quarta-feira, 22 de maio de 2013

O riso do mesmo: o humor aquém do bem e do mal?


“O humorista é um moralista que se disfarça de sábio”.
Henri Bergson


O filósofo francês Gilles Lipovetsky descreve que o Ocidente, a partir do final do século 20, transformou-se numa sociedade humorística. Ao lado dos dramas encenados nas mídias de massa e protagonizados pelos escândalos, catástrofes, clima de crise, entrevistas e declarações bombásticas, tem se desenvolvido quase que imperceptivelmente o código humorístico. É possível perceber este fenômeno do humor em várias situações e lugares. Nas manchetes de jornais (ainda que tragam notícias sérias), nos títulos de artigos acadêmicos, no aumento de espaço às charges e aos quadrinhos cômicos, na arte contemporânea (Duchamp, antiarte, surrealismo, arte pop, teatro do absurdo), nos programas de TV, nas apresentações esportivas, nas redes sócio-virtuais, na política, na publicidade, na moda, etc.

Lipovetsky considera que o humor já existia em outras sociedades e épocas, vide a carnavalização do “cômico grotesco” da Idade Média (que chegava a celebrar uma missa tendo como padre um asno) e a “comicidade crítica” da Idade Clássica. Entretanto, na sociedade contemporânea o humor se alargou a tal ponto que rompeu a linha que separava o momento ou lugar sério do não-sério. E esta seria a principal característica das sociedades pós-industriais. “A descrença pós-moderna, o neoniilismo que toma corpo não é nem ateu nem mortífero: é a partir de agora humorístico”, aponta Lipovetsky (2005, p. 112). Aqui, o neoniilismo, compreendido como uma indiferença pura, uma certa displicência à vida, às pessoas, aos valores morais e sociais,  é sem dúvida a válvula propulsora para o alargamento do riso, pois, “a indiferença é seu ambiente natural. O maior inimigo do riso é a emoção”, afirma Bergson (1983, p. 08). É preciso esquecer, ao menos por instantes, a afeição que temos por alguém para rirmos deste. No entanto, Lipovetsky assegura que o humor atual não cria mais vítimas, nem alvos. O tom do cômico seria lúdico, positivo e despretensioso porque as injúrias e as blasfêmias não fazem mais rir por não serem espontâneas e por não deixarem o clima mais leve – que, segundo o filósofo, são requisitos para o humor contemporâneo.

As análises sociais de Lipovetsky se aplicam em grande medida às terras tupiniquins. Além disso, igualmente ao europeu-estadunidense, o humor da contemporaneidade brasileira está ligado ao consumismo de bens imateriais. As informações, as propagandas e a alegria são vendidas em massa. É só reparar o crescimento de canais de humor no YouTube e de programas de TV que pretendem-se engraçados, os inúmeros produtos (shows, DVDs) de Stand-Up Comedy e as páginas no Facebook direcionadas a esta temática. O humor neoniilista investe-se contra a esfera do sentido social, tornando os valores superiores em paródicos. Como exemplos, a eleição do comediante Tiririca ao cargo de deputado federal (mais bem votado em São Paulo) e, recentemente, um evento virtual anunciando o Golpe Comunista em 2014. Os dois: pura gozação! O que não deixa de ser sintomático ao que Nietzsche dizia sobre a condição do niilismo: “os valores superiores depreciam-se”. No entanto, no Brasil tem acontecido o contrário das afirmações de Lipovetsky, quando estas expressam que o humor atual não ofende e nem faz vítimas. Pelo contrário, não é raro vermos processos jurídicos e manifestações políticas de pessoas contra humoristas por sentirem-se humilhadas ou discriminadas. Creio que estes acontecimentos estão ligados de alguma maneira a duas configurações atuais.

A primeira são as lutas e as conquistas de determinados grupos a direitos sociais antes negados. Fazem parte destas a ampliação do acesso às universidades (a construção de novas instituições, o financiamento de mensalidades, as bolsas de estudo do ProUni, as cotas étnicas e sociais), a tentativa de distribuição de renda a famílias pobres (bolsa-família, bolsa-escola, redução da tarifa de energia), as pautas políticas e sociais contra a homofobia (e em favor do direito ao casamento de pessoas do mesmo sexo) e a intensificação pública dos movimentos feministas (vide Marcha das Vadias). Tudo isso sob um governo neoliberal que tende a caminhar em direção a um Estado de Bem-Estar Social, mas que encontra bastante resistência de alguns seguimentos religiosos, da elite e da classe média intelectualizada que controlam os meios de comunicação. Usados às vezes para destilarem toda suas contrariedades através da voz convidativa de comediantes e de piadas que, por mais engraçadas que sejam, nada possuem de inocentes. O outro aspecto está ligado ao próprio modelo de comédia predominante: o Stand-Up. No blog Ensaios de Gênero, Senkevics pondera que “se antes predominava uma caricatura que, de tão caricata, parecia inofensiva sem deixar de ser engraçada, com a comédia stand up situações cotidianas são trazidas para o palco e, com elas, uma proximidade maior com a vida de cada um”. No humor, mais do que nunca, a vítima é produzida. O perfil desta deve fugir do “padrão” moral-social idealizado: um negro, uma mulher, um pobre, um judeu, uma feminista, um gay, um careca, um gordo, um baixinho. Ou pode ser também uma celebridade, um artista, um político, enfim, uma pessoa conhecida.

