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sábado, 18 de julho de 2020

Constantino, o salvador do cristianismo? | História e diferença em Paul Veyne (sobre Roma Antiga)





Um dos mais renomados historiadores da atualidade, o francês Paul Veyne, especialista em antiguidade greco-romana, publicou em 2007 uma obra sobre a história do cristianismo primitivo que considero provocativa para seus colegas de profissão, os historiadores. No vídeo abaixo trago uma comunicação sobre esse livro ou, melhor, sobre a parte desse livro que me chamou atenção. Daí a gente aproveita e conversa um pouquinho tanto sobre história de Roma antiga como sobre historiografia.

Se liga!

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

7 de Setembro: independência aos gritos ou a invenção de um marco


"A chegada de despachos de Lisboa que revogavam os decretos do príncipe regente, determinavam mais uma vez seu regresso a Lisboa e acusavam os ministros de traição deu alento à ideia de rompimento definitivo. A princesa Dona Leopoldina e José Bonifácio enviaram às pressas as notícias ao príncipe, em viagem a caminho de São Paulo. As recomendações ao portador de que arrebentasse uma dúzia de cavalos se fosse preciso, para chegar o mais rápido possível, indica o interesse de José Bonifácio em apressar a independência e fazer de São Paulo o cenário da ruptura final.

Alcançado a 7 de setembro de 1822, às margens do Riacho Ipiranga, Dom Pedro proferiu o chamado Grito do Ipiranga, formalizando a independência do Brasil".

Boris Fausto, História do Brasil, 1995, p. 134.

Assim, num livro didático destinado a estudantes do ensino médio, das universidades e “com esperança de atingir o público letrado em geral”, é descrito o marco da independência do Brasil por um dos historiadores brasileiros de maior renome. A cena, cuja alusão aparece inclusive no início do hino nacional, tornou-se recorrente na maior parte da historiografia sobre o período. Sabe-se que os governos do século 19 se utilizaram de muitos recursos para forjar uma identidade nacional, como símbolos materiais e imateriais capazes de fortalecer o nacionalismo e instituir o Estado-Nação. Então cabe perguntar se este evento teria mesmo ocorrido. Nestes tempos de império do meme e do humor, outra versão do episódio ficou famosa. Aquela em que Laurentino Gomes, um jornalista produtor de livros de romance histórico, vende a imagem de Dom Pedro, montado numa mula e não em um alazão reluzente, voltando de São Paulo e parando a cada 15 minutos, nas margens de qualquer córrego, por conta de uma diarreia homérica.

A despeito destas versões, nem a epopeia nem a comédia parecem sobreviver ao contraste com a pesquisa documental sobre o episódio. Simplesmente não há documentos confiáveis sobre tal. Pelo menos esta é a conclusão do artigo de Maria de Lourdes Viana Lyra, publicado na Revista Brasileira de História, em 1995, do qual faço resumo neste post. Tratado como um marco fundador da nacionalidade brasileira desde 1829, a autora pretende informar a seus leitores sobre a construção da memória do Sete de Setembro. Aqui interessa saber como e quando o Grito do Ipiranga virou símbolo da proclamação de independência. Adiantando: provavelmente no momento em que se precisou gritar, às vezes sutilmente, para garantir a boa imagem do imperador como herói e imprimir na alma dos brasileiros a identidade da nação.
   
Obra "Independência ou Morte" (1888) do artista Pedro Américo. Foi encomendada pela Família Real com objetivo de homenagear a monarquia, encontra-se em São Paulo no Museu do Ipiranga ou Paulista.

Conjuntura histórica da independência

A partir de 1808 o Brasil tornou-se sede do governo imperial português. Recusando a imposição de Napoleão para bloquear comercialmente a Inglaterra, a Corte portuguesa fugia das tropas francesas e da possível destruição de sua monarquia. Esta data marca também o fim da condição do Brasil como simples colônia. Oficializada em 1815, a ex-colônia sobe à categoria de reino. O Brasil passa pela primeira vez a ser considerado “o país” do futuro. A mudança significa que não há mais um pacto de exclusividade comercial com a “metrópole”, mas sim liberdade econômica e política; obviamente desde que isso não conflita com os interesses do Império ou da aristocracia lusa (LYRA, 1995, p. 175).

