terça-feira, 18 de agosto de 2015

História dos Estados Unidos por René Rémond: resumo das primeiras colônias à independência

A faixa litorânea atlântica da América do Norte demorou a ser colonizada caso a comparemos com as terras meridionais e centrais. O Canadá já havia sido ocupado pelos franceses desde o século 16 e a Flórida anexada ao império espanhol. Este atraso se deve em parte à geografia da costa, ora pantanosa ora rochosa cujo acesso ao interior era dificultado, mas também ao clima (às vezes glacial, às vezes sufocante) e à ausência daquilo que atraia os colonizadores: especiarias e metais preciosos. Mesmo atrasada, a Inglaterra (que aliás emergia como uma nova potência colonial) levou a melhor sobre todos seus concorrentes (franceses, espanhóis, holandeses e suecos), conseguindo eliminá-los mediante negociação ou guerra e tornando-se dona de toda a costa.  

A primeira colônia anglo-saxônica no Novo Mundo foi Jamestown, fundada em 1607. A época colonial (1607-1763) da história dos Estados Unidos da América prenuncia muitas características até hoje atuais. “O país recebeu deste período o legado de uma população, de uma sociedade, de uma economia, de uma mentalidade, de uma parte de suas instituições políticas, de suas tradições jurídicas e instituições judiciárias, e também alguns de seus problemas” (p. 01). Embora seja sempre narrada a história dos 120 peregrinos que chegaram a bordo do famoso navio Mayflower em 1620 vindos das Províncias Unidas, o povoamento deste território não foi nada homogêneo. Para falar apenas do núcleo principal, havia ingleses, escoceses, galeses mas também alemães, suecos e até franceses (estes últimos eram sobretudo protestantes fugindo da intolerância católica). Separadas por relativas distâncias entremeadas por florestas, savanas e tribos indígenas, formaram-se três tipos de colônias, todas elas independentes entre si.

No grupo da Nova Inglaterra havia quatro: New Hampshire, Massachusetts, Connecticut e Rhode Island. Possuía uma economia composta por agricultura, pecuária, pesca, comércio e indústria em fase inicial. O puritanismo era a religião hegemônica. Muitas destas pessoas haviam saído de suas terras natais para não conflitar com os ordenamentos de um príncipe que não professava a mesma religião que a delas. Estado e igreja para eles estava intimamente ligados e a religião regia não somente a vida pública, mas também a vida privada. Diante deste fato era comum que ocorresse intolerância contra os que agiam em desacordo aos costumes da comunidade. Foi numa das colônias da Nova Inglaterra que aconteceu a chamada caça às bruxas de Salem. Porém a religião também teve seus pontos positivos. É na Nova Inglaterra que os primeiros colégios foram fundados. Inicialmente com o objetivo de formar ministros clérigos, as sementes das futuras universidades do Leste foram plantadas (Havard por exemplo é de 1636). Por influenciar também a vida política, a religião calvinista formou hábitos democráticos. As igrejas eram administradas livremente pela comunidade. Isso fez com que as decisões sobre o lugar onde viviam também fossem participativas. Boston, já com 20 mil habitantes no século 18, é a cidade símbolo das colônias da Nova Inglaterra: “atividade econômica diferenciada e lucrativa, índole religiosa, prática democrática, tradição intelectual... foi uma das primeiras cidades a pegar em armas pela independência” (p. 6-7).  

Composto por cinco colônias, o grupo do Sul era bem distinto ao da Nova Inglaterra. São elas: Maryland (homenagem dos católicos à Virgem Maria), Virgínia (homenagem à rainha Elizabeth I, a “Rainha Virgem”), Carolina do Norte e do Sul e Geórgia (homenagem ao rei George I). Sua densidade populacional era menor, com poucas cidades, devido ao fato de viverem exclusivamente da terra. A economia se baseava no sistema plantation: grandes propriedades monocultoras (de tabaco, arroz, índigo e depois algodão) onde a mão de obra constituía-se por escravos e os produtos eram destinados especialmente ao comércio exterior. Os escravos vinham do tráfico negreiro da África e desde o século 18 eram mais numerosos do que os homens livres. Da escravatura obviamente germinava a vulnerabilidade desta sociedade cujos fundamentos e gostos eram aristocráticos. Além disso, estava seu sucesso sujeito às condições atmosféricas e às tribulações do comércio em terras alhures. Diferentemente da “democrática” Nova Inglaterra, e também devido ao abismo social entre fazendeiros e escravos, a oligarquia governava a colônia a seu bel-prazer.      