Não pretendo comentar os casos jurídicos envolvendo celebridades, até porque estas conseguem se defender muito bem. Em geral, possuem grana e bons advogados para isso. Mas, ao contrário do que se passa em maioria, me parece mais positivo um humor que atente de certa forma contra os preconceitos e as certezas da sociedade do que o que acaba reafirmando estes preconceitos e certezas. Cito como exemplo um dos vídeos do canal Porta dos Fundos em que o deus polinésio é o único verdadeiro [clique aqui para assistir].

Socialmente, seria mesmo interessante um tipo de humor que fizesse as pessoas pensarem e, até mesmo, as incomodassem, ao invés de simplesmente servir para massagear seus egos. Sobretudo, porque além da sociedade atual ser humorística, ela também é narcisista (ou neonarcisista como prefere Lipovetsky). O herói ou o avatar favorito da sociedade ocidental contemporânea é Narciso. Aquele mesmo que olha para o espelho d’água e apaixona-se por sua imagem refletida. Mergulha dentro de si mesmo e morre afogado. A sociedade narcisista sente-se confortável quando olha para o lado e vê o Mesmo, o Idêntico, o espelho. (Então, tomara que não afogue-se como seu herói!) Assim, ela acaba reproduzindo o já visto, o já conhecido, fechando-se para o novo, para o diferente e instaurando uma separação moral entre os bons (iguais a si) e os maus (diferentes de si); excluindo os diferentes em pequenos gestos e risos.

Só o sabão é neutro

Mas tudo que falei acima não quer dizer que eu defenda um controle estatal dos meios de comunicação de humor ou uma vigilância ética sobre as piadas cotidianas, por mais preconceituosas e ofensivas que possam ser. O que quero chamar a atenção é para a recorrente expressão que diz assim: “Foi só uma piada!” Quem diz isto está pedindo passagem para dizer qualquer tipo de preconceito e ser aplaudido de pé. As piadas não são coisas que estão aquém ou além do bem e do mal. Não são neutras! Expressam posições políticas e ideológicas, estão permeadas por visões e interpretações do mundo e da sociedade. Deste modo, defender que humoristas e comediantes possam dizer quaisquer coisas sem serem incomodados é como dar a eles o poder de um ser metafísico como Deus – que não está “no” mundo, mas “além” dele. A simpatia de humoristas pode ser enganosa e a ironia pode maquiar seus rostos como sujeitos mais sábios do que realmente os são, fazendo-nos acreditar que possuem as respostas para qualquer tipo de problema. Recentemente, o comediante Beppe Grillo concorreu ao cargo de primeiro ministro da Itália e chegou a possuir um terço das intenções de voto. Com um discurso nitidamente demagógico, seus comícios eram verdadeiros shows e reuniam milhares de pessoas. Estranhamente, em aparições públicas o candidato erguia a mão direita num sinal que relembrava bastante um gesto simbólico do fascismo.

O argumento principal dos comediantes sobre os processos e manifestações públicas contra determinadas piadas é a defesa da liberdade de expressão e da anti-censura. Ora, uma reação a qualquer coisa dita publicamente ou não também faz parte da liberdade de expressão, não? A proibição pode atravancar qualquer sociedade que se queira democrática. Mas isto não quer dizer que caso uma pessoa ou um grupo se sinta ofendido, humilhado ou discriminado o mesmo não possa reivindicar uma reparação jurídica. Afinal, este é um exercício democrático. Se através de seus representantes a sociedade julgar que a ação é um dano a pessoa ou grupo, cabe aí uma indenização feita pelo responsável. O humor não pode ser impedido. Nem a acusação sobre ele. O jogo é esse!

Por outro lado, vejo às vezes certa “inocência” na defesa da liberdade de expressão. Há pouco tempo num fórum anarquista, um membro repreendeu outros que manifestavam sua desaprovação a um neonazista que agrediu um morador de rua. Os anarquistas propunham desde o combate a tais ideias até a prisão e a execução dos envolvidos. Então, este rapaz dissera que os anarquistas eram tão nazistas como aqueles por defenderem tais coisas e não deixarem as pessoas serem livres. Ora, é claro que o pensamento dos anarquistas beirou o extremismo quando defenderam a execução dos neonazistas, no entanto, defender a liberdade de expressão do nazismo ou de qualquer outra ideologia, filosofia ou princípio que, por considerar seu grupo fisiologicamente superior, pregue o extermínio físico dos demais é um contrassenso. É uma liberdade usada para tolher a liberdade de todos os outros. É uma liberdade que atenta contra as outras liberdades. E por isso não pode ser admitida. Obviamente que a saída não é exterminá-los. Mas também não se pode permitir a existência e expressão de tais ideais, já que podem provocar o extermínio de todos os outros. Neste sentido, como o velho Bakunin falava, creio que a minha liberdade deve somar-se a do outro e não diminuí-la ou suprimi-la. Pois é chegada à hora de rir com os Outros mais do que rir dos Outros.

