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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Retorno às atividades: Estado suicidário, Estado suicida e biopoder | Paul Virilio e Foucault




Caros leitores de Tempos Safados,

Demorou... Mas retornei. Após anos postergando uma volta à produção pública de conteúdo de ciências humanas, abri um canal no YouTube com o intuito de voltar a fazer o que realizava aqui neste espaço, obviamente, agora, com um formato audiovisual. São os tempos... safados ou não. Estamos vivendo num turbilhão. Se vivo ainda estivesse o velho Hobsbawm talvez completaria suas “Eras” escrevendo uma “Era do Desgraçamento total” para falar da nossa época e do que estamos vivenciando. Se saberemos estar à altura da nossa época, como gostaria Agamben, não tenho a mínima ideia. Mas sei que é impossível escapar desse redemoinho. Que consigamos resistir e reexistir (aliás, sobreviver já estaria de bom tamanho, eu acho).

Sem mais delongas, deixo abaixo os últimos vídeos que editei para o canal: uma discussão teórica sobre o conceito de Estado suicidário/suicida, com Paul Virilio, Foucault e outros bacanas. Neles tento ser o mais didático possível, porque o conteúdo é também para meus alunos do Ensino Médio, e relaciono o que escreveram os filósofos ao contexto atual do Brasil em tempos de coronavírus. Perdoem as falhas de edição, estou aprendendo aos poucos. O nome do canal é Diacrônico.



Estado suicida(rio) - Paul Virilio e a atualidade do Brasil



Biopoder e Estado suicida - Michel Foucault e o Brasil na pandemia


PS.1: Ah, o blog vai mudar de nome (viu?!), já a linha editorial, por enquanto, permanece.

PS.2: Aceito sugestões de novos conteúdos.

sábado, 2 de julho de 2016

Como usar o terrorismo para manter uma ditadura: Assad e a Síria


“Se Gandhi passasse três meses na Síria, ele seria um extremista jihadi”.
(Muhammad Habash)


Amjad Rasmi é um premiado cartunista jordaniano que trabalha para o periódico árabe Asharq al-Awsat cuja matriz localiza-se em Londres. Suas charges são geralmente sátiras a elementos da hipermodernidade, como as redes sociais, e também sobre questões políticas relacionadas ao Oriente Médio. Meses atrás ele publicou o cartum postado aqui ao lado do texto, fazendo uma homenagem (e uma paródia) à obra “Saturno devorando um filho”, pintada por Francisco de Goya no início do século 19. O trabalho prefigura uma crítica ao regime do ditador sírio Bashar al-Assad no contexto da guerra civil que se desenrola na região desde 2011, quando eclodiu a chamada “Primavera Árabe”. Assim que bati o olho me lembrei do livro que li ano passado a respeito do Estado Islâmico e sobre o qual escrevi no post anterior. Isso porque uma das teses principais deste livro é que o terrorismo na Síria, inclusive a atuação decisiva e brutal do Estado Islâmico na guerra, bem como o acirramento do sectarismo étnico-religioso, tem como um de seus principais responsáveis o governo de al-Assad. Segundo os jornalistas Hassan Hassan e Michael Weiss, o ditador sírio soltou deliberadamente inúmeros prisioneiros perigosos pouco depois do início das revoltas contra sua ditadura. Seu intuito teria sido o de chamar atenção e conquistar a ajuda das autoridades internacionais para a sustentação do governo, tendo em vista que o terrorismo agora estaria misturado a inúmeros grupos insurgentes não-terroristas, como o Exército Livre da Síria e o YPG (Unidades de Defesa do Povo) – o primeiro formado por ex-combatentes do Estado e o último composto por uma parcela significativa de mulheres curdas. Isto é, trata-se nada mais do que uma estratégia de Estado contra uma deposição como houve com outros ditadores recentes no mundo árabe.

Na mitologia greco-romana, Saturno (ou Cronos) é o deus-titã que devora seus filhos assim que nascem. A prática de Saturno vem do medo da realização de uma profecia feita logo após ele próprio ter matado e deposto seu pai, um deus autoritário (Céu, Urano) que, por sua vez, enterrava seus filhos no ventre da esposa (Gaia, Terra) para que eles não viessem à luz. Ou seja, trata-se de uma mitologia cíclica sobre deposições e substituições (Cf. GRIMAL, 1982). Mas não, não é o caso de Bashar al-Assad. Ele não teve que depor nem tampouco matar o pai. Nem física nem simbolicamente. De semelhança com a mitologia eles só têm o autoritarismo. Hafez al-Assad foi um general das Forças Armadas e, após um golpe de Estado, governou a Síria de 1971 até 2000, quando morreu de infarto. O médico oftalmologista Bashar al-Assad o sucedeu no governo, onde está até hoje. Pai e filho são do Partido Baath. Cercado por teocracias, o partido pretende-se secular e foi criado sob influência do socialismo de meados do século 20 e defendia a união de todos os povos árabes sob um único Estado, o pan-arabismo. Além disso a família Assad é alauita, isto é, pertencem ao grupo étnico-religioso dentro do xiismo islâmico que, apesar de compor apenas 13% da população na Síria, detém a liderança política a mais de quarenta anos, como se pode ver.

Tudo ia muito bem, tudo ia muito bom, pensava Assad mesmo após estourar as revoltas no norte da África e adjacências – primeiro na Tunísia, depois Argélia, Jordânia, Egito e Iêmen. Ele deu uma entrevista em janeiro de 2011 sem demonstrar preocupação de uma revolução atingir seu domínio. Foi então que sírios começaram a se manifestar em apoio às insurgências fora de seu país mas ali no meio havia um cartaz indicando a esfera doméstica, “o povo sírio não será humilhado”, dizia. E tudo entrou em combustão quando prenderam um grupo de garotos que fazia protesto em sua escola com pichações pró-democracia, uma diretamente dirigida ao médico-presidente sírio na qual se podia ler: “É sua vez, Doutor!”. A situação piorou quando os pais dos garotos reivindicaram a soltura dizendo “estes são nossos únicos filhos”, ao que foram respondidos por um general, primo de Assad, “pois tragam aqui suas mulheres que faremos outros filhos nelas”. Não ficou só na provocação. De fato, órgãos internacionais registraram inúmeros estupros e gravidezes indesejadas resultantes da violência de soldados de Assad {clique aqui para ler a citação}. Daí em diante o protesto se espalhou, seguido por repressão do Estado com prisões, torturas, choques, estupros e execuções. Mais de 150 mil foram presos. Mais de 200 mil morreram desde então, inclusive por vias de armas químicas. Com medo de ser derrubado, Assad, assim como Saturno, passou a devorar seus próprios filhos: o seu povo.