Entre estes dois grupos que geralmente os livros didáticos de história descrevem apenas como as do sul e as do norte, havia também o grupo das colônias intermediárias: Nova York, Nova Jersey, Delaware e Pensilvânia. Estas não se assemelhavam a nenhum dos dois grupos anteriores (menos ainda com as do Sul) e também eram menos homogêneas do que os demais. Nova York vivia vestígios de sua antiga colonização, chamava-se inicialmente Nova Amsterdã, e Delaware tinha lá sua herança social dos ex-colonos suecos. Foi o inimigo comum que fez com que se unissem as treze colônias (divididas por Rémond em três grupos). O primeiro inimigo comum foram os indígenas, poucos porém perigosos – pelo menos até o momento em que armas de fogo foram aprimoradas. O segundo, os franceses, que já estavam no Canadá há tempos e podiam espremer os anglo-americanos em direção ao mar em busca de mais terras. Todavia eram apenas sessenta mil, no século 18, e, além disso, espalhados. Já os súditos britânicos passavam de um milhão e meio. Veio a guerra dos Sete Anos. E então os habitantes das treze colônias ajudaram sua metrópole a derrotar os franceses em suas terras. Foi bom para os dois lados. Por um lado a Inglaterra protegeu a tomada de sua colônia. Por outro os anglo-americanos ganharam experiência em conflitos bélicos. George Washington conquistou notoriedade ultramarina ao liderar batalhões.

A independência (1763-1783)

A independência foi o processo indireto da vitória da metrópole inglesa e suas colônias contra a França, na medida em que apenas treze anos separam a eliminação do perigo francês, em 1763, do rompimento das colônias americanas com a Coroa britânica, em 1776. No entanto, após o término da Guerra dos Sete Anos, nada indicava este acontecimento ou sequer alguém entre os anglo-americanos o desejava. Então quais foram suas causas? Primeiro, a vitória mostrou aos americanos que eles tinham força e não precisavam mais da presença de soldados ingleses em seu solo, pois podiam prover sua própria segurança. Segundo, diante das dívidas de guerra, a Inglaterra impôs uma série de medidas vexatórias contra os colonos. Ao aplicar novos impostos e a exclusividade do pacto colonial (cuja obrigação da colônia era a de comercializar somente com a metrópole), a Coroa desagradou todos os americanos e sobretudo “uma classe de negociantes, armadores e marinheiros que tinham baseado sua fortuna no comércio com as Antilhas francesas e espanholas” (p. 16). Mais do que isso os americanos esperavam que o Oeste lhes fosse concedido após a vitória da guerra, porém, o governo de Londres decidiu agradar seus novos súditos, os canadenses, proibindo a infiltração de colonos americanos em tais terras.

Os novos impostos oneraram os colonos e puseram uma discussão em pauta: o governo inglês teria direito de cobrar estes tributos tendo em vista que estavam em desacordo com um valioso princípio constitucional inglês segundo o qual nenhum novo imposto pode existir sem o consentimento dos representantes? Os ingleses achavam que sim, pois o Parlamento de Londres representava todos os súditos. Os americanos achavam que não, já que não havia gente de seu povo nesta câmara e somente suas assembleias podiam autorizar o imposto em seus nomes. “O ponto de vista do governo londrino ameaçava o poder de controle de que estas haviam gradualmente se apoderado: após sua autonomia comercial, as colônias viam agora ameaçada sua autonomia política” (p. 17). Diante do impasse, em 1770, a metrópole resolveu ceder e retirou todos os novos impostos, com exceção da Lei do Chá. Isso não bastava para os colonos, uma vez que não colocava em xeque o direito. Quer dizer, continuavam dependentes do humor arbitrário de Londres. Parece mesmo que, na medida em que se viam dentro de uma perspectiva coerente ao legalismo britânico, os colonos não podiam aceitar tal coisa. Isto é, “incapazes de obter da Grã-Bretanha a aplicação dos princípios constitucionais ingleses, não podendo ser totalmente ingleses, os colonos e seus descendentes preferirão ser apenas americanos” (p. 17).