Até aí tudo bem. O problema é que em 1820 rebenta em Portugal uma revolução liberal. Causada justamente pelo pauperismo industrial e comercial como consequente resultado, entre outros fatores, da mudança da sede da monarquia de Lisboa para o Rio de Janeiro. Os revolucionários exigiam a restauração da sede na Europa, bem como o retorno das autoridades reais. Tal exigência esbarrava justamente no projeto do reformismo ilustrado de Portugal, que era o de construir uma unidade do Império Ultra-Marino tanto política, como nacional: Portugal, Brasil, Algarve passariam então à condição de Estados iguais “unidos pelos interesses recíprocos e pelos laços de solidariedade nacional”. Ademais, os revolucionários reivindicavam a queda da monarquia absolutista e a instituição do parlamentarismo a fim de que pudessem alterar os rumos da política imperial através de representantes de grupos mercantis e da aristocracia agrária. Eles entendiam a mudança da sede da monarquia para o Brasil como um evento que transformara Portugal numa mera província ou, pior, em colônia do Brasil.

Foi este confronto de interesses que fez com que os grupos dominantes no Brasil declarassem a independência do país. Contudo isso não acontece da noite para o dia. Em janeiro de 1821 as elites econômicas portuguesas reunidas nas Cortes de Lisboa deliberaram pela instituição da Monarquia Constitucional com o objetivo claro de promover a regeneração das forças produtivas do Reino europeu. Daí em diante as províncias coligadas (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais) formaram regimentos militares em defesa da causa do Reino do Brasil. Inicialmente, embora criticassem as posições da Cortes Gerais e Constituintes de Lisboa, os brasileiros estavam hesitantes e ainda defendiam a unidade imperial da qual se sentiam integrados. Depois, desde janeiro de 1822, sobretudo com o Dia do Fico, conferiram ao príncipe regente Dom Pedro o título de “Defensor Perpétuo do Brasil” e declararam a independência política-constitucional. Isto quer dizer apenas que exprimiam a intenção de ruptura da unidade e independência das Cortes Constituintes, porém, não em relação ao rei nem à nacionalidade portuguesa. Foi somente na segunda metade deste ano de 1822, com o acirramento do conflito entre os dois reinos, que o discurso tornou-se mais incisivo e determinado para a completa independência brasileira.

Sobre a data exata da independência há muitas referências desencontradas em documentos da época, como notícias de jornais e correspondências entre autoridades. Mas sabe-se que não existe no ano de 1822 nenhuma referência ao evento que se tornou conhecido na memória e no imaginário nacional: o Grito de Independência às margens do Rio Ipiranga feito por Dom Pedro especificamente no dia 7 de Setembro do mesmo ano. Nem em jornais, nem em discursos e documentos oficiais, tampouco em cartas. Tudo não passou de uma construção posterior, uma invenção.

Lyra apresenta ocasiões diversas que foram referidas como marcos da independência.

Em outubro de 1822, o jornal Correio Brasiliense publicou o Decreto de 1º de agosto como registro formal da Independência. Neste documento Dom Pedro apontava que em razão do Brasil já ter proclamado sua independência política-institucional o mesmo havia convocado por voto unânime uma Assembleia Constituinte. E mais: por considerar o rei Dom João VI em cárcere dos revolucionários “declarava inimigas as tropas que, vindas de Portugal, pretendessem desembarcar nos portos do Brasil”. Lyra acha significativa a postura do jornal sobretudo se levado em conta que não havia menção ao “Manifesto aos brasileiros”, datado do mesmo dia 1º de agosto. Este último documento, cujo conteúdo também discorria sobre a independência política do Reino do Brasil mas protegendo os vínculos da fraternidade portuguesa, foi bem mais divulgado pela historiografia. O jornal carioca Regulador Brasileiro, também em outubro de 1822, apontava outro documento como declaratório da independência. Trata-se do “Manifesto das Nações” de 6 de agosto. Entretanto, ainda que proclamasse a independência política do Brasil, este documento reivindicava “a condição de reino irmão e a permanência da justa reunião de todas as partes da monarquia debaixo de um só rei” (p. 179).