Contudo, o terrorismo de Assad, de acordo com o que escrevem Hassan e Weiss, não é feito apenas diretamente pelas mãos de seus soldados. Há também, como mencionei no início do post, um estratagema cruel. O ditador usaria uma tática segundo à qual você deve prever um incêndio em sua casa e logo depois queimá-la para acertar a previsão. Não à toa os combatentes e apoiadores do presidente utilizem a máxima “Assad, ou queimamos o país”. Pois é bem isso que ocorre. Além da campanha de fome imposta, provocada quando o exército estatal sitia uma cidade, há outros mecanismos de morte em funcionamento.

Mesmo o Partido Baath promovendo em tese um governo secular e apesar da maioria numérica de sunitas estar representada no governo (a esposa de Assad é sunita, bem como alguns de seus generais e ministros), existe alguns fatores complexos no contexto de guerra civil e envolvimento internacional. Há a provocação a sunitas para que estes cometam atos extremos, assim, afastando-os dos demais (alauitas-xiitas e cristãos) e provocando a preocupação da comunidade internacional sobre um possível extermínio das minorias no país. Deste modo o sectarismo da guerra é tanto fruto do domínio de uma seita minoritária sobre uma maioria rebelde, como da disputa muçulmana sobre a linhagem do Profeta (mais de 70% da população é sunita). Este jogo precisa ser alimentado como estratégia de poder. Desde que estourou a guerra civil, o governo começou a pagar bandidos conhecidos como Shabiha (em sua maioria alauitas) para disseminar o crime e o terror. As Nações Unidas comprovaram o esquema. Os Shabiha durante a revolução entravam nas casas cometendo diversas atrocidades sem serem importunados pela polícia, enquanto o governo se dizia sem envolvimento. Devido a essa série de coisas os próprios aliados e combatentes de Assad tem o abandonado, se integrando a forças insurgentes como o Exército Livre da Síria.

Neste contexto, de acordo com Hassan e Weiss, o Irã desempenha uma função semelhante à dos Estados Unidos no Iraque, fazer ocupação militar e manter a união do exército nacional sírio. Alianças e financiamentos com grupos terroristas têm sido prática comum do governo assadista para se manter no domínio. As Forças Quds e o Hezbollah libanês, por exemplo, teriam sido responsáveis por treinar exércitos para combater os rebeldes e recuperar territórios perdidos, devido ao enfraquecimento do exército nacional.

Diante de pressões por reformas em 2011, Assad promoveu anistia para alguns presos políticos. Mas estes foram escolhidos a dedo para alimentarem o caos da situação. A maioria é composta por salafistas-jihadistas que, logo após saírem da prisão, foram compor as fileiras de al-Baghdadi no Estado Islâmico. Em janeiro de 2014, o Major-general Fayez Dwairi, um ex-oficial de inteligência militar sírio, afirmou ao jornal baseado em Abu-Dhabi, o National:

“ – Muitas das pessoas que estabeleceram o Jabhat Al Nusra foram capturadas pelo regime em 2008 e estavam na prisão. Quando a revolução começou, eles foram soltos seguindo o conselho de oficiais da inteligência síria, que disseram a Assad: ‘eles farão um bom trabalho para nós. Há muitas desvantagens ao deixá-los partir, mas há mais vantagens, pois convenceremos o mundo que estamos enfrentando o terrorismo islâmico’”. Outro ex-soldado, que trabalhou doze anos no próprio Diretório de Inteligência Militar da Síria, disse algo no mesmo sentido:

“ – O regime não apenas abriu a porta das prisões e deixou os extremistas saírem, ele facilitou o seu trabalho, em sua criação de brigadas armadas – disse o oficial de inteligência, um alauita que havia desertado de sua unidade na região norte da Síria no verão de 2011, ao National. – Isto não é algo de que ouvi rumores a respeito, na realidade ouvi as ordens, eu vi isto acontecendo. Essas ordens vinham do quartel general [da Inteligência Militar] em Damasco. O regime também disponibilizou uma abundância de armas para estes extremistas em Idlib e Deraa, acrescentou o oficial” (WEISS; HASSAN, 2015, p. 140).

Saturno de Goya
Segundo a mitologia, depois de devorar seus cinco primeiros filhos, Saturno é deposto pelo sexto, Júpiter (Zeus para os gregos). Mas ele recebe ajuda para tal tarefa. É sua mãe Cíbele (Réia) que, cansada de ver seus filhos mortos, ludibria o marido, fazendo-o engolir uma pedra no lugar do corpo do recém-nascido. Já crescido e com ajuda de seus irmãos, regurgitados após Saturno tomar um veneno, Júpiter luta contra seu pai e contra seus aliados titãs, vencendo-os e se tornando o deus mais importante do Olimpo. O mito de Saturno, cujo nome grego é Cronos, se confunde com a metáfora do tempo cronológico que destrói aquilo que acabou de gerar, transformando ininterruptamente o presente em passado. O fim de Cronos seria o fim dos tempos? Coincidentemente Bashar al-Assad, em sua primeira entrevista a uma mídia ocidental após o início dos protestos, descreveu o cenário sírio como apocalíptico. Talvez seja o fim mesmo. Mas sob a perspectiva do próprio Saturno. O fim da ditadura da família Assad e o despoletar de uma outra era para o povo sírio. Mas tomara que não precisem de um outro deus autoritário para fazer este duplo trabalho hercúleo: destronar Saturno e reconstruir o país com os escombros que sobraram. A democracia agradeceria.

