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sábado, 2 de julho de 2016

Como usar o terrorismo para manter uma ditadura: Assad e a Síria


“Se Gandhi passasse três meses na Síria, ele seria um extremista jihadi”.
(Muhammad Habash)


Amjad Rasmi é um premiado cartunista jordaniano que trabalha para o periódico árabe Asharq al-Awsat cuja matriz localiza-se em Londres. Suas charges são geralmente sátiras a elementos da hipermodernidade, como as redes sociais, e também sobre questões políticas relacionadas ao Oriente Médio. Meses atrás ele publicou o cartum postado aqui ao lado do texto, fazendo uma homenagem (e uma paródia) à obra “Saturno devorando um filho”, pintada por Francisco de Goya no início do século 19. O trabalho prefigura uma crítica ao regime do ditador sírio Bashar al-Assad no contexto da guerra civil que se desenrola na região desde 2011, quando eclodiu a chamada “Primavera Árabe”. Assim que bati o olho me lembrei do livro que li ano passado a respeito do Estado Islâmico e sobre o qual escrevi no post anterior. Isso porque uma das teses principais deste livro é que o terrorismo na Síria, inclusive a atuação decisiva e brutal do Estado Islâmico na guerra, bem como o acirramento do sectarismo étnico-religioso, tem como um de seus principais responsáveis o governo de al-Assad. Segundo os jornalistas Hassan Hassan e Michael Weiss, o ditador sírio soltou deliberadamente inúmeros prisioneiros perigosos pouco depois do início das revoltas contra sua ditadura. Seu intuito teria sido o de chamar atenção e conquistar a ajuda das autoridades internacionais para a sustentação do governo, tendo em vista que o terrorismo agora estaria misturado a inúmeros grupos insurgentes não-terroristas, como o Exército Livre da Síria e o YPG (Unidades de Defesa do Povo) – o primeiro formado por ex-combatentes do Estado e o último composto por uma parcela significativa de mulheres curdas. Isto é, trata-se nada mais do que uma estratégia de Estado contra uma deposição como houve com outros ditadores recentes no mundo árabe.

Na mitologia greco-romana, Saturno (ou Cronos) é o deus-titã que devora seus filhos assim que nascem. A prática de Saturno vem do medo da realização de uma profecia feita logo após ele próprio ter matado e deposto seu pai, um deus autoritário (Céu, Urano) que, por sua vez, enterrava seus filhos no ventre da esposa (Gaia, Terra) para que eles não viessem à luz. Ou seja, trata-se de uma mitologia cíclica sobre deposições e substituições (Cf. GRIMAL, 1982). Mas não, não é o caso de Bashar al-Assad. Ele não teve que depor nem tampouco matar o pai. Nem física nem simbolicamente. De semelhança com a mitologia eles só têm o autoritarismo. Hafez al-Assad foi um general das Forças Armadas e, após um golpe de Estado, governou a Síria de 1971 até 2000, quando morreu de infarto. O médico oftalmologista Bashar al-Assad o sucedeu no governo, onde está até hoje. Pai e filho são do Partido Baath. Cercado por teocracias, o partido pretende-se secular e foi criado sob influência do socialismo de meados do século 20 e defendia a união de todos os povos árabes sob um único Estado, o pan-arabismo. Além disso a família Assad é alauita, isto é, pertencem ao grupo étnico-religioso dentro do xiismo islâmico que, apesar de compor apenas 13% da população na Síria, detém a liderança política a mais de quarenta anos, como se pode ver.

Tudo ia muito bem, tudo ia muito bom, pensava Assad mesmo após estourar as revoltas no norte da África e adjacências – primeiro na Tunísia, depois Argélia, Jordânia, Egito e Iêmen. Ele deu uma entrevista em janeiro de 2011 sem demonstrar preocupação de uma revolução atingir seu domínio. Foi então que sírios começaram a se manifestar em apoio às insurgências fora de seu país mas ali no meio havia um cartaz indicando a esfera doméstica, “o povo sírio não será humilhado”, dizia. E tudo entrou em combustão quando prenderam um grupo de garotos que fazia protesto em sua escola com pichações pró-democracia, uma diretamente dirigida ao médico-presidente sírio na qual se podia ler: “É sua vez, Doutor!”. A situação piorou quando os pais dos garotos reivindicaram a soltura dizendo “estes são nossos únicos filhos”, ao que foram respondidos por um general, primo de Assad, “pois tragam aqui suas mulheres que faremos outros filhos nelas”. Não ficou só na provocação. De fato, órgãos internacionais registraram inúmeros estupros e gravidezes indesejadas resultantes da violência de soldados de Assad {clique aqui para ler a citação}. Daí em diante o protesto se espalhou, seguido por repressão do Estado com prisões, torturas, choques, estupros e execuções. Mais de 150 mil foram presos. Mais de 200 mil morreram desde então, inclusive por vias de armas químicas. Com medo de ser derrubado, Assad, assim como Saturno, passou a devorar seus próprios filhos: o seu povo.

Contudo, o terrorismo de Assad, de acordo com o que escrevem Hassan e Weiss, não é feito apenas diretamente pelas mãos de seus soldados. Há também, como mencionei no início do post, um estratagema cruel. O ditador usaria uma tática segundo à qual você deve prever um incêndio em sua casa e logo depois queimá-la para acertar a previsão. Não à toa os combatentes e apoiadores do presidente utilizem a máxima “Assad, ou queimamos o país”. Pois é bem isso que ocorre. Além da campanha de fome imposta, provocada quando o exército estatal sitia uma cidade, há outros mecanismos de morte em funcionamento.

Mesmo o Partido Baath promovendo em tese um governo secular e apesar da maioria numérica de sunitas estar representada no governo (a esposa de Assad é sunita, bem como alguns de seus generais e ministros), existe alguns fatores complexos no contexto de guerra civil e envolvimento internacional. Há a provocação a sunitas para que estes cometam atos extremos, assim, afastando-os dos demais (alauitas-xiitas e cristãos) e provocando a preocupação da comunidade internacional sobre um possível extermínio das minorias no país. Deste modo o sectarismo da guerra é tanto fruto do domínio de uma seita minoritária sobre uma maioria rebelde, como da disputa muçulmana sobre a linhagem do Profeta (mais de 70% da população é sunita). Este jogo precisa ser alimentado como estratégia de poder. Desde que estourou a guerra civil, o governo começou a pagar bandidos conhecidos como Shabiha (em sua maioria alauitas) para disseminar o crime e o terror. As Nações Unidas comprovaram o esquema. Os Shabiha durante a revolução entravam nas casas cometendo diversas atrocidades sem serem importunados pela polícia, enquanto o governo se dizia sem envolvimento. Devido a essa série de coisas os próprios aliados e combatentes de Assad tem o abandonado, se integrando a forças insurgentes como o Exército Livre da Síria.

Neste contexto, de acordo com Hassan e Weiss, o Irã desempenha uma função semelhante à dos Estados Unidos no Iraque, fazer ocupação militar e manter a união do exército nacional sírio. Alianças e financiamentos com grupos terroristas têm sido prática comum do governo assadista para se manter no domínio. As Forças Quds e o Hezbollah libanês, por exemplo, teriam sido responsáveis por treinar exércitos para combater os rebeldes e recuperar territórios perdidos, devido ao enfraquecimento do exército nacional.

