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domingo, 23 de setembro de 2012

O que é governamentalidade?

É um conceito inventado pelo filósofo Michel Foucault para analisar genealogicamente como ocorreram os processos históricos que transformaram a questão política da soberania real em governo estatal na modernidade. Sendo mais específico, é possível designar três coisas por governamentalidade.

Primeiro, o conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análises e reflexões, cálculos e táticas que permitem exercer uma forma bem específica e complexa de poder. Tal poder tem a população como alvo principal, a economia política como forma de saber mais importante e os dispositivos de segurança como instrumentos técnicos. A “arte de governar” da maneira como se apresenta na modernidade altera-se em dois aspectos principais. O soberano (Rei, Imperador ou Príncipe) coloca em segundo plano o uso da violência e da autoridade para garantir seu respeito e reconhecimento pelos súditos e para defender seu território, e o modelo de governo deixa de aplicar-se a família para a população.

Todavia, a família será o núcleo principal dentro da população para o qual se reportará as táticas de governo que pretendem obter ações da população – comportamento sexual, (des)estímulo da taxa de natalidade, demografia, planos de consumo. Por isso, há na modernidade (séc. 16) a criação de instituições como escolas, hospitais, prisões, hospícios, asilos que – aliadas às mais antigas, como a família – irão propiciar uma série de ferramentas para o controle, tornando as pessoas sãs e aptas para o trabalho, consumo e reprodução e, ao mesmo tempo, garantindo instrumentos para que a população se governe. É preciso que existam práticas de governo das pessoas por elas mesmas – diminuindo e despersonalizando “a autoridade do grande governante”. Assim, o pai de família, o superior de um convento, o pedagogo e o professor em relação com a criança, cumprem papéis para que o governo seja algo imanente à sociedade e não venha de maneira exterior ou de cima para baixo das mãos do Soberano, do presidente, do “Estado-monstro”...

Michel Foucault (1926-1984)
Até então, a economia tinha um sentido diferente do que tem hoje. Significava o governo da casa ou da família. Ou seja, se referia ao papel administrativo desempenhado pelo chefe de família para garantir a provisão desta: riquezas, bens, propriedade, novos integrantes, alianças com outras famílias, comportamento dos membros etc. A “arte de governar” que aparece na literatura moderna, contra a soberania do Príncipe exercida sobre o principado (anti-Maquiavel), pretendia seguir o modelo da família, portanto, a questão era como introduzir esta no interior do Estado. Então, opera-se uma mudança para afastar-se de Maquiavel que defendia que o objeto para o qual se destinava o poder soberano era o território e as pessoas que habitavam esse território. Na literatura anti-Maquiavel (Adam Smith, por exemplo) trata-se de governar não o território nem os homens que nele moram, mas as coisas. Que coisas? “Os homens em suas relações, seus laços, seus emaranhamentos com essas coisas que são as riquezas, os recursos, as substâncias, o território, com certeza, em suas fronteiras, com suas qualidades, seu clima, sua aridez, sua fertilidade; são os homens em suas relações com essas outras coisas que são os costumes, os hábitos, as maneiras de fazer ou de pensar e, enfim, são os homens em suas relações com outras coisas ainda, que podem ser os acidentes ou as desgraças, como a fome, as epidemias, a morte” (FOUCAULT, 2006, p. 290).

Tem-se então uma descoberta. Destas coisas é possível extrair uma ciência: cálculos, estatísticas, projeções, curvas demográficas, quantidade de produção. Neste momento o conceito de “economia” começa a mudar de sentido e passa a significar esse nível de realidade que conhecemos hoje, esse saber especializado, uma disciplina. Com isso, torna-se de importância cabal para a política, que será em tal momento à disposição das coisas (economia política). Mas, e o governo dos homens, como fica? Os homens também podem e são tornados “coisas”, entendendo aqui o sentido que construirão através das relações que tiverem: o homem vira sujeito a partir da ação que pratica e quando esta se encontra com o saber sobre esse tipo de ação. Esse saber detém uma determinada estratégia para lidar com a situação.