Porém, até aceitar este sentimento, fazendo da impressão uma realidade política, levou tempo. Para ser mais claro: depois do fracasso de várias tentativas de conciliação. A opinião sobre a secessão dividia-se tanto de um lado quanto de outro do Atlântico. Muitos americanos ficaram apreensivos diante da eminência de ficarem sós, bem como tinham a certeza de que não seriam capazes de romper à força o laço entre colônia e metrópole. Porém, embora não houvesse nesta altura um órgão legítimo que concentrasse e exprimisse as vontades dos colonos, a partir de 1773 surgiram alguns eventos imprevisíveis cujos desencadeamentos encaminharam de modo quase inevitável para uma guerra de independência. “Esses episódios constituem os anais gloriosos da liberdade americana” (p. 18).

Em 16 de dezembro de 1773, cinquenta colonos se fantasiaram de indígenas e invadiram um navio da Companhia das Índias Orientais no porto de Boston. Feito a incursão, eles lançaram ao mar toda a carga de chá ali presente. As autoridades locais se mantiveram passivas, mostrando-se coniventes com a ação. Prontamente o governo londrino respondeu lançando cinco decretos que arruinaram o comércio da cidade e cercearam as liberdades dos cidadãos de Massachusetts. Pretendia com esta medida punir de forma exemplar, entretanto, não contavam que as outras colônias iriam apoiar o Estado onde aconteceu a revolta. Meses depois, em setembro de 1774, seguindo ideia de Franklin, representantes das treze colônias se reuniram no chamado primeiro Congresso Continental da Filadélfia. Neste encontro ainda não estava em pauta a independência nem sequer a formação de um governo comum, era tão somente para encontrar os meios adequados para conquistar o reconhecimento de seus direitos frente ao estado de coisas. Mas isso alimentou elementos para a construção de um movimento insurrecional: comitês de correspondência formavam redes continentais; armas foram reunidas; milícias foram treinadas; legislaturas revolucionárias surgiram; multiplicavam os panfletos e jornais. “A revolução americana foi a primeira na qual a imprensa desempenhou um papel importante” (p. 19).

A Coroa inglesa começou a se mexer para evitar a revolta. O general inglês que comandava em Boston tentou tomar um depósito de armas em Concord. Os americanos descobriram e então ocorreu o confronto conhecido como a fuzilaria de Lexington. Meses depois, em Bunker Hill, outro conflito fez com que a infantaria inglesa perdesse por volta de mil soldados. Entre estes dois combates, aconteceu o segundo Congresso Continental da Filadélfia. Desta vez decidiu-se formar um exército continental cujo comando ficaria a cargo de George Washington. “Escolha decisiva: a independência americana, a confiança dos insurgentes no êxito de sua casa, sua reputação além dos mares, deveram mais ao desinteresse desse homem, às suas virtudes cívicas e militares, do que a todo e qualquer outro fator. Daí em diante, a independência estava adquirida nos fatos, mesmo antes de ser reivindicada”, escreve Remond (p. 20).

No ano seguinte, mais precisamente em 4 de julho de 1776, veio a público a Declaração de Independência, data que viria a ser comemorada religiosamente ano após ano nos Estados Unidos. Ao fundamentar no direito a insurreição e enunciar um sistema de valores seguidos pelos homens de Estado, o texto da declaração formou a base da filosofia política do povo americano. Ele surge antes da Declaração dos Direitos Universais do Homem e do Cidadão e constitui a origem de dois movimentos históricos, sobretudo por se tratar da primeira vez em que uma nação proclamava princípios fundamentais a respeito de uma sociedade política. “Por um lado, era a primeira vez que colônias se emancipavam: a sublevação americana anunciava, assim, por antecipação, todos os movimentos de independência colonial. Implantou no âmago da mentalidade americana o reflexo anticolonialista. [...] Por outro lado, foi a origem da onda revolucionária que, reatada e ampliada pela Revolução Francesa, iria derrubar, um após outro, os regimes estabelecidos até a Revolução Russa de 1917: a Revolução Americana é, simultaneamente, a mãe das revoluções e dos movimentos de independência” (p. 21).

