se dizem a verdade (FOUCAULT, 2010, p. 07). O filósofo, como um positivista,² toma a verdade que cada um constrói e apresenta e, a partir disso, a possibilidade de confrontá-las e chocá-las verificando seus antagonismos. Enquanto Ginzburg desenvolve uma análise e depois uma crítica problematizada aos documentos para chegar a uma síntese conclusiva sobre a maneira que Menocchio pensava e se expressava, Foucault não faz síntese alguma; em vez de integrar e extrair uma verossimilhança através dos documentos e do contexto, o filósofo separa os discursos e as interpretações a respeito das motivações e sentimentos de Rivière.

A individualidade do biografado

Nas tentativas de explicação do acontecimento, nos dois casos é levada em conta a individualidade do biografado, isto é, as formas próprias através das quais os personagens principais das produções exprimem seus sentimentos, seus pensamentos e suas ações. Contudo, isto é feito de maneira distinta pelos autores.

Ginzburg expõe uma rede de relacionamentos composta por pessoas da classe superior que eram críticas a determinados preceitos da Igreja (e que tiveram contato com o acusado) e procura reconstruir as experiências de leitura de Menocchio, como também desenterra tradições e crenças populares da era pré-cristã, algumas ainda vivenciadas em rituais secretos neste período, para compreender as particularidades do sentir, do pensar, do dizer e do agir do acusado, já que ele era um homem bastante distinto do que poderíamos chamar de “indivíduo-representativo” de sua aldeia. O historiador utiliza o conceito de “circularidade cultural” de Mikhail Bakhtin para designar a comunicação entre as culturas popular e erudita, um processo dialético que seria responsável pela constituição da personalidade do moleiro. A profissão de Menocchio era propícia às trocas culturais interclassistas, tendo em vista que o contato direto com pessoas das classes superiores era bastante comum durante a prestação de serviços do ramo. Assim, para Ginzburg, embora a individualidade de Menocchio não negasse seu pertencimento à classe subalterna, ela era formada pelo resultado do entrecruzamento da cultura da popular à erudita, pois permeada por elementos contrários aos preceitos católicos, que foram trazidos por uma tradição oral e popular, milenar, e por livros e pensamentos da cultura erudita fortemente ligada à conjuntura recente da época que englobava a Reforma Protestante e a invenção da imprensa.

Ainda que o objetivo de Foucault não fosse o de explicar por que Rivière matou seus familiares, o autor recorre ao memorial escrito pelo assassino para compreender aspectos de sua individualidade. A suposta loucura que teria levado Rivière a cometer os crimes apresentava-se paradoxalmente sob uma lógica elaborada. O assassino havia desenvolvido seu plano com antecedência.³ Nele, crime e narrativa não se separavam, sequer tinham uma sucessão cronológica definida, podiam tanto ser provas de sua racionalidade como de sua desrazão. Foucault diz que os contemporâneos aceitaram com facilidade o jogo que Rivière armou para ser num único gesto duplamente autor, do crime e da narrativa (2007, p. 212).

Mais do que isto, não parece a esmo a existência de uma coincidência entre a personalidade do assassino e a contingência da irrupção do acontecimento na história – que Foucault quer mostrar ao relatar as múltiplas interpretações dos saberes sobre a realidade ou as tentativas de capturar a realidade através dos mecanismos de saber-poder. O interesse e o encanto do filósofo questionador da episteme moderna sobre as ações de um indivíduo que desconjunta os saberes jurídicos e médicos e coloca seus discursos em relação antagônica, não são menos informativos do que os de um historiador egresso do Partido Comunista que escolhe contar a história de vida de um integrante das classes populares que desafia uma instituição autoritária e conservadora por considerar que a opressão social brotava dela (cf. GINZBURG, 1987, p. 57). Apesar de se utilizarem de diferentes maneiras da individualidade dos personagens históricos, os autores exprimem, através da escolha destes, suas subjetividades e seus interesses acadêmicos e políticos.

A personalidade de Menocchio agride qualquer modelo historiográfico que pretenda reduzir as pessoas aos aspectos gerais de sua classe, ressalta o acontecimento-vida na história e exprime uma significativa liberdade de atuação, ainda que articulada a conjunturas e estruturas. Por outro lado, os refugos, as voltas e as descontinuidades no memorial escrito de Rivière denunciam o caráter precário dos saberes homogeneizantes e deterministas quando querem apreender o sujeito e a realidade. Demonstram a atuação do acaso na história. Afinal, quem imaginaria ser possível um camponês planejar um assassinato como uma obra de arte, contar a própria história para se incriminar, em vez de se defender, matar a mãe para proteger o pai, se justificando através do Velho Testamento e ainda, por fim, possuir uma inteligência letrada?