Referências:

GRIMMAL, Pierre. A mitologia grega. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1982.
WEISS, Michel; HASSAN, Hassan. Estado islâmico: desvendando o exército do terror. São Paulo: Seoman, 2015.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Estado Islâmico: do xeique dos chacinadores ao califado de Baghdadi II

Publicado ano passado, e já prontamente traduzido para o português, o livro Estado Islâmico: desvendando o exército do terror se tornou um dos principais trabalhos informativos de fôlego sobre o assunto no Brasil. Os atentados de novembro ocorridos em Paris tornaram o livro ainda mais procurado, sobretudo, por conta da escassez de obras no mercado. No post que se segue faço um breve resumo do eixo principal do trabalho cujo objetivo é responder à questão sobre o nascimento do Estado Islâmico e como este conseguiu causar tamanho estrago em tão pouco tempo. O livro é assinado por dois autores. Um é o analista político sírio Hassan Hassan, morador de Albu Kamal (ou al-Bukamal), cidade cujo aeroporto foi anteontem retirado das mãos do Estado Islâmico (EI) pela oposição síria apoiada pelos Estados Unidos (trata-se de uma cidade fronteiriça ao Iraque). E o outro é o jornalista americano Michael Weiss, que trabalhou na cidade síria de Aleppo, antes de ser tomada pelo EI. Ambos são funcionários do New York Times. A linguagem é jornalística. E neste sentido o trabalho privilegia descrições de fatos e redes de relacionamentos, bem como personagens, e deixa como coadjuvantes as interpretações mais densas, diferentemente de estudos acadêmicos. As principais fontes são entrevistas com ex-oficiais de contraterrorismo, diplomatas que rastrearam e enfrentaram o Estado Islâmico, dissidentes do grupo (uma valente professora de Raqqa, por exemplo) e agentes dormentes do EI no Ocidente.

Origem e expansão do Estado Islâmico

A pergunta da imprensa internacional – feita logo após o atentado contra os cartunistas da revista Charlie Hebdo – a respeito de onde teria surgido o Estado Islâmico, pareceu estranha aos olhos dos autores. Afinal, se havia algo que ao menos o governo estadunidense conhecia bem desde sua invasão ao Iraque em 2003, era justamente o Estado Islâmico. Talvez sob outro nome. Mas lá estava ele. O Estado Islâmico não surgiu do nada, apenas se modificou, se aprimorou. Entre essas “fases” estão o Tawhid wal-Jihad, a al-Qaeda no Iraque (AQI) e o Conselho Shura Mujahidin. É isso. O Estado Islâmico nada mais é do que um grupo dentro da al-Qaeda, que em 2014 dela se emancipou. Sobre a al-Qaeda todos conhecemos. Foi a organização criada e liderada por Osama bin Laden, ele mesmo treinado pelos americanos da CIA para lutar e expulsar os soviéticos do Afeganistão, nos anos 80, durante a Guerra Fria.

O fato do líder da al-Qaeda ter se voltado contra seus apoiadores e mesmo financiadores, sendo o mentor do atentado do 11 de Setembro, é algo pouco complexo se comparado ao contexto de guerra civil na região. Não dá simplesmente para traçar uma linha e colocar xiitas de um lado e sunitas de outro. O imbróglio é bem mais intrincado. Há o problema sério do sectarismo religioso. Mas não se trata tão somente de uma disputa milenar sobre os sucessores do Profeta. A coisa também envolve um tipo de nacionalismo étnico, de regionalismo ou tribalismo e ideologias políticas. Temos curdos, alauitas, yazidis, assírios, turcomanos, cristãos, sunitas salafistas, baathistas, saddamistas... e por aí vai. Hoje são vários grupos lutando contra governos constituídos e entre si. Mas vamos ao prato principal, a gestação do Estado Islâmico (EI).

O surgimento do EI se dá através do entrecruzamento da trajetória de quatro homens: Abu Musabi al-Zarqawi (seu fundador), Osama bin Laden (fundador da al-Qaeda), Abdullah Yusuf Azzam (clérigo escritor do manifesto aos mujahidin) e Ayman al-Zawahiri (importante emir egípcio substituto de bin Laden). O perfil atual do grupo tem tudo a ver com o jordaniano Zarqawi [1966-2006]. Este era um jovem problemático, realizador de assaltos e outros crimes, tendo sido preso bem cedo. Para “consertá-lo” sua mãe o colocou num colégio religioso. E foi daí que se transformou num fundamentalista, resolvendo por fim ir lutar contra os soviéticos no Afeganistão com objetivo de expulsar os comunistas ateus da terra sagrada. Porém a verdade é que Zarqawi nem chegou a combater os soviéticos, ao chegar no local de batalha o Exército Vermelho já havia sido derrotado. Contudo foi nesta viagem que conheceu Zawahiri e bin Laden. Enquanto o pediatra egípcio Zawahiri [1951-ainda vivo] foi um dos precursores a misturar perigosamente salafismo e takfirismo (ou seja: um movimento ultraconservador que defende uma espécie de volta às origens do Islã e aplicação implacável da lei islâmica, a sharia; e a prática de denunciar muçulmanos de outros seguimentos como apóstatas), o segundo, o saudita Osama bin-Laden [1957-2011], tinha bastante grana e financiava as atividades pedagógicas de jornais e revistas do primeiro e também de Azzam [1941-1989], um teólogo palestino conhecido como pai da jihad global e morto por um carro bomba no fim da década de oitenta.