Depois de proclamada a independência restava conquistá-la na prática. E esse processo durou longos sete anos. A dificuldade era mais do que justificada, afinal, os britânicos contavam com um exército regular e equipado, enquanto os colonos apenas com um exército improvisado composto por voluntários; metade combatentes, metade agricultores, com um olho na guerra, outro em seus negócios. Diante da falta de disciplina militar, podiam abandonar o front quando quisessem. Mais do que isso, a ausência de recursos era patente, as colônias não possuíam indústrias e o Congresso Continental da Filadélfia não tinha legitimidade para cobrar impostos. Sendo assim, precisavam de aliados. Mas quem poderia por frente a uma potência marítima como a Inglaterra senão a França, inimiga de outrora que ajudaram a combater? Pois foi esta mesma. Franklin foi quem negociou a aliança. Os franceses forneceram dinheiro, armas, um corpo expedicionário, uma esquadra e a aliança espanhola. Dois episódios mostraram o sucesso desta empreita. A capitulação de uma coluna inglesa em Saratoga, em 17 de outubro de 1777, quando os americanos encurralaram-na num terreno plano, marcou a assinatura do tratado. Cinco anos depois, em 19 de outubro de 1782, outra capitulação, desta vez de uma guarnição entrincheirada em Yorktown.

Já quase totalmente resolvidos os problemas militar e diplomático, faltava resolver o problema político. Esta foi uma questão responsável por arrastar durante tanto tempo a guerra de independência. Sim, pois como levantar um exército, contratar alianças, contrair empréstimos diante do fato de não existir uma autoridade política? Mesmo o Congresso Continental não dispunha de um poder de coerção para forçar todos os Estados a aderir a suas decisões. E os Estados declarados independentes não queriam alienar suas autonomias. Foi Washington o responsável por suprir a falta de uma autoridade funcional. A Inglaterra concordou em negociar em 30 de novembro de 1782, a guerra estava acabada. Em 3 de setembro 1783 uma negociação geral com franceses e americanos em Versalhes encerrou o certame completamente. Finalmente a metrópole reconheceu a independência das treze colônias. A história destas estava apenas começando: “a história de uma nova América independente, ao mesmo tempo prolongamento da Europa e separada dela, herdeira da Inglaterra e nascida de uma rebelião contra seu governo” (p. 23).

Referências:
RÉMOND, René. História dos Estados Unidos. São Paulo: Martins Fontes, 1989. 
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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Agradeça sua democracia e filosofia grega aos... árabes!

“Que conversa é essa?” Não, não. O blogueiro não ficou louco. Os árabes foram mestres e educadores do Ocidente latino quando “nosso mundo” abandonou o pensamento filosófico durante um período da Idade Média. Esta é a conclusão a qual chega Alexandre Koyré ao realizar uma pesquisa sobre platonismo e aristotelismo na filosofia medieval. Seu trabalho é relativamente antigo (não para um estudante de história, claro). Data mais precisamente do ano de 1944. E foi publicado numa revista acadêmica canadense, chamada Les Gants Du Ciel.

Alexandre Koyré foi um filósofo franco-russo, que viveu entre 1892 e 1964 e pesquisava sobre história e filosofia da ciência. Ele explica nesta pesquisa que os árabes foram, de fato, professores do Ocidente e não somente intermediários como estava sendo escrito até então. Por que o autor diz isso? Afinal a filosofia com a qual construímos nosso conhecimento teórico e científico e nosso modelo de democracia veio dos gregos (helênicos) e foi herdada pelos romanos (latinos), correto? Mais ou menos. Primeiro porque os romanos, como mais tarde sublinhou Paul Veyne (2010), eram indiferentes (quase totalmente) à ciência e à filosofia.