Diante de pressões por reformas em 2011, Assad promoveu anistia para alguns presos políticos. Mas estes foram escolhidos a dedo para alimentarem o caos da situação. A maioria é composta por salafistas-jihadistas que, logo após saírem da prisão, foram compor as fileiras de al-Baghdadi no Estado Islâmico. Em janeiro de 2014, o Major-general Fayez Dwairi, um ex-oficial de inteligência militar sírio, afirmou ao jornal baseado em Abu-Dhabi, o National:

“ – Muitas das pessoas que estabeleceram o Jabhat Al Nusra foram capturadas pelo regime em 2008 e estavam na prisão. Quando a revolução começou, eles foram soltos seguindo o conselho de oficiais da inteligência síria, que disseram a Assad: ‘eles farão um bom trabalho para nós. Há muitas desvantagens ao deixá-los partir, mas há mais vantagens, pois convenceremos o mundo que estamos enfrentando o terrorismo islâmico’”. Outro ex-soldado, que trabalhou doze anos no próprio Diretório de Inteligência Militar da Síria, disse algo no mesmo sentido:

“ – O regime não apenas abriu a porta das prisões e deixou os extremistas saírem, ele facilitou o seu trabalho, em sua criação de brigadas armadas – disse o oficial de inteligência, um alauita que havia desertado de sua unidade na região norte da Síria no verão de 2011, ao National. – Isto não é algo de que ouvi rumores a respeito, na realidade ouvi as ordens, eu vi isto acontecendo. Essas ordens vinham do quartel general [da Inteligência Militar] em Damasco. O regime também disponibilizou uma abundância de armas para estes extremistas em Idlib e Deraa, acrescentou o oficial” (WEISS; HASSAN, 2015, p. 140).

Saturno de Goya
Segundo a mitologia, depois de devorar seus cinco primeiros filhos, Saturno é deposto pelo sexto, Júpiter (Zeus para os gregos). Mas ele recebe ajuda para tal tarefa. É sua mãe Cíbele (Réia) que, cansada de ver seus filhos mortos, ludibria o marido, fazendo-o engolir uma pedra no lugar do corpo do recém-nascido. Já crescido e com ajuda de seus irmãos, regurgitados após Saturno tomar um veneno, Júpiter luta contra seu pai e contra seus aliados titãs, vencendo-os e se tornando o deus mais importante do Olimpo. O mito de Saturno, cujo nome grego é Cronos, se confunde com a metáfora do tempo cronológico que destrói aquilo que acabou de gerar, transformando ininterruptamente o presente em passado. O fim de Cronos seria o fim dos tempos? Coincidentemente Bashar al-Assad, em sua primeira entrevista a uma mídia ocidental após o início dos protestos, descreveu o cenário sírio como apocalíptico. Talvez seja o fim mesmo. Mas sob a perspectiva do próprio Saturno. O fim da ditadura da família Assad e o despoletar de uma outra era para o povo sírio. Mas tomara que não precisem de um outro deus autoritário para fazer este duplo trabalho hercúleo: destronar Saturno e reconstruir o país com os escombros que sobraram. A democracia agradeceria.

Referências:

GRIMMAL, Pierre. A mitologia grega. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1982.
WEISS, Michel; HASSAN, Hassan. Estado islâmico: desvendando o exército do terror. São Paulo: Seoman, 2015.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Estado Islâmico: do xeique dos chacinadores ao califado de Baghdadi II

Publicado ano passado, e já prontamente traduzido para o português, o livro Estado Islâmico: desvendando o exército do terror se tornou um dos principais trabalhos informativos de fôlego sobre o assunto no Brasil. Os atentados de novembro ocorridos em Paris tornaram o livro ainda mais procurado, sobretudo, por conta da escassez de obras no mercado. No post que se segue faço um breve resumo do eixo principal do trabalho cujo objetivo é responder à questão sobre o nascimento do Estado Islâmico e como este conseguiu causar tamanho estrago em tão pouco tempo. O livro é assinado por dois autores. Um é o analista político sírio Hassan Hassan, morador de Albu Kamal (ou al-Bukamal), cidade cujo aeroporto foi anteontem retirado das mãos do Estado Islâmico (EI) pela oposição síria apoiada pelos Estados Unidos (trata-se de uma cidade fronteiriça ao Iraque). E o outro é o jornalista americano Michael Weiss, que trabalhou na cidade síria de Aleppo, antes de ser tomada pelo EI. Ambos são funcionários do New York Times. A linguagem é jornalística. E neste sentido o trabalho privilegia descrições de fatos e redes de relacionamentos, bem como personagens, e deixa como coadjuvantes as interpretações mais densas, diferentemente de estudos acadêmicos. As principais fontes são entrevistas com ex-oficiais de contraterrorismo, diplomatas que rastrearam e enfrentaram o Estado Islâmico, dissidentes do grupo (uma valente professora de Raqqa, por exemplo) e agentes dormentes do EI no Ocidente.

Origem e expansão do Estado Islâmico

A pergunta da imprensa internacional – feita logo após o atentado contra os cartunistas da revista Charlie Hebdo – a respeito de onde teria surgido o Estado Islâmico, pareceu estranha aos olhos dos autores. Afinal, se havia algo que ao menos o governo estadunidense conhecia bem desde sua invasão ao Iraque em 2003, era justamente o Estado Islâmico. Talvez sob outro nome. Mas lá estava ele. O Estado Islâmico não surgiu do nada, apenas se modificou, se aprimorou. Entre essas “fases” estão o Tawhid wal-Jihad, a al-Qaeda no Iraque (AQI) e o Conselho Shura Mujahidin. É isso. O Estado Islâmico nada mais é do que um grupo dentro da al-Qaeda, que em 2014 dela se emancipou. Sobre a al-Qaeda todos conhecemos. Foi a organização criada e liderada por Osama bin Laden, ele mesmo treinado pelos americanos da CIA para lutar e expulsar os soviéticos do Afeganistão, nos anos 80, durante a Guerra Fria.

O fato do líder da al-Qaeda ter se voltado contra seus apoiadores e mesmo financiadores, sendo o mentor do atentado do 11 de Setembro, é algo pouco complexo se comparado ao contexto de guerra civil na região. Não dá simplesmente para traçar uma linha e colocar xiitas de um lado e sunitas de outro. O imbróglio é bem mais intrincado. Há o problema sério do sectarismo religioso. Mas não se trata tão somente de uma disputa milenar sobre os sucessores do Profeta. A coisa também envolve um tipo de nacionalismo étnico, de regionalismo ou tribalismo e ideologias políticas. Temos curdos, alauitas, yazidis, assírios, turcomanos, cristãos, sunitas salafistas, baathistas, saddamistas... e por aí vai. Hoje são vários grupos lutando contra governos constituídos e entre si. Mas vamos ao prato principal, a gestação do Estado Islâmico (EI).

