Atualmente desenvolvo uma pesquisa acadêmica sobre a história do anarquismo, mas venho
enfrentando tensos problemas que muitas vezes me impedem de avançar em outras
discussões. Hoje, quero nesse post compartilhar pelo menos um desses problemas
históricos: os múltiplos significados de “anarquia” e de “anarquismo”.
Desta vez não vou começar pelos anarquistas, mas
pelos filósofos gregos. Com os filósofos pré-socráticos a palavra grega arkhé (dependendo da transliteração arkhê, arché ou archai)
significa princípio, origem, relativa a uma determinada “entidade” sempre presente
na existência de todos os seres. Heráclito, por exemplo, acreditava que a arkhé de todos os seres (orgânicos e
inorgânicos) era a substância do fogo, que nunca era idêntico, mas sempre era o
mesmo, se renovando em si mesmo. Entretanto, arkhé não significa apenas princípio, como sinônimo de começo, mas
também quer dizer comando, como aquilo
que governa. Grosso modo, pela lógica linguística (direta) podemos dizer então
que a an-arkhé é a recusa do
princípio natural presente em todos os seres (ou seja, a desigualdade entre
todos os seres), correlativa por isso a impossibilidade de governo fundado sob
a arkhé. Pois bem, mas o que disseram
os anarquistas, que apareceram no século 19, não foi bem isso.
Proudhon (1840),
o primeiro desses caras, confessa em seu livro que existe um princípio natural
de organização da sociedade, sem necessidade de haver autoridade sobre a
sociedade. A defesa de Proudhon é uma contradição em termos, pois se não existe
autoridade que governa, então não existe princípio natural de ordem, pois
esse já seria uma autoridade (transcendente), mesmo que seja metafísica. A
anarquia aqui é, portanto, a negação da an-arkhé. Antes de Proudhon, o
significado de anarquia nos círculos políticos era relativo à desordem, ao
caos, à falta de princípio e ao desgoverno. Com Proudhon, a anarquia deixa de
ter esse sentido pejorativo e passa a significar a ordem natural das coisas, o
princípio que elas obedecem espontaneamente sem necessidade de autoridade
(humana); a partir daí a “anarquia é a ordem”. Fiquem com o filósofo:
Anarquia, ausência
de mestre, de soberano, tal é a forma de governo de que todos os dias nos
aproximamos e que o hábito inveterado de tomar o homem por regra e a sua
vontade por lei nos faz olhar com o cúmulo da desordem e a expressão do caos. [...]
como o homem procura a justiça na igualdade, a sociedade procura a ordem na
anarquia (PROUDHON, 1975, p. 239).
Em vida, Proudhon, não foi
reconhecido como anarquista, mas como mutualista. O mutualismo era uma defesa da
forma de organização social que ele propôs. Uma espécie de fraternidade na
troca espontânea das faculdades humanas que nos tornavam diferentes. Dizia -
ele - que a igualdade ia ser atingida
pela desigualdade (das aptidões e atributos), pelo comércio (no sentido de
reciprocidade) entre os homens.
O anarquismo teve uma história de
várias arkhés. Na cronologia tradicional, Bakunin (1968) deu o
segundo passo. Através da inspiração das ideias e dos seguidores (mutualistas) de
Proudhon e em contraposição às teses socialistas de Marx, consideradas
autoritárias, Bakunin reuniu pela primeira vez um grupo que não tinha medo de se assumir anarquista.
O problema é que algumas importantes ideias de Bakunin eram bem diferentes das
de Proudhon. Se entendermos o anarquismo como sinônimo de tudo o que é revolucionário
no sentido clássico, que prega a coletivização dos instrumentos de produção (as
máquinas, as ferramentas, a terra, etc.), que defende a conspiração para abolir
o Estado e a violência como prática política caso necessária, então esse
anarquismo é o de Bakunin. Proudhon era contra todos estes postulados, ele
acreditava na revolução como um progresso evolutivo sem necessidade de violência
e do uso de força, pois era preciso que as pessoas quisessem abolir o Estado e
transformar a sociedade. Antes de fazer era preciso querer. Pois, para ele, Tomar tudo a força representava um
autoritarismo contra-revolucionário, um contrassenso, um retrocesso.
Depois de Proudhon e Bakunin
vieram outros pensadores que reformaram (ou modificaram) suas ideias. Como os anarquistas
comunistas Kropotkin, Reclus e Malatesta. Estes, sem dúvida, mais próximos do
socialismo marxista no âmbito comum de um "fim da história" a ser alcançado.
Apareceram mais correntes, que alteraram significativamente as ideias, de
diferentes inspirações e lugares: o anarquismo sindicalista (Durruti-Espanha), o anarquismo cristão (seguidores de
Tolstoi-Rússia), o anarquismo individualista (B. Tucker-EUA), o anarquismo
primitivista (John Zerzan-EUA), o anarquismo caótico (Hakin Bey-EUA), o anarquismo
anti-psiquiátrico(?) (Roberto Freire-Brasil), o anarquismo terrorista
(Ravachol-França). Conta-se também que as ideias e/ou as práticas políticas de alguns pensadores e
militantes fizeram com a historiografia os adotassem como anarquistas. Mesmo que o
anarquismo histórico (como doutrina) ainda não tivesse tomado corpo, como é caso de Godwin,
Stirner, Thoreau, Warren, até Jesus Cristo. Ou aqueles que não se
reconheceram como anarquistas (já a partir da existência da doutrina), é o caso de Tolstoi, Ghandi, Foucault e outros tantos.

Além das transformações históricas
intrínsecas a todo conceito, as práticas discursivas de historiadores, da mídia
e de militantes do movimento, como também os
limiares da história do anarquismo (enquanto doutrina ou “escola de pensamento”) contribuíram
significativamente para que houvesse uma polissemia ainda maior do conceito.
Conheci ótimas pessoas e
fiz valiosos amigos no meio anarquista. Mas, ainda hoje, há no Brasil e no
mundo uma briga fratricida entre os anarquistas, cada qual querendo justificar
a maior autoridade ou fidelidade de sua
filosofia e ética ao anarquismo. Discordam de quase tudo entre si e muitas vezes
(talvez por isso) não reconhecem os outros grupos como anarquistas. Por trás de
uma bela e atraente filosofia que acredita no homem e na construção de um mundo
melhor, um cheiro insuportável de
autoridade que nunca prescindiu do anarquismo paira no ar “libertário”.
Referências:
PROUDHON. O que é a
propriedade? Tradução: Marília Caeiro. 2ª edição. Lisboa: Editorial Estampa,
1975.