Referências:

BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico [1940]. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.
LIPOVETSKY, Gilles. A sociedade humorística. In:______. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Barueri-SP: Manole, 2005, p. 111-144.
NIETZSCHE, Friedrich. Vontade de potência. São Paulo: Ed. Escala, s/d. 
SENKEVICS, Adriano. O humor na berlinda. In: Ensaios de Gênero: Três garotos feministas ensaiando política, educação, feminismo e coisas do gênero (blog). 14 dez. 2012.

Para fomentar o debate, deixo abaixo o documentário que me motivou a escrever este post e que considero bastante interessante para pensarmos a questão dos limites e excessos do humor. Direção de Pedro Arantes.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Os documentos da História: uma iniciação do historicismo aos Annales

Podemos considerar que foram os historicistas alemães os precursores da discussão acerca da verdade, do método e dos documentos no ofício do historiador. Júlio Bentivoglio salienta que o historicismo possui uma dívida com o pensamento de Chlaudenius, autor que, no século 18, apresentou concepções avançadas para a pesquisa histórica. Chlaudenius teria destacado o ponto de vista dos sujeitos históricos e dos historiadores-narradores, revelando que o conhecimento histórico é marcado pela crítica, tanto da perspectiva do historiador, quanto dos testemunhos. Isso não quer dizer que o trabalho estivesse contaminado pela subjetividade, que impossibilitaria o método, mas sim que era preciso reconhecê-la como uma ferramenta para a compreensão correta sobre a verdade.  

Bentivoglio apresenta outros postulados do historicismo alemão, como: a compreensão do passado, a busca por objetividade, as técnicas de história documental, como a desconfiança dos testemunhos para que se evitasse a reprodução acrítica do que os documentos diziam, o cuidado com o anacronismo (Niebuhr); a fabricação de uma agenda científica para os historiadores prussianos, que versava a proposta de reunir os fatos, procurando os nexos, identificando suas forças motrizes e os reproduzindo por meio de uma exposição narrativa, ou seja, seguir procedimentos científicos e não abandonar a atividade criadora em seu ofício (Humboldt); a separação da história à literatura ficcional, pois embora o discurso escrito fosse parecido, o historiador não poderia inventar os acontecimentos através de sua imaginação como o literato (Gervinus).

Contudo, os autores que mais se destacaram no historicismo alemão do século XIX foram Droysen e Ranke. O primeiro escrevendo um manual de teoria da história que ainda hoje é lido, por sua composição epistemológica particular; e o segundo, o historiador de uma produção vasta concebida pelo domínio da prática e pela defesa do método caro ao seu trabalho. Ranke, assim como outros historicistas, possui uma nítida inspiração da história de Hegel, quando expõe que o ponto de vista do historiador deve ser divino e a verdade acerca do tema retratado deve permanecer única mesmo que várias obras sejam escritas. De acordo com Pedro Caldas, a busca por objetividade de Ranke fez com que ele negasse um grau de subjetividade. Que grau era esse? A subjetividade vetada é aquela caracterizada pelo simples arbítrio, pela atribuição prévia de um sentido ao texto. Por isso, o historiador não deve ler o texto com preconceitos ou significados previamente determinados, do contrário, toda investigação será ociosa e a verdade nunca encontrada além do “já sabido”.

Ranke desenvolveu um pensamento crucial à discussão acerca dos documentos e fontes históricas. O autor desconfiou dos relatos sobre o passado, criticando àqueles pesquisadores que faziam história com base no que foi dito por outros a partir de outras histórias, por isso se segurou na autoridade exclusiva do imediato e na importância das fontes. Entretanto, ao contrário do que comumente se acredita na comunidade de historiadores, de acordo com Pedro Caldas, Ranke critica a passividade perante os documentos, pois estes não seriam a residência fixa da verdade, mas somente “papéis mortos” que a vida se revelaria pouco a pouco quando o espírito do leitor (a maneira da interpretação luterana) penetrasse no texto. Não é a imparcialidade que caracteriza a obra de Ranke, porém seu receio de tomar partido, uma cautela fundamental para a cientificidade, conforme argumenta Caldas. A importância de Ranke se dá não somente pelo que ele defendia, mas também pela recepção do autor, que acabou causando uma formação discursiva cara a historiografia moderna do século 20. Vejamos do que se trata essa recepção interpretativa.

