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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Arqueologia do saber histórico: Rancière e a “geografização do sentido”

"As cartas de amor nunca falam de amor".
 Jacques Rancière


O texto a seguir trata-se de uma resenha da arqueologia feita por Jacques Rancière (1995) sobre a narrativa historiográfica da “Nova História”, a partir do livro O Mediterrâneo, de Braudel. A análise crítica de Rancière passa sobretudo por Hobbes e Michelet e é de uma densidade que qualquer resenha ou resumo deixaria a desejar. Posto isso, o que escrevo aqui tem apenas o intuito de apresentar as principais questões e levá-los à leitura do autor.

Em O Mediterrâneo, depois de mais de mil páginas de texto, Braudel no “fim” da narrativa nos conta um acontecimento que não contara em seu “meio”: a morte do rei Filipe II. A razão para o historiador não contá-lo em “seu lugar” é a mesma de falar dele agora, no final, “fora de lugar”. Ou seja, no “não-lugar”, que passa a ser o gênero do acontecimento. Isto faz parte do programa da “Nova História” identificada aos Annales: “a morte deslocada de Filipe metaforiza a morte de uma certa história, a dos acontecimentos e dos reis” (p. 205) . A morte do rei não é mais um acontecimento, pois “eles” morreram como força da história. Ainda assim, é preciso que o historiador conte esse “não-acontecimento”, a morte do rei. Não exatamente o rei “tornar-se-cadáver”, mas o rei “tornar-se-mudo”. A cena não é de um rei em seu leito de morte, mas de “um rei sentado no trono ou em seu escritório. Ali ele é condenado à morte, persuadido de não falar, de não ter nada a dizer. Morto como a letra, mudo como o quadro a cuja solenidade tola o Fedro [de Platão] opunha ao discurso vivo” (p. 206). Esse mutismo do rei é a condição para o historiador entrar em cena, de ser recebido ao lado de um personagem que Lucien Febvre combateu: “o embaixador, o homem dos relatórios diplomáticos que eram o tesouro da velha história, a história-crônica”.

Braudel retrata o rei, diante da mesa de seu escritório, como aquele sujeito que tem por tarefa uma sucessão de detalhes, escrevendo relatórios de acontecimentos das cortes e humores dos reis. Assim, de maneira nada humilde, Braudel escreve: “Não é um homem de grandes ideias. [...] Jamais traçou em sua pena ideias gerais ou grandes planos. Não creio que a palavra Mediterrâneo tenha algum dia passado por sua cabeça com o conteúdo que nós lhe concedemos, tampouco fez surgir nossas imagens habituais de luz e de água azul” (apud p. 207). Rancière aponta que as mesmas considerações (ao rei) poderiam ser dirigidas aos historiadores da “velha história”, a Seignobos ou qualquer outro saco de pancadas dos Annales. As assertivas de Braudel marcam um deslocamento da história dos reis para a do “mar”, isto é, para a história da civilização material, dos espaços de vida, das longas durações e da vida das massas. “No entanto, dois elementos vêm complicar essa cena de adeus [à “velha história”] e transformá-la num quebra-cabeça ao qual faltam algumas peças” (p. 207).

Braudel escreve: “No século XVI, depois da verdadeira Renascença, virá a renascença dos pobres, dos humildes, obstinados em escrever, em se contar, em falar dos outros. Essa preciosa papelada é bastante deformadora, ela invade o tempo perdido, toma nele um lugar fora da verdade. É para um mundo bizarro, ao qual faltaria uma dimensão, que o historiador, leitor dos papeis de Filipe II, sentado em seu lugar, será transportado” (apud p. 207-8). Vê-se aqui que não se trata apenas do discurso da ciência historiadora contra a crônica dos príncipes e dos embaixadores. Entre o rei e o historiador, há a papelada dos pobres. Como compreender a presença dela na mesa do rei, sua relação com o mutismo e a ‘morte’ do rei e com a cientificidade e não-cientificidade da história? É o que Rancière empreende nessa arqueologia de discursos e de práticas historiográficas.

A hipótese de Rancière é a de que a “morte do rei” (na História) se deu porque ele era um produtor de papéis, quer dizer, porque a papelada dos pobres acumulava-se em sua mesa. Sua morte faz parte de um projeto político e científico para garantir o controle das palavras e das coisas. Em último, um problema de governo que precisa ser resolvido. Pois o excesso de palavras é uma das causas de desordem nos saberes e nos seres. Para quem ainda não captou, Rancière está aqui questionando a constituição deste saber-poder a partir de sua base autoritária (pois antidemocrática), porém frágil. Tais fundamentos se alastraram por toda a tradição filosófica que constitui os saberes modernos de diferentes perspectivas e áreas: ciências humanas em geral; hermenêutica, marxismo, estruturalismo, Annales, “nova história”. No entanto, a conceituação filosófica da “morte do rei” enquanto produtor de papelada só foi acontecer um século e meio após a morte de Filipe II, pela pena de Thomas Hobbes.