O Espelho, jornal de circulação no Rio de Janeiro e ligado aos grupos do governo, registrou em 13 de setembro a entrada de Dom Pedro na cidade de São Paulo no dia 25 de agosto onde foi recebido com festejo nas ruas. Conta também sobre sua participação em cerimônias religiosas. Em 14 de setembro é noticiado que o príncipe chegara no Rio de Janeiro, porém nada se fala sobre o tal 7 de Setembro. Este jornal inclusive omite a chamada “proclamação aos paulistas” do dia 8 de setembro, discurso no qual Pedro se despede dos paulistas, prescreve a união como único dever de todos os brasileiros no momento em que a pátria estava ameaçada de sofrer uma guerra e conclui com a recomendação do lema “Independência ou morte”, mas sem fazer qualquer referência ao suposto acontecimento da tarde anterior às margens do Ipiranga. Ao contrário disso, dizia que em face das notícias chegadas de Lisboa, o momento exigia “madureza”. Em 20 de setembro, a manchete do mesmo jornal era: “Independência ou morte! Eis o grito acorde de todos os brasileiros”. Nesta matéria criticava a atitude das Cortes portuguesas por terem sacrificados os laços de solidariedade entre dois hemisférios, afirmava que finalmente os brasileiros haviam percebido de uma vez por todas que uma nação rica não pode ser escrava de uma pobre e, por fim, comemorava a adesão da província de Pernambuco “à santa causa do Brasil”. 

A decisão de ruptura absoluta aparece mais explicitamente na carta que Dom Pedro envia a seu pai Dom João IV em 22 de setembro de 1822. “Nesta carta, o príncipe regente – avisando que escrevia ‘esta última carta sobre questões já decididas pelos brasileiros’ – insultava com veemência ‘os infames deputados europeus’ e defendia o princípio de justiça que cabia ao Brasil de se levantar revolucionariamente contra as mesmas Cortes” (LYRA, 1995, p. 182). Escreve ele por fim: “Triunfa ou triunfará a independência brasílica, ou a morte nos há de custar”. Esta correspondência do dia 22 de setembro era uma resposta irada à carta de 3 de agosto enviada por Dom João cujos dizeres comunicavam as decisões das Cortes de Lisboa e orientavam o príncipe a obedecer tais ordens. Trata-se da mesma carta que a historiografia faz referência como causadora da reação do príncipe em 7 de setembro, montado num cavalo, de onde fez ressoar seu brado retumbante de “Independência ou morte!”

Também em 22 de setembro o Senado da Câmara do Rio realizou eleições para escolher deputados que formariam a Assembleia Constituinte. Há comemorações pela independência neste dia. No dia anterior o Senado da Câmara do Rio marcara a aclamação do rei para a data de seu aniversário, 12 de outubro. E assim ocorre. Dom Pedro é aclamado imperador do Brasil. Ocorrem festividades com arcos ornamentados e fogos de artifício. Diferentemente do dia 7 de setembro, esta data é bastante noticiada em jornais da época, marcando também a mudança da condição de Reino para Império.  

As representações de 7 de Setembro como marco da independência

Apenas em maio de 1823, durante a “Fala” de abertura dos trabalhos da Constituinte, Dom Pedro afirma que teria sido ele mesmo o responsável pela decisão de ruptura absoluta da unidade imperial. No discurso ele cita sua viagem a São Paulo dizendo ser no sítio do Piranga onde proclamada foi a independência. Apesar disso seguia o impasse para a aprovação do reconhecimento da independência do país, afinal Brasil e Portugal seguiam com as relações diplomáticas rompidas, ainda em guerra.

