Jacques Rancière
O texto a seguir trata-se de uma resenha da arqueologia feita por Jacques Rancière (1995) sobre a narrativa historiográfica da “Nova História”, a partir do livro O Mediterrâneo, de Braudel. A análise crítica de Rancière passa sobretudo por Hobbes e Michelet e é de uma densidade que qualquer resenha ou resumo deixaria a desejar. Posto isso, o que escrevo aqui tem apenas o intuito de apresentar as principais questões e levá-los à leitura do autor.
Em O Mediterrâneo,
depois de mais de mil páginas de texto, Braudel no “fim” da narrativa nos conta
um acontecimento que não contara em seu “meio”: a morte do rei Filipe II. A
razão para o historiador não contá-lo em “seu lugar” é a mesma de falar dele
agora, no final, “fora de lugar”. Ou seja, no “não-lugar”, que passa a ser o
gênero do acontecimento. Isto faz
parte do programa da “Nova História” identificada aos Annales: “a morte deslocada de Filipe metaforiza a morte de uma
certa história, a dos acontecimentos e dos reis” (p. 205) . A morte do rei não
é mais um acontecimento, pois “eles” morreram como força da história. Ainda
assim, é preciso que o historiador conte esse “não-acontecimento”, a morte do
rei. Não exatamente o rei “tornar-se-cadáver”, mas o rei “tornar-se-mudo”. A
cena não é de um rei em seu leito de morte, mas de “um rei sentado no trono ou
em seu escritório. Ali ele é condenado à morte, persuadido de não falar, de não
ter nada a dizer. Morto como a letra, mudo como o quadro a cuja solenidade tola
o Fedro [de Platão] opunha ao
discurso vivo” (p. 206). Esse mutismo do rei é a condição para o historiador
entrar em cena, de ser recebido ao lado de um personagem que Lucien Febvre combateu:
“o embaixador, o homem dos relatórios diplomáticos que eram o tesouro da velha
história, a história-crônica”.
Braudel retrata o rei, diante da mesa de seu escritório, como
aquele sujeito que tem por tarefa uma sucessão de detalhes, escrevendo
relatórios de acontecimentos das cortes e humores dos reis. Assim, de maneira
nada humilde, Braudel escreve: “Não é um homem de grandes ideias. [...] Jamais
traçou em sua pena ideias gerais ou grandes planos. Não creio que a palavra
Mediterrâneo tenha algum dia passado por sua cabeça com o conteúdo que nós lhe
concedemos, tampouco fez surgir nossas imagens habituais de luz e de água azul”
(apud p. 207). Rancière aponta que as mesmas considerações (ao rei) poderiam
ser dirigidas aos historiadores da “velha história”, a Seignobos ou qualquer outro
saco de pancadas dos Annales. As
assertivas de Braudel marcam um deslocamento da história dos reis para a do
“mar”, isto é, para a história da civilização material, dos espaços de vida,
das longas durações e da vida das massas. “No entanto, dois elementos vêm
complicar essa cena de adeus [à “velha história”] e transformá-la num
quebra-cabeça ao qual faltam algumas peças” (p. 207).

A hipótese de Rancière é a de que a “morte do rei” (na
História) se deu porque ele era um produtor de papéis, quer dizer, porque a
papelada dos pobres acumulava-se em sua mesa. Sua morte faz parte de um projeto
político e científico para garantir o
controle das palavras e das coisas. Em último, um problema de governo que
precisa ser resolvido. Pois o excesso de palavras é uma das causas de desordem
nos saberes e nos seres. Para quem ainda não captou, Rancière está aqui
questionando a constituição deste saber-poder a partir de sua base autoritária
(pois antidemocrática), porém frágil. Tais fundamentos se alastraram por toda a
tradição filosófica que constitui os saberes modernos de diferentes
perspectivas e áreas: ciências humanas em geral; hermenêutica, marxismo, estruturalismo,
Annales, “nova história”. No entanto,
a conceituação filosófica da “morte do rei” enquanto produtor de papelada só
foi acontecer um século e meio após a morte de Filipe II, pela pena de Thomas
Hobbes.

A revolução moderna é antes a revolução dos filhos do Livro, é a condição pela qual
o verbo encarnado faz aparecer a liberdade e o despotismo, e engendra a utopia:
o que para Hobbes é o mal político; isto é a proliferação dos nomes que matam
porque são mal empregados, empregados por pessoas que não deveriam manejá-los.