O surgimento do EI se dá através do entrecruzamento da trajetória de quatro homens: Abu Musabi al-Zarqawi (seu fundador), Osama bin Laden (fundador da al-Qaeda), Abdullah Yusuf Azzam (clérigo escritor do manifesto aos mujahidin) e Ayman al-Zawahiri (importante emir egípcio substituto de bin Laden). O perfil atual do grupo tem tudo a ver com o jordaniano Zarqawi [1966-2006]. Este era um jovem problemático, realizador de assaltos e outros crimes, tendo sido preso bem cedo. Para “consertá-lo” sua mãe o colocou num colégio religioso. E foi daí que se transformou num fundamentalista, resolvendo por fim ir lutar contra os soviéticos no Afeganistão com objetivo de expulsar os comunistas ateus da terra sagrada. Porém a verdade é que Zarqawi nem chegou a combater os soviéticos, ao chegar no local de batalha o Exército Vermelho já havia sido derrotado. Contudo foi nesta viagem que conheceu Zawahiri e bin Laden. Enquanto o pediatra egípcio Zawahiri [1951-ainda vivo] foi um dos precursores a misturar perigosamente salafismo e takfirismo (ou seja: um movimento ultraconservador que defende uma espécie de volta às origens do Islã e aplicação implacável da lei islâmica, a sharia; e a prática de denunciar muçulmanos de outros seguimentos como apóstatas), o segundo, o saudita Osama bin-Laden [1957-2011], tinha bastante grana e financiava as atividades pedagógicas de jornais e revistas do primeiro e também de Azzam [1941-1989], um teólogo palestino conhecido como pai da jihad global e morto por um carro bomba no fim da década de oitenta.

Devido a seus envolvimentos com atentados, Zarqawi foi preso em 1994 em Swaqa, em seu país, a Jordânia. A prisão foi um aprimoramento para seu fundamentalismo: o tornou brutal, focado e decisivo. Ele obteve poder e influência na cadeia. Aliás, já vale mencionar, as prisões no Oriente Médio são descritas como universidades do terror. Zarqawi conseguiu recrutar vários jihadistas e passou a ser considerado um “emir”. Quando o rei jordaniano Abdullah I promoveu anistia aos presos políticos ao estabelecer um acordo com a Irmandade Muçulmana (organização fundamentalista que existe pelo menos desde 1928), Zarqawi foi solto em 1999, sem cumprir integralmente sua pena. Logo fugiu para o Afeganistão e reencontrou bin Laden, que inicialmente não gostava dele, pois tratava-se de um sujeito extremamente prepotente, antixiita e intelectualmente pouco sofisticado para o líder saudita. De toda forma, o aceitou por questões pragmáticas. Zarqawi conhecia muita gente e tinha contatos essenciais no Levante. Bin Laden financiou Zarqawi para ser o comandante de um campo de treinamento no deserto do Afeganistão formando a célula Tawhid wal-Jihad (“Monoteísmo e Guerra Santa”). Foi ele quem formou os dois idealizadores dos ataques ao World Trade Center. Pelas práticas brutais empregadas, o intitularam “o xeique dos chacinadores”.

Assim que os Estados Unidos entraram em guerra no Afeganistão, em 2001, Zarqawi fugiu do país levando consigo uns 300 militantes em direção ao Irã. Por onde passava ia recrutando novos guerreiros. Seu objetivo era travar a jihad no Iraque, seguindo inspiração de um soberano do século 12, Nur al-Din, que governou Aleppo e Mosul e foi celebrado como herói da Segunda Cruzada. O governo do Irã estava interessado em controlar o Iraque e apoiou taticamente Zarqawi, mesmo sendo ele um antixiita – aspecto que ficaria explícito durante sua campanha em terras iraquianas, quando ele “notabilizou-se por seu foco em matar ou atormentar a maioria xiita da população do país; isto, ele acreditava, criaria um estado de guerra civil que forçaria os sunitas a recuperarem seu poder e prestígio perdidos em Bagdá e restaurarem a glória de Nur al-Din”, escrevem Weiss e Hassan (2015, p. 31). A estratégia de Zarqawi pode parecer estranha para nós, ocidentais, mas ela é muito típica destes conflitos, a ideia é fustigar uma reação violenta dos adversários para que os aliados adormecidos (no caso, o povo sunita) integrem exércitos para exterminá-los.

Zarqawi começou seus ataques no Iraque em 2003, inclusive matando um diplomata brasileiro (Sérgio Vieira de Mello) que trabalhava para a ONU. E seguiu matando “inimigos distantes” e também “inimigos próximos”, como o aiatolá xiita Baqir al-Hakin. Outra prática pioneira difundida por al-Zarqawi foram as decapitações televisionadas, sabendo da atenção que isso gerava no Ocidente. Conhecida como o inferno na terra para os soldados americanos, a cidade de Fallujah seria palco para a ascensão notória de Zarqawi. Na Primeira Batalha de Fallujah os drones americanos mataram apenas quatorze agentes da Tawhid wal-Jihad mas vários civis iraquianos, ou seja, a rede continuou praticamente intacta e agora aumentou sua força e seu apelo popular. Aproveitando-se disso Zarqawi transmitiu publicamente seu voto de lealdade (bayat) a Osama bin Laden e a organização mudou o nome para “al-Qaeda no Iraque”. Um ano depois disso, houve a Segunda Batalha de Fallujah, vitimando cerca de 2.200 insurgentes e 70 marines, outros 651 ficaram feridos. A cidade ficou totalmente destruída. Bin Laden responsabilizou o governo Bush pela matança, “os EUA estavam lançando uma guerra total contra o Islã”, afirmou. A al-Qaeda ganhou em propaganda, trazendo milhares para integrar seus exércitos. A armadilha havia sido cuidadosamente preparada. Poucos dias após esta batalha, a cidade de Mosul foi parar nas mãos dos zarqawistas.

Desaparecido desde a Segunda Batalha de Fallujah, Zarqawi estava escondido a apenas a 14km de uma base americana em Bagdá, quando, em 2006, foi morto por um drone. Seu fim não foi o fim da al-Qaeda no Iraque que, a esta altura, já era uma rede internacional gigantesca e rica. O Conselho Shura Mujahidin, órgão criado pelo próprio Zarqawi para dirigir a AQI, apontou o egípcio Abu Ayyub al-Masri [1968-2010] como novo emir da franquia. Masri declarou que “a franquia fazia parte de um mosaico de movimentos de resistência islâmica nativos, que ele denominou como Estado Islâmico do Iraque” (p. 68). Ao indicar as áreas de atuação, o emir escolheu o líder: o iraquiano Abu Omar al-Baghdadi [1959-2010], o primeiro al-Baghdadi. Esta dupla iniciou uma política ambígua em relação à al-Qaeda Matriz que desembocaria mais tarde numa cisão. Pouco se sabe do passado de Baghdadi I, era um homem tão discreto que muitos duvidavam de sua existência. Na realidade, ao que tudo indica, Masri usava o "rosto" dele apenas para dar legitimidade a seu comando, pois enquanto um era estrangeiro, outro era iraquiano. Acontece que os jovens mujahidins se inspiravam muito mais em Baghdadi (também por ele ter se declarado “Emir dos Crentes”) do que em Masri. Ambos foram mortos em 2010, escondidos no subsolo de uma mesma casa.

O substituto, escolhido pelo Conselho da AQI, foi Ibrahim Awwad al-Badari [1971-vivo], que adotou o nome de guerra: Abu Bakr al-Baghdadi, ou seja, o segundo al-Baghdadi. Este sim mais conhecido. Foi membro da Irmandade Muçulmana na década de 80 e depois se tornou salafista, passando a defender também o takfirismo e o fratricídio contra os xiitas. Com ideias semelhantes a Zarqawi mas mais intelectualizado, Baghdadi II tem doutorado em assuntos islâmicos pela Universidade de Ciências Islâmicas de Bagdá. Ficou preso no Campo Bucca durante o ano de 2004 e inclusive atuou lá dentro como um imã aplicador da sharia. Este Campo Bucca é outra academia do jihadismo em forma de cadeia. Lugar onde os jihadistas conseguiam comida e proteção num contexto de guerra civil. E é também onde formam-se poderosas redes de contatos. O acordo SOFA em 2009 (sobre o status das forças americanas no Iraque) permitiu a soltura de inúmeros presos com o fechamento do presídio.