O reconhecimento foi feito somente em 1825, com a assinatura do Tratado de Paz e Aliança, texto redigido com tom conciliatório. Ao contrário de boa parte de documentos que instituem a emancipação revolucionária de uma ex-colônia, o Tratado tem caráter de concessão. Neste o rei de Portugal, Dom João VI, concede a soberania do Brasil reconhecendo seu filho, Dom Pedro, como imperador. Isto substituía o princípio de “aclamação dos povos” datada de 12 de outubro de 1822 (p. 190). E havia sido resultado da disputa entre dois projetos de emancipação, mediada pela Inglaterra que, inclusive, foi paga por este serviço.    

Potência política da época, a Inglaterra foi escolhida como mediadora das negociações de paz entre Brasil e Portugal e, com o objetivo de garantir seus interesses, aconselhou Dom Pedro a negociar com cautela em vez de exigir prontamente de Portugal o reconhecimento da independência. Dom Pedro aceitou. A concessão seria a melhor saída para a Inglaterra pois impedia que houvesse uma reunificação futura, a qual parte dos gestores políticos portugueses desejava no momento. Para Portugal, havia uma condição: o tratado devia reconhecer a legitimidade do rei Dom João que, aliás, primeiro seria nomeado imperador do Brasil e logo depois faria a concessão a seu filho, o príncipe herdeiro. A nossos olhos, uma burocracia. Aos deles, a conciliação das partes interessadas na retomada do projeto imperial ultramarino (p. 191). Após breve litígio os representantes brasileiros conseguiram apenas mudar o termo “concessão” pelo “reconhecimento” da Independência, o que em verdade pouca diferença fazia no caráter geral do texto. 

Finalmente algum Sete de Setembro! Foi o dia da celebração oficial da assinatura do Tratado de Paz e Aliança (em 7 de setembro de 1825) no Rio de Janeiro. Só a celebração, diga-se, pois a assinatura é datada de 29 de agosto. Enfim, com direito a pompa e junto ao corpo diplomático da Inglaterra, da França e da Áustria, o imperador anunciou ao povo o reconhecimento da independência, e em gesto teatral e simbólico disse o já famoso “Independência ou Morte!”

A despeito da festa, pairava no ar um clima de desconfiança sobre o imperador cuja imagem estava desgastada naquele momento. Para os brasileiros, as decisões de assentir às exigências dos portugueses para uma emancipação nada revolucionária ou democrática alimentava a possibilidade de restauração com a metrópole, indesejada principalmente porque Portugal voltava a ser um regime absolutista. Além disso, havia suspeitas de que Dom Pedro não era tanto assim um defensor perpétuo da causa brasileira, já que ele havia dissolvido a Constituinte e instaurado o tal Poder Moderador. Portanto impunha-se a ordem do dia a necessidade de recuperar a imagem positiva de Dom Pedro. Foi a partir de então que começaram a surgir referências ao 7 de Setembro como um marco grandioso e heroico.

O jornal Diário Fluminense, publicado em 7 de setembro de 1825, saudava a assinatura do tratado dizendo que o festejo coincidia com o dia do aniversário da Independência. A inglesa Maria Grahan, que trabalhava para a princesa, em seu diário publicado tempos depois fez referência ao dia 7, misturando-o com a “Fala” do imperador em maio de 1823 e acrescentando floreios. Em 1826 uma lei promulgada em 9 de setembro incluía o dia 7 de Setembro ao calendário de festividades nacionais, juntamente com outras datas.

No mesmo ano é publicado um documento cabal para a construção da memória do dia 7, o Relato do Padre Belchior. Primo de José Bonifácio e deputado constituinte por Minas Gerais, o padre havia sido companheiro de viagem de Dom Pedro no momento do famoso Grito da Independência em São Paulo. Em seu relato, Belchior diz que ele não só leu as cartas de Dom João, da princesa, de José Bonifácio e de Chamberlain para Dom Pedro no dia 7 de Setembro, mas também lhe aconselhou a declarar independência. Aceito o relato do clérigo, outros mais foram acrescentados posteriormente como referências básicas para a historiografia. O do Coronel Marcondes, de 1862 (sobre o qual Laurentino Gomes se baseia), e o do Tenente Canto e Mello, de 1865, ambos presentes na comitiva do príncipe regente. As incongruências e contradições entre os três relatos foram consideradas aceitáveis devido à distância temporal dos fatos na memória das testemunhas.