Referências:

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.
FOUCAULT, Michel. Os assassinatos que se conta. In: ______ (coord.). Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão... um caso de parricídio no século XIX. 8ª edição. Tradução de Denize Lezan de Almeida. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2007, p. 211-221.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Tradução de Maria Betânia Amoroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
GINZBURG, Carlo. Relações de força: história, retórica e prova. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
VEYNE, Paul. Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história. 4ª Ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.

Artigo publicado originalmente em:

¹ Logo após o sumário encontramos a seguinte informação: “este dossiê foi organizado, estudado e anotado em um trabalho coletivo realizado por: Blandine Barret-Kriegel, Gilbert Burlet-Torvic, Robert Castel, Jeanne Favret, Alexandre Fontana, Michel Foucault, Georgette Legée, Patrícia Moulin, Jean-Pierre Peter, Philippe Riot, Maryvonne Saison” (FOUCAULT, 2007, não-paginado). 
² Designação atribuída por Paul Veyne (2008, p. 239). Segundo o autor, Foucault é o primeiro historiador a ser completamente positivista. O adjetivo é justificado porque Foucault instaura um método de pesquisa que analisa as práticas e os discursos em suas raridades, em vez de acreditar que uma palavra, um conceito ou uma fórmula possam ser aplicados para a explicação de toda ou de grande parte da história ainda que se usem expressões idênticas para descrever sujeitos e realidades históricas. Quer dizer, em Foucault, o tempo, o espaço e a dinâmica humana são tratados, ao máximo, em suas singularidades.
³ Foucault disse que, na construção do texto memorial, Rivière abandona dois projetos iniciais de escrita e assassinato. O primeiro deveria rodear o assassinato, no cabeçalho constaria sua participação no crime, depois, a biografia de seu pai e sua mãe e, por fim, os motivos de seu crime; assim que este texto estivesse pronto, o assassinato finalmente seria cometido. No segundo projeto, o crime seria exterior ao texto. Num escrito dirigido a todos ele abordaria a vida de seus pais e, depois, faria um escrito secreto relatando o assassinato, então cometeria o crime. No plano realmente levado a cabo, os escritos de Rivière apenas foram produzidos após o assassinato, pois, segundo o próprio, um “sono fatal impediu-o de escrever”. Assim, o projeto é matar, deixar-se prender, fazer suas declarações e depois morrer. Entretanto, ele acaba vagando nos campos durante um mês até ser preso, depois emite declarações mentirosas e só então escreve; e se escreve muito, deixa claro que era porque o manuscrito já estava em sua mente. “[...] daí as palavras maldosas e inutilmente mortíferas que aí se encontram ainda endereçadas às suas vítimas, apesar do assassinato já ter sido cometido” (FOUCAULT, 2007, p. 213).

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Max Stirner, a primeira biografia

Em 1844, Max Stirner publica seu primeiro e, verdadeiramente, único livro: intitulado O único e a sua propriedade (em alemão: Der Einzige und sein Eigentun). É graças a ele que o nome de Stirner aparece na história da filosofia mais do que um mero integrante dos “jovens hegelianos” ou um amigo de Bruno Bauer. A importância de seu livro se deu muito em função das críticas feitas por Marx e Engels n’A ideologia alemã. Porém não se pode dizer que esta seja a principal causa responsável por sua lembrança ainda nos dias de hoje. E o exemplo é Bruno Bauer – como tantos outros que ficaram no rodapé da filosofia marxiana sem de lá não saírem mais. Creio, aí sim, que a apropriação tardia de seu livro, feita por escritores e ativistas anarquistas tenha a maior contribuição para que Stirner não caísse numa espécie de buraco negro do esquecimento. 

O principal responsável pela popularização póstuma da obra de Stirner foi o escocês, radicado na Alemanha, John Henry Mackay. Escritor e poeta anarquista-individualista, Mackay publicou uma biografia de Max Stirner em 1897, ainda sem tradução para o português. Tive acesso a uma versão em inglês da mesma, de 2005, e por de não haver tradução para nosso idioma, publico este post que faz um resumo e alguns comentários sobre a obra, divulgando a biografia para o público lusófono.