Por exemplo, um homem qualquer rouba uma loja e assassina o dono. Sem um saber chamado Justiça Criminal esse homem é simplesmente “um homem que roubou e matou”. Se ninguém descobrir o acontecido ele só será “isso” (alguém que matou e roubou) para ele mesmo e de acordo com sua consciência. Mas se alguém que “aceitar legítimo” a Justiça Criminal, ou um representante direto dela, pegá-lo em flagrante e denunciá-lo, ele será um suspeito de latrocínio (roubo seguido de morte) e levado a julgamento. A partir daí, a opinião pública motivada pelos veículos de tevê podem “sujeitá-lo” – torná-lo sujeito –, “ele é criminoso”, vão dizer. Depois de sua condenação, então ele será também outro sujeito, além de criminoso, agora presidiário. Diante de outro saber, co-extensivo ao criminal, a Justiça Penal, ele será um sujeito criminoso, presidiário, condenado – um homem que praticou um crime contra o patrimônio e contra a vida e foi julgado e condenado. Como presidiário ele se torna um sujeito e objeto, pois está passível de receber o tratamento adequado de acordo com um tipo de saber da esfera penal. A relação o fez tornar-se sujeito-objeto ao qual o governo dispõe coisas: direito à escola, ao trabalho, ao psicólogo, ao médico para que ele se “recupere” e reintegre o convívio. O cidadão-comum, ou representante da lei que denunciou o homem que cometeu o roubo-assassinato, está tão “governamentalizado” quanto o presidente da república, pois um determinado saber que pronuncia “quem comete um ato desses deve ir para a cadeia”, o penetrou – são os chamados micro-poderes que nos governam e nos fazem governar. Mas isso não significa que este “dedo-duro” aja da mesma maneira em uma situação parecida, por isso Foucault prefere tratar os sujeitos como não cristalizados ou essencializados, mas produzidos de acordo com a ação que praticam.

Essa longa digressão foi importante para deixar os outros termos relacionados à “governamentalidade” mais claros, tendo em vista que eles se entrecruzam. Seguindo... Segundo, é a tendência no Ocidente que não pára de conduzir em direção ao relevo (acúmulo) desse tipo de saber que se pode chamar de “governo” sobre os outros: soberania, disciplina. Isso levou toda a uma série de aparelhos específicos de governo e também de saberes. Pode ser entendido como uma espécie de racionalização (relativo à razão) nas sociedades ocidentais o processo de inscrição do governo, transmitido e vivenciado, nos hábitos e nos costumes. Há um certo tipo de circularidade entre os governos moral, econômico e político. Sendo que o primeiro está ligado ao governo de si mesmo, o segundo a família e o terceiro ao Estado. Estes governos dialogam, se chocam, se interligam, havendo várias modalidades de governo dentro do âmbito social, que não é diretamente controlado do alto do controle político de um país. Aliás, Foucault chama atenção para o que dá sustentação ao “poder político”: são os outros poderes, que só podem ser separados esquematicamente. O surgimento do Estado como entendemos hoje, é apenas um desdobramento destes outros poderes, sem os quais não seria possível a existência do Estado. Por isso, o interesse de Foucault, em suas últimas obras, sobre o sujeito-ético, ponto-chave para qualquer proposta de alteração macro-política. O poder deixa de ser uma interdição, uma repressão e uma negação, como é entendido pelas principais análises nas humanidades, e passa a significar uma positividade.

Terceiro, e último, governamentalidade é o resultado do processo pelo qual o Estado de Justiça da Idade Média, tornado Estado Administrativo nos séculos 15 e 16, encontrou-se, pouco a pouco, “governamentalizado”. A genealogia do Estado de governo, que tem a população como seu alvo e exerce seu poder através dos dispositivos de segurança, pode ser desenvolvida em três limiares (começos): a pastoral cristã, a nova técnica diplomática-militar e a polícia (p. 305). Mas isso é assunto para outro momento!