Após a morte de bin Laden, os homens de Baghdadi invadiram a Síria e tomam a cidade de Raqqa – chamada de o “Hotel da Revolução” por hospedar jihadistas estrangeiros com preço da expulsão da população local. Em 2013, o EI tenta se fundir à al-Nusra (a franquia da al-Qaeda na Síria) sob o nome de Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS, é a sigla em inglês). Daí aparece uma desavença entre os líderes das duas franquias, que Zawahiri (o então sucessor de bin Laden) é obrigado a tentar conciliar. O chefe da al-Nusra, um sírio sunita chamado Abu al-Jawlani, nega a fusão com Estado Islâmico. Zawahiri critica ambos e explica a geografia em que cada grupo deveria atuar. Para resumir, um na Síria, outro no Iraque. Baghdadi II simplesmente não aceita. Diz que Zawahiri está seguindo fronteiras artificiais inventadas pelo ocidentais (ele se referia ao Acordo de Sykes-Picot, feito após a Primeira Guerra para dividir o Império Turco-Otomano e que criou, entre outros países, a Síria e o Iraque). Acusação grave. Inicia-se uma guerra civil dentro da guerra civil. Em fevereiro a al-Qaeda rompe relações com o Estado Islâmico. No meio do mesmo ano, Baghdadi II se autoproclama califa do Estado Islâmico. E neste posto está até hoje.

Em resumo

Como o Estado Islâmico conseguiu atingir este status? Ora, notou-se que o grupo não surgiu do nada, que existia sob outras formas, atuando dentro de uma organização maior e mais antiga, a al-Qaeda. Mas há outros fatores imprescindíveis para sua eficácia.

(1º) Governos corruptos e grupos terroristas se retroalimentam. Um precisa do outro. O Irã incentivou e equipou os zarqawistas para lutarem contra o governo baathista secular de Saddam, ainda que agora pareça empenhado a ajudar a combater o Estado Islâmico devido a seu caráter sectário antixiita. O governo de Saddam também ajudou a al-Qaeda no Iraque nas insurgências contra os americanos. Muitos ex-generais de Saddam ou saddamistas revoltados com xiitas no poder do Iraque integram hoje as fileiras do alto escalão do Estado Islâmico, especialmente, para combater o governo do primeiro ministro al-Maliki, sucessor de Saddam “colocado” pelos EUA (ficou no cargo de 2006 a 2014) e que libertou inúmeros prisioneiros. O governo sírio de Bashar al-Assad foi outro colaborador na época da Guerra do Iraque. Foi através da fronteira síria que Zarqawi conseguiu penetrar no Iraque. Al-Assad queria desviar a atenção para seu vizinho. Tendo sofrido um recente atentado em seu principal aeroporto, a Turquia é outro país que fez vista grossa para terroristas do EI a fim de derrubar Bashar al-Assad e obstruir os combatentes curdos. Mas os Estados Unidos também têm sua parcela de culpa. Sem falar da desagregação provocada no Iraque numa campanha desastrosa que só fez acirrar os ânimos e maximizar o sectarismo étnico-religioso, os EUA retiraram suas tropas da região deixando inúmeros armamentos (de metralhadoras a tanques de guerra) nas mãos dos insurgentes, simplesmente porque levá-los de volta seria oneroso. Além disso, interessados em derrubar al-Assad fizeram vista grossa para atuações do EI no início da guerra civil da Síria.

(2º) O Estado Islâmico conquista alguma legitimidade nas regiões em que ocupa ao fazer funcionar os serviços básicos da cidade, aplicando a lei aceita pela maioria e trazendo um mínimo de normalidade num contexto de atroz guerra civil.

(3º) Conta com uma propaganda potente. Usando do Twitter à Daqib, sua revista de divulgação. Mas também com uma propaganda indireta feita pelo sensacionalismo da mídia internacional. Inspirados por essas mensagens, muitos jovens muçulmanos que não têm onde cair mortos em seus países natais, como Bélgica e outros, viajam para uma aventura a fim de fazerem alguma coisa importante na vida, pensam.

(4º) Por último, e mais importante, o grupo atua como organização religiosa (lembrando aqui que religião e política não se separam nessa cosmovisão), sim, mas também como uma máfia. Detém o controle de postos de petróleo, de contrabando de armas e outros, cobram impostos, estimulam o mercado cinza, recebem doações de diversas partes do mundo e negociam com políticos corruptos, até mesmo com aqueles considerados inimigos “próximos” ou “distantes”.

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Quer ler mais sobre o assunto? No próximo post escrevo sobre a relação curiosa entre o regime de al-Assad e o Estado Islâmico. Clique aqui para ler.

Referências:

WEISS, Michel; HASSAN, Hassan. Estado islâmico: desvendando o exército do terror. Trad. Jorge Ritter. São Paulo: Seoman, 2015.

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domingo, 27 de março de 2016

Os fantasmas da América Latina: Quijano e "imagens da história"

"A conquista do México", por Diego Rivera
Com o acirramento da crise política no Brasil começou a circular uma série de memes na internet cujos conteúdos relacionam-se à história e a memória coletiva. Por mais que possa parecer banal, é interessante refletir sobre alguns destes pois nos permitem acessar e compreender determinadas “imagens da história” que habitam o imaginário social (portanto o consciente e o inconsciente) não somente de pessoas comuns, mas também e até mesmo de estudantes e pesquisadores de história.

São inúmeras estas imagens da (ou sobre a) história. Algumas, embora suficientemente problematizadas e inclusive combatidas pelas teorias e técnicas de um profissional da área, pelo menos num ambiente formal como a universidade, afloram em momentos de debate político quando o objetivo de (con)vencer o outro substitui os argumentos racionais e complexos pela eficácia, às vezes obtida pelas vias emocional ou moral. É o caso da “história-essência”, evocada, por exemplo, no debate sobre a raiz etimológica de uma palavra, que no presente possui um outro significado, para desqualificar a fala do interlocutor. Temos assim a interdição da palavra “mulato” para designar um indivíduo mestiço, já que sua raiz vem de “mula” e em seu emprego original pretendia conotar pejorativamente alguém como “não puro”, “híbrido”. Estranhamente as ressignificações não contam neste caso, mesmo que tenha ocorrido isso com termos como “vadia” e “anarquista” (todos originalmente pejorativos).

Outras duas destas “imagens da história” recorrentes são a “história-cíclica” e a “história-memória/história-exemplar”. A “história-cíclica” baseava-se numa das concepções de tempo dos gregos antigos, assim, os homens mudavam, mas os “eventos estruturais” se repetiam. Também por conta deste pensamento, a história poderia servir como “mestre da vida”, uma espécie de manual para se orientar e agir no presente/futuro. Lembrar torna-se um imperativo! Daí um dos significantes possíveis para “verdade”, na Antiguidade Clássica, ser a palavra aletheia, isto é, o não-esquecimento. O último dos historiadores reconhecidos a defender a concepção de história cíclica foi o britânico Arnold J. Toynbee [1889-1975], diga-se, em sua narrativa fundamentalmente apocalíptica de suicídio ou fim das civilizações. Já a “história-exemplar” gozou de boa reputação durante séculos até ser contestada a partir do século 18 principalmente por meio de métodos de pesquisa advindos da filologia, como informa Koselleck (2006). Hoje vemos estas “imagens” em voga quando as pessoas se preocupam com (ou usam como artifício retórico) a repetição do Golpe de 1964, que precedeu a ditadura militar no Brasil – inclusive lançando mão de comparações forçosas entre elementos do contexto socioeconômico e de lideranças políticas de hoje e de outrora. “A história é o poço inesgotável do qual a água do exemplo jorra, a fim de lavar suas mazelas”, é a máxima que melhor caracteriza este exercício.