Desordem política gerada pela desordem do saber! A saída para Hobbes é a
aliança entre o ponto de vista da ciência e o do lugar real, chamado de “real-empirismo” por Rancière. O
“real-empirismo” vai nutrir todo um saber social, o mesmo que aparece na
primeira crítica aos “Direitos do homem” feita por Edmund Burke que os chama de
“direitos metafísicos”. É colocado em xeque assim a (in)consistência das
palavras, há uma caça de palavras idênticas que dizem coisas diferentes (diábolos), ou palavras que não dizem
coisa alguma – como se palavras e coisas já estivessem coladas desde os seus
nascimentos! Esta tradição filosófica continua viva hoje através do “revisionismo”
da Revolução Francesa, por exemplo, quando se denuncia a inadequação das
palavras revolucionárias. Então, com esta ciência social pode-se fazer uma
limpeza da papelada através da seguinte fórmula: “nada do que aconteceu se
assemelha ao que foi dito. Donde a consequência pode ser facilmente deduzida:
não aconteceu absolutamente nada”, o que aconteceu foi somente um engano ou um
crime de fazerem forçosamente, com palavras e metafísica, uma coisa ser o que
não foi.

O acontecimento da Revolução Francesa para Michelet não é a
queda da Bastilha ou a Era do Terror, mas a festa da federação. Não é a morte
regicida, mas a morte republicana do rei que distribui seus atributos de
“soberania” para o corpo da nação, para o povo. Na festa da federação aparece o
sentido forte da revolução, o novo objeto de amor, a pátria. Como falar desse acontecimento?
Michelet diz que a maioria das federações contou sua própria história. Então
intuímos que as cartas de amor à pátria, encontradas na festa da federação, vão
testemunhar. Porém, o leitor que espera que Michelet dê uma amostra do conteúdo
das cartas se decepciona. Ele não deixa a papelada falar! As cartas só falam na
condição de testemunhas mudas. É que para conciliar a anarquia democrática das
vozes presentes na papelada dos pobres e o autoritarismo do real-empirismo que
suprime as vozes, o saber histórico-democrático de Michelet usa duas operações.
Primeiro, ele faz o leitor ver as cartas, conta sobre seus detalhes
“exteriores”, as fitas tricolores, o papel, a escrita ornada, e mostra-se
lendo-as, confirmando a materialidade e, logo, a existência delas. Segundo, ele
diz o que elas dizem, não literalmente, não as deixando falarem por si mesmas,
porém, diz o poder delas, o amor à pátria. Sua importância é a potência de
sentido delas e não o que está escrito. O sentido ali não está no conteúdo
enunciado pelos escritores, mas nas cidades, nos lugares, nos hábitos, nas
“coisas”. Isto porque, para Michelet, os que vivem não sabem o que é a vida, os
que falam não sabem o que falam. Quer dizer, só existe ciência do escondido, do
silêncio, da testemunha muda, da reserva de sentido. Aqui, para garantir a
cientifização da história, o historiador fecha a porta para a literatura, para
as palavras que remetem a outras palavras, e, assim, inscreve as palavras (das
cartas) nas coisas (materiais). Mas aí quem fala não são as palavras, mas as
coisas. A testemunha muda, fala como
muda, e empresta sua voz ao que nunca falou. Para se constituir como ciência, a
história empreende uma auto-anulação da literatura.
A questão dos sujeitos viverem e não saberem o que é a vida
e de falarem e não saberem o que dizem, passa por uma “teoria das relações
entre o sujeito, o saber, a palavra e a morte que se dá na forma de relato”.
Relato este que o historiador construiu para falar do acontecimento da festa da
federação como marco da Revolução Francesa e do sentido inscrito nas cartas de
amor à pátria. Este relato que depende de uma testemunha muda (as cartas, os
sujeitos) e seu intérprete (o historiador, aquele que diz qual é seu sentido),
supõe uma certa ideia de psicanálise. É assim que Michelet define o historiador,
como um Édipo. Um Édipo particular, não o decifrador do segredo que o leva a
cegar-se. Mas o decifrador do enigma que matou os outros por estes não terem
sabido decifrá-lo. Um libertador da maternidade de sentido. Aquele que entrega
os filhos às suas mães ao desvendar seus inconscientes. Acalmar o tumulto das
vozes (da papelada) que gera a desordem política e do saber é acalmar a morte. “Acalmar os mortos,
reconduzir ao túmulo aqueles que morreram por não saber o que toda vida ignora
– a voz que nela fala – é necessariamente a obra de alguém que deve ter ele
próprio passado pela morte, esse rio que o historiador nos diz ter tantas vezes
atravessado e reatravessado em prol daqueles que dizem ‘aceitamos a morte em
troca de uma linha sua’” (p. 218).