Referência:

FOUCAULT, Michel. A “Governamentalidade”. In:______. Estratégia, poder-saber: ditos e escritos, vol. IV. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006, p. 281-305.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O “Holocausto” no testemunho, na ética, no Direito e na vergonha: O que resta de Auschwitz

No prefácio do livro O que resta de Auschwitz de Giorgio Agamben, Jeane Marie Gagnebin ressalta que o acontecimento dos campos de concentração marca, de maneira extrema, a separação entre a política idealizada da “polis de Aristóteles” e a biopolítica contemporânea, na qual o estado de exceção se torna regra. A lei (nomos) não é mais feita para integrar, conviver, discutir e decidir, mas para excluir e, ainda, controlar a vida e produzir a morte. Em O que resta de Auschwitz, Agamben atravessa uma infinidade de questões tentando compreender ou, paradoxalmente, escancarar a dificuldade de compreensão do nazismo. O autor busca, através dos relatos da literatura produzida pelos sobreviventes dos campos de concentração, traçar proposições sobre a linguagem, a política e a ética, mais do que recortar as circunstâncias históricas relativamente clarificadas pelos historiadores. Portanto, podemos dizer que seu livro é um trabalho filosófico-histórico, porque, para além da constatação dos fatos, procura compreender o que ainda não foi compreendido (ou não queremos enxergar). Respeitando a densidade da obra, tentarei resenhar somente o primeiro capítulo d’O que resta de Auschwitz, visando, também, estimular o interesse pela leitura integral do livro.

Nos livros escritos pelos sobreviventes encontram-se algumas justificativas sobre o desejo destes em continuarem vivos após a experiência que passaram nos campos nazistas (Lager). Dentre elas estão: o anseio de se tornarem uma testemunha, isto é, a série de pretextos que só mostram o intuito em permanecer vivo a qualquer preço e o desejo de vingança, de contar ao mundo tudo o que viu e experimentou nos campos. Contudo, na dificuldade e na vergonha de justificar sua sobrevivência alguns simplesmente se calaram após a libertação, já outros não conseguiram parar de falar sobre o assunto. Primo Levi (um italiano-judeu deportado para Auschwitz) é um desses últimos. Ele conta em seus livros que toda situação era propícia para narrar o que lhe acontecera. Depois começou a escrever sobre o assunto durante a noite. Primo Levi não queria deixar morrer a testemunha que existia dentro de si. Podia sentir-se envergonhado por ter sobrevivido, mas não por ter testemunhado.

No entanto, aparece um primeiro problema no caso do testemunho. A experiência em Auschwitz (e em outros campos) foi única, inédita, em tese, “inacreditável”. Os próprios soldados nazistas inclusive diziam que ninguém acreditaria nas poucas provas que, por ventura, restassem do evento, por conta do nível de absurdo ali vivenciado. Mais do que isso, as verdadeiras testemunhas são os que tocaram o fundo, que experimentaram do início ao fim todo o processo de concentração e extermínio. Quer dizer, estão mortas e por isso não podem testemunhar. Primo Levi coloca que as verdadeiras testemunhas seriam os muçulmanos. Esse nome era usado pelos judeus para designarem seus companheiros de concentração que chegaram num estágio cultural altamente degradante em Auschwitz. Tanto que perderam os “valores humanos” e a posse da linguagem, ou seja, voltaram a uma espécie de vida nua (zoé), vida animal. Tal condição os impede de narrar, e configura a impossibilidade do testemunho em Auschwitz, tendo em vista que eles morreram (humanamente) antes de terem uma morte corporal. Hurbinek, um menino que foi levado ao campo com pouco mais de um ano de idade (e permaneceu lá até os três anos), não aprendeu a falar. O ambiente não proporcionava tal possibilidade. O som que o garoto emitia a noite (mass-klo ou matisklo) é uma palavra que ninguém no campo sabia o que significava (mesmo tendo várias nacionalidades e idiomas ali presentes) e talvez seja a palavra inventada, quer dizer, o testemunho que ainda é uma não-língua e descreve aquela situação. Disso não podemos precisar, pois Hurbinek (nome atribuído ao garoto) morreu três dias após sua libertação pelos soviéticos. Por essas razões, o testemunho de Levi nunca se esgota, porque não encontra palavras suficientes para descrever o ocorrido, caminha muito mais na direção de um testemunho sobre a impossibilidade de testemunhar.