Seria ingênuo dizer que os acontecimentos são únicos, não se repetem e que a futurologia é uma ciência destinada ao fracasso? Estaria sendo óbvio demais se afirmasse aqui que a história é um estudo sobre o passado e que sua narrativa somente pode ser construída após os fatos? Fatos que, parafraseando Edward H. Carr (1996), não estão como peixes em cima do balcão da peixaria. Por conseguinte só podem ser (re)constituídos pelos pesquisadores quando acesso tiverem às fontes, qualificadas conforme sua quantidade e diversidade, bem como de acordo com as questões e críticas que podemos a elas fazer. Dito o básico, importa perceber que teoricamente a noção que abrange as três “imagens da história” citadas no post está diametralmente oposta à concepção que melhor caracteriza a história moderna, aquela de movimento, de transformação e mudança. No caso da “história-essência” parece mesmo que nada muda, vivemos como escravos de um eterno passado, atados ao mito da origem. No caso da “história-cíclica”, embora os eventos se desenrolem, não há nada de novo. Também estamos presos. E, por fim, na imagem da “história-memória” como mestra da vida, o passado está mais presente do que o próprio presente, é um trauma que nos impede de seguir adiante devido ao medo da repetição da dor e do dano.

Dois dos memes que viralizaram nestes últimos dias também nos remetem a imagens de imobilidade da história. Ambos se referem ao processo da colonização portuguesa sobre o Brasil e sua associação aos problemas do país. Um deles (extraído de um twitter) indica o caráter de amaldiçoamento devido ao genocídio dos povos indígenas e, o outro (uma legenda sobre o quadro “Desembarque de Cabral em Porto Seguro em 1500”), está no âmbito do mito da origem, do passado que não passa, da inevitabilidade histórica como bloqueadora de futuros. Apresento-os abaixo:

  
Cada um a seu modo me fez lembrar de um texto que me marcou durante a graduação. Chama-se Os fantasmas da América Latina e foi escrito pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano [1928-]. Passo a escrever sobre este agora.

A colonialidade do poder

A partir do conceito de “colonialidade do poder” já utilizado em trabalhos anteriores, Quijano defende a tese segundo a qual a relação de des/encontro entre Europa e América Latina permitiu constituir um novo tipo de poder cujo efeito até hoje é exercido sobre o mundo inteiro. Em outras palavras, “a conquista” ou “o descobrimento” da América pelos europeus alterou profundamente a dinâmica e o diagrama de poder das civilizações que viviam cá nestas terras, na medida em que interrompeu suas experiências históricas plurais. Bem óbvio. Mas além disso a configuração do poder também foi alterada na Europa (a ponto da própria ideia de Europa Ocidental fundar-se a partir daí!) e estendendo-se para o resto do globo. Todos estão cientes de que, com o des/encontro, a América passou a ser dependente e a Europa a possuir o controle. Porém a história baseada num ponto de vista eurocêntrico distorce a função da América Latina neste processo em que realidades históricas como “modernidade”, “globalidade” e “capitalismo mundial” foram produzidas – obviamente a contragosto ou em detrimento dos chamados latino-americanos mas sem os quais estas não teriam existido, segundo o sociólogo.

Desde então a América Latina é vista como “atrasada” por não ter desenvolvido as potencialidades atribuídas a algo essencialmente moderno. Tendo como pressuposto teórico a concepção de que as civilizações possuem sentidos históricos distintos, a análise de Quijano adverte que nosso “fracasso” se dá por duas razões: (1ª) nos foi imposta, eu diria “vendida”, a ideia de que somos iguais aos europeus ou que deveríamos seguir a trilha da evolução unilinear e homogênea por eles traçada, isto é, seguir seu modelo de sociedade para finalmente obtermos o sucesso; (2ª) o modo como foi produzida a versão da história hegemônica distorce a experiência histórica-social dos latino-americanos, impossibilitando-os de enxergar os fantasmas de seu passado e, mais do que isso, fazendo com que se vejam como inferiores em sua natureza material e cultural e não como vítimas de um conflito de poder. Seria necessário então convocar e lidar com nossos fantasmas para resolver os problemas que nos assolam.

Feito o resumo do texto nos dois parágrafos anteriores, passo a esmiuçar passagens que considero importantes. Quijano aborda a pedra fundacional do nosso continente desvelando como outros o seguinte: a produção histórica da América Latina foi a destruição de um mundo histórico e isso precisa ser levado em conta quando pretendemos produzir o sentido de nossa história. Para que o atual espaço social que vivemos pudesse ser o que é hoje, a América Latina, uma trituradora de culturas desintegrou padrões de poder e de civilização, exterminou em curto prazo mais da metade da população vivente (em torno de 50 milhões), eliminou não apenas portadores mas produtores de experiências daqueles povos: dirigentes, intelectuais, engenheiros, cientistas, artistas foram literalmente soterrados. A repressão material e subjetiva aos sobreviventes ao longo de séculos foi tamanha que os transformaram em camponeses iletrados, então explorados pelo processo europeu.

Ao novo padrão de poder produzido, a ideia de “raça” serviu como um elemento fundamental para seu funcionamento. Esta é a parte sofisticada da colonização, aquela em que a dominação necessita de sutilezas. A “raça” neste sentido tornou-se um modo de naturalização das novas relações de poder impostas aos sobreviventes daquele mundo em destruição. Como uma máquina de destruição de subjetividades, a toda a população sobrevivente foi imposta a identidade “índios” – a despeito da pluralidade existente. Ao contrário do que se pensa, não foram os “negros” as primeiras vítimas da racialização, mas os “índios”; para separá-los do “ibéricos” e ao mesmo tempo construir uma matriz homogênea de classificação em escala global [clique para ler a citação]. Isto mesmo. Pois em torno da ideia de raça foram se redefinindo e configurando outras instâncias de dominação já anteriores, como a de gênero. Desta maneira o primeiro sistema de classificação social global da história (“branco”, “índio”, “negro”, “mestiço”, etc.) foi produzido na América e imposto ao restante do planeta, assim como a nova nomenclatura geográfica do poder. Ademais, produziu-se também através da América Latina um novo sistema de exploração social: o controle do trabalho, de seus recursos e produtos direcionados a um mercado global, fazendo emergir o capitalismo mundial. Neste ponto há uma íntima relação entre colonialidade e globalidade. Ninguém em nenhum lugar do mundo poderia estar fora. Talvez mudar sua posição dentro do sistema, mas não ficar exterior.