Em dois capítulos, um em Leviatã e outro em Do cidadão, Hobbes aponta uma causa de doença no corpo político. Mas essa “doença” não se cura ao passar simplesmente de um regime para o outro, do pior para o melhor. Ela é mais profunda! Trata-se de uma questão de vida ou morte para o corpo político, sua conservação ou sua dissolução. Que doença é essa? “...as causas de morte para o corpo político não são mais conflitos de classes ou desequilíbrios na repartição dos poderes. São antes opiniões, questões de palavra e de frases. O corpo político é ameaçado por palavras e frases que se ouvem aqui e ali, em qualquer parte, por exemplo, ‘deve-se escutar mais a voz da consciência do que a da autoridade’, ou ainda, ‘é justo acabar com os tiranos’, frases de pregadores interessados que encontram em demasia ouvidos complacentes. A doença da política é a doença das palavras. Há palavras demais, palavras que nada designam a não ser, precisamente, alvos contra os quais elas armam o braço do assassino” (p. 208). Essas palavras são problemáticas ao controle político na medida em que não há um referente “objetivo” e “particularizado” na realidade para a qual elas pretendem apontar. São nomes que não são nomes de ninguém, nem de coisa alguma. No entanto, é esta condição que permite que elas possam ser aplicadas a qualquer um. Por exemplo, as palavras “déspota” e “tirano” não designam necessariamente um ser, mas estão aí para serem encaixadas ao uso de quem deseja e dos que concordam. Eu diria que atualmente a palavra “fascista” tem servido a esta função por parte da esquerda, ao passo que a palavra “comunista” à direita. Na época de Hobbes, cumpriam o papel de tornar possível o uso de tais palavras (1º) os “homens do verbo encarnado”, pessoas que encontravam no livro da fé profecias tanto para acusar de “tiranos ou déspotas” aqueles que se opunham a expansão de sua religião, como para recrutar os simples; e (2º) os textos que davam vida e consistência à figura do déspota, são textos antigos com histórias de déspotas, com teorias de tirania e de desgraça e poemas em honra aos matadores de reis.

A revolução moderna é antes a revolução dos filhos do Livro, é a condição pela qual o verbo encarnado faz aparecer a liberdade e o despotismo, e engendra a utopia: o que para Hobbes é o mal político; isto é a proliferação dos nomes que matam porque são mal empregados, empregados por pessoas que não deveriam manejá-los. Desordem política gerada pela desordem do saber! A saída para Hobbes é a aliança entre o ponto de vista da ciência e o do lugar real, chamado de “real-empirismo” por Rancière. O “real-empirismo” vai nutrir todo um saber social, o mesmo que aparece na primeira crítica aos “Direitos do homem” feita por Edmund Burke que os chama de “direitos metafísicos”. É colocado em xeque assim a (in)consistência das palavras, há uma caça de palavras idênticas que dizem coisas diferentes (diábolos), ou palavras que não dizem coisa alguma – como se palavras e coisas já estivessem coladas desde os seus nascimentos! Esta tradição filosófica continua viva hoje através do “revisionismo” da Revolução Francesa, por exemplo, quando se denuncia a inadequação das palavras revolucionárias. Então, com esta ciência social pode-se fazer uma limpeza da papelada através da seguinte fórmula: “nada do que aconteceu se assemelha ao que foi dito. Donde a consequência pode ser facilmente deduzida: não aconteceu absolutamente nada”, o que aconteceu foi somente um engano ou um crime de fazerem forçosamente, com palavras e metafísica, uma coisa ser o que não foi.

Deste modo, “estão fundadas a equivalência epistemológica e a intermutabilidade política de dois argumentos [que alimentam o revisionismo da Revolução Francesa]. O primeiro diz que não houve Revolução Francesa, já que a centralização política da nação já tinha sido operada pelos reis e que as relações de propriedade não sofreram mudanças. O segundo diz que ela não foi senão o abismo do Terror, onde, de antemão, toda a época das revoluções e dos socialismos modernos se afundou. O problema é que a história também está ameaçada de se afundar nesse abismo. Pois a sina da história como figura discursiva está ligada a esse mínimo: que alguma coisa às vezes aconteça” (p. 212). O real-empirismo levado às últimas consequências anula o objeto da história, o acontecimento -- como sinônimo de mudança, de novidade, de dissenso, de discussão sobre a (não) relação entre palavras e coisas. No real-empirismo tudo está definido já de antemão. A história, portanto, não pode tomá-lo totalmente como seu modelo de saber. E o que ela fará então para dar conta do problema do excesso das palavras, das palavras que falam demais e que apontam para lugares múltiplos ou para lugar nenhum? É Michelet, historiador do século 19, quem cria uma terceira via que escapa do falatório da papelada e do “real-empirismo” que anula o acontecimento.