Escrita por José da Silva Lisboa entre 1827 e 1830, a obra História dos principais sucessos do Império do Brasil foi a que deu a narrativa do dia 7 de Setembro a forma definitiva. Lisboa, o Visconde de Cairu, foi um dos primeiros brasileiros a conquistar título de nobreza. No início de sua obra ele diz que foi incumbido pela ordem superior de escrever a história do Brasil. No volume de 1829 o autor dedica um capítulo a viagem de Dom Pedro a São Paulo sem no entanto mencionar o dia 7. Páginas depois ele retorna ao tema da independência inserindo a descrição hegemônica do evento e incluindo desta vez o povo que, além de aplaudir efusivamente o regente, ainda o aclamou naquele momento como imperador do Brasil. Em 1830 ao publicar outro volume, Silva Lisboa dedicou um capítulo inteiro ao dia 7 de Setembro, integrando a “Fala” de maio de 1823 ao acontecimento e dizendo ao cabo que este era o marco definidor da nacionalidade brasileira. Nada mais fez do que sintetizar todos os eventos numa só imagem. Os governantes curtiram.

Em 1827 começaram a chover referências da imprensa ao 7 de Setembro. E este vai se impondo ao imaginário cada vez mais conforme os anos passam. Foi necessário não um, mas vários “gritos” para comunicar a tal independência. Viajantes que escreveram suas memórias de passagem pelo Brasil (desde 1829) já aceitam o fato como inconteste. Na segunda metade do século foram construídos em São Paulo monumentos em homenagem ao Imperador Dom Pedro I na Praça Tiradentes (1865) e ao patriarca da independência José Bonifácio no Largo do São Francisco (1872), bem como o Monumento do Ipiranga (1885). Símbolos da conquista de uma liberdade  a qual celebramos ainda hoje. Liberdade, porém, ao povo tão vazia quanto à ocorrência do evento outrora transformado em marco histórico.

Referências:

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Fundação do Desenvolvimento da Educação, 1995.
LYRA, Maria de Lourdes Viana. Memória da Independência: marcos e representações simbólicas. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 15, n. 29, p. 173-206, 1995.
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domingo, 14 de junho de 2015

Textura e hierarquização dos acontecimentos em Foucault e Ginzburg: historiografia e acontecimento (4/4)

Compartilho abaixo a última parte de um artigo meu publicado na Revista Teoria da História da Universidade Federal de Goiás ano passado. Trata-se de uma análise teórica sobre o conceito de acontecimento e seus desdobramentos nas obras O queijo e os vermes (do historiador italiano Carlo Ginzburg) e Eu, Pierre Rivière que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão... (organizado pelo filósofo francês Michel Foucault). Na primeira parte iniciei o debate sobre as concepções de acontecimento da historiografia, na segunda abordei o uso das fontes e da biografia do personagem histórico nas obras citadas, para logo depois, na terceira, tratar da irrupção do acontecimento. Neste post finalizo apresentando um último elemento diferencial na narrativa dos dois autores e proponho uma reflexão sobre a importância do acontecimento para a história.

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Por conta dos objetivos de cada obra, diferentemente de Ginzburg, Foucault não intenta desvendar através de um contexto sócio-histórico as causas e as condições de possibilidade do acontecimento ligado a Rivière – seja seu crime, sua narrativa ou a relação conflituosa dos saberes judiciários e psiquiátricos ao lidar com seu caso. Mas se engana quem acredita que Foucault se desfaz do contexto em privilégio de uma análise formalista ou semântica dos textos. Pois da mesma forma que Ginzburg recorre a textos antigos e novos para construir uma determinada cartografia social, econômica, política e cultural da Europa e, sobretudo, de Friuli, Foucault também apresenta um breve contexto da cultura popular francesa da época, que serve mais como canais para compreendermos a importância do acontecimento, de assassinatos, por exemplo, do que para explicar suas irrupções.