Em 1887, numa visita ao Museu Britânico, Mackay ficou sabendo da existência da obra de Stirner ao ler uma passagem do livro História do materialismo, de Friedrich Lange. Identificado com a filosofia stirneriana, o poeta anarquista procurou mais informações a respeito do autor e ficou frustrado ao perceber que ele havia sido esquecido. Daí lhe surgiu um desafio: reconstruir a memória de Stirner, escrevendo uma biografia. Mackay sabia que não ia ser fácil encontrar informações a respeito de seu biografado, mas parece que não pensou que seria tão difícil. Ele enviou cartas a inúmeros jornais alemães requisitando notícias, fotos, correspondências, qualquer coisa que pudesse enfim servir de fonte para seu trabalho. Mas ficou decepcionado com as respostas (isto é, com as que vieram). Diante disso, seu livro demorou muito tempo para ficar pronto e foi publicado com várias lacunas. Mackay diz que inicialmente não conseguia compreender por que os alemães haviam “abandonado” Max Stirner. Porém, ao cabo, começou a construir algumas hipóteses.

A primeira destas parece mais algo em que um biógrafo apaixonado por seu objeto de pesquisa quer acreditar. Stirner seria exatamente a expressão de sua filosofia, um egoísta, independente do resto do mundo. As outras três são menos poéticas mas não deixam de ter a ver com a primeira pressuposição: o isolamento em que viveu Stirner durante muitos anos de sua vida, sobretudo em seu período final;  as mudanças na vida pública da Alemanha após as revoluções de 1848 e a forte reação que houve contra intelectuais radicalistas; e o caráter tipicamente fechado do biografado, que não possuía amigos íntimos ou herdeiros que pudessem dar qualquer tipo de informação sobre sua vida (MACKAY, 2005, p. 05-07).

A biografia de Mackay repete um lugar-comum e divide a vida de Stirner em três fases: nascimento, ascensão e queda. A primeira vai de sua infância e juventude até o fim de seu período como estudante (1806-1844). A segunda se refere à publicação de O único e sua recepção (1844-1846). E a terceira descreve o período de esquecimento e solidão, até sua morte (1846-1856).

Johann Kaspar Schmidt (nome original de Stirner) nasceu em 25 de outubro de 1806, na cidade de Bayreuth, situada no Reino da Baviera, sudeste da atual Alemanha. Era filho único do casal Albert Schmidt e Sophia Eleonora, e continuou sendo, já que seu pai, um fabricante de flautas, morreu quando Johann ainda era muito pequeno. Sua mãe casara-se novamente com o gerente de uma farmácia. Há poucas informações desta época, contudo, Mackay registra que a família se mudou para Kulm logo após o casamento, em 1809. A causa desta mudança é imprecisa. Mas sabe-se que no ano em que nasceu Johann, Bayreuth, que estava sob o domínio da Prússia, havia sido devastada pelas guerras napoleônicas. E que, depois disso, ela passara para as mãos dos franceses, período em que a fome e a inflação se acentuaram na região. Pouco tempo depois Johann regressa a cidade natal e faz estadia na casa de um padrinho, de onde só sai de novo para ir à faculdade.

Após passar oito anos frequentando o liceu clássico de Bayreuth, Johann Schmidt ingressou, em 1826, na Universidade de Berlim. Segundo a descrição de Ludwig Feuerbach, esta instituição parecia um reformatório se comparada às “cervejarias reais” (outras universidades) do resto da Alemanha. Schmidt se matriculou no curso de Filosofia e teve aulas com Karl Ritter, Schleiermacher e Hegel. Neste período estudou teologia; simbolismo da Igreja, história da Igreja e do cristianismo primitivo; história e filosofia da Grécia Antiga; geografia da Grécia e de Roma. Depois, em 1828, foi para a Universidade de Erlangen (cidade natal de sua mãe). Lá assistiu apenas a alguns seminários e palestras e interrompeu seu trimestre de estudos para fazer uma viagem percorrendo boa parte da Alemanha. No outono de 1829 se inscreveu na Universidade de Konigsberg, mas logo voltou para Enlanger a fim de resolver assuntos familiares (o biógrafo não sabe quais). Só voltaria a Universidade de Berlim em 1833, somando cinco anos afastados. Logo mais, em março do ano seguinte, Schmidt retirou seu nome dos registros da mesma universidade. Daí solicitou a realização de exames para habilitá-lo no ensino de línguas antigas, alemão, história, filosofia, religião e outras matérias, sendo estas em séries escolares inferiores. Tratava-se de um pedido incomum, anota Mackay, porque era bastante extenso. Mas a razão possa ter a ver com as dificuldades financeiras de Schmidt.