O acontecimento da Revolução Francesa para Michelet não é a queda da Bastilha ou a Era do Terror, mas a festa da federação. Não é a morte regicida, mas a morte republicana do rei que distribui seus atributos de “soberania” para o corpo da nação, para o povo. Na festa da federação aparece o sentido forte da revolução, o novo objeto de amor, a pátria. Como falar desse acontecimento? Michelet diz que a maioria das federações contou sua própria história. Então intuímos que as cartas de amor à pátria, encontradas na festa da federação, vão testemunhar. Porém, o leitor que espera que Michelet dê uma amostra do conteúdo das cartas se decepciona. Ele não deixa a papelada falar! As cartas só falam na condição de testemunhas mudas. É que para conciliar a anarquia democrática das vozes presentes na papelada dos pobres e o autoritarismo do real-empirismo que suprime as vozes, o saber histórico-democrático de Michelet usa duas operações. Primeiro, ele faz o leitor ver as cartas, conta sobre seus detalhes “exteriores”, as fitas tricolores, o papel, a escrita ornada, e mostra-se lendo-as, confirmando a materialidade e, logo, a existência delas. Segundo, ele diz o que elas dizem, não literalmente, não as deixando falarem por si mesmas, porém, diz o poder delas, o amor à pátria. Sua importância é a potência de sentido delas e não o que está escrito. O sentido ali não está no conteúdo enunciado pelos escritores, mas nas cidades, nos lugares, nos hábitos, nas “coisas”. Isto porque, para Michelet, os que vivem não sabem o que é a vida, os que falam não sabem o que falam. Quer dizer, só existe ciência do escondido, do silêncio, da testemunha muda, da reserva de sentido. Aqui, para garantir a cientifização da história, o historiador fecha a porta para a literatura, para as palavras que remetem a outras palavras, e, assim, inscreve as palavras (das cartas) nas coisas (materiais). Mas aí quem fala não são as palavras, mas as coisas. A testemunha muda, fala como muda, e empresta sua voz ao que nunca falou. Para se constituir como ciência, a história empreende uma auto-anulação da literatura.

A questão dos sujeitos viverem e não saberem o que é a vida e de falarem e não saberem o que dizem, passa por uma “teoria das relações entre o sujeito, o saber, a palavra e a morte que se dá na forma de relato”. Relato este que o historiador construiu para falar do acontecimento da festa da federação como marco da Revolução Francesa e do sentido inscrito nas cartas de amor à pátria. Este relato que depende de uma testemunha muda (as cartas, os sujeitos) e seu intérprete (o historiador, aquele que diz qual é seu sentido), supõe uma certa ideia de psicanálise. É assim que Michelet define o historiador, como um Édipo. Um Édipo particular, não o decifrador do segredo que o leva a cegar-se. Mas o decifrador do enigma que matou os outros por estes não terem sabido decifrá-lo. Um libertador da maternidade de sentido. Aquele que entrega os filhos às suas mães ao desvendar seus inconscientes. Acalmar o tumulto das vozes (da papelada) que gera a desordem política e do saber é acalmar a morte. “Acalmar os mortos, reconduzir ao túmulo aqueles que morreram por não saber o que toda vida ignora – a voz que nela fala – é necessariamente a obra de alguém que deve ter ele próprio passado pela morte, esse rio que o historiador nos diz ter tantas vezes atravessado e reatravessado em prol daqueles que dizem ‘aceitamos a morte em troca de uma linha sua’” (p. 218).

Deste modo, a superioridade da história erudita sobre crônica da “velha história”, é que a primeira enfrenta a morte. A ausência de seu objeto (já morto e pronto para ser reconciliado consigo mesmo) é a condição de sua existência, de sua ciência, a ciência do escondido. Paradoxalmente, tudo fala, mas o único que diz alguma coisa é o mudo. Michelet é o pai da “Nova História”, duplamente da história da civilização material e da história das mentalidades. Pois o que fala é mundo dos objetos e dos instrumentos, das trocas comerciais, das práticas do cotidiano, dos usos do corpo e das condutas simbólicas. Há aqui um deslocamento do corpo, aquilo que não fala é o que vai dizer, um discurso proferido por coisas, “a cidade fala”, “as pedras choram”, “o oceano se emociona”. “O lado da verdade é aquele onde as palavras não estão escritas no papel ou no vento, e sim gravadas na textura das coisas”. Graças a Michelet haverá uma geografização do sentido, usada por Fernand Braudel, na qual o mar e a terra darão o sentido da história, não mais os acontecimentos. Em Michelet, a “morte do rei” dá lugar à pátria, ao povo, mas trata-se de um povo geografizado, calado.

Em Braudel, o rei dá lugar ao mar. O mar como um espaço material e um espaço de discurso, coincidindo coisas e palavras. A revolução epistêmica da história acontece na medida em que há uma desconsideração da literatura, do rei e de sua papelada em prol da geografização do sentido. Mas o rei não morreu, tornou-se mudo, tornou-se mar. Na longuíssima duração das profundezas abissais da história, só um livro agora tem sentido. O livro do mar. O Mediterrâneo.  

Referências:

RANCIÈRE, Jacques. As palavras da história. In:______. Políticas da escrita. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995, p. 216-218.