Assim, é assegurada uma relação entre o memorial escrito por Rivière e a série de narrativas que formavam uma espécie de memória popular dos crimes (FOUCAULT, 2007, p. 215). Formando uma “textura”, os folhetos jornalísticos do período, relatavam os crimes que circulavam pelas vilas, aldeias e cantões, onde eram contados e até cantados pelos habitantes destes lugares. De certa forma, era a única maneira de pessoas comuns dividirem espaço nas manchetes de jornais com soldados, personagens poderosos e reis e de fazerem parte da história escrita, ainda que abaixo do poder e em choque com a lei (Idem, 216). Para Foucault, esses dois tipos de história são atravessados por um acontecimento particular: o assassinato.

“O assassinato é o ponto de cruzamento da história e do crime. É o assassinato que faz a imortalidade dos guerreiros (eles matam, fazem matar e aceitam eles mesmos o risco de morrer); é o assassinato que assegura o sombrio renome dos criminosos (eles aceitaram, vertendo sangue, o risco do cadafalso). O assassinato estabelece o equívoco do legítimo e do ilegal. [...] Com ele se colocam sob uma forma absolutamente despojada a relação do poder e a do povo: ordem de matar, proibição de matar; suicidar-se, ser executado; sacrifício voluntário, castigo imposto; memória, esquecimento” (FOUCAULT, 2007, p. 217).

Ademais, o autor expõe que a História durante tanto tempo, seguindo a receita da poética aristotélica, excluiu de sua narrativa determinados personagens, nomes, gestos, diálogos, objetos por considerá-los indignos ou sem importância social.

É possível notar que além de Foucault não estabelecer uma hierarquização causal de acontecimentos, também não hierarquiza os discursos produzidos por personagens ou instituições, mas constrói uma relação de vizinhança e de similitude entre eles. Inclusive, podemos perceber isso na forma de organização do dossiê. Ao invés do autor apresentar o “assassino”, neutralizando suas palavras, procura lidar com seu discurso da mesma maneira que tratou os relatórios médicos, jurídicos e as notícias dos jornais, valorizando os escritos de Rivière e deixando que ele fale por si mesmo. Essa atitude fez parte de um exercício no qual o grupo de pesquisadores (GIP) promoveu encontros, palestras, reuniões e diálogos nas prisões francesas na década de 1970, dando voz aos prisioneiros, aos silenciados (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2007, p. 101).

Em O queijo e os vermes ocorre o contrário. Pois, ainda que se distancie da História que se dedicava a estudar exclusivamente “as gestas dos reis”, Ginzburg não dá voz a seus personagens, ou, quando dá, neutraliza-os com os saberes da historiografia. É ele quem fala no lugar de Menocchio quando o apresenta no início do livro: “Chamava-se Domenico Scandella, conhecido por Menocchio. Nascera em 1532 [...], em Montereale, uma aldeia nas colinas do Frioli, a 25 quilômetros de Pordenone, bem protegida pelas montanhas” (GINZBURG, 2007, p. 37).

Por mais que Ginzburg escreva uma história de um indivíduo da classe popular e valorize a presença de uma camada de crenças camponesas conservada pela cultura oral, o autor acaba estabelecendo uma hierarquia contextual na qual os acontecimentos ligados à classe erudita e ao macrocosmo possuem um grau de importância maior a ponto de condicionar uma existência. Assim ele escreve:

“Dois grandes eventos históricos tornaram possível um caso como o de Menocchio: a invenção da imprensa e a Reforma. A imprensa lhe permitiu confrontar os livros com a tradição oral em que havia crescido e lhe forneceu as palavras para organizar o amontoado de idéias e fantasias que nele conviviam. A Reforma lhe deu audácia para comunicar o que pensava ao padre do vilarejo, conterrâneos e inquisidores [...]. As rupturas gigantescas determinadas pelo fim do monopólio dos letrados sobre a cultura escrita e do monopólio dos clérigos sobre as questões religiosas haviam criado uma situação nova, potencialmente explosiva” (GINZBURG, 1987, p. 30).