Para a avaliação foi exigido tradução de um texto de Tucídides, aulas e apresentações orais e a produção de um artigo sobre as leis da escola. Schmidt teve muitas dificuldades em cumprir os prazos devido a problemas de saúde e também o início da doença mental de sua mãe, diagnosticada com uma patologia chamada “ideia-fixa”. Isso interferiu em sua avaliação. O resultado não foi excelente e ele não conseguiu habilitação em todas as áreas que pretendia. O que significava que ele não teria facilidade na procura de um emprego como professor. As coisas se complicaram quando em 1837 seu padrasto morreu. Louca e sem parentes, Sophia Eleonora, mãe de Schmidt, só tinha o filho para cuidar dela. Sua herança era pequena e ficara ao controle do tesoureiro da cidade. Neste mesmo ano Schmidt se casou com uma jovem parteira de 22 anos. Mas o revés volta a bater em sua porta. Sua esposa morre, ironicamente, durante o parto daquele que seria primeiro filho do casal, em 1838. No ano seguinte, 1839, Schmidt começa a trabalhar numa escola particular para moças da “boa sociedade”, instituição que é dirigida também por mulheres. Bem quisto por todos do lugar, ele leciona história e alemão durante cinco anos. Só sai, por conta própria, após a exposição de sua figura depois da publicação de O único.

Em 1841 a vida intelectual de Schmidt dá uma guinada. É neste ano que ele se aproxima do círculo de pensadores da esquerda hegeliana, “Os Livres” (Die Frein). O grupo que se encontrava numa cervejaria de Berlim, de Jacob Hippel, era frequentado por diversos homens insatisfeitos com as condições políticas e sociais da época, contra as quais lutavam relativamente em público. Havia diversidade e flutuação de assuntos no grupo, que estava longe de ser uma organização e recebia visitas sazonais de muitos intelectuais. Eles se reuniam em torno de Bruno Bauer, que era conhecido com um polêmico crítico da Bíblia. Muitos dos “membros” se envolviam em rixas internas no círculo intelectual da Alemanha. Bauer, por exemplo, foi demitido da Universidade de Bonn após publicar o artigo “A trombeta do Juízo Final contra Hegel, o ateu”.[1] Foi durante o contato com “Os Livres” que Schmidt foi apelidado de Max Stirner, que significa “Max, o testudo”. Depois disso ele passou a adotar como pseudônimo para seus escritos e também, com ele, assinou seu livro.

Mackay faz uma descrição física e da personalidade de Stirner. Era discreto, magro, se vestia simples, porém elegante como um professor. Era educado, atencioso e prestativo. Não tinha inimigos pessoais, mas também, por outro lado, não tinha nenhum amigo íntimo. Para o biógrafo ele foi o mais progressista de seu tempo, pois estava ao lado dos homens mais progressistas e, ainda assim, os criticava. “Um ser humano como poucos, feito para ser um homem livre entre os livres, e amaldiçoado por ser um elo na cadeia de senhores e escravos”, escreve John Henry Mackay (p. 89).

Ao contrário do biógrafo, Jean Barrué escreve que Stirner vivia uma vida dupla. E esta foi mesmo uma instituição discursiva através da qual a historiografia, sobretudo com Max Nettlau, construíra sua classificação com anarquista. Deste modo, cotidianamente, era Johann Schmidt, um professor exemplar e querido, um cidadão calmo, sereno, introvertido, sem muitos gostos especiais e que possuía um tom de voz baixo que pouco era usado. Nos escritos, parecia outro, não à toa usando o codinome Stirner, transformava-se num autor terrivelmente ácido e crítico, combativo e erudito (BARRUÉ, 2001, p. 33-34). Mas por mais que possamos achar muito diferente a descrição da vida e da personalidade de Stirner e seu personagem o “único” ou o “egoísta”, Mackay tenta coincidir os dois. Ele diz que Stirner dá vida ao seu próprio personagem. Não há nele contradições, é simples, puro e grande. Possui o conhecimento da autopreservação. Não tem desprezo nem ódio pelos outros, porém, tampouco amor ou piedade. Ele não pede amor ou admiração barulhenta de ninguém, mas é impossível não amá-lo, por vê-lo seguir suas leis e afirmar a si mesmo. É um ser simpático entre os diferentes (MACKAY, 2005, p. 90).