Agamben aponta a existência de dois termos em latim para a palavra “testemunha”. O primeiro é testis, que é um terceiro sujeito colocado para resolver uma situação (numa disputa, num processo) entre dois envolvidos. O segundo é superstes, que descreve aquele que viveu algo do princípio ao fim e pode, por isso, dar testemunho do evento ocorrido. Primo Levi é o segundo. E isso significa, por extensão, que seu testemunho não tem a ver com o estabelecimento dos fatos tendo em vista um processo jurídico, pois ele não é “neutro” para tal, não é um testis. Por isso, não é o julgamento que lhe importa, tampouco o perdão. Ele diz que não tem autoridade para tal. Só lhe interessa o que torna impossível o julgamento, a “zona cinzenta” onde as vítimas se tornam carrascos, e os carrascos vítimas. “É sobretudo a respeito disso que os sobreviventes estão de acordo: ‘vítima e carrasco são igualmente ignóbeis; a lição dos campos é a fraternidade de abjeção’” (AGAMBEN, 2008, p. 27). Chama atenção o cuidado que Levi tem de não excluir os muçulmanos dos seus relatos (diferentemente do que fizeram outros sobreviventes) e nem de julgar os que participaram da execução, de não dizer que eles não eram humanos, de não dizer que eles eram monstros e também de não aceitar que sua sobrevivência tenha sido uma escolha divina. Essa é ética de Levi, de não excluir ninguém e não misturá-la com o Direito.

Giorgio Agamben, filósofo italiano (1942)
Agamben vê que o Direito causou um problema na compreensão do nazismo porque ao emitir um julgamento quis esvaziar a questão. Ele acredita que esse fato ocorreu por uma confusão cultural entre categorias éticas e jurídicas, ou teológicas e jurídicas. É necessário, portanto, a compreensão de que a questão factual não pode ser reduzida à questão jurídica. Pois, a finalidade da norma é produzir julgamento; este, porém não tem em vista nem punir nem premiar, nem fazer justiça nem estabelecer a verdade. O julgamento é em si mesmo a finalidade, ou seja, autorreferente. O julgamento é o produto de um processo construído por provas, testemunhos e evidências (acumulados e validados) que constituem sua própria história, sua própria verdade; fora disso nada mais há. “Por isso [dentro do processo que tem natureza autorreferencial] execução e transgressão, inocência e culpabilidade, obediência e desobediência se confundem e perdem importância” (p. 28); estas estão para além da pena emitida (ou como extensão) do/pelo julgamento.

Eichmann (1906-1962)

O filósofo reitera que responsabilidade e culpa são termos jurídicos e que historicamente migraram para o terreno da ética, gerando uma confusão sem tamanho. “O verbo latino spondeo, do qual deriva nosso termo ‘responsabilidade’, significa ‘apresentar-se como fiador de alguém (ou de si mesmo) com relação a algo perante alguém’. Sendo assim, na promessa de matrimônio, pronunciar a fórmula spondeo significa para o pai empenhar-se em oferecer ao pretendente, como mulher, a própria filha (que, por isso era chamada sponsa) ou em garantir uma reparação se isso não acontecesse” (p. 31). Responsabilidade não é um gesto nobre e luminoso, nem ético, mas simplesmente o fato de poder atribuir culpa a alguém que não saldou uma dívida jurídica. Por isso, no direito romano não existe imputabilidade a respeito de si, somente a outrem. Sob essa confusão, Adolf Otto Eichmann, tenente-coronel da SS (esquadrão da elite militar no nazismo), durante o julgamento que desencadeou seu enforcamento, assumiu sua culpa perante Deus, mas não à lei; porque lhe parecia um gesto eticamente nobre. O suicídio de alguns soldados nazistas configura um ato similar, no qual buscam fugir ou isentar-se da culpa jurídica. Entretanto, assumir a responsabilidade por um ato cometido só tem sentido no âmbito jurídico, pois a ética, como diria Spinoza é a doutrina da vida feliz, que não conhece nem culpa, nem responsabilidade.