Não é o intuito questionar aqui as hipóteses que levam às conclusões de Ginzburg, que me parecem muito válidas e coerentes, porém sendo a proposta do trabalho construir uma análise teórica sobre a produção, cabe ressaltar a hierarquização de acontecimentos feita de maneira a priorizar estes dois que apresentei.¹ Também vale ressaltar que este aspecto não é incomum em produções historiográficas, sobretudo às que lidam com a separação classificatória entre “classe dominante” e “classe subalterna”, como Ginzburg faz.

O problema, neste caso, apresenta-se da seguinte forma: para além do aceite ou não da separação da comunidade em classes, que traz em si uma hierarquia de comando e dependência, acaba-se caindo no modelo historiográfico que compreende a classe popular como vítima de uma imposição cultural da classe erudita, justamente a prerrogativa da qual Ginzburg diz querer escapar. Mas sua fuga é muito tímida. O uso do conceito de circularidade cultural de Bakthin, que poderia servir para dar conta do recado, cumpre apenas parte de sua função. Pois se é verdade que diálogos, pessoas, textos de diferentes classes circulavam nas redes de relacionamentos e que dentro da classe popular já existiam elementos críticos ao catolicismo hegemônico, para Ginzburg esse choque só foi possível porque ocorreram acontecimentos ou aglutinaram-se elementos da classe erudita que eram correspondentes ao pensamento e às atitudes críticas, até então, ocultas na classe popular. Quer dizer, é como se as classes populares não pudessem gestar criações e pensamentos no interior de suas próprias comunidades e desenvolver formas de resistências, independentemente de serem afetados por “grandes acontecimentos” ou do contato inevitável com a chamada “cultura erudita”.

Esta operação empreendida por Ginzburg ainda é bastante comum na escrita da história. Muitos historiadores relutam em abandonar ou em relativizar a hierarquização de acontecimentos que estabelece uma prioridade, às vezes determinista, às estruturas políticas, econômicas e culturais em nível nacional ou internacional. Neste caso, o micro acaba sendo apenas uma prerrogativa para continuar dando maior atenção ao macro, aos “grandes acontecimentos” ou às estruturas.² Como reflexão, penso que seria difícil compreender os pensamentos e as ações de uma família de camponeses no interior do centro-oeste brasileiro, entre 1960 e 1970, reduzindo-os ao Golpe Civil-Militar, de 1964, como marco de análise.

Considerações finais: a importância do acontecimento na História

Em Políticas da escrita (1995), o filósofo Jacques Rancière desenvolve uma reflexão interessante sobre a importância do acontecimento na e para a História. Contribuição esta que, infelizmente, tem sido ignorada pela maioria dos historiadores.

Para Rancière, na tentativa de retirar a prioridade dada aos acontecimentos pela história praticada no século 19, os modelos historiográficos do século 20, especialmente com a participação decisiva dos Annales, empreenderam uma neutralização do objeto próprio do saber histórico: o acontecimento. Esta neutralização se deu sob a negação da racionalidade própria do acontecimento que “é aquela do real, que não se preocupa em se fazer preceder, justificar, fundamentar por sua possibilidade” (RANCIÈRE, 1995, p. 242). Na busca de uma narrativa mais próxima ao real, a história acabou recorrendo ao “realismo” que submete o real apenas àquilo que é possível a partir das estruturas que o precedem. Desta forma, o jogo da realidade, enquanto relação de dependência ou de independência, entre o já existente e a surpresa do acontecimento é suprimido pela assertiva do realismo que diz que somente o possível é contável na história. Com isso, a racionalidade historiadora, “chega a identificar o tempo como o sistema das condições dessa possibilidade” (Idem). Para Lucien Febvre, por exemplo, Rabelais não poderia ser ateu no século 17 porque seu tempo não lhe dava tal possibilidade. Neste caso, o termo “tempo” adquire o significado do conjunto das condições linguísticas e culturais que encarnava as estruturas de crença em sua época. Seria, portanto, um anacronismo, uma “insubmissão ao tempo”, pensar desta maneira (cf. RANCIÈRE, 2011).