Recomendações:

BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo: e o mundo mediterrânico. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
HOBBES, Thomas. Do cidadão. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
MICHELET, Julles. História da Revolução Francesa: da queda da Bastilha à festa da federação. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Os documentos da História: uma iniciação do historicismo aos Annales

Podemos considerar que foram os historicistas alemães os precursores da discussão acerca da verdade, do método e dos documentos no ofício do historiador. Júlio Bentivoglio salienta que o historicismo possui uma dívida com o pensamento de Chlaudenius, autor que, no século 18, apresentou concepções avançadas para a pesquisa histórica. Chlaudenius teria destacado o ponto de vista dos sujeitos históricos e dos historiadores-narradores, revelando que o conhecimento histórico é marcado pela crítica, tanto da perspectiva do historiador, quanto dos testemunhos. Isso não quer dizer que o trabalho estivesse contaminado pela subjetividade, que impossibilitaria o método, mas sim que era preciso reconhecê-la como uma ferramenta para a compreensão correta sobre a verdade.  

Bentivoglio apresenta outros postulados do historicismo alemão, como: a compreensão do passado, a busca por objetividade, as técnicas de história documental, como a desconfiança dos testemunhos para que se evitasse a reprodução acrítica do que os documentos diziam, o cuidado com o anacronismo (Niebuhr); a fabricação de uma agenda científica para os historiadores prussianos, que versava a proposta de reunir os fatos, procurando os nexos, identificando suas forças motrizes e os reproduzindo por meio de uma exposição narrativa, ou seja, seguir procedimentos científicos e não abandonar a atividade criadora em seu ofício (Humboldt); a separação da história à literatura ficcional, pois embora o discurso escrito fosse parecido, o historiador não poderia inventar os acontecimentos através de sua imaginação como o literato (Gervinus).

Contudo, os autores que mais se destacaram no historicismo alemão do século XIX foram Droysen e Ranke. O primeiro escrevendo um manual de teoria da história que ainda hoje é lido, por sua composição epistemológica particular; e o segundo, o historiador de uma produção vasta concebida pelo domínio da prática e pela defesa do método caro ao seu trabalho. Ranke, assim como outros historicistas, possui uma nítida inspiração da história de Hegel, quando expõe que o ponto de vista do historiador deve ser divino e a verdade acerca do tema retratado deve permanecer única mesmo que várias obras sejam escritas. De acordo com Pedro Caldas, a busca por objetividade de Ranke fez com que ele negasse um grau de subjetividade. Que grau era esse? A subjetividade vetada é aquela caracterizada pelo simples arbítrio, pela atribuição prévia de um sentido ao texto. Por isso, o historiador não deve ler o texto com preconceitos ou significados previamente determinados, do contrário, toda investigação será ociosa e a verdade nunca encontrada além do “já sabido”.

Ranke desenvolveu um pensamento crucial à discussão acerca dos documentos e fontes históricas. O autor desconfiou dos relatos sobre o passado, criticando àqueles pesquisadores que faziam história com base no que foi dito por outros a partir de outras histórias, por isso se segurou na autoridade exclusiva do imediato e na importância das fontes. Entretanto, ao contrário do que comumente se acredita na comunidade de historiadores, de acordo com Pedro Caldas, Ranke critica a passividade perante os documentos, pois estes não seriam a residência fixa da verdade, mas somente “papéis mortos” que a vida se revelaria pouco a pouco quando o espírito do leitor (a maneira da interpretação luterana) penetrasse no texto. Não é a imparcialidade que caracteriza a obra de Ranke, porém seu receio de tomar partido, uma cautela fundamental para a cientificidade, conforme argumenta Caldas. A importância de Ranke se dá não somente pelo que ele defendia, mas também pela recepção do autor, que acabou causando uma formação discursiva cara a historiografia moderna do século 20. Vejamos do que se trata essa recepção interpretativa.

Peter Burke atribui à crítica que foi feita a prática historiográfica de Ranke mais aos seus seguidores (os rankeanos) do que propriamente a ele, porém, não há dúvidas que alguns desses elementos aparecem também no trabalho de Ranke. Usualmente o autor virou uma sinonímia do historicismo, o que acreditamos ser uma consideração problemática visto a gama de historiadores heterogêneos que se inserem a essa corrente. A primeira crítica a Ranke é dirigida em relação à sua suposta defesa da neutralidade, uma interpretação da exposição na qual o autor diz que “quer fazer a história do modo que ela aconteceu”. A busca da verdade por Ranke lhe valeu a alcunha de historiador eunuco por Nietzsche, quando o filósofo disserta sobre a “febre da história” que marcava o momento intelectual da crítica à metafísica em prol da consciência histórica. Mais do que isso, a historiografia moderna criticou a história rankeana por ela ser eminentemente política, eixo a partir do qual submetiam as outras esferas da sociedade. Por conta desse privilégio do político, os historiadores rankeanos faziam uma espécie de hierarquização dos documentos, dizendo que os documentos escritos e oficiais, ligados ao Estado e preservados em arquivos, eram mais importantes e confiáveis que os demais. Nada incomum, se situarmos esses historiadores em seu contexto social do período. Boa parte desses autores integrava os projetos de Estado-nação e unificação da Alemanha, alguns como conselheiros diretos do rei.