Peter Burke atribui à crítica que foi feita a prática historiográfica de Ranke mais aos seus seguidores (os rankeanos) do que propriamente a ele, porém, não há dúvidas que alguns desses elementos aparecem também no trabalho de Ranke. Usualmente o autor virou uma sinonímia do historicismo, o que acreditamos ser uma consideração problemática visto a gama de historiadores heterogêneos que se inserem a essa corrente. A primeira crítica a Ranke é dirigida em relação à sua suposta defesa da neutralidade, uma interpretação da exposição na qual o autor diz que “quer fazer a história do modo que ela aconteceu”. A busca da verdade por Ranke lhe valeu a alcunha de historiador eunuco por Nietzsche, quando o filósofo disserta sobre a “febre da história” que marcava o momento intelectual da crítica à metafísica em prol da consciência histórica. Mais do que isso, a historiografia moderna criticou a história rankeana por ela ser eminentemente política, eixo a partir do qual submetiam as outras esferas da sociedade. Por conta desse privilégio do político, os historiadores rankeanos faziam uma espécie de hierarquização dos documentos, dizendo que os documentos escritos e oficiais, ligados ao Estado e preservados em arquivos, eram mais importantes e confiáveis que os demais. Nada incomum, se situarmos esses historiadores em seu contexto social do período. Boa parte desses autores integrava os projetos de Estado-nação e unificação da Alemanha, alguns como conselheiros diretos do rei.

Outra corrente historiografia, a Escola Metódica Francesa, seguia uma linha parecida (de condução da pesquisa) a dos “rankeanos”. Priorizava os documentos escritos aos quais à crítica do historiador só deveria se reportar para destruir informações ilusórias, nunca criando outras. Em busca da verdade, Langlois e Seignobos, expoentes desta vertente, dizem que a crítica apenas classifica, nos mostra probabilidades criando etiquetas: afirmação sem valor, afirmação suspeita (fortemente ou fracamente), afirmação provável ou muito provável, afirmação de valor desconhecido. Esses autores procuravam adotar um modelo de história que estivesse adequado a ciência natural que, embora constituísse um procedimento próprio, nunca poderia entrar em confronto com as ciências físicas consideradas “exatas”.

Segundo Peter Burke, o surgimento da chamada “Nova História” no século XX rompe com o paradigma tradicional da historiografia, que era visto como o único jeito de fazer se história. Os historicistas e os metódicos são considerados os representantes deste paradigma tradicional, que não raras vezes (ambos) são chamados de positivistas, por conta da leitura que os aproxima das ciências naturais e da tentativa de neutralidade. Para Burke, algumas mudanças foram claras em relação ao modo de fazer história tradicional. Com a Escola dos Annales, há o interesse por toda a atividade humana, tudo tem um passado e uma história. Daí, a expressão “história total” cara aos autores dos Annales. Desta maneira a história política deixa de ter privilégio sobre as demais, aliás, devido à inspiração marxista, apontada por Jacques Julliard, a política é relegada ao segundo plano, pois estaria ligada aos acontecimentos que seriam apenas espumas trazidas pelas ondas do mar da história de longa duração, protagonizada pelo econômico e social (expressão de Braudel, da segunda geração dos Annales).

A partir da Escola dos Annales, muito em função do interesse por toda a atividade humana, houve uma expansão da documentação no trabalho do historiador, deixando de ser restrita aos documentos escritos e oficiais produzidos pelo Estado. Nesta geração de pesquisadores, todos os documentos passam a ser utilizados como evidências: os documentos orais e visuais, os objetos e utensílios, as estatísticas e os dados, fabricados em diversas esferas da sociedade com as quais a pesquisa pretende investigar. Tudo que for indício da atividade humana é incorporado à documentação da pesquisa história, pois como escreveu metaforicamente Marc Bloch, o historiador deve ser como o ogro da lenda que fareja carne humana atrás de sua caça.

A defesa da interdisciplinaridade pelos Annales provocou a inserção de outras ciências humanas e sociais como auxiliares na pesquisa histórica. Mais do isso, conforme salienta Burke, a Nova História rejeita a ideia de história objetiva de Ranke, a que queria contar “os fatos da maneira que eles aconteceram”. Pois, embora a história seja um conhecimento cientificamente conduzido através de um método, a objetividade é impossível sem a subjetividade, pois nossas mentes não refletem diretamente a realidade, mas só percebemos o mundo através de uma estrutura de convenções, esquemas e estereótipos, um entrelaçamento que varia de uma cultura para outra. Nossa percepção dos conflitos é certamente mais realçada por uma apresentação de pontos de vista opostos do que por uma tentativa de articular um consenso. Segundo Canclini, essa exposição da Nova História está baseada na crítica à consciência absoluta do sujeito cartesiano feita inicialmente por Nietzsche, que descreveu a genealogia da moralidade da consciência cristã ocidental, Marx, que particularizou as consciências históricas conforme os interesses de classe e, Freud, que diagnosticou os conflitos internos da consciência, onde “o ‘eu’ não é senhor dentro da própria casa”.