Depois de participar d’Os Livres Stirner passou a escrever para jornais da Alemanha. Mackay conta um total de 27 artigos que versavam sobre questões do cotidiano da época. Foi numa das reuniões d’Os Livres que Stirner conheceu aquela que viria a ser sua segunda esposa e para quem ele dedica O único: Marie Dänhardt. Companheiros de cervejas e discussões políticas, os dois se casaram em 1843 numa cerimônia bastante simples e peculiar. Contam que um amigo do casal foi quem “celebrou” o evento e nem alianças os dois tinham comprado. Improvisaram de última hora anéis de latão. Depois do casamento, Dänhardt herdou uma significativa quantia de dinheiro deixada pelo seu falecido pai há anos (p. 120-121).

Os anos que se seguiram foram bastante atribulados na vida de Stirner. A publicação de seu livro entre 1844 e 1845 gerou muitas consequências, positivas e negativas. Inicialmente houve um confisco da obra na Saxônia, região sede da editora. Contudo, o confisco foi suspenso dias depois pelo Ministério do Interior que ao julgar o caso expusera que o conteúdo do livro era muito absurdo para ser considerado perigoso. Mackay diz que isto foi intencionalmente planejado pelo autor, que usara esta estratégia para que a obra fosse circulada livremente. Entretanto, na Prússia, onde a censura era mais rígida, a obra foi banida, assim como ocorreu em outros Estados germânicos. O que não significava que ela não seria lida, porque, na época, as obras proibidas eram as mais procuradas.

O biógrafo aponta que a recepção inicial da obra foi sensacional. Era muito lida entre os jovens. Mas se sucedia a uma série de reações. Alguns o chamavam de gênio, outros simplesmente jogavam o livro no lixo após a leitura. Liberais, políticos, socialistas e humanistas ficaram fulos com a obra. A despeito da boa recepção e das várias críticas que apareceram, bem como as réplicas do autor, O único foi esquecido pouco tempo depois. Os ventos da revolução sopravam lá fora. E de alguma maneira dissiparam o período de sucesso de Stirner.

Desde 1846 seu casamento, frágil interiormente, começara a se deteriorar. O relacionamento com aquela que era considerada uma emancipada para época, uma possível companheira de jornada filosófica, teria como desfecho o abandono, depois de seguidas brigas e dívidas. Isto porque apesar de Dänhardt gozar de uma situação financeira estável, os dois, ao abrirem uma empresa de armazenamento e distribuição de leite, foram à falência devido à inexperiência e má-sorte na administração. Com a derrocada econômica, se separaram em 1846 e Marie foi embora para Londres. Já “Os Livres” cessaram os encontros em 1848.

Universidade de Berlim no século 19
Stirner continuou em Berlim. Mas pouco se sabe dele nesta época. Aos poucos foi se apagando; ficando isolado e se mudando sem parar de um lugar a outro, fugindo dos credores. Endividado e vivendo de trabalho comissionado, Stirner chegou a ser preso duas vezes em 1853, justamente por causa das dívidas. Tendo sua atividade jornalística encerrada em 1847, o filósofo publicara traduções de J.-B. Say, Adam Smith e Proudhon, e publicou História da Reação [1852], sendo que esta última tratava-se de uma compilação em dois volumes que passava longe da originalidade de O único. Em 1854 viveu em uma pensão onde cuidava de uma idosa, a proprietária do lugar, Sra. Weiss. Morou neste local até morrer tragicamente em 1856, por causa do agravamento de uma infecção no pescoço, um carbúnculo (p. 208). Solitário e auto-isolado do círculo social, apenas Bruno Bauer, Ludwig Buhl e algumas poucas pessoas foram ao seu funeral. Apesar de lamentar a morte breve de Stirner, Mackay diz que pelo menos este fato estancou seu sofrimento e sua luta contra a pobreza.