A posição de superioridade da Europa é conquistada, de acordo com o sociólogo, devido à exploração desta sobre a América Latina, integrando, por seu turno, capital e modernidade. “O domínio colonial da América, exercido pela violência física e simbólica, permitiu que os conquistadores/colonizadores controlassem a produção dos minerais preciosos (ouro e sobretudo prata) e dos vegetais preciosos (no início principalmente tabaco, cacau e batata), por meio do trabalho não-remunerado de escravos ‘negros’ e de criados ou peões ‘índios’ e de seus respectivos ‘mestiços’”, escreve Quijano (2006, p. 70). Até a Revolução Industrial não se produzia na Europa ocidental nada com significativa importância para o mercado mundial, foi graças portanto ao processo de controle sobre a colônia e de exploração sobre o trabalho de “índios” e “negros” que esta conquistou uma posição destacada, como também concentrou benefícios comerciais e juntamente com eles manteve em seus países a mercantilização da força de trabalho local.

Conforme a narrativa de Quijano, por conta do aumento de poder da Europa ocidental e do processo de aburguesamento da sociedade, como viu-se em Espanha pelo menos a partir da expulsão de judeus e muçulmanos (para o autor a primeira “limpeza étnica” moderna), houve uma intensa disputa de poder entre os conquistadores (por espaço, corações e mentes) até mesmo contra a Igreja, mas também contra culturas locais-nacionais. Daí resultou, como estratégia de luta, a auto-identificação da Europa Norte-Central como “moderna”, representando aquilo que seria de mais avançado e novo na civilização humana. Este fato implicou que a Europa seria para a América o centro de desenvolvimento de capital e de modernidade/racionalidade, o verdadeiro modelo histórico a ser seguido. Isto é, além de poder, uma colonialidade do saber, de onde advém a principal perspectiva de produção do conhecimento. Esta está, por sua vez, em desencontro com nossa experiência histórica. Por quê? Ora, porque enquanto aqui até mil e quinhentos tínhamos uma co-presença de tempos históricos e formas heterogêneas de existência social de procedência histórica e geográfica distintas, a visão eurocêntrica de progresso ligada à modernidade e ao capitalismo, tem mais a ver com um radical dualismo (de civilização e barbárie) que se compõe de homogeneidade, continuidade, evolução unilinear e unidirecional.

Então passemos logo a identificar os fantasmas da história da América Latina: Identidade, Modernidade, Desenvolvimento, Democracia e Unidade. Estes seriam portanto elementos do poder e do saber impostos pelo lado mais potente da colonização e abraçados pelos latino-americanos para seu próprio infortúnio. Para que possamos andar com as próprias pernas precisaríamos deles nos livrar. E Quijano já verifica há algum tempo conflitos em torno dos mesmos e novos rearranjos. Primeiro, nas lutas antirracismo e o intercâmbio entre “cor” e “raça”. Em segundo, a tomada de consciência de que “modernização” quis significar nada mais do que “ocidentalização”, numa chave de leitura em que indígenas e africanos foram vistos como pré-modernos ou primitivos. Terceiro, a resistência dos sobreviventes ao defenderem o legado aborígene. Em quarto, o atrito relacional entre as várias versões do europeu: latinicidade, pragmatismo, espiritualismo, etc. E em quinto e último, movimentos indígenas e afro-latino-americanos colocando em questão a versão europeia de modernidade e de racionalidade para afirmarem suas próprias, bem como apresentando valores civilizacionais (por ex., reciprocidade, ética da solidariedade, etc.) enquanto alternativas a tendências predatórias do capitalismo atual.

Pitacos safados

A associação que fiz entre os memes de imobilidade histórica e o texto de Aníbal Quijano tratou-se de uma armadilha da memória (a minha mesmo). A impressão que havia ficado depois da leitura realizada lá pelos idos de 2009 foi a de que o texto de Quijano era extremamente pessimista e possuía uma “imagem da história” tão fatalista quanto os memes a respeito da colonização europeia. Mas me enganei ao relê-lo. O que há de comum entre as “imagens da história” apresentadas por ambos (memes e texto) é talvez o diagnóstico de que nossos problemas estão inextrincavelmente relacionados ao processo de colonização. Porém, enquanto subentende-se que os memes não apontam saídas a não ser aquela de devolver a terra para os “índios” e pedir desculpas (perspectiva que aliás nos coloca como “europeus”), Quijano dá pistas para nos livrarmos do embaraço das estruturas mentais (se quiserem, culturais) desenvolvidas e disseminadas pela colonialidade do poder.

A despeito de sua sofisticação teórica, penso que o ponto fraco do texto seja o de construir uma espécie de latino-americanocentrismo para digladiar com a perspectiva eurocêntrica da história. Quer dizer, não há dúvidas de que a conquista da América Latina e suas relações com a Europa contribuíram para constituir realidades históricas até hoje vivenciadas por todos, além de garantir a posição de soberania europeia por tanto tempo; porém, em alguns momentos, torna-se forçosa a apresentação de algum tipo de modernidade e de capitalismo como condições socioeconômicas irrealizáveis sem a América Latina (diga-se, sua exploração e as implicações disso). O enfoque nos chamados fantasmas históricos (desenvolvimento, unidade, identidade, modernidade e democracia) mostrando-os como vícios do capitalismo, inclusive de governos socialistas, é brilhante. Mas, por outro lado, perde a mão quando olha para um passado remoto buscando sepultar de vez tais fantasmas ao apresentar (como saídas?) os modos de vida e de pensamento das civilizações que aqui viviam quando chegaram os europeus. São mundos históricos infelizmente soterrados para sempre. É típico dos estudos pós-coloniais este tipo de perspectiva. Possui suas razões políticas e são legítimas. E neste sentido uma coisa esta área pode ensinar aos produtores de memes: a história é uma narrativa. Ninguém vai mudar o fato de que os europeus chegaram aqui por volta de 1500, nem que uma série de conflitos foi desencadeada depois disso. Entretanto a perspectiva para compreender estes eventos está aberta. Dentro desta margem de liberdade, os tipos de “imagens da história” que escolhermos construir vão nos fazer olhar para o futuro ou nos prendermos ao passado. O que queremos?

Referências:

CARR, Edward H. O que é história? São Paulo: Paz e Terra, 1996.
KOSELLECK, Reinhart. Historia magistra vitae – sobre a dissolução do topos na história moderna em movimento. In:______. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. São Paulo: Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2006, p. 41-60.
QUIJANO, Aníbal. Os fantasmas da América Latina. In: NOVAES, Adauto (org.). Oito visões da América Latina. São Paulo: SENAC, 2006, p. 49-85.
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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Papai Noel à fogueira: um ensaio de Lévi-Strauss

Fundador da antropologia estruturalista, o francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009) é um dos cientistas sociais mais importantes do século passado. Trabalhou na recém-construída Universidade de São Paulo, para a qual Célestin Bouglé (o então diretor da Escola Normal Superior da França) lhe propôs apresentar sua candidatura acreditando haver milhares de índios nos subúrbios paulistanos. A possibilidade de trabalhar no Brasil agradava Lévi-Strauss pelo fato de ultrapassar a filosofia especulativa de sua formação e se dedicar empiricamente a jovem disciplina de etnologia. Em três anos no país ele conheceu e estudou algumas etnias indígenas, experiência que ficou descrita principalmente em seu livro Tristes Trópicos. Em 1939, voltou à França, mas devido à ocupação nazista, buscou exílio nos EUA, país em que fora obrigado a encurtar seu nome para evitar a confusão com a marca de jeans homônima. Segundo conta François Dosse, não havia um ano em que ele não recebia um pedido de encomenda de jeans para África (1993, p. 32-33). Com o término da guerra, agora já retornado ao seu país, foi nomeado, em 1959, para a cadeira de antropologia social do respeitado Collège de France, universidade onde lecionou por mais de 20 anos.