Embora já houvesse a atenção de alguns autores historicistas para o caráter subjetivo da pesquisa historiográfica e para a necessidade da crítica do pesquisador frente aos documentos, foi mesmo com os Annales que ela foi, pelo menos, popularizada e sintetizada. Jacques Le Goff, integrante da fase tardia do Annales, num artigo escrito no final do século XX, advoga a importância de tratar os documentos como monumentos. Para o historiador, os monumentos nunca são neutros, nem a própria existência dos mesmos, estes só chegam até o presente por conta de forças impostas e vencedoras do passado que querem transmitir algum tipo de imagem da sociedade que os produziram. São as escolhas dos historiadores que determinam quais monumentos que serão utilizados como documentos, mas os dois são uma coisa só. Le Goff critica Fustel de Coulanges, autor que teria dito que “a única habilidade do historiador consiste em tirar dos documentos tudo o que eles contêm e em não lhes acrescentar nada do que eles não contêm. O melhor historiador é aquele que se mantém o mais próximo possível dos textos”. Segundo Le Goff, esse era um postulado típico da “escola positivista”, a qual defendia a primazia dos documentos, que assumiam o lugar de prova, logo de comprovação da verdade. Le Goff acredita que a Escola dos Annales proporcionou uma revolução documental em duas medidas. Primeira, quantitativa e, segunda, qualitativa.

Quantitativa: houve uma ampliação que já foi explicada, e através dela operou-se o trato da documentação em massa, medido por seu valor em série, onde há a confrontação de vários tipos de documentos, sob várias perspectivas através das quais o objeto de pesquisa pode ser estudado. Por exemplo, ao investigar as revoluções européias de 1848 o historiador poderia acumular documentos produzidos pelas elites, pelos líderes políticos de massa, pelos filósofos, pelas classes pobres ou fazer uma análise cruzando acontecimentos políticos a dados econômicos e de crescimento demográfico, numa escala comparativa de curta ou longa duração. Na era do computador e do processamento de dados, uma vertente da história quantitativa cresceu bastante, chegando ao ponto de determinados pesquisadores da linha (os chamados “cliometras” segundo Joseph Fontana) dizer que somente esse tipo de história pode ter um conhecimento científico seguro.

E. P. Thompson fez uma crítica consistente ao tipo de história que se baseia apenas no valor quantitativo dos documentos, para o historiador inglês, os números de um cálculo estatístico pouco dizem ao historiador se não levarmos em conta o fator cultural e a mudança de um determinado contexto histórico. Ele aponta como exemplo o crescimento da média dos salários do operariado inglês durante a Revolução Industrial, que obscurecem a compreensão da conjuntura se não olharmos o crescimento proporcional do número de pobres com o aumento da população e a mudança nos costumes cotidianos destas pessoas, a noção do tempo fabril regrando a vida é uma delas.

Qualitativa: Lucien Febvre diz que o mais apaixonante do historiador é fazer falar as coisas mudas, fazê-las dizer o que elas próprias não dizem sobre os homens, sobre as sociedades que as produziram. Com os Annales, a crítica ganha um papel essencial na pesquisa histórica. Agora o historiador não precisa estar cada vez mais colado ao texto para produzir conhecimento sobre o passado, como quis Coulanges, mas sim, é necessário questionar os documentos. Diante dos enunciados escritos, por exemplo, é preciso fazer as três perguntas do método básico de análise: O que é? Por quê? Para quem? Cabe ao historiador investigar as intencionalidades por trás da existência do documento, como também o que ele diz e, portanto pretende esconder e mostrar; não mais simplesmente reproduzi-lo, pois não existe documento inócuo, objetivo, neutro, primário, todos devem ser compreendidos como instrumentos de poder. Foucault já havia apontado sobre o aspecto monumentalista de todo documento, mas ao contrário dos Annales, o filósofo-historiador não quis fazer os documentos falarem, e sim através do método arqueológico descrever os monumentos, fazendo séries e investigando a produção dos regimes de verdade, ligados as instituições de poder e saber, e as regras discursivas pelas quais tornaram possível pensar, falar e agir da maneira que pensamos, falamos e agimos a partir da modernidade.

Referências:

BENTIVOGLIO, Júlio. Cultura política e historiografia alemã no século XIX. Revista de Teoria da História – Goiânia: UFG, ano 1, nº 3, p. 20-58.
BLOCH, Marc. Apologia da história: ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BURKE, Peter. Abertura: a nova história, seu passado e seu futuro. In:_____. A escrita da história: novas perspectivas. SP: Unesp, 1992, p. 7-38.
CALDAS, Pedro. O espírito dos papeis mortos: um pequeno estudo sobre o problema da verdade histórica em Leopold Von Ranke. Emblemas – Revista do departamento de História e Ciências Sociais – UFG/CAC, v. 1, n. 3, 2007.
CANCLINI, Néstor García. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007.
FONTANA, Josep. História depois do fim da História. Bauru: Edusc, 1998.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.
LE GOFF, Jacques. Documento/monumento. In:_____. História e Memória. Campinas: Unicamp, 1996.
THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa, vol. II: a maldição de Adão. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Negacionismo e História: o holocausto moral dos relativistas

O que é real? Como você define o "real"? Se você está falando sobre o que você pode sentir, o que você pode cheirar, o que você pode saborear e ver, o real são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro.
(Morpheus em Matrix)
 
A partir dos anos 70 surgiram diversos trabalhos abordando a fragilidade epistemológica em que a História se apoia quando pretende encontrar ou construir verdades científicas emitidas através de uma narrativa semelhante a do realismo literário. O apontamento dos limites, ou seja, a crítica ao saber histórico, que passa pela relativização da verdade em relação à linguagem, foi engendrada por pesquisadores de diferentes perspectivas, inspirações e áreas. Passando por cima desta pluralidade, alguns historiadores e colegas vizinhos encontraram uma estratégia para caracterizar o posicionamento destes críticos, chamando-os de pós-modernos: termo que se tornou sinônimo de relativista. Porém, apesar da recusa ao diálogo por parte de determinados historiadores, alguns ao menos tentam responder as críticas. Neste post procuro discutir uma destas respostas que, a meu ver, é ineficiente. Tentarei expor o porquê.