Referências:

BARRUÉ, Jean. Da educação. In: STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação. Tradução: Plínio Augusto Coelho. São Paulo: Editora Imaginário, 2001.
MACKAY, John Henry. Max Stirner: his life and his work. Translated from the third german edition by Hubert Kennedy. Concord-CA/USA: Peremptory Publications, 2005.


[1] Além de Bruno Bauer, os que mais frequentavam Os Livres eram: Edgar Bauer, irmão de Bruno; Ludwig Buhl (filósofo); Carl Friedrich (professor de ginástica); Koppen (professor ginasial); Eduard Mayern (filósofo, filólogo e professor de literatura); Friedrich Sass (jornalista); Herman Maren (jornalista); Adolf Rutemberg (cunhado de Bruno Bauer e colunista de jornais); Arthur Miller (editor de jornal); tenente Saint-Paul (censor enviado para observar a Gazeta Renana que virou amigo dos Frein); Ludwig Eichler (tradutor); Gustav Lipke (advogado e futuro membro do Reichtag). Este é o círculo mais assíduo. Já o círculo mais amplo, em que aparece inclusive Marx e Engels, é gigantesco, diz Mackay (p. 66).

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Da (im)possibilidade de historiar uma vida


Há cerca de um mês me deparei com um post interessante da colega e jornalista Renata Arruda. Em Prosa Espontânea: de volta ao passado, ela expôs um reencontro com escritos de sua pré-adolescência, os quais transmitiam aspectos de sua vida naquele momento. Ela fez um balanço temporal deixando entrever a possibilidade daquela garota de alguns anos atrás ser uma pessoa bem diferente do que ela é na atualidade (ou sequer ter existido), especialmente se considerarmos sua mudança da maneira de pensar a vida. Imediatamente, me lembrei da discussão que corre solta entre historiadores sobre o gênero biográfico; sobretudo, com a contribuição de pesquisadores como Bourdieu, Foucault e Barthes acerca da “simulação” biográfica – e da presença da ficção na escrita de uma vida.

Numa entrevista recente, Benito B. Schmidt (um importante historiador-biógrafo brasileiro) considerou que a atenção dada ultimamente a este tipo de produção historiográfica é relativa à valorização do indivíduo e do cotidiano da vida privada, associada ao desejo de espionar a vida alheia pelo “buraco da fechadura”. Em grande medida, esta situação histórica é explicada pela falência (ou descrédito) dos projetos universais que se baseavam na ação de sujeitos coletivos, como o povo, o proletariado, o partido e a vanguarda intelectual. Mas, como chegamos nesta condição contemporânea?

A partir de 1930, durante o período de “combate pela história científica”, a Escola dos Annales criticou as biografias de figuras heroicas, pois estas dissociavam o personagem do caldo cultural que nutria sua existência. Em contrapartida, usou as biografias para reconstruir contextos históricos de uma determinada sociedade, classe ou cultura; ainda flertando com a noção de sujeito coletivo baseada numa ‘mentalidade’ como substrato cultural. Em tese, o indivíduo biografado funcionava como uma espécie de janela para olharmos o funcionamento da dinâmica social do período no qual ele viveu. Por exemplo, para compreender questões e aspectos ligados a Ordem dos Cavaleiros Templários durante as cruzadas na Idade Média, podia se recorrer a historiar a vida de um dos cavaleiros, para representar sua classe e descrever as relações com a sociedade e o tempo num determinado contexto medieval.

Outra maneira de uso da biografia, na tentativa de reconstruir um dado contexto social e cultural, é praticada pela micro-história. De acordo com Alexandre Avelar (historiador do gênero biográfico), esta modalidade utiliza a história da vida de um indivíduo que não é um representante do conjunto da sociedade, mas que possui pensamentos e ações que vão contra as regras sociais hegemônicas (2011, p. 143). O pesquisador do microcosmo procura compreender os conflitos e as experiências-limites de uma vida que demonstram aspectos culturais que passam despercebidos dos olhares dos historiadores, por estarem de alguma forma naturalizados na sociedade pesquisada. Estas preocupações também estão presentes nos trabalhos de história social de E. P. Thompson. O historiador pesquisou rituais de humilhação pública na sociedade inglesa moderna para extrair deles as regras culturais contra as quais eles atentavam. “A importância desses rituais reside no fato de que, identificados quais tipos de conduta (serviu, marital, pública) ofendem a comunidade, revelam-se também as normas dessa comunidade” (2001, p. 249).