Todavia, num gesto oposto ao de Nietzsche (além do bem e do mal), Levi deslocou a ética para um lugar aquém donde estamos a pensá-la: para a zona cinzenta. Onde o sub-homem nos interessa mais do que o além-do-homem. Após a experiência dos campos não dá mais para entender a ética nos limites da velha dignidade, de um caráter indefectível, de uma coerência irreparável, tampouco tangenciada pelo nomos que rege a polis. A lei de Auschwitz era ao mesmo tempo rígida e aleatória, os vagões que levavam os deportados abriam duas portas, uma para os campos de trabalho, outra para as câmaras de gás. Não havia informação e nem separação dos “melhores” neste momento. Os que ousavam entender o que acontecia ali ou enfrentavam com coragem heroica a situação assoladora ou morriam antes de obter respostas e resultados. Talvez daí venha o sentimento de vergonha de Primo Levi e de outros sobreviventes que escolheram e resistiram conviver com o lado mais cruel do humano que também estava neles – estava nessa zona cinzenta que une os carrascos e as vítimas.

A figura extrema da zona cinzenta é o Sonderkommando. Um grupo de judeus, escolhidos pelos agentes da SS, encarregados da execução de seus companheiros. “Eles deviam levar os prisioneiros nus à morte nas câmaras de gás e manter a ordem entre os mesmos; depois arrastar para fora os cadáveres, manchados de rosa e de verde em razão do ácido cianídrico, lavando-os com jatos de água; verificar se nos orifícios dos corpos não estavam escondidos objetos preciosos; arrancar os dentes de ouro dos maxilares; cortar o cabelo das mulheres e lavá-los com cloreto de amônia; transportar depois os cadáveres até os fornos crematórios e cuidar de sua combustão; e, finalmente, tirar as cinzas residuais dos fornos” (AGAMBEN, 2008, p. 34). Ter organizado o Sonderkommando foi o delito mais demoníaco do nazismo, pois embaralhou o papel das vítimas e dos algozes, mostrando o sub-humano em cada um de nós.

Um dos sobreviventes que participou do “Esquadrão Especial da Morte” em Auschwitz conta que, durante uma pausa do trabalho, assistiu a uma partida de futebol entre os soldados da SS e os membros do Sonderkommando. Para Agambem essa partida não foi uma pausa de humanidade em frente aos portões do inferno, mas pelo contrário, esse momento de normalidade é o extremo horror do campo de concentração e extermínio. Essa “partida nunca terminou, é como se continuasse ainda, ininterruptamente. Ela é o emblema perfeito e eterno da ‘zona cinzenta’ que não conhece tempo e está em todos os lugares’. Dela provém a angústia e a vergonha dos sobreviventes [...]. Mas dela também provém a nossa vergonha, de nós que não conhecemos os campos e que, mesmo assim, assistimos, não se sabe como, àquela partida que se repete em cada partida dos nossos estádios, em cada transmissão televisiva, em cada normalidade cotidiana. Se não conseguirmos entender aquela partida, acabar com ela, nunca mais haverá esperança” (p. 35).

Referência: 
AGAMBEN, Giorgio. A testemunha. In:______. O que resta de Auschwitz. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 25-48.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Foucault nas grades do saber (sobre uma escola de prisão)

Há tempos que não escrevo aqui, mas é que depois de terminada minha experiência de professor na penitenciária, me cobrava algum post sobre tal. Então lá vai!