Devido a seus envolvimentos com atentados, Zarqawi foi preso em 1994 em Swaqa, em seu país, a Jordânia. A prisão foi um aprimoramento para seu fundamentalismo: o tornou brutal, focado e decisivo. Ele obteve poder e influência na cadeia. Aliás, já vale mencionar, as prisões no Oriente Médio são descritas como universidades do terror. Zarqawi conseguiu recrutar vários jihadistas e passou a ser considerado um “emir”. Quando o rei jordaniano Abdullah I promoveu anistia aos presos políticos ao estabelecer um acordo com a Irmandade Muçulmana (organização fundamentalista que existe pelo menos desde 1928), Zarqawi foi solto em 1999, sem cumprir integralmente sua pena. Logo fugiu para o Afeganistão e reencontrou bin Laden, que inicialmente não gostava dele, pois tratava-se de um sujeito extremamente prepotente, antixiita e intelectualmente pouco sofisticado para o líder saudita. De toda forma, o aceitou por questões pragmáticas. Zarqawi conhecia muita gente e tinha contatos essenciais no Levante. Bin Laden financiou Zarqawi para ser o comandante de um campo de treinamento no deserto do Afeganistão formando a célula Tawhid wal-Jihad (“Monoteísmo e Guerra Santa”). Foi ele quem formou os dois idealizadores dos ataques ao World Trade Center. Pelas práticas brutais empregadas, o intitularam “o xeique dos chacinadores”.

Assim que os Estados Unidos entraram em guerra no Afeganistão, em 2001, Zarqawi fugiu do país levando consigo uns 300 militantes em direção ao Irã. Por onde passava ia recrutando novos guerreiros. Seu objetivo era travar a jihad no Iraque, seguindo inspiração de um soberano do século 12, Nur al-Din, que governou Aleppo e Mosul e foi celebrado como herói da Segunda Cruzada. O governo do Irã estava interessado em controlar o Iraque e apoiou taticamente Zarqawi, mesmo sendo ele um antixiita – aspecto que ficaria explícito durante sua campanha em terras iraquianas, quando ele “notabilizou-se por seu foco em matar ou atormentar a maioria xiita da população do país; isto, ele acreditava, criaria um estado de guerra civil que forçaria os sunitas a recuperarem seu poder e prestígio perdidos em Bagdá e restaurarem a glória de Nur al-Din”, escrevem Weiss e Hassan (2015, p. 31). A estratégia de Zarqawi pode parecer estranha para nós, ocidentais, mas ela é muito típica destes conflitos, a ideia é fustigar uma reação violenta dos adversários para que os aliados adormecidos (no caso, o povo sunita) integrem exércitos para exterminá-los.

Zarqawi começou seus ataques no Iraque em 2003, inclusive matando um diplomata brasileiro (Sérgio Vieira de Mello) que trabalhava para a ONU. E seguiu matando “inimigos distantes” e também “inimigos próximos”, como o aiatolá xiita Baqir al-Hakin. Outra prática pioneira difundida por al-Zarqawi foram as decapitações televisionadas, sabendo da atenção que isso gerava no Ocidente. Conhecida como o inferno na terra para os soldados americanos, a cidade de Fallujah seria palco para a ascensão notória de Zarqawi. Na Primeira Batalha de Fallujah os drones americanos mataram apenas quatorze agentes da Tawhid wal-Jihad mas vários civis iraquianos, ou seja, a rede continuou praticamente intacta e agora aumentou sua força e seu apelo popular. Aproveitando-se disso Zarqawi transmitiu publicamente seu voto de lealdade (bayat) a Osama bin Laden e a organização mudou o nome para “al-Qaeda no Iraque”. Um ano depois disso, houve a Segunda Batalha de Fallujah, vitimando cerca de 2.200 insurgentes e 70 marines, outros 651 ficaram feridos. A cidade ficou totalmente destruída. Bin Laden responsabilizou o governo Bush pela matança, “os EUA estavam lançando uma guerra total contra o Islã”, afirmou. A al-Qaeda ganhou em propaganda, trazendo milhares para integrar seus exércitos. A armadilha havia sido cuidadosamente preparada. Poucos dias após esta batalha, a cidade de Mosul foi parar nas mãos dos zarqawistas.

Desaparecido desde a Segunda Batalha de Fallujah, Zarqawi estava escondido a apenas a 14km de uma base americana em Bagdá, quando, em 2006, foi morto por um drone. Seu fim não foi o fim da al-Qaeda no Iraque que, a esta altura, já era uma rede internacional gigantesca e rica. O Conselho Shura Mujahidin, órgão criado pelo próprio Zarqawi para dirigir a AQI, apontou o egípcio Abu Ayyub al-Masri [1968-2010] como novo emir da franquia. Masri declarou que “a franquia fazia parte de um mosaico de movimentos de resistência islâmica nativos, que ele denominou como Estado Islâmico do Iraque” (p. 68). Ao indicar as áreas de atuação, o emir escolheu o líder: o iraquiano Abu Omar al-Baghdadi [1959-2010], o primeiro al-Baghdadi. Esta dupla iniciou uma política ambígua em relação à al-Qaeda Matriz que desembocaria mais tarde numa cisão. Pouco se sabe do passado de Baghdadi I, era um homem tão discreto que muitos duvidavam de sua existência. Na realidade, ao que tudo indica, Masri usava o "rosto" dele apenas para dar legitimidade a seu comando, pois enquanto um era estrangeiro, outro era iraquiano. Acontece que os jovens mujahidins se inspiravam muito mais em Baghdadi (também por ele ter se declarado “Emir dos Crentes”) do que em Masri. Ambos foram mortos em 2010, escondidos no subsolo de uma mesma casa.

O substituto, escolhido pelo Conselho da AQI, foi Ibrahim Awwad al-Badari [1971-vivo], que adotou o nome de guerra: Abu Bakr al-Baghdadi, ou seja, o segundo al-Baghdadi. Este sim mais conhecido. Foi membro da Irmandade Muçulmana na década de 80 e depois se tornou salafista, passando a defender também o takfirismo e o fratricídio contra os xiitas. Com ideias semelhantes a Zarqawi mas mais intelectualizado, Baghdadi II tem doutorado em assuntos islâmicos pela Universidade de Ciências Islâmicas de Bagdá. Ficou preso no Campo Bucca durante o ano de 2004 e inclusive atuou lá dentro como um imã aplicador da sharia. Este Campo Bucca é outra academia do jihadismo em forma de cadeia. Lugar onde os jihadistas conseguiam comida e proteção num contexto de guerra civil. E é também onde formam-se poderosas redes de contatos. O acordo SOFA em 2009 (sobre o status das forças americanas no Iraque) permitiu a soltura de inúmeros presos com o fechamento do presídio.