“Os romanos se interessam pelas coisas práticas: a agricultura, o direito, a moral. Mas, por mais que procuremos, em toda a literatura latina clássica, uma obra científica digna desse nome, não a encontramos. Muito menos uma obra filosófica. Encontraremos Plínio, isto é, um conjunto de anedotas e bisbilhotices; Sêneca, isto é, uma exposição conscienciosa da moral e da física estóicas, adaptadas – ou seja, simplificadas – ao uso dos romanos; Cícero, isto é, ensaios filosóficos de um diletante homem de letras; ou Macróbio, um manual de escola primária”, escreve Koyré (1991, p. 24).

Além do mais, os romanos também não se preocuparam em realizar traduções da filosofia grega, com exceção de poucos diálogos traduzidos por Cícero (entre eles, o Timeu). Nem Platão, nem Aristóteles, nem Euclides, nem Arquimedes foram traduzidos para o latim durante a época clássica, período de hegemonia dos pagãos. “Pois se o Órganon, de Aristóteles, e as Enéadas, de Plotino, o foram, no final das contas isso só ocorreu muito tarde e foi obra de cristãos”. Koyré sugere que este fato poderia ser relativizado na medida em que todo “bem nascido” romano, isto é, um patrício, aprendia grego. Contudo a questão é mais complicada. A aristocracia romana não era totalmente “helenizada” senão em círculos muito pequenos.

O contrário se passa no mundo árabe. Antes do fim da conquista política (e para Henri Pirrene a era medieval começa com a invasão dos árabes à península ibérica e não com a dos germânicos, chamados outrora de “bárbaros”, sobre Roma), os árabes-islâmicos vão em busca da civilização, da ciência e da filosofia gregas. “Todas as obras científicas e todas as obras filosóficas serão, ou traduzidas, ou – é o caso de Platão – explanadas e parafraseadas” (p. 25). Nesse sentido é possível afirmar que o mundo árabe esteve correto ao dizer-se herdeiro e continuador do mundo helênico. Sua Idade Média está mais para o que foi o nosso Renascimento. Foi exatamente por esta razão que os árabes puderam desempenhar o papel de educadores do Ocidente latino. Algo que atrapalha e muito o estereótipo do árabe como ser exótico, inculto e grosseiro construído pelos europeus, ainda predominante no Ocidente contemporâneo.

Mas você, que não é estudante de história, deve estar se perguntando por que raios os árabes tiveram de ensinar algo do qual nós, ocidentais, já conhecíamos. Então. Com certeza você já ouviu falar das horrendas invasões “bárbaras” que destruíram o Império Romano, desencadearam um acentuado processo de ruralização e mergulharam o mundo ocidental num período de sombras, barbárie e ignorância. Pois bem. Essa imagem do medievo como “Era das Trevas” já foi suficientemente desconstruída pelos historiadores franceses dos Annales, contemporâneos de Koyré. Entretanto este quadro pintado pelos iluministas não é completamente falso. Alexandre Koyré escreve que a Idade Média realmente teve sua época de relativa barbárie política, econômica e intelectual mais ou menos entre os séculos VI e IX. “Mas teve também uma época extraordinariamente fecunda, época de vida intelectual e artística de uma intensidade sem par, que se estende do século XI ao século XIV (inclusive), e à qual devemos, entre outras coisas, a arte gótica e a filosofia escolástica” (p. 22).

Pronto. Chegamos à filosofia escolástica. Os escolásticos foram os promotores da educação filosófica da Europa, criadores da terminologia que ainda nos servimos e aqueles que possibilitaram a retomada do contato com a filosofia da Antiguidade. A escolástica que, para simplificar, trata-se de um conhecimento construído a partir dos fundamentos da filosofia grega para conciliar fé cristã e razão, tornou-se hegemônica a partir do século IX. São Tomás de Aquino foi o principal filósofo escolástico. Ele tentou “cristianizar” a obra de Aristóteles, o mais importante autor para o medievo. Antes dele, os árabes já faziam o mesmo processo de conciliar o Islã ao aristotelismo. Questões tratadas pela filosofia medieval como se o espírito ocupa ou não um lugar no espaço, se o verdadeiro pensamento pode ou não ser individual ou sobre a unidade do intelecto humano já tinham sido discutidas nas teorias de filósofos árabes como Avicena (930-1037) e Averróis (1126 - 1198).