Diferentes historiadores como o francês Pierre Vidal-Naquet (1988) e o italiano Carlo Ginzburg (2002; 2006) argumentam que o relativismo é um dos pressupostos básicos para a negação do Holocausto (o chamado negacionismo/revisionismo). Ou que a corrente relativista contribuiu para o aparecimento na década de 80 de trabalhos de história sobre o Nazismo que negavam o Holocausto. Carlo Ginzburg vai além ao condenar como “irracionalistas” todos os pesquisadores que se inspiram ou dialogam em alguma medida com a filosofia de Nietzsche. Derrida, Paul De Mann, Barthes, Foucault e White seriam então relativistas, niilistas e, por fim, nazistas. Entretanto Ginzburg omite propositalmente o pensamento de Nietzsche como crítico feroz do orgulho nacionalista alemão e do Estado – eixos basilares do Nazismo.[1]

Aqui, através de um argumento moral, historiadores como Vidal-Naquet e Ginzburg tentam matar dois coelhos com uma cajadada só (de Moisés!). Mas o mar vermelho não se abriu quando tentaram integrar numa mesma ilha dois posicionamentos distintos que consideram “inimigos” da História: o relativismo e o negacionismo. Não há resposta, somente uma contraposição que diz: se você é relativista (ou “irracionalista”) logo defenderá o Nazismo e negará o extermínio dos judeus. O argumento neste nível não tem nada de epistemológico como nos escritos em que a Deborah Lipstadt denunciou a adulteração e a fraude de documentos para manipular os eventos históricos feitas por David Irving – um historiador britânico que aderiu com o passar do tempo a organizações neonazistas nos EUA (JIMÉNEZ, 2000).[2]

Judeus em Auschwitz
Em todo caso os negacionistas não defendem a inexistência do Nazismo, nem mesmo que mortes e assassinatos não aconteceram nos campos de concentração. Os argumentos centrais destes são os seguintes: (1ª) não é possível ter ocorrido o extermínio dos judeus (o Holocausto) porque os nazistas não traçaram nenhum plano neste sentido, uma vez que não existe documento algum que detalhe este plano; (2ª) a tecnologia da época não permitia a existência de câmaras de gás que funcionassem como máquinas de morte em massa; (3ª) entre os anos de 1941 a 1945 a população judia manteve-se estável, por isso o número de seis milhões de mortos é falso; (4ª) os judeus sobreviventes mentem para conseguir privilégios financeiros; (5ª) o julgamento ocorrido em Nuremberg após a guerra se apoiava em documentos falsos para condenar o inimigo alemão derrotado (JIMÉNEZ, 2000, p. 378).

Parece bastante claro que estes argumentos não possuem nada de relativistas. Pelo contrário, como já apontara André Voigt (2009), eles partem de um solo comum da chamada linha de investigação da história “realista” ou científica. Quer dizer, no primeiro argumento defende-se que o acontecimento só é possível ou real se existe algum documento que o comprove. É óbvio que eles sabem que muitos arquivos foram aniquilados e que os próprios nazistas usavam termos burocráticos para se referirem ao extermínio em massa (como “solução final”, “questão judia”, “internamento” e etc.).

No segundo argumento reaparece a realidade submetida a uma possibilidade e, neste caso, à (descrição da) época: como se não pudesse existir algo novo e diferente em relação ao que descreveram como a época. O problema é que o discurso histórico, em certa medida, caminha neste mesmo sentido. Acredita-se em demasia nestas descrições generalistas. A chamada contextualização histórico-social às vezes peca por apagar os acontecimentos, as criações, as novidades que não se adaptam a ela em prol de um efeito de realidade ao qual tudo precisa estar ligado para ser verdadeiro. Esse é um modelo discursivo típico do realismo literário que, em reação ao romantismo e influenciado pelo positivismo do século 19, pratica literatura como a escrita que descreve a realidade da época, isto é, dos problemas sociais e políticos. Uma espécie de poética histórica (uma arte) que liga os fatos à necessidade ou a verossimilhança. Misturando personagens fictícios a realidades aceitas socialmente e submetendo o real somente ao possível.