Após a morte de bin Laden, os homens de Baghdadi invadiram a Síria e tomam a cidade de Raqqa – chamada de o “Hotel da Revolução” por hospedar jihadistas estrangeiros com preço da expulsão da população local. Em 2013, o EI tenta se fundir à al-Nusra (a franquia da al-Qaeda na Síria) sob o nome de Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS, é a sigla em inglês). Daí aparece uma desavença entre os líderes das duas franquias, que Zawahiri (o então sucessor de bin Laden) é obrigado a tentar conciliar. O chefe da al-Nusra, um sírio sunita chamado Abu al-Jawlani, nega a fusão com Estado Islâmico. Zawahiri critica ambos e explica a geografia em que cada grupo deveria atuar. Para resumir, um na Síria, outro no Iraque. Baghdadi II simplesmente não aceita. Diz que Zawahiri está seguindo fronteiras artificiais inventadas pelo ocidentais (ele se referia ao Acordo de Sykes-Picot, feito após a Primeira Guerra para dividir o Império Turco-Otomano e que criou, entre outros países, a Síria e o Iraque). Acusação grave. Inicia-se uma guerra civil dentro da guerra civil. Em fevereiro a al-Qaeda rompe relações com o Estado Islâmico. No meio do mesmo ano, Baghdadi II se autoproclama califa do Estado Islâmico. E neste posto está até hoje.

Em resumo

Como o Estado Islâmico conseguiu atingir este status? Ora, notou-se que o grupo não surgiu do nada, que existia sob outras formas, atuando dentro de uma organização maior e mais antiga, a al-Qaeda. Mas há outros fatores imprescindíveis para sua eficácia.

(1º) Governos corruptos e grupos terroristas se retroalimentam. Um precisa do outro. O Irã incentivou e equipou os zarqawistas para lutarem contra o governo baathista secular de Saddam, ainda que agora pareça empenhado a ajudar a combater o Estado Islâmico devido a seu caráter sectário antixiita. O governo de Saddam também ajudou a al-Qaeda no Iraque nas insurgências contra os americanos. Muitos ex-generais de Saddam ou saddamistas revoltados com xiitas no poder do Iraque integram hoje as fileiras do alto escalão do Estado Islâmico, especialmente, para combater o governo do primeiro ministro al-Maliki, sucessor de Saddam “colocado” pelos EUA (ficou no cargo de 2006 a 2014) e que libertou inúmeros prisioneiros. O governo sírio de Bashar al-Assad foi outro colaborador na época da Guerra do Iraque. Foi através da fronteira síria que Zarqawi conseguiu penetrar no Iraque. Al-Assad queria desviar a atenção para seu vizinho. Tendo sofrido um recente atentado em seu principal aeroporto, a Turquia é outro país que fez vista grossa para terroristas do EI a fim de derrubar Bashar al-Assad e obstruir os combatentes curdos. Mas os Estados Unidos também têm sua parcela de culpa. Sem falar da desagregação provocada no Iraque numa campanha desastrosa que só fez acirrar os ânimos e maximizar o sectarismo étnico-religioso, os EUA retiraram suas tropas da região deixando inúmeros armamentos (de metralhadoras a tanques de guerra) nas mãos dos insurgentes, simplesmente porque levá-los de volta seria oneroso. Além disso, interessados em derrubar al-Assad fizeram vista grossa para atuações do EI no início da guerra civil da Síria.

(2º) O Estado Islâmico conquista alguma legitimidade nas regiões em que ocupa ao fazer funcionar os serviços básicos da cidade, aplicando a lei aceita pela maioria e trazendo um mínimo de normalidade num contexto de atroz guerra civil.

(3º) Conta com uma propaganda potente. Usando do Twitter à Daqib, sua revista de divulgação. Mas também com uma propaganda indireta feita pelo sensacionalismo da mídia internacional. Inspirados por essas mensagens, muitos jovens muçulmanos que não têm onde cair mortos em seus países natais, como Bélgica e outros, viajam para uma aventura a fim de fazerem alguma coisa importante na vida, pensam.

(4º) Por último, e mais importante, o grupo atua como organização religiosa (lembrando aqui que religião e política não se separam nessa cosmovisão), sim, mas também como uma máfia. Detém o controle de postos de petróleo, de contrabando de armas e outros, cobram impostos, estimulam o mercado cinza, recebem doações de diversas partes do mundo e negociam com políticos corruptos, até mesmo com aqueles considerados inimigos “próximos” ou “distantes”.

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Quer ler mais sobre o assunto? No próximo post escrevo sobre a relação curiosa entre o regime de al-Assad e o Estado Islâmico. Clique aqui para ler.

Referências:

WEISS, Michel; HASSAN, Hassan. Estado islâmico: desvendando o exército do terror. Trad. Jorge Ritter. São Paulo: Seoman, 2015.

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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Realismo do nada e o fim da política: niilismo atual segundo Rancière

“Irmãos, a terra onde ancoramos não é a Terra Prometida onde devem se realizar as maravilhas de Icária; nossos modestos trabalhos nem mesmo representam seu esboço e, contudo, Icária existe. A Icária orgânica com seu regime comunitário, o sistema de igualdade, a ordem, a harmonia, a poderosa concentração de forças e de aptidões de cada um concorrendo para a felicidade de todos; ela existe finalmente, com sua incessante tensão para o progresso material, intelectual e moral pelo trabalho, o estudo e a prática da Fraternidade”.

Antecipação de Icária por Prosper Bourg, joalheiro, poeta e cantor. In: Le Populaire, 4 nov. 1849 (apud RANCIÈRE, 1988, p. 354).