No entanto, Rancière adverte sobre alguns riscos de uma adoção irrestrita deste modelo de pesquisa histórica. A ineficácia de uma réplica aos negacionistas do Holocausto é um deles. Um dos argumentos destes é o seguinte: apesar da existência de indícios não há um encadeamento de causa e efeito entre seus materiais a ponto de ser completado através de um processo objetivo, e para que possa servir como prova de que aquilo aconteceu. Realmente, se formos pensar o conceito de acontecimento (definido no início deste escrito), percebe-se que o raciocínio é coerente, já que o acontecimento não é simplesmente uma reunião de fatos, mas também uma interpretação por quem e para quem este designa um sentido. Logo, depende não só de uma objetividade, mas de uma subjetividade.

Mas o argumento mais problemático sobre a inexistência do acontecimento do Holocausto é o que diz que não era possível ele acontecer, pois era impensável a partir das mentalidades, num período de pós-guerra, que almejavam paz e sentimento de união à humanidade. Vidal-Naquet respondeu aos negacionistas dizendo que não se devia perguntar como tecnicamente aquilo foi possível, pois foi possível porque aconteceu. Logo, ele inverteu o raciocínio do saber histórico que submete o acontecimento à possibilidade, agora priorizando o acontecimento (RANCIÈRE, 1995, p. 245). E talvez esta seja a saída para que captemos a mudança e o movimento na história. É preciso, neste caso, mais do que nunca, acreditarmos no acontecimento ainda que ele não tenha uma relação de submissão com as estruturas (mentais, políticas, econômicas, etc.).

Em última instância, pode ser que o maior risco da supressão do acontecimento seja o de cairmos num imobilismo da história ou, como apontou Rancière, chegarmos num “fim da história”, no qual só conseguimos declarar a inexistência dos acontecimentos, e num “fim da política”, no qual só conseguimos lamentar a inexistência de valores, de mudanças, de sentimentos, de sonhos e de futuro.

Referências:

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. História: a arte de inventar o passado. Bauru, SP: Edusc, 2007.
FOUCAULT, Michel. Os assassinatos que se conta. In: ______ (coord.). Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão... um caso de parricídio no século XIX. 8ª edição. Tradução de Denize Lezan de Almeida. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2007, p. 211-221.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Tradução de Maria Betânia Amoroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
GINZBURG, Carlo. O nome e o como: troca desigual e mercado historiográfico. In:______. A micro-história e outros ensaios. Lisboa: Difel, 1991, p. 169-178.
RANCIÈRE, Jacques. O conceito de anacronismo e a verdade do historiador. In: SALOMON, Marlon (org.). História, verdade e tempo. Chapecó-SC: Argos, 2011, p. 21-49.
RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

Artigo publicado originalmente em:

[1] Albuquerque Júnior assevera que tal raciocínio se dá porque Ginzburg não considera o que foi dito como acontecimento autônomo e o reduz às condições de sua produção enquanto exigência de uma metodologia totalizante (2007, p. 109).
[2] Em uma comunicação proferida, de 1979, Ginzburg diz o seguinte sobre seu método: “A análise micro-histórica é, portanto, bifronte. Por um lado, movendo-se numa escala reduzida, permite em muitos casos uma reconstituição do vivido impensável noutros tipos de historiografia. Por outro lado, propõe-se indagar as estruturas invisíveis dentro das quais aquele vivido se articula. O modelo implícito é o da relação entre langue e parole formulado por Saussure. As estruturas que regulam as relações sociais são, como as da langue, inconscientes. Entre a forma e a substância há um hiato, que compete à ciência preencher” (GINZBURG, 1991, p. 177-178, grifos meus). Creio que o problema seja o de tentar entender a articulação entre a estrutura e o vivido, porém acreditar que o vivido está submisso, irrestritamente, à estrutura; por isso destaquei a palavra “dentro” para compreendermos a relação de dependência do primeiro ao segundo, segundo este método de pesquisa.  
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