Outra corrente historiografia, a Escola Metódica Francesa, seguia uma linha parecida (de condução da pesquisa) a dos “rankeanos”. Priorizava os documentos escritos aos quais à crítica do historiador só deveria se reportar para destruir informações ilusórias, nunca criando outras. Em busca da verdade, Langlois e Seignobos, expoentes desta vertente, dizem que a crítica apenas classifica, nos mostra probabilidades criando etiquetas: afirmação sem valor, afirmação suspeita (fortemente ou fracamente), afirmação provável ou muito provável, afirmação de valor desconhecido. Esses autores procuravam adotar um modelo de história que estivesse adequado a ciência natural que, embora constituísse um procedimento próprio, nunca poderia entrar em confronto com as ciências físicas consideradas “exatas”.

Segundo Peter Burke, o surgimento da chamada “Nova História” no século XX rompe com o paradigma tradicional da historiografia, que era visto como o único jeito de fazer se história. Os historicistas e os metódicos são considerados os representantes deste paradigma tradicional, que não raras vezes (ambos) são chamados de positivistas, por conta da leitura que os aproxima das ciências naturais e da tentativa de neutralidade. Para Burke, algumas mudanças foram claras em relação ao modo de fazer história tradicional. Com a Escola dos Annales, há o interesse por toda a atividade humana, tudo tem um passado e uma história. Daí, a expressão “história total” cara aos autores dos Annales. Desta maneira a história política deixa de ter privilégio sobre as demais, aliás, devido à inspiração marxista, apontada por Jacques Julliard, a política é relegada ao segundo plano, pois estaria ligada aos acontecimentos que seriam apenas espumas trazidas pelas ondas do mar da história de longa duração, protagonizada pelo econômico e social (expressão de Braudel, da segunda geração dos Annales).

A partir da Escola dos Annales, muito em função do interesse por toda a atividade humana, houve uma expansão da documentação no trabalho do historiador, deixando de ser restrita aos documentos escritos e oficiais produzidos pelo Estado. Nesta geração de pesquisadores, todos os documentos passam a ser utilizados como evidências: os documentos orais e visuais, os objetos e utensílios, as estatísticas e os dados, fabricados em diversas esferas da sociedade com as quais a pesquisa pretende investigar. Tudo que for indício da atividade humana é incorporado à documentação da pesquisa história, pois como escreveu metaforicamente Marc Bloch, o historiador deve ser como o ogro da lenda que fareja carne humana atrás de sua caça.

A defesa da interdisciplinaridade pelos Annales provocou a inserção de outras ciências humanas e sociais como auxiliares na pesquisa histórica. Mais do isso, conforme salienta Burke, a Nova História rejeita a ideia de história objetiva de Ranke, a que queria contar “os fatos da maneira que eles aconteceram”. Pois, embora a história seja um conhecimento cientificamente conduzido através de um método, a objetividade é impossível sem a subjetividade, pois nossas mentes não refletem diretamente a realidade, mas só percebemos o mundo através de uma estrutura de convenções, esquemas e estereótipos, um entrelaçamento que varia de uma cultura para outra. Nossa percepção dos conflitos é certamente mais realçada por uma apresentação de pontos de vista opostos do que por uma tentativa de articular um consenso. Segundo Canclini, essa exposição da Nova História está baseada na crítica à consciência absoluta do sujeito cartesiano feita inicialmente por Nietzsche, que descreveu a genealogia da moralidade da consciência cristã ocidental, Marx, que particularizou as consciências históricas conforme os interesses de classe e, Freud, que diagnosticou os conflitos internos da consciência, onde “o ‘eu’ não é senhor dentro da própria casa”.

Embora já houvesse a atenção de alguns autores historicistas para o caráter subjetivo da pesquisa historiográfica e para a necessidade da crítica do pesquisador frente aos documentos, foi mesmo com os Annales que ela foi, pelo menos, popularizada e sintetizada. Jacques Le Goff, integrante da fase tardia do Annales, num artigo escrito no final do século XX, advoga a importância de tratar os documentos como monumentos. Para o historiador, os monumentos nunca são neutros, nem a própria existência dos mesmos, estes só chegam até o presente por conta de forças impostas e vencedoras do passado que querem transmitir algum tipo de imagem da sociedade que os produziram. São as escolhas dos historiadores que determinam quais monumentos que serão utilizados como documentos, mas os dois são uma coisa só. Le Goff critica Fustel de Coulanges, autor que teria dito que “a única habilidade do historiador consiste em tirar dos documentos tudo o que eles contêm e em não lhes acrescentar nada do que eles não contêm. O melhor historiador é aquele que se mantém o mais próximo possível dos textos”. Segundo Le Goff, esse era um postulado típico da “escola positivista”, a qual defendia a primazia dos documentos, que assumiam o lugar de prova, logo de comprovação da verdade. Le Goff acredita que a Escola dos Annales proporcionou uma revolução documental em duas medidas. Primeira, quantitativa e, segunda, qualitativa.