Por todo esse tempo que trabalhei lá sempre via as pessoas me indagarem com certa curiosidade escrutinada e às vezes maldosa sobre como era dar aulas dentro de uma cadeia. Muitas professoras que lá trabalham fazem pesquisas acadêmicas na área de pedagogia sobre o assunto. E pelo menos uma ou outra me perguntara se nunca tive vontade de fazer uma “análise histórica” sobre a escola na penitenciária. Quando dizia a alguém que trabalhava na cadeia sempre esperava as reações mais inusitadas. A única pessoa que tratou como algo corriqueiro foi um doutor professor da faculdade de educação da UFU durante a apresentação de um trabalho. Achei interessante, sobretudo a interrupção dele no alvoroço causado pelos demais apresentadores que ali estavam: algumas doutorandas, mestrandos e alunos da graduação. Depois fiquei um pouco neurótico tentando imaginar por que ele foi tão diferente. Talvez porque ele era um único a verdadeiramente achar normal, o que confesso não ser para mim. Mas não no sentido de espanto e até de indignação comum das pessoas: “Como? Lá dentro tem uma escola?” ou: “Por que você dá aulas para esses vagabundos? Eles não merecem!”  Pois é, essa última parece frase de um carcereiro, mas é de alguém da família. Mas no fim das contas a primeira frase se parece muito com a segunda. Todas as duas com seus devidos preconceitos e desconhecimentos. Bem iguais aos meus quando entrei lá.

Essa coisa de ter uma escola dentro da cadeia é ideia política de gênio. Ah! As professoras leitores de Paulo Freire e amantes de Gabriel Chalita dizem: “Que coisa maravilhosa! Agora eles vão ter a importância que nunca tiveram, terão oportunidades de andar no caminho certo e do bem”. Oh céus, dê luz a essas criaturas! Aliás, dê um pouco de trevas para enxergarem a penumbra que lhes embaça as vistas! Não é preciso colocar aqui as pseudo-comprovações estatísticas para mostrar que as escolas têm reduzido drasticamente as rebeliões dentro dos sistemas penitenciários. Por quê? As práticas disciplinares das escolas tornam os alunos (presos) mais dóceis. Sem que seja preciso bater, gritar ou algemar. É muito mais eficiente, o poder os penetra e a resistência é mínima agora, pois eles “escolhem” obedecer às normas, às regras, aos ritos escolares para estudarem. Tudo apenas com o uso de uma arma: o saber. Ou seria o mecanismo de poder-saber como Foucault andou dizendo por aí. Esse saber que é tido como uma dádiva divina do grande arquiteto que tudo faz, presente dos iluministas – alguns escravocratas - para nós, fonte de conhecimento, também é frequentemente utilizado nas relações de poder como uma prática das mais inocentes e bem-intencionadas, e por isso perigosas.

Outro dia discutia com um amigo, o Rodolffo, que também dá aula lá, sobre a eficácia desse método. Aliás, chegamos até a cogitar a possibilidade de Foucault estar corretíssimo quando comparou as escolas, os presídios, os hospitais e os hospícios, no sentido de que essas instituições sociais servem para “normalizar”, homogeneizar, docilizar os corpos e os indivíduos, os tornarem aptos para o trabalho e para conviverem em sociedade sem perturbação da ordem pública. É interessante e bastante incômodo ouvir isso, pois coloca lado a lado os profissionais integrantes (que não gostam de ser comparados uns aos outros) destas instituições sociais e seus respectivos saberes: os professores, os policiais/os carcereiros, os médicos e os psiquiatras – a burrice/a ignorância, a corrupção/a desordem, a doença e a loucura: são seus domínios e suas autoridades. Ou seriam suas pragas? É evidente que as coisas “boas” que esses conhecimentos científicos nos trouxeram vieram atreladas a outros “males”. Ou ainda além: que esses males são a condição sem a qual não seria possível utilizar o saber para fazer do outro um objeto: de pesquisa, de ressocialização, de recuperação, de civilização. O que dissemos pareceu de maneira bem semelhante àquela descrita por Foucault, quando se deu o nascimento da prisão coincidindo exatamente com o crepúsculo do "Século das Luzes" e da época de surgimento e de apelação para os direitos humanos. Ou seja, enquanto todos pensavam naturalmente em libertação e desenvolvimento, o filósofo mostrou a ascensão das tecnologias de poder agora sofisticadamente colocadas. 