Utopia: fundando Icária

Em meados do século 19, em plena efervescência do movimento socialista no mundo, um grupo de operários franceses viaja para a América a fim de fundar Icária. Icária é um lugar num livro, Voyage en Icarie [1840], do escritor Etienne Cabet. Antes de perceberem a dessemelhança entre o matagal que lá encontram no fundo do Texas e a descrição paradisíaca do livro, eles dizem “Icária existe pois está em nossos corações”. Desde então os homens de ciência e os partidários de um socialismo científico zombam destes sonhadores. Mas aqueles que zombaram, hoje zombados são. “Ah, esses ingênuos”. Não há socialismo que resista a um século e meio de história, camarada. Há o socialismo real, mas este está longe do “utópico” projetado, por exemplo, pelos cientistas do marxismo. Oito anos após A noite dos proletários [1981], Rancière reflete sobre Icária num texto em que relaciona política e historiografia ao niilismo contemporâneo: à sanha daqueles cuja teoria é assinalar o fim e o desaparecimento de algo que, segundo os mesmos, nunca começou ou apareceu. Neste post escrevo sobre o enunciado do fim da política.

A familiaridade do enunciado niilista do fim da política e da lógica discursiva da real política (Realpolitik) não é mero acaso. Ambas estão prontas para decidir que não há nenhuma decisão a ser tomada. O mercado já decidiu antes: questão pragmática. Temos que adequar a administração das coisas às demandas da esfera econômica, dizem. Há uma necessidade que não pode ser ignorada, asseveram. A política é substituída pela economia. Como queriam os liberais. Como queriam/previam os comunistas da ciência de Marx e Engels. A despeito da comemoração vitoriosa da democracia representativa do mundo capitalista sobre o totalitarismo (leia-se aqui bolchevismo soviético), o Ocidente tomou para si o princípio do inimigo outrora derrotado. Impondo à coesão social a necessidade do desenvolvimento das forças produtivas ou, em outras palavras, dizendo ser preciso primeiro fazer crescer o bolo para depois reparti-lo. “Sob o termo consenso a democracia é concebida como o regime último da necessidade econômica. Um certo marxismo tornou-se assim a legitimação última da ‘democracia liberal’”, aponta Rancière (1996, p. 367).

Viajemos à Grécia antiga. A decisão que antecede à possibilidade do litígio político e de sua operação essencial, isto é, a anarquia, dissipa a política em seu sentido mais latente senão caracterizador. Se, como escreve Platão, Sócrates é o único ateniense a fazer política, aquele que faz “política de verdade”. Então a política grega, obviamente alheia de Sócrates, é para Platão um mau começo, um começo sem arkhé (o princípio que governa). Esta an-arkhé da política leva dois nomes bem conhecidos: demos e democracia. O primeiro de uma unidade que não é una. O segundo de um exercício da política que não é o funcionamento de nenhuma arkhé. Platão resume estas à insensata decisão da assembleia que agrada ao povo. A boa política ou a política verdadeira seria aquela cuja ação faz a comunidade basear-se em sua própria medida: o consenso. Em outros termos, o fim da má política é o fim de toda a política. Já Aristóteles, não. Este não quer exterminar a má política porém regulá-la. Quer que o povo veja e reconheça seu poder, aceite a distribuição e não coloque o litígio. Deste modo, aristotelicamente a “melhor democracia” será aquela em que o demos for menos capaz de coincidir com ele mesmo na assembleia. É o mesmo regime em que o povo está ocupado demais com seus afazeres para participar de alguma decisão nessas câmaras do poder público (RANCIÈRE, 1995, p. 231).

Para Rancière, a política é paradoxal. O fim da política é a regulação contínua de seu duplo nascimento. (1º) Há política porque há demos, o dispositivo de uma esfera de aparência do povo, de uma conta ímpar que faz valer a maioria pelo todo e os pobres pela comunidade e de um litígio ligado ao nome do povo. (2º) E há política – uma arte e uma ciência, talvez até uma filosofia política – porque há o pensamento e uma vontade de verdade, de uma medida e de uma unidade da comunidade que substituem a anarquia democrática. O paradoxo da política é portanto a inclusão de seu fim.  

Tal paradoxo é a condição que a mantém viva. Sua morte ou seu fim é a contraposição de sua aparência com sua verdade científica. A metapolítica vem ceifar a política quando denuncia o desvio do povo de si mesmo como sinal de sua não-verdade. Haja vista que o povo nunca coincide com a arkhé da comunidade, há duas maneiras de praticar esta anomalia: a política democrática e a metapolítica científica. Enquanto a política democrática sabe desta dinâmica e a usa para jogar, para mostrar o desvio e o dano, exigindo uma reparação qualquer (reivindicação); a outra, a metapolítica científica, usa este desvio como o segredo que seu saber vem descobrir e com isso se impor, arbitrando e dando fim ao jogo.

Isto é, a política democrática trata a diferença do povo a si mesmo através do litígio. Não há exatamente uma necessidade de ensinar ao interlocutor a diferença entre o fato e o direito, o formal e o real, o cidadão ideal e o homem rico ou miserável. Estas coisas são tratadas sob sua redoma (a política). Por outro lado, a metapolítica-social científica, cuja versão mais acabada é o marxismo, apesar de também possuir lugar na diferença do povo consigo mesmo, interpõe tal diferença como segredo. Segredo este que, de certa forma, a política democrática faz vistas grossas para continuar jogando. A metapolítica científica põe um verdadeiro povo como verdade oculta do povo aparente e se institui, ela mesma, como o saber dessa verdade oculta. A partir do sintoma entre o real e uma aparência, o real precisa operar a supressão da aparência. Ou seja, o sintoma desta não-verdade, é a diferença do povo soberano consigo mesmo.  

O litígio como sintoma ou sintoma como litígio? Enfim, esses contrários se juntam na era revolucionária: tanto o movimento operário e social quanto o socialismo foram feitos com estes dois procedimentos. Por um lado, a política democrática interpreta a diferença no sentido da ação que dá presença a um texto; por outro, a metapolítica científica interpreta como sintoma essa interpretação teatral. “A conjunção abarca uma representação do tempo: um tempo orientado, em ambos os casos, pela realização imanente de seu fim, seja este o cumprimento da promessa democrática ou o desencanto de seu devaneio, o telos visado pelo tratamento democrático da diferença ou do fim da utopia. E o conceito moderno de História é o conceito da unidade dos dois, de um movimento e de uma ciência”, escreve Rancière (1995, p. 235).