Quantitativa: houve uma ampliação que já foi explicada, e através dela operou-se o trato da documentação em massa, medido por seu valor em série, onde há a confrontação de vários tipos de documentos, sob várias perspectivas através das quais o objeto de pesquisa pode ser estudado. Por exemplo, ao investigar as revoluções européias de 1848 o historiador poderia acumular documentos produzidos pelas elites, pelos líderes políticos de massa, pelos filósofos, pelas classes pobres ou fazer uma análise cruzando acontecimentos políticos a dados econômicos e de crescimento demográfico, numa escala comparativa de curta ou longa duração. Na era do computador e do processamento de dados, uma vertente da história quantitativa cresceu bastante, chegando ao ponto de determinados pesquisadores da linha (os chamados “cliometras” segundo Joseph Fontana) dizer que somente esse tipo de história pode ter um conhecimento científico seguro.

E. P. Thompson fez uma crítica consistente ao tipo de história que se baseia apenas no valor quantitativo dos documentos, para o historiador inglês, os números de um cálculo estatístico pouco dizem ao historiador se não levarmos em conta o fator cultural e a mudança de um determinado contexto histórico. Ele aponta como exemplo o crescimento da média dos salários do operariado inglês durante a Revolução Industrial, que obscurecem a compreensão da conjuntura se não olharmos o crescimento proporcional do número de pobres com o aumento da população e a mudança nos costumes cotidianos destas pessoas, a noção do tempo fabril regrando a vida é uma delas.

Qualitativa: Lucien Febvre diz que o mais apaixonante do historiador é fazer falar as coisas mudas, fazê-las dizer o que elas próprias não dizem sobre os homens, sobre as sociedades que as produziram. Com os Annales, a crítica ganha um papel essencial na pesquisa histórica. Agora o historiador não precisa estar cada vez mais colado ao texto para produzir conhecimento sobre o passado, como quis Coulanges, mas sim, é necessário questionar os documentos. Diante dos enunciados escritos, por exemplo, é preciso fazer as três perguntas do método básico de análise: O que é? Por quê? Para quem? Cabe ao historiador investigar as intencionalidades por trás da existência do documento, como também o que ele diz e, portanto pretende esconder e mostrar; não mais simplesmente reproduzi-lo, pois não existe documento inócuo, objetivo, neutro, primário, todos devem ser compreendidos como instrumentos de poder. Foucault já havia apontado sobre o aspecto monumentalista de todo documento, mas ao contrário dos Annales, o filósofo-historiador não quis fazer os documentos falarem, e sim através do método arqueológico descrever os monumentos, fazendo séries e investigando a produção dos regimes de verdade, ligados as instituições de poder e saber, e as regras discursivas pelas quais tornaram possível pensar, falar e agir da maneira que pensamos, falamos e agimos a partir da modernidade.

Referências:

BENTIVOGLIO, Júlio. Cultura política e historiografia alemã no século XIX. Revista de Teoria da História – Goiânia: UFG, ano 1, nº 3, p. 20-58.
BLOCH, Marc. Apologia da história: ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BURKE, Peter. Abertura: a nova história, seu passado e seu futuro. In:_____. A escrita da história: novas perspectivas. SP: Unesp, 1992, p. 7-38.
CALDAS, Pedro. O espírito dos papeis mortos: um pequeno estudo sobre o problema da verdade histórica em Leopold Von Ranke. Emblemas – Revista do departamento de História e Ciências Sociais – UFG/CAC, v. 1, n. 3, 2007.
CANCLINI, Néstor García. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007.
FONTANA, Josep. História depois do fim da História. Bauru: Edusc, 1998.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.
LE GOFF, Jacques. Documento/monumento. In:_____. História e Memória. Campinas: Unicamp, 1996.
THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa, vol. II: a maldição de Adão. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

terça-feira, 5 de junho de 2012

“Apologia da história” de Marc Bloch: a ciência de historiar

Fuzilado em 1944 pela Gestapo (polícia nazista) durante a resistência francesa contra a invasão alemã na Segunda Guerra Mundial, o autor de Apologia da história ou O ofício do historiador deixou sua obra de metodologia histórica incompleta. Francês e judeu, Marc Bloch que fundou, juntamente com Lucien Febvre, a Escola dos Annales (um marco para a pesquisa histórica) foi um dos mais importantes historiadores de todos os tempos. Neste post, procuraremos percorrer alguns pontos interessantes do livro mencionado.

Logo na introdução existe uma reflexão crucial para o historiador, a de que vivemos numa sociedade histórica. As civilizações ocidentais (gregas e latinas) que antecederam as sociedades modernas eram, segundo Bloch, compostas por povos historiógrafos. O cristianismo é uma religião de historiador. Podemos ver esta questão presente também no trabalho de Hannah Arendt. Contudo, a autora é mais cuidadosa ao distinguir as noções históricas entre gregos e latinos. “A filosofia cristã rompeu com o conceito de tempo da Antiguidade, porque o nascimento de Cristo, tendo ocorrido num tempo humano secular, constitui não só um novo princípio como também um acontecimento único e sem repetição” (ARENDT, 1988, p. 22). Embora os gregos possuíssem culturalmente a história, como mostrou Bloch, o conceito circular estava intrínseco aos ciclos da Antiguidade. Os assuntos humanos nunca eram completamente novos, apenas se repetiam; o que aparecia como algo novo eram apenas os homens das novas gerações; assim, todos estavam predestinados a contemplar um espetáculo natural ou histórico que era sempre o mesmo. Os conceitos cristãos de "História" e de "vida eterna" romperam com esse ciclo.