Complementando o que disse acima, ao tecer uma crítica aos Annales, Voigt argumenta que na atualidade determinado modelo historiográfico opõe o acontecimento à noção de mentalidade. Conforme já havia sido exposto por Jacques Rancière, Voigt conclui que esta é uma “maneira de suprimir o acontecimento, neutralizando-o em sua carga de ruptura com uma época na mesma medida em que procura submetê-lo à possibilidade de ter tido condições de existência em seu tempo. O medo do anacronismo acabou submetendo o real ao possível, de acordo com o tempo. Do mesmo modo, esta prática historiadora sempre procura encadear o acontecimento a uma conjuntura necessária, para que possa ser caracterizada como real” (2009, online).[3] Se concordássemos que num período após a Primeira Guerra o mundo inteiro estava falando e pensando em paz, seria difícil situar a possibilidade de existência do horror que foram os campos de concentração e extermínio. Na linha das mentalidades esse acontecimento foi irreal? Talvez por isso os historiadores até hoje sentem dificuldade em representá-lo através de uma narrativa.

Os outros argumentos dos negacionistas ou caminham na mesma direção ou defendem que o Holocausto não passa de uma maquinação política empreendida por um complô contra os alemães derrotados na II Guerra Mundial. Argumento este bastante usado pela historiografia dos oprimidos e dos “dominados” quando se pretende relativizar os documentos oficiais. Ok, isto pouco importa neste momento. O que gostaria de destacar é que os “negacionistas” ou “revisionistas” não relativizam coisa alguma. Pelo contrário, os verbos-chaves usados são os mesmos de um historiador não-negacionista cuja pretensão é buscar ou construir verdades: “evidenciar”, “demonstrar”, “revelar”, “confirmar”, “comprovar” e similares. Ou seja, em tese, eles se dão por satisfeitos quando tais documentos comprobatórios existem: a verdade se revela neles. É o chamado “verbo que se fez carne”, muito caro à tradição judaico-cristã. Estes argumentos podem ser perigosos, pois já imaginaram se acaso aconteça algo que não tenha produzido documentos para comprovar que aquilo realmente aconteceu?

Voigt (2009) considera que na ausência de conseguir dar uma resposta satisfatória aos negacionistas, os historiadores asseveraram que a História era assim um artifício para assegurar a memória. Um uso político e moral da memória. A memória como dever. E, neste caso, mais uma vez existe uma luta contra Nietzsche por causa da apologia que o filósofo fez ao esquecimento. Por tabela a crítica ou a acusação de compactuar com o esquecimento do nazismo se estende a todos aqueles considerados relativistas, irracionalistas, pós-modernos, pós-estruturalistas, desconstrucionistas, contorcionistas e demais “istas” que inventaram... Mas novamente se enganam ao acreditarem que o esquecimento filosófico de Nietzsche tem a ver com o esquecimento do Holocausto. Primeiro que os negacionistas não pregam o esquecimento. Eles não dizem: “vamos esquecer o que aconteceu e seguir em frente, pois só o presente nos interessa agora”. Nada disso! Eles querem é construir uma nova memória do Nazismo e da II Guerra advogando sobre a inexistência do Holocausto. Eis a verdade deles! E querem universalizá-la a todos, instaurando-a e consentindo-a hegemonicamente.

Em A genealogia da moral Nietzsche apresenta o esquecimento não como uma passividade. Algo que seria secundário em relação à memória, sua inoperação ou ausência de memória. Mas como uma atividade. Uma positividade. O filósofo compara o esquecimento à digestão. O homem que não consegue esquecer é identificado como um enfermo cuja doença o impede de digerir os alimentos. Só o esquecimento poderá dar esperança e felicidade. Enquanto isso o memorioso, como não consegue se livrar de nada, nunca fica pronto para o novo ou para o presente. Ademais, a reflexão de Nietzsche proporciona um outro olhar para a noção de memória. Quando o esquecimento for uma faculdade que antecipa a inscrição da memória, inibindo a fixação desta sem a sua vontade, “a memória não será entendida mais como uma prisão a marcas de um passado inexorável” do qual não se pode mais se livrar, porém uma impressão da qual não quer mais se livrar (FERRAZ, 1999, p. 35). A memória deixa finalmente de ser um dever e passa a ser um querer. Uma memória para o futuro! Uma promessa da qual se quer cumprir. Assim, lembrar passa a ser um continuar querendo o já querido, uma memória da vontade proporcionada por um esquecimento ativo e criador.

Outra confusão “ingênua” (para não chamar de desonestidade intelectual) é a que descreve como irracionalismo o posicionamento de intelectuais que dialogam com Nietzsche. Ora, não há uma rejeição da razão por parte destes filósofos, historiadores, sociólogos e teóricos literários que gostam da filosofia nietzschiana. Longe disso, eu penso. Há um uso do intelecto para criticar e suspeitar da própria razão. Para desconfiar da fé cega na razão, especialmente a instrumental, utiliza-se a razão autocrítica. Este exercício é desenvolvido há bastante tempo desde Kant, passando por Marx, Freud e Escola de Frankfurt. O que Nietzsche e os outros pensadores fazem é colocar uma suspeita sobre a razão utilizando-se dela mesma. Ou vocês acham que este exercício do pensamento é possível por qual meio? Nietzsche coloca inclusive o próprio relativismo em suspeita.[4] É um eterno “não acredito em nada além daquilo que duvido” -- como já cantou Renato Russo (1991).