Em Braudel, o rei dá lugar ao mar. O mar como um espaço
material e um espaço de discurso, coincidindo coisas e palavras. A revolução
epistêmica da história acontece na medida em que há uma desconsideração da
literatura, do rei e de sua papelada em prol da geografização do sentido. Mas o
rei não morreu, tornou-se mudo, tornou-se mar. Na longuíssima duração das
profundezas abissais da história, só um livro agora tem sentido. O livro do mar.
O Mediterrâneo.
Referências:
RANCIÈRE, Jacques. As palavras
da história. In:______. Políticas da
escrita. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995, p. 216-218.
Recomendações:
BRAUDEL, Fernand. Civilização
material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII. São Paulo: Martins
Fontes, 1995.
BRAUDEL,
Fernand. O Mediterrâneo: e o
mundo mediterrânico. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
HOBBES,
Thomas. Do cidadão. São Paulo:
Martins Fontes, 1998.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
MICHELET, Julles. História
da Revolução Francesa: da queda da Bastilha à festa da federação. São
Paulo: Companhia das Letras, 1989.
Fiquei conhecendo recentemente e fiquei impressionado com a qualidade do texto e do trabalho...
ResponderExcluirMuito obrigado, amigo. Incentivos como o seu impulsionam o blog a continuar funcionando. Seja bem-vindo!
ExcluirAbraços!
Escrita impecável!
ResponderExcluirE o fato de você pensar antes de escrever (às vezes é preciso reinventar aquilo que é - quase - óbvio) faz com que nós, leitores (safados então), tenhamos que lê-lo lenta e calmamente, de modo a perceber os detalhes da trama que se desenrola, isto é, ler com cuidado.
Gostei muito da sua problematização!
Abraços!
Fico lisonjeado com o elogio, amigo Zufelato.
ExcluirE concordo que devido a densidade dos escritos de Rancière é necessária uma leitura lenta e atenta. Fazer resenha desse cara não é fácil, mas aprende-se muito. Obrigado pelo comentário.
Abraços!
Primeiramente parabéns pela iniciativa do blog e pela alta qualidade dos textos.
ResponderExcluirEm segundo lugar, queria fazer uma provocação: não existiria na historiografia duas tendências em conflito? Uma que vai na direção da geografização do sentido, como quer Rancière, e outra que defende a proeminência dos sujeitos históricos, que tenha em Thompson um de seus representantes?
Abraços.
Agradeço pela intervenção aqui, Vinicius.
ExcluirSe compreendi adequadamente, sua provocação questiona se não existiria uma tendência historiográfica que privilegia as ações do sujeito (como o marxismo inglês), diametralmente oposta a uma outra que dá ênfase grandes estruturas de sentido (como os Annales): a meu ver, não! Eu preferiria entender sim as diferenças entre tais perspectivas, mas não creio que haja uma oposição entre as duas, parece mais haver complemento, reciprocidade e similitude.
Thompson é um leitor declarado de Marc Bloch que, por sua vez, é leitor também de Marx. Para Bloch, a história é a ciência dos homens no tempo. Vê-se aqui o privilégio que ele dá aos "sujeitos-gente". Mas você pode dizer: em Braudel isso não é diferente? Sim, um pouco, mas não o bastante para mudar a lógica. Pode parecer que o sujeito da história de Braudel (em O Mediterrâneo) é o oceano, e talvez isso seja mesmo verdade, mas ele só é sujeito na medida em que circunscreve o tempo (todas durações) num mesmo espaço; tal espaço não é vazio de "sujeitos-gente", pelo contrário, é permeado e construído pelas relações e trocas econômicas e culturais.
Há portanto nas duas vertentes um ponto de encontro bastante conhecido do materialismo-histórico, segundo o qual os homens intervém na natureza, transformando-a e sendo por ela transformados. Isto é, os sujeitos (suas ações e pensamentos) ganham sentido a partir de um determinado espaço que designa a circunscrição das relações sociais que possibilitam/limitam suas consciências e suas ações. Talvez o que possa distinguir estas duas tendências não seja a "geografização do sentido", de um lado, e "a ação dos sujeitos de carne e osso", de outro, mas o "olhar" sobre distintas durações temporais. A sacada de Braudel é reunir todas as histórias curtas (mas ainda válidas) dentro de uma história enorme, na qual as breves terão significados menos importantes (alguns quase nulos) a longo prazo. Caberia uma leitura mais atenta a Thompson para entender com detalhes o papel que "geografização do sentido" cumpre ou possa cumprir em sua obra.
Abraço,
Munhoz.