Entretanto, Bloch adverte com tom pesaroso que as civilizações podem se modificar deixando de ser históricas; pois existe o perigo de jogar a “boa história” no buraco junto com a “má história”. Este trecho marca dois posicionamentos do autor. O primeiro é o tom moralista que acompanha o livro de Bloch; a separação entre os bons e os maus, os verdadeiros e os mentirosos e, logo, os que mandam e os que obedecem. O segundo é a pretensão de que seu livro seja não somente uma introdução aos estudos históricos, mas também uma defesa da legitimidade e da cientificidade da História.

Em seguida o autor trata de estabelecer a diferenciação entre legitimidade e utilidade. A história, para Bloch, não deve ser encarada de modo pragmático como uma ciência técnica que precisa sanar um problema imediato, pois sua utilidade pode ser justificável pelo simples desejo de matar a fome intelectual do pesquisador e do leitor. Isso não exclui que sua “utilidade”, cedo ou tarde, seja nos ajudar a viver melhor. Sua legitimidade encontra a defesa justificada no seu oposto, isto é, a desqualificação e a depreciação da história só servem a um propósito: a ignorância.

Podemos notar que, durante o texto, Bloch procura estabelecer espécies de conciliações mediadas pelo bom senso do pesquisador em história. Opinando numa discussão, datada do início do século 19, sobre se a história é arte ou ciência, Bloch diz que uma não exclui a outra; e é importante que a história se alimente das duas fontes sem cair no extremo de nenhuma delas. Bloch critica seus ex-professores, os historiadores da Escola Metódica Francesa, aos quais se reporta como “positivistas” herdeiros de Comte, pois além de considerarem a História uma ciência menor em relação às ciências exatas (a tal ponto de apagarem sua plausibilidade e originalidade), também fizeram do trabalho do historiador algo tão técnico quanto impossível. A principal crítica de Bloch aos metódicos se refere à crença na neutralidade e no apagamento da subjetividade e intencionalidade do pesquisador durante o uso dos documentos. Bloch defende que a poesia e a imaginação não retiram a “cientificidade” da História, por isso ela pode atender tanto a sensibilidade como a inteligência. Mantendo a coerência com o equilíbrio, o francês tece crítica também aos historiadores alemães que tomam a História como uma espécie de jogo estético ou um “exercício de higiene benéfico à saúde do espírito”. No entanto, apesar da conciliação entre arte e ciência, Bloch é categórico em considerar que a História é uma ciência.

Se toda ciência possui um objeto, qual é o da História? Bloch diz que não é o passado, pois este não é palpável e não é específico a somente uma ciência (a geologia estuda o passado das formações rochosas, a geografia as mudanças climáticas através dos sedimentos, a química a constituição do sol); mas em nenhuma delas o homem (e sua ação) está presente como elemento principal. Portanto o objeto da história são os homens (no plural). “São os homens que [a história] quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da erudição. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está sua caça” (BLOCH, 2001, p. 54). Mas o objeto de pesquisa dos historiadores não é simplesmente "os homens". Além do homem, o historiador pensa também o tempo e a duração. Em última instância, a história é a ciência dos homens no tempo. E esse tempo é, por natureza, um continuum e também perpétua mudança. Ou seja, o tempo não pára, se desenrola, não possui pausa nem ruptura, mas a todo o momento se modifica. Significa dizer que o tempo não é cíclico e repetível, como pensavam os gregos antigos.

Para que serve a História? Novamente aparece uma conciliação. Agora entre passado e presente (solidariedade entre as épocas). Bloch acha que não é possível entender o presente sem estudar o passado, e também não é possível compreender o passado sem estudar o presente (quem conhece ambos sabe agir melhor sobre o presente). Neste caso o historiador quer reconstruir um filme do qual só possui o final (o presente), isto é, o último fotograma está completo e todos os outros estão em pedaços, em vestígios que precisam ser encaixados como as peças de um quebra-cabeças. No ofício do historiador, a primeira condição para interpretar os documentos e formular corretamente os problemas é observar a paisagem do hoje. Aqui uma mudança significativa em relação aos historiadores metódicos que, em vez de interpretarem os documentos, apenas queriam transmiti-los reescrevendo-os.

O vínculo passado-presente é delineado através das trocas culturais com gerações anteriores, pela oralidade e pelos escritos e ocupam funções importantes nas transmissões de pensamento que fazem praticamente a continuidade de uma civilização. É necessário, entretanto, compreender os homens conforme a sua época, pois eles se parecem mais com seu tempo do que com seus pais. Tanto é que Bloch critica o historiador que busca explicar o “mais próximo” pelo “mais distante” (o ídolo das origens). Esse tipo de historiador acredita que a causa (explicativa) está num passado remoto, por isso desce às profundezas antes de compreender o presente e o passado recente, crendo que tudo já estava dado num princípio original. Esse seria um movimento rumo ao infinito, pois assim que chegasse num “ponto originário” precisaria compreender qual foi a causa deste ponto, voltando cada vez mais para trás, atrás de causas das causas.