Talvez seja por isso que ainda não quis pesquisar “cientificamente” nada sobre qualquer aspecto da cadeia ou sobre a escola dentro da cadeia. Porque me parece que nós doutores dos saberes vestimos nossos jalecos brancos, calçamos nossas luvas higienizadas descartáveis e empunhamos nosso microscópio (que no caso do cientista humano é o método) para entrar no laboratório pronto para dissecarmos as cobaias e depois de realizados nos desfazermos delas junto com nossas luvas sujas. Um dia ao sair de sala, vi dezenas de estudantes de direito observando as celas com seus professores universitários e resguardados pelos diretores da segurança, olhavam como se estivessem bem ali em um zoológico, e não é de se estranhar que de fato estavam mesmo. Foi possível ouvir alguém da segurança dizer: “Falam que cadeia só tem preto e pobre, mas aqui é diferente”. Sim, aqui temos macacos também, eu reiteraria! [Inclusive guardando as celas].

Não que eu não tenha a minha curiosidade zoológica sobre eles também. Viram como a palavra “eles” soou como se fossem alienígenas? Pois então, se os tratamos assim porque eles devem nos ver como iguais? Seriam eles melhores que nós? Acho que não. São iguaizinhos! E eu acho que é isso que nos causa mais horror e indignação diante de um crime. Não é o quanto aquilo está longe de nós, mas o quanto aquilo poderia ser feito por nós. Nietzsche uma vez disse que é necessário ter cuidado ao expulsarmos todos os demônios de nós para não expulsar nós mesmos.

O que gostaria de compreender melhor ali dentro, é o modo como as pessoas que escolheram ou foram escolhidas pelo mundo do crime constroem suas identidades a partir dos objetos culturais que fabricamos para eles. Os adjetivos que lhes atribuímos são muitas vezes assumidos e ressignificados. É desta maneira que constituem suas subjetividades. O rótulo de bandido deixa de representar vergonha para se tornar status e autoafirmação em determinados locais. Como é possível mesmo acreditando que roubar é errado e que o caminho dos pecadores é o inferno ainda conseguem encontrar uma base legítima para se chamarem de ladrões e mesmo assim acharem que estão do lado do bem?  E como constroem as máscaras que utilizam para atuarem em espaços sociais diferentes? De que maneira fazem a operação personal para serem bons pais, bons maridos, bons alunos [bom no sentido do que faz bem feito], discutirem futebol, assistir novelas, cantar “ai se eu te pego” e mesmo assim forjarem sua postura “profissional” irredutível quando devem lidar com um inimigo ou devedor? Seriam também bons ladrões - entendendo sob o mesmo sentido utilizado?

De que maneira suas subjetividades religiosas são constituídas? E o quão religiosos são! Às vezes mais do que nossas tias do interior. São cristãos. Assim como o apóstolo matador de cristãos (Paulo) se tornou. “Amai o próximo como a ti mesmo!” Somos os próximos dessas pessoas? Por mais que sejamos, nós mesmos não queremos ser. E eles entendem isso.

Li antes de escrever:
CARVALHO, A. F. de. História e subjetividade no pensamento de Michel Foucault. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. USP, São Paulo, 2007.
FOUCAULT, M. Estratégia, poder-saber: coleção ditos e escrito IV. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel. Ramalhete. Petrópolis, Vozes, 1987.
NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Curitiba: Editora Hemus, 2002.
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