O maior exemplo de uma biografia histórica nos moldes da micro-história foi escrita por Ginzburg em O queijo e os vermes. O livro, que já se tornou clássico do gênero, conta a história de Menocchio, um moleiro italiano que viveu no século 16. A primeira diferença da maioria das biografias está justamente no interesse à vida de uma pessoa comum. Entretanto, apesar de “comum”, Menocchio não representava o pensamento da comunidade na qual vivera. O moleiro construiu uma explicação bastante peculiar para o surgimento do mundo (cosmogonia): “’No princípio este mundo era nada, e [...] a água do mar foi batida com a espuma e se coagulou como queijo, do qual nasceu uma infinidade de vermes; esses vermes se tornaram homens, dos quais o mais potente e sábio foi Deus’: foram mais ou menos essas as palavras ditas por Menocchio” (GINZBURG, 2006, p. 103). Imaginem falar coisas deste tipo na época de caça às bruxas, em plena política de contrarreforma da Igreja Católica! Menocchio ainda foi além, questionando a autoridade dos líderes e de rituais específicos que constituíam dogmas da Igreja. Mesmo se declarando cristão, depois de uma série de interrogatórios, de torturas e de prisões, a “Santa Inquisição” resolveu executar o moleiro. Entretanto, Ginzburg quer deixar claro que Menocchio não estava a frente de seu tempo; que sua existência só foi possível pela invenção da imprensa (que possibilitou a circulação de textos heréticos e críticos) e pela reforma protestante via anabatistas e luteranos. A própria singularidade do personagem parece ficar cada vez mais apagada na medida em que Ginzburg vai relacionando as opiniões do moleiro, expressas nos interrogatórios, aos diversos livros sobre religião que Menocchio ou teve acesso, ou poderia ter tido contato com alguém que os leu. No fim, Ginzburg mostra que houve outras pessoas como Menocchio (inclusive moleiros do mesmo período) que pensavam de maneira se não igual, muito parecida. Embora, entendamos que o trabalho de Ginzburg foque na reconstrução dos conflitos existentes num período de efervescência religiosa, passando do micro para o macrocosmo, o autor acaba desconsiderando o elemento humano da criação de algo totalmente novo; assim como foi possível a existência dos livros com os quais Menocchio tivera contato. Quer dizer, quem foi o primeiro a pensar diferente e escrever esses pensamentos? Deve ter existido vários Thomas Edison na história. Ou qualquer um de mesma cultura poderia ter inventado a lâmpada em sua época? Em todo caso, parece absurdo falar de ‘singularidade’ como algo recorrente, já que o singular é um.

Justamente por levar em consideração as questões referentes à criação, à contingência, ao acaso e à complexidade da realidade, alguns autores expuseram críticas as narrativas históricas que pretendem reconstruir ou representar uma vida através da escrita explicada pela síntese de muitas determinações coletivas. Boa parcela destas contribuições parte de uma releitura das críticas de Marx, Nietzsche e Freud às noções de sujeito universal em Hegel e de consciência “absoluta” em Descartes, mas também da impossibilidade de exprimir linguisticamente a fluidez do real.  No texto A ilusão biográfica, o sociólogo Pierre Bourdieu coloca que a primeira “abstração” da biografia é acreditar que a vida tem uma história. Ou seja, que ela possui um caminho orientado, seja do vício a virtude ou da esperança a tragédia. O problema, neste caso, é supor que existe uma essência por trás de tudo que regula os acontecimentos – como o famoso “desde pequeno”. O historiador preocupado, por exemplo, em explicar porque Caco Barcellos se tornou um famoso jornalista, buscará registros de sua infância e adolescência que comprovem seu interesse “desde sempre” pela informação e pela reportagem (quem sabe dizendo que ele era um menino muito fofoqueiro na escola), e talvez, abandone desenhos de aviões em seus cadernos, porque afinal de contas ele não virou aeronauta. Segundo Bourdieu: “produzir uma história de vida, tratar a vida como uma história, isto é, como o relato coerente de uma sequência de acontecimentos com significado e direção, talvez seja conformar-se com uma ilusão retórica, uma representação comum da existência que toda uma tradição literária não deixou e não deixa de reforçar” (1998, p. 185). É preciso tratar o real como algo “descontínuo, formado por elementos justapostos sem vazão”, todos eles únicos e difíceis de apreender porque são imprevisíveis e aleatórios. O que o historiador faz - como considera Avelar (2011) - é tentar encontrar um sentido para a vida do biografado, e mais, construir um texto que fundamente este sentido baseando-se em documentos sobre a vida da pessoa.