Quais são as técnicas principais de pesquisa do historiador? Comparação, intuição e bom senso. Bloch compara o trabalho do historiador ao do detetive que tenta reconstituir a cena de um crime sem tê-lo presenciado. Então é através dos testemunhos (todos os tipos de vestígios do passado) que o historiador procura reconstruir a trama histórica. Neste trabalho, ele precisa comparar todos os tipos de documentos. Não apenas recorrer às fontes escritas, mas a todos os resíduos deixados como pistas. Aqui o historiador se mostra "subserviente" às fontes e aos documentos. Afinal sem estes não é possível fazer uma pesquisa histórica. Como, por exemplo, não é possível reconstituir a mentalidade íntima dos homens no Império Merovíngio, porque não existem cartas ou diários particulares na sociedade desta época. Geralmente, os historiadores dão mais créditos aos documentos involuntários, que são os documentos que não foram fabricados para serem repassados a gerações futuras (como guias de viagens “enterradas” nas tumbas egípcias). E questionam ainda mais as intencionalidades dos documentos voluntariamente escritos para o futuro, como o livro Historie, de Heródoto.

Ao fazer um recorte temático e pretender responder a determinadas perguntas, o historiador precisa ter um roteiro para questionar os documentos e fazê-los falarem mesmo a contragosto. Enfim, é preciso saber questionar os documentos, traçar uma direção e um objetivo quando utilizá-los. Informar ao leitor tanto sobre os meios utilizados de pesquisa, como sobre os fins aos quais se pretende chegar é um trabalho necessário que demonstra honestidade intelectual do historiador e que causa prazer nos seus interlocutores.

Entretanto, não existe um tipo certo, preciso e específico de documento para responder a uma determinada pergunta. Todos os documentos são valiosos. Contudo, para cada tipo de documento é necessário usar uma ferramenta adequada para analisá-lo. Por isso, o historiador deve conhecer minimamente as principais técnicas de seu ofício e saber utilizá-las de modo específico para cada tipo de documento.

Além da comparação com outros documentos da época, o historiador precisa a todo o momento utilizar a crítica como elemento de trabalho. Nem sempre é cabível confiar inteiramente em sua fonte ou no documento analisado – nem desacreditar em tudo também. Em busca da mentira e do erro, o historiador precisa estar atento à manipulação de documentos referentes ao autor, à data e ao conteúdo. As cartas assinadas por Maria Antonieta, por exemplo, são falsas porque foram fabricadas no século 19. Tal constatação foi possível ao comparar cartas da época (tipos de papel, desenho das letras e figuras de linguagem). Porém, a mentira também é um testemunho histórico rico para o historiador entender as intencionalidades. O relato do soldado francês Marbot, que diz ter vencido sozinho um batalhão na guerra contra a Alemanha no início do século 19, é uma mentira, pois nada consta do ocorrido nos documentos alemães, nem nos dos soldados franceses. Sabe-se depois que chegou um pedido de promoção militar feito a Napoleão, escrito por Marbot. Além disso, erros inintencionais do próprio contexto podem acontecer frequentemente e, nesse caso, a historiografia recorre a psicologia do testemunho. Sobretudo, para entender como a familiaridade de uma situação pode torná-la invisível pela sociedade que a vivencia, ou mesmo, identificar momentos de pânico, cansaço, medo e angústia que podem atravessar os relatos, modificando-os de diferentes formas. A maioria destes aspectos pode ser compreendida à luz da atmosfera social do período.

A crítica da comparação poderia ser minada pelo argumento de que a invenção, a criação e “o novo” podem não ser considerados verídicos. Como exemplo, um documento afirmando terem inventado o avião na Idade Média, embora não tenham divulgado a invenção. Ou, ainda, terem descoberto a teoria da relatividade (antes de Einstein) no século 18. Nesse caso, Bloch se defende dizendo que mesmo que algo novo seja inventado, criado ou descoberto é preciso que haja vestígios anteriores do passado que demonstrem o avanço capaz de possibilitar o “novo”. Aqui, podemos fazer uma crítica ao “pai dos Annales”. Parece-nos que Bloch ainda se prende a uma noção de história de acúmulo, que só considera o novo como somatória e determinação a partir do antigo. Tanto é verdade que Bloch acredita ter uma vantagem de superioridade para enxergar a totalidade da história em relação aos historiadores antecedentes.

(* Essa resenha se refere somente à Introdução e aos três primeiros capítulos do livro).

Referências:

ARENDT, Hannah. Da revolução. São Paulo/Brasília: Ática/Ed. UnB, 1988.
BLOCH, Marc. Apologia da história ou O ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

Leia tambémHistória: arte ou ciência? (post de 01 abr. 2013) 
 
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