O suplício do Papai Noel é um ensaio curto em que Claude Lévi-Strauss analisa um curioso acontecimento de véspera de natal na França. Em 24 de dezembro de 1951, nas grades da Catedral da cidade de Dijon, Papai Noel foi queimado publicamente, contando ainda com a presença de centenas de crianças dos orfanatos locais. A execução simbólica foi incentivada pelo clero que “condenara Papai Noel como usurpador e herege. Ele foi acusado de paganizar a festa de Natal e de se instalar como um intruso, ocupando um espaço cada vez maior”, registra o jornal France-Soir, de 1951. O post que se segue é um resumo do ensaio de Lévi-Strauss e me será útil para comentar (num próximo texto) sobre um recentíssimo acontecimento no Brasil, que alimenta a discussão entre ateus e religiosos sobre a liberdade de expressão.

O acontecimento em Dijon gerou polêmica e dividiu a opinião pública. Um estranho paradoxo foi notado por Lévi-Strauss nas discussões. Os anticlericalistas, geralmente cientificistas, defendiam Papai Noel, logo, o irracionalismo e a superstição, enquanto, por outro lado, a Igreja se posicionou ao lado da racionalidade e do espírito crítico. Mas ninguém se perguntou afinal por que os adultos inventaram Papai Noel. É a esta questão que o ensaio antropológico se direciona. Para respondê-la, Lévi-Strauss realiza uma longa digressão que passa a explicar a eclosão do festivo natalino na França, a gênese histórica do Natal moderno e a função sócio-estrutural a qual esse rito se presta.

Com a melhora econômica da França após a II Guerra Mundial, houve uma mudança na comemoração de Natal que se explica, em parte, pela influência e prestígio dos EUA em terras galesas. Isto podia ser observado na época pelos inúmeros pinheiros, adornos em papéis de presente, cartões, Exércitos da Salvação e pessoas trajadas de Papai Noel nas lojas. Contudo, seria simplista explicar apenas pela influência americana. Outras razões apontadas são os muitos estadunidenses que moravam na França e comemoravam o Natal à maneira yankee; os cinemas, as revistas e os romances que tornaram o costume conhecido; o prestígio dos EUA devido a seu poderio militar e econômico (modelo portanto espelhado por outras sociedades ocidentais); o Plano Marshall e a importação de mercadorias de Natal. Por outro lado, poderia se objetar que as camadas economicamente mais baixas da sociedade que desconhecem a origem desses ritos, bem como os meios operários sob influência comunista, que rechaça o “estilo de vida americana”, adotaram o costume como qualquer outro grupo social. O antropólogo explica então que não se trata de uma difusão simples, mas, como anotou Kroeber: uma “difusão por estímulo”. Invés de o costume ser assimilado por importação, ele provoca o “surgimento de um uso semelhante ao que já estava potencialmente presente”. A metáfora segundo a qual a planta só pode germinar em solo fértil é bastante instrutiva para ilustrar o caso. Por exemplo, um fabricante de papel viaja a negócios aos EUA e lá descobre um papel de presente muito mais elaborado do que o que ele vendia. A dona de casa o compra por lhe satisfazer uma exigência estética, isto é, uma disposição afetiva, já existente, se materializa com o adereço encontrado.

Embora haja traços arcaicos, a festa natalina moderna ascendeu na França antes da Segunda Guerra. No século 19, o pinheiro chega ao país. O verbete noël designa, em um dicionário da época, um ramo de pinheiro com enfeites, guarnecido de balas e brinquedos, que se oferece a crianças. A variedade de nomes que se dá àquele que distribui os presentes (Papai Noel, São Nicolau, Santa Claus) mostra que a figura é resultado de convergência e não de protótipo conservado. A comemoração que teve apogeus e declínios, expressa em sua versão americana apenas uma encarnação mais moderna. Papai Noel, especificamente, é uma criação recente, e mais recente ainda é a crença de que ele vive na Groelândia; fato este que obriga a Dinamarca (dona do território) a manter uma agência especial dos correios por lá, só para receber cartas do mundo todo destinadas a Papai Noel. Acredita-se que essa crença foi difundida durante a estadia de tropas americanas na Groelândia e Islândia durante a Segunda Guerra Mundial. Todavia, as renas já apareciam em documentos renascentistas (sécs. 14-16) como troféus durante as festas natalinas. São partes dos elementos históricos de uma tradição que se funde e se refunde.

Analisado pela simbologia antropológica de Lévi-Strauss, Papai Noel, ao vestir vermelho, é um rei. Botas, roupas pesadas, peles, barbas brancas e trenó evocam o inverno. Sua idade revela a forma benevolente da autoridade dos antigos. Não é um ser mítico. Mas sem dúvidas pertence à família das divindades. As crianças prestam-no culto em certas épocas do ano sob a forma de pedidos e de cartas. Ele recompensa os bons e priva os maus. É, portanto, a divindade de uma categoria etária. Só não é uma divindade verdadeira porque os adultos não acreditam nele, embora incentivem as crianças a acreditarem. Tal divindade liga-se aos ritos de iniciação de uma sociedade, pois divide as crianças dos adultos e adolescentes. Estas divisões são comuns em todas as sociedades. É raro encontrar uma sociedade em que as crianças (e também muitas vezes as mulheres) não são “excluídas” da sociedade dos homens devido à ignorância de certas crenças e mistérios alimentada pelos últimos, e que estes revelam num momento oportuno, sacramentando assim a passagem entre dois mundos – aponta o pesquisador (p. 24). Os ritos de iniciação têm a função de ajudar os mais velhos a manter a ordem e a obediência entre os mais novos. O Papai Noel, por exemplo, é evocado para que as crianças se comportem e para disciplinar suas reivindicações de presentes, uma espécie de figura de negociação entre as gerações.

Partindo destas considerações, o autor faz uma analogia entre Papai Noel e as katchinas; personagens de uma determinada sociedade indígena, situada no sudoeste dos EUA, que encarnam deuses e ancestrais. Trata-se na realidade de índios adultos usando vestes e máscaras que aparecem na aldeia para dançar e punir ou recompensar as crianças sem que elas saibam quem está por baixo da roupa. Segundo o mito indígena, as katchinas são crianças que morreram afogadas, mas que voltavam da além-vida para assombrar a aldeia, raptando algumas crianças. Os pueblos teriam então feito o acordo de representarem estas entidades numa época do ano para ficarem livres dos assombros. Para Lévi-Strauss, a questão da ordem é secundária, pois em primeiro lugar a função das katchinas é provar a morte e dar o testemunho da vida após a morte. Daí explica-se a repartição da sociedade em duas, entre iniciados (adultos) e não-iniciados (crianças). As crianças são excluídas porque elas são as próprias katchinas. Seu lugar é outro: não com as máscaras e os vivos, mas com os deuses e os mortos. Isto é, com as divindades que são os mortos. E os mortos são as crianças. O mesmo se aplica a sociologia iniciática que envolve Papai Noel. Para além da oposição entre adultos (que sabem) e crianças (que ignoram), há uma oposição simbólica mais profunda, entre vivos e mortos.