Sobre a questão da fundamentação em documentos, Foucault aponta a impossibilidade de recontar uma vida baseando-se neles, pois quais os resquícios que devemos considerar ou relevar? É possível que, para Foucault, a ideia de sujeito seja absurda, porque somos pessoas completamente diferentes conforme o passar do tempo e das interações sociais. Assim, os sujeitos são produzidos e se produzem incessantemente de formas completamente novas conforme as relações de poder que os atravessam. Sua exposição relembra a clássica frase de Heráclito: “não podemos entrar no mesmo rio duas vezes”, pois no segundo momento que entrássemos seríamos pessoas diferentes e o rio também já seria outro, porque é fluxo. Entretanto, existem estratégias vinculadas as instâncias do poder que pretendem determinar uma existência. É desta maneira que Foucault pretendeu mostrar o caso de um parricida no livro Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão (que virou filme na França), ao contrapor o discurso médico, o discurso jurídico e o do próprio assassino. Embora eles estivessem falando do mesmo assunto, a vida de Pierre Rivière a partir da relação com seu crime, numa tentativa de decidir o destino do assassino (se mandado para uma cadeia ou para um hospício), os discursos se contradiziam parecendo tratar-se – às vezes – de pessoas distintas (um doente desde a infância, um homicida cruel ou um homem comum cometendo um ato absurdo). Muitas críticas foram feitas a Foucault porque o filósofo não comentou os discursos apresentados. Mas esta ausência se ancora na coerência da própria proposta do autor para este trabalho, que era mostrar como funcionam os mecanismos de poder que localizam uma existência para poder dominá-la, tratando o homem como objeto do saber. Caso Foucault tivesse feito comentários, explicações ou defesas de Rivière, teria cometido o que acabara de denunciar, que é o falar pelos outros.

Mais do que admitir a imprecisão de contar uma vida através da narrativa, o trabalho de Foucault demonstra como essa construção linguística pode servir a propósitos políticos que pretendem assegurar uma verdade utilizada para o governo das pessoas (como no caso dos loucos e dos presos). No entanto, tais estratégias seriam não só intencionadas como também mentirosas, pois “o filósofo francês rejeita uma universalidade, uma autonomia plena de consciência e uma liberdade de ação abstrata tal como se postula em diversos discursos biográficos, pois nada no homem – nem mesmo seu corpo – é bastante fixo para compreender outros homens e se reconhecer neles. Não há, portanto, uma identidade esquecida, sempre pronta a renascer, mas um sistema complexo de elementos múltiplos, distintos que nenhum poder de síntese domina” (AVELAR, 2011, p. 151). Algumas instituições criadas no social dão a ilusão de uma continuidade ou de uma essência do indivíduo; o caso do nome próprio é uma delas, conforme salienta Bourdieu. O nome próprio e a autoria são instâncias que podem visar a regulação e a culpabilização dos sujeitos, mas são impressões frágeis diante das transformações operadas numa vida. Com base nas arguições de Foucault e Barthes para desestabilizar o aspecto temporal de causa e efeito, o ser vivente está em constante invenção de si mesmo. Nossa existência é descontínua, pois como cantou Alanis: “somos arranjos temporários”.


Referências:

AVELAR, Alexandre. Figurações da escrita biográfica. Revista ArtCultura. Uberlândia, v. 13, n. 22, p. 137-155, jan.-jun., 2011.
BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: AMADO, J. ; FERREIRA, M (Coord.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1998, p. 183-191.
FOUCAULT, Michel. Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão: um caso de parricídio do século XIX. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Cia das Letras, 2006.
MORISSETE, Alanis. No pressure over cappuccino. Faixa 03. Álbum: Alanis Unplugged, 1999.
SCHMIDT, Benito B. Entrevista com Benito Bisso Schmidt por Manuela Areias Costa. Revista Cantareira. Rio de Janeiro, 15ª edição, jul.-dez., 2011.
THOMPSON, Edward Palmer. Folclore, antropologia e história social. In:______. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2001, p. 227-268.
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