Existem pelo menos duas versões deste tema do fim. A primeira é a hegeliana-escoteira, representada da melhor forma por Francis Fukuyama. Nela o fim aparece como triunfo planetário da democracia, capaz de prover comida para todos e também de satisfazer o desejo de reconhecimento com o qual o todo se identifica. E a segunda é a versão realista do fim do século 20. Esta, em vez da realização do fim (de maneira objetiva), apresenta a ausência de todo fim, de todo e qualquer telos da História, o fim das políticas de telos e de suas promessas. Este nada mais era, segundo tal versão, do que uma aparência cuja existência veio suprimir em algum momento a própria aparência, uma mentira que veio desvelar a mentira e levar a política a sua verdade. O exemplo principal está em François Furet, cuja obra sobre a Revolução Francesa nos dá a notícia de que tudo tratou-se de uma ilusão. A ilusão que nos fez pensar esta revolução como o começo de um tempo. Porém se este tempo estava destinado a professar a verdade da revolução, esta verdade é sua ausência ou, melhor dizendo, sua inexistência. “A democracia excepcional hoje teria esgotado o ciclo de seus mitos e voltaria a encontrar o comum da democracia, a democracia normal ilustrada pela tradição anglo-americana” (RANCIÈRE, 1995, p. 235).

Assim, a democracia normal seria a real, na medida em que o povo não tem mais aparência de povo. Não tem litígio. Caímos na era do realismo: na qual as aparências não se voltam a mais nenhum outrem para serem suprimidas. “Anulação da não-verdade que não entrega mais verdade”. Por fim, o fim das ilusões de esquerda. Mais do que isto, a repetição do cenário em que cada força faz o contrário daquilo que pensa fazer, como ficou consagrado no 18 Brumário de Luis Bonaparte de Marx.

“A lógica marxiana do hieróglifo, que chama outra leitura do sentido e da história, tornou-se a prova por ausentamento do sentido. O realismo se gaba de ter suprimido as existências inexistentes, proclama o reino das coisas sob as palavras, sem as palavras. Mas as coisas sem as palavras são o inominável ou o impredicável, o visível exibido em toda parte que não entrega mais nenhum sentido senão o do fim. A retirada das palavras revela-se a retirada das coisas. Exibido em toda parte, o visível deixa com isso de valer como prova ou objeto de julgamento, como poderia ilustrar o estranho argumento do advogado dos policiais espancadores de Los Angeles diante do filme acabrunhador de uma testemunha do acontecimento: o filme, afirmaram eles, exprimia a realidade tal como a testemunha a percebera. Não exprimia o real dos policiais empenhados na ação” (RANCIÈRE, 1995, p. 237).

O realismo é a supressão do jogo da aparência e do real. Nesta casa onde a política se entrelaçava com seu fim. O que se opõe a este jogo é a submissão do real a categoria do possível. Política do possível: o realismo da ultra-política. O realismo não é o partido do real, mas do possível. Ele proclama a caça às entidades inexistentes, aos mitos e às utopias. Mas o que ele quer é o próprio real conforme a factualidade do “já existe” e o fim do acontecimento. A subtração das novidades cujo resultado é zero. O nada.



Referências:

RANCIÈRE, Jacques. A noite dos proletários: arquivos do sonho operário. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
RANCIÈRE, Jacques. O dissenso. In: NOVAES, Adauto (org.). A crise da razão. São Paulo: Companhia das Letras/ Brasília: Ministério da Cultura/ Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Arte, 1996, p. 367-383.
RANCIÈRE, Jacques. Enunciados do fim e do nada. In: Políticas da escrita. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.
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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Conexão tempo: o teatro das eleições presidenciais 2014 no Facebook

Nos dois meses anteriores, sobretudo, no último, percebi o significado mais profundo das palavras “conectado” e “desconectado” – quando estas se referem às redes sociais. Fiquei a maior parte deste tempo desconectado do “tempo” chamado Facebook. Por curiosidade voltava em alguns momentos para saber o que estavam falando. Então tinha vontade de comentar e curtir posts. Porém uma espécie de voz oculta, tal qual aquela que rege o método do pesquisador positivista, recomendava me desligar novamente daquele mundo. Um mundo de ficção surrealista que, no entanto, em vez de fugir do comum e do real, tinha com ele uma estranha relação de proximidade tão pontual quanto ambígua. 

O Facebook tinha se transformado, da cabeça aos pés, da imagem à grafia, do rosto ao livro, num teatro de inúmeros personagens em torno de uma peça única: as eleições. Colado ao tradicional princípio de máscaras do teatro, o público se confundia com os personagens. Mas tratava-se de uma catarse diferente. Pois o público também compunha o elenco. Cada um dele era um personagem específico. Milhões de personagens! O que quer dizer que, no sentido exclusivo do termo, ninguém assistia a apresentação. E, ao mesmo tempo, todos a assistiam se assistindo. Todos participavam das cenas, contudo e misteriosamente, nenhum dos personagens sabia o desfecho que eles mesmos produziriam. Havia antagonistas e protagonistas, heróis e vilões. Polarização. Esta que, segundo uma das personagens principais, Marina Silva, estragava o espetáculo. E estragou. Polarização da qual a própria personagem, no decorrer da narrativa, se rendeu e foi (mais uma) vítima.

Eu, que não era exatamente alguém do elenco, de relance, olhava pela fresta da porta as encenações do público-personagens. E me espantava. Em tempos de redes sociais, a militância, em favor de um personagem principal e contra outro, nunca foi tão similar ao militarismo. Exércitos de soldados. Felizmente as armas usadas não mataram. Afinal, era “só” um teatro. Mas feriram. E disseminaram ódio entre o próprio elenco. Ódio que pode vir a matar, transformando futuramente o teatro num reality show: com seus campos de concentração e paredões.