Ainda assim, colegas anarquistas e monarquistas me disseram que o relativismo nos levaria a um fascismo tal qual o Nazismo. Eu nem me considero um relativista sob todos os aspectos, mas defendo que é seu “oposto” que formou a condição de possibilidade do Nazismo acontecer: a crença cega. Se o relativismo fosse um fenômeno de percepção mais ou menos geral entre a população e os líderes alemães, o Nazismo ou algo similar não teria ocorrido. Provavelmente eles desconfiariam com veemência da identidade alemã, da ideia de que os povos germânicos ou arianos descendiam de uma raça pura ou que eram escolhidos pelos deuses ou coisa assim. Desconfiariam também das pesquisas científicas nazistas que "comprovavam" que judeus, negros, ciganos e outros eram inferiores aos alemães com pedigree. A galera que diz que não sabia de nada desconfiaria do sumiço em massa dos judeus e de suas novas moradias distantes. Os soldados que diziam apenas cumprir ordens desconfiariam de que aquilo ali coisa bacana não era não. E, finalmente, todos desconfiariam da história que narra a bela trajetória dos povos germânicos através dos tempos e a chegada dos judeus-ratos que tiraram seus postos de trabalho e sugaram suas riquezas. Porque para fazer uma coisa daquelas há que ser como os negacionistas e os positivistas: tem que acreditar demais e duvidar de menos.

Referências:

FERRAZ, Maria Cristina Franco. Nietzsche: esquecimento como atividade. Cadernos Nietzsche, São Paulo, nº 07, p. 27-40, 1999.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Cia das Letras, 2006.
______. Relações de força: história, retórica e prova. São Paulo: Cia das Letras, 2002.
JIMÉNEZ, José L. Rodrigues. El debate en torno a David Irving y el negacionismo del holocausto. Cuadernos de Historia Contemporanea, Madrid, nº 22, p. 375-385, 2000.
LEGIÃO Urbana. Sereníssima. Compositor: Renato Russo. Álbum: V. Faixa: 06. Gravadora: EMI, 1991.
NIETZSCHE, Friedrich W. Genealogia da moral. São Paulo: Brasiliense, 1988.
VIDAL-NAQUET, Pierre. Os assassinos da memória. Campinas: Papirus, 1988.
VOIGT, André F. O Holocausto, entre o realismo e o relativismo historiográfico: uma introdução ao estudo do Holocausto. Revista História e-História, Campinas, online, 2009. [Disponível em: http://www.historiahistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=94].

[1] Quem quiser saber mais, escrevi uma resenha deste livro no ano passado aqui no blog: Relações da forca: o historiador como juiz e policial em Ginzburg.
[2] De acordo com o texto de Jiménez, David Irving, apesar de sempre controverso, gozou de reconhecimento no início da carreira, escrevendo sobre a Segunda Guerra Mundial, alguns de seus livros foram bastante lidos e traduzidos em diversas línguas. Entretanto, sua fama sempre se deu mais pela polêmica levantada em suas obras e pelo aparecimento em canais de televisão do que por sua erudição – não que não tivesse alguma. Sua figura esteve associada aos revisionistas e negacionistas, e foi ganhando cada vez mais simpatia com os neonazistas. A partir de certo momento foi convidado a integrar o Instituto Histórico Revisionista na Califórnia que é ligado a organizações neonazistas. Em seus últimos livros, Irving começou a abonar ou neutralizar o papel de Hitler no Holocausto, atribuindo ao ministro da propaganda Joseph Goebbels e ao comandante da SS, Himmler, a culpa pelas mortes. Ao primeiro por colocar na cabeça do Fürer a ideia dos assassinatos por fuzilamento, e ao segundo pelas más condições no campo de trabalho. Ainda assim, ele rejeita as execuções pela câmara de gás, dizendo que as mortes que aconteceram foram normais para uma situação de guerra. Irving processou Deborah Lipstadt pelas críticas que fez a seus livros. E em 2000, o tribunal inglês deu parecer favorável a Deborah, onde foi decidido que Irving “manipulou fatos históricos bem documentados para dispor os acontecimentos em concordância com sua ideologia” (JIMÉNEZ, 2000, p. 282).
[3] O historiador André Voigt (2009) aponta que Rancière encontrou uma saída interessante para responder os negacionistas sem cair nos pressupostos dos historiadores. Para Rancière o Holocausto é uma realidade histórica e o negacionismo é falso, mas para escaparmos da imobilidade da história (e também da política) devemos assumir três axiomas: “o tempo é sem relação com a verdade; o acontecimento é sem relação com o possível; o real é sem relação com o realismo”. Esta é uma proposta ética-política para neutralizar o discurso negacionista, abandonando a democracia consensual para dar lugar a uma rediscussão dos papeis sociais numa nova partilha do sensível.
[4] Tratei exatamente deste assunto no seguinte post: Por que Nietzsche não é um relativista?

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