A análise sincrônica da antropologia é confirmada também pela análise diacrônica de folcloristas e historiadores da religião. Para estes, a origem de Papai Noel se encontra no Abade de Liesse (Abbas Stultorum), ou Lord of Misrule, personagens que são reis do Natal (reis de um período, temporários), herdeiros do rei das Saturnais da época romana. As Saturnais eram festas dos mortos por violência ou sem sepultura. Para o estudo diacrônico, Papai Noel moderno é a fusão sincrética de algumas figuras: Abade de Liesse, bispo-menino eleito sob a invocação de São Nicolau, e o próprio São Nicolau, cuja festa liga-se a crença relacionada a meias, sapatos e chaminés. Abade de Liesse reinava interinamente dia 25 de dezembro; São Nicolau tinha a festa dia 6 de dezembro; os bispos-meninos em 28 de dezembro; e o Jul escandinavo era comemorado também em dezembro. Supõe-se que a Igreja marcou a data do natal para dia 25 para substituir as festas pagãs do dia 17 que, no fim do Império Romano, ia até dia 24. Nota-se, portanto, não uma sobrevivência totalmente contínua, mas uma fusão e transmutação de elementos festivos de Natal.

As festas Saturnais e o Natal da Idade Média podem explicar o sentido profundo da estrutura em tais instituições recorrentes que se mostra na superfície do Natal moderno. É perceptível que as festas de dezembro da Antiguidade à Idade Média possuem características semelhantes: decoração das casas com folhagens verdes; presentes são trocados ou dados às crianças; alegria e festejos; confraternização entre ricos e pobres, senhores e servos. As Saturnais romanas e o Natal medieval são reuniões e comunhões! Escravos e servos sentam-se a mesa farta e os senhores tornam-se seus servidores. Homens e mulheres vestem as roupas uns dos outros. Mas ao mesmo tempo a sociedade se reparte ao meio. Nessa divisão, a juventude fica autônoma e elege seu soberano. Em geral com o título aproximado de Senhor da Desrazão. Ao que esse título indica, a juventude age de maneira enlouquecida, cometendo abusos contra a outra parte da população, desde xingamentos a assassinatos. Segue a ideia de “colocar os demônios para fora”. Uma espécie de negociação com a escuridão para receber novamente a luz, que o filme The Purge (2013) traz uma versão pós-moderna e secularizada. Assim, o clima de solidariedade dá lugar ao antagonismo exacerbado, tanto nas Saturnais como no Natal medieval. O Abade de Liesse é quem realiza a mediação entre estes dois aspectos, contendo os excessos e estabelecendo os limites. Mas o que esta figura tem a ver com seu descendente remoto, o velho Noel?

Lévi-Strauss na Amazônia, em 1936
Ora, do ponto de vista histórico, Papai Noel resulta do deslocamento da festa de São Nicolau (6 de dezembro), assimilada a comemoração de Natal, três semanas depois. “Um personagem real se tornou um personagem mítico; uma emanação da juventude, simbolizando seu antagonismo em relação aos adultos, fez-se símbolo da idade madura, tradução da disposição benévola em relação à mocidade; o apóstolo das más condutas é incumbido de sancionar as boas condutas” (LÉVI-STRAUSS, 2008, p. 36-37). Em nossa sociedade contemporânea, a juventude perdeu lugar como categoria etária específica, logo a “desrazão” do Natal perdeu seu apoio como havia no medievo e nas Saturnais. É interessante notar que as crianças na Idade Média não esperavam seus presentes, mas iam de casa em casa, disfarçadas, cantando e recebendo doces e frutas. Seus disfarces as transformavam em espíritos e fantasmas, suas músicas evocavam a morte para fazerem valer seus pedidos. As coletas começavam em geral três semanas antes do Natal. Estes rituais também ocorriam em outras épocas do ano, mas especialmente no outono. Assim, o primeiro período peditório, o Hallow-Even, é na véspera do dia de todos os santos. Crianças vestidas de fantasmas e esqueletos perseguem os vivos (adultos). O avanço do outono até o solstício marca o resgate da luz e da vida: “retorno dos mortos, suas ameaças e perseguições, o estabelecimento de um modus vivendi com os vivos na festa do intercâmbio de serviços e presentes, e, por fim, o triunfo da vida, quando no dia de Natal os mortos, cobertos de presentes, deixam os vivos em paz até o próximo outono” (p. 40-41).

Neste sentido, o antropólogo questiona: quem pode personificar os mortos numa sociedade de vivos senão todos os que não estão completamente integrados ao grupo, que participam da alteridade dual entre vivos e mortos? Não à toa, estrangeiros, escravos, crianças e mendigos são os principais beneficiários da festa. “Não surpreende, pois, que o Natal e o Ano Novo (seu duplo) sejam festas de presentes: a festa dos mortos é, na essência, a festa dos outros, visto que o fato de ser outro é a primeira imagem aproximada que podemos construir a respeito da morte” (p. 43). Finalmente, o autor diz que agora é possível responder as principais indagações do ensaio que ficaram implícitas. Por que a figura de Papai Noel ganha espaço e por que a Igreja está preocupada?

Papai Noel é herdeiro e ao mesmo tempo antítese do Senhor da Desrazão. Essa transformação indica uma melhora em nossa relação com a morte, porque agora podemos ficar quites com ela sem precisar permitir temporariamente a subversão da ordem e das leis. Essa relação é regida atualmente por uma entidade benevolente, podemos ser generosos, oferecer presentes e brinquedos, símbolos. A Igreja cristã está certa em se preocupar com o paganismo de Papai Noel. O fortalecimento deste é o enfraquecimento da relação entre mortos e vivos. Diametralmente, esse enfraquecimento mostra o medo da morte, como representação em termos de empobrecimento, rigidez e privação. O que os adultos demonstram ao prestigiarem Papai Noel é o desejo de acreditar numa generosidade irrestrita, gentileza desinteressada, suspensão do receio, da amargura e da inveja. Claro, eles não podem compartilhar plenamente desta ilusão, mas alimentada nos outros (nas crianças), ela fornece aquecimento a alma (p. 45).

Dizer às crianças que o presente vem do além é uma saída para ofertá-los ao além, aos mortos. Mas, como mostra James Frazer, há uma diferença significativa entre cristãos e pagãos em relação aos mortos. Os últimos rogam aos mortos, enquanto os primeiros rogam pelos mortos. Todavia, cabe perguntar se o homem moderno não pode exigir o direito de ser pagão – como ficou entrevisto na reação dos anticlericalistas ao “racionalismo” da Igreja. Frazer mostra também que algo se perdeu entre as Saturnais e o Natal da Idade Média. É que o rei das Saturnais remonta a um protótipo antigo que depois dos excessos da “desrazão” era sacrificado no altar de Deus. Ironicamente, graças ao clero da cidade de Dijon e a fogueira moderna de Papai Noel, o herói foi totalmente reconstituído depois de um hiato de milênios.  

Referências:

DOSSE, François. História do estruturalismo, vol. 1: o campo do signo, 1945-1966. São Paulo: Ensaio; Campinas, SP: Ed. Da Unicamp, 1993.
LÉVI-STRAUSS, Claude. O suplício do Papai Noel. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
THE PURGE.* Diretor: James DeMonaco. Produtor: Michael Bay. Universal Pictures. EUA, cor, 2013, 85min.
*Em português-brasileiro o filme recebeu o título de “Uma Noite de Crime”, creio que “O Expurgo” traduziria mais adequadamente a ideia da trama. 
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