Espantei-me mais ainda quando vi o grau de confusão causado pelo jogo de máscaras. Gente que, antes, usava seu “mural” para postar selfies, fotos de gatos e piadas de humor duvidoso, estava agora falando de política como quem saboreia um pacote de bolacha no lanche da tarde. Algumas análises eram tão profundas quanto às de determinados comentaristas de futebol da Copa que nem ideia faziam do que era um escanteio. Professores universitários que geralmente se mantinham insípidos às discussões políticas (e nunca faziam críticas aos governos) começaram a se posicionar de modo nunca visto, às vezes como crianças birrentas diante da ameaça de ter seu brinquedo tirado de si. Eu que tento postar reflexões e provocações sobre política durante o ano inteiro, me vi completamente “desconectado”. É que me sentia pouco a vontade com a “polarização” (mais forçada do que verossímil) entre os dois últimos personagens principais da cena. Desconfiado com a democracia que tem no voto o alfa e o ômega, e concordando com o que postou meu primo João Gabriel, não via à hora de acabar esta peça para começarmos a discutir novamente sobre política. (Estes homônimos também fazem parte do baile de máscaras).

Algo positivo em todo este teatro é ver a sociedade brasileira debatendo temas e projetos do quais se alienou durante a maior parte da história. Mas tenho uma hipótese que aponta para o lado negativo. A acentuação das discussões em torno da política no período pré-eleitoral é inversamente proporcional a indiferença que a mesma provoca na população fora deste espaço de tempo. Infelizmente este último é o que faz toda a diferença, já que um mandato nos moldes do nosso sistema é exercido durante quatro anos e não durante os dois ou três meses que os pretensos representantes do povo aparecem continuamente na TV.

Usaram a metáfora das torcidas de futebol para descrever o comportamento dos eleitores brasileiros nas redes sociais, então, pode ser interessante compararmos este eleitor, que só se interessa por política ou expõe publicamente suas opiniões durante a eleição, com aquele torcedor que só se relaciona com seu time de coração quando vai para a final. Durante o campeonato e, sobretudo, quando a equipe vai mal, ele simplesmente se esquece de “torcer”. Não incentiva, portanto, seu time a conquistar algo. Entretanto, diferente de um time de futebol, que para obter bons resultados depende essencialmente apenas de seus atletas, na democracia a situação se torna mais delicada, pois sem participação geral ela tende a enfraquecer e até se dissipar. Num post recente, a professora de filosofia Camila Jourdan chamou atenção para este fato. No atual cenário político que vivemos, a pressão de inúmeros vetores faz muito mais diferença do que eleger o candidato A ou B. Entre estes vetores está a população – que não necessariamente coincide com banqueiros, grandes empresários, latifundiários e etc. Setores estes para os quais o PT tem cedido cada vez mais para se manter no governo e dos quais historicamente o PSBD tem sido aliado.

Como apontou Eliane Brum em O longo dia seguinte, a tônica do debate eleitoral no Brasil foi politicamente esvaziada em prol de uma retórica que garanta a manutenção do poder. Prova disso se fez quando Aécio prometeu continuidade aos programas sociais – como o Bolsa Família, alvo de crítica da maioria dos opositores ideológicos do PT. E ficou mais destacado quando militantes petistas, ao mesmo tempo, ao dizerem que esta era uma mentira cabeluda (como se pudessem prever o futuro), usavam-na como verdade para tentar convencer eleitores de Aécio a não votar nele, partindo do suposto de que o candidato não acabaria com as “Bolsas”. No fundo, mostrou-se o medo de perder o poder. Afinal o que seria do PT se aparecesse um governo que mantivesse todas as conquistas sociais durante estes anos na presidência? Isto é, qual argumento iria usar para se mostrar “melhor” que outro partido? Nesta celeuma, ficou claro que boa parte da população está insatisfeita com o PT, porém, talvez mais com o modelo de governabilidade brasileiro. Modelo este que, diga-se de passagem, nem nos sonhos mais malucos se alteraria com um governo do PSBD. Seria, sim, tão-somente uma outra forma de administrar o mesmo modelo. Talvez mais catastrófica para aqueles que ficam com a menor fatia do bolo ou aqueles que, embora façam parte do elenco, sequer são cogitados para uma eventual festa de premiação do espetáculo.  

É óbvio que as Jornadas de Junho aconteceram como exigência de mudança. Não só na presidência. Mas nos governos estaduais, nas prefeituras e nas câmaras legislativas onde não existia só PT, mas PSDB, PMBD, DEM, etc. Porém diante da falta de opções, seguiu-se com o mesmo para não abraçar algo talvez pior: por medo. Um personagem deste eleitorado vi de forma mais clara fora do teatro das redes sociais. Um taxista, já bem senhor, que conhecia de perto o PSDB e seus aliados aqui em Uberlândia-MG. Chegara a trabalhar por anos para um dos ex-prefeitos da cidade. Desiludido com a política institucional nos perguntou contra quem votaríamos no domingo. Ele votaria contra o Aécio. Bastava. Disse para agradecermos a chuva que caia naquele dia. Era tudo o que importava. O resto foi coragem de abstenção e de voto nulo.

Ao fim do espetáculo, parte do público-elenco não gostou nada nada do desenlace final da narrativa. Especialmente porque o clímax sinalizou outro fim, talvez mais surpreendente, sem dúvidas. Mas nesta confusão de máscaras pode se dizer que até o previsível surpreendeu. O elenco já dividido, antagonizado, desde então, agora troca as máscaras. Mas elas parecem continuar se contrastando e se opondo como os uniformes de dois times rivais. Vermelho versus Azul. Pobre versus Rico. Petralha versus Coxinha. Terrorista contra Playboy. Sul contra Nordeste. Brasil contra Brasil. O tempo contra nós. Derrota inevitável? A vitória de Dilma foi só o gol de empate. Para ganhar este jogo precisamos inventar novos personagens. Ou, melhor, outro tempo, no qual possamos nos “reconectar”.   
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