A tentativa de conciliar a doutrina política de Platão estava sendo feita desde Alfarábi (872-950). O mundo árabe conheceu Platão muito melhor do que os latinos puderam conhecê-lo, assegura Koyré. “Como é sabido, a doutrina política de Platão culmina na dupla ideia da Cidade ideal e do Chefe ideal da Cidade, o rei-filósofo que contempla a ideia do Bem e as essências eternas do mundo inteligível, fazendo reinar a lei do Bem na Cidade. Na transposição farabiana, a Cidade ideal torna-se a Cidade do Islã e o lugar do rei-filósofo é tomado pelo profeta. Isso já é bastante claro em Alfarábi. E ainda mais claro em Avicena, que descreve o profeta – ou o Imã – como o rei-filósofo, o Político de Platão” (p. 29). Outro filósofo escolástico, o monge franciscano Roger Bacon, vai copiar Avicena, aplicando ao papa o que o filósofo árabe conferiu ao Imã numa pretensão de teocracia universal.

A partir destes entrecruzamentos, Koyré assegura o seguinte: “A barbárie medieval, econômica e política – como demonstram os belos trabalhos do grande historiador belga Pirrene –, teve como origem muito menos a conquista do mundo romano por tribos germânicas do que a ruptura das relações entre o Oriente e o Ocidente, entre o mundo latino e o mundo grego. E é o mesmo motivo – a falta de relações com o Oriente helênico – que produziu a barbárie intelectual do Ocidente. Como foi a retomada dessas relações, isto é, a tomada de contato com o pensamento antigo, com a herança grega, que impulsionou o desenvolvimento da filosofia medieval. Por certo, na Idade Média, o Oriente – exceção feita a Bizâncio – não mais era grego. Era árabe. Assim, foram os árabes os mestres e educadores do Ocidente latino” (p. 23).

As primeiras traduções de obras filosóficas e científicas gregas para o latim foram feitas não diretamente do grego, mas através do árabe. E isso não ocorreu somente porque não tinha mais ninguém no Ocidente que sabia grego, mas também porque não existia mais ninguém, afirma Koyré, que fosse capacitado suficientemente para compreender livros difíceis como a Física ou a Metafísica de Aristóteles. Desta forma, sem o auxílio de Alfarabi, Avicena e Averróis, os latinos nunca teriam tido acesso a tais obras. Sobretudo porque para compreender gente como Platão, Aristóteles e Ptolomeu não basta apenas saber ler grego, mas é necessário saber filosofia. Coisa que a antiguidade latina pagã ignorava, não sabia, nem queria saber (e talvez até tivesse raiva de quem soubesse).

Apesar disso, o florescimento da civilização árabe-islâmica durou pouco. “O mundo árabe, após haver transmitido ao Ocidente latino a herança clássica que recolhera, perdeu-a e até a repudiou” (p. 25). Mas isso não se deve ao que muitos escrevem até hoje: uma suposta fobia genética dos árabes pela filosofia ou uma impenetrabilidade espiritual do oeste ao leste do globo. O que fez com que o mundo árabe se tornasse hostil à filosofia foi uma reação violenta da ortodoxia islâmica, aponta Koyré. Pois reprovava nela, com razão, sua atitude antirreligiosa: o valor da dúvida, da crítica e do questionamento. Mas também por questões bélicas, as inúmeras invasões turcas e mongólicas (e berberes na Espanha). Acontecimentos que contribuíram muito para toda carga de elementos do fanatismo que até hoje compõem seguimentos da religião islâmica.

Referências:
KOYRÉ, Alexandre. Estudos de história do pensamento científico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1991.
VEYNE, Paul. Quando nosso mundo se tornou cristão (312-394). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
* Todas as imagens do post são do cartunista jordaniano Amjad Rasmi.
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domingo, 14 de junho de 2015

Textura e hierarquização dos acontecimentos em Foucault e Ginzburg: historiografia e acontecimento (4/4)

Compartilho abaixo a última parte de um artigo meu publicado na Revista Teoria da História da Universidade Federal de Goiás ano passado. Trata-se de uma análise teórica sobre o conceito de acontecimento e seus desdobramentos nas obras O queijo e os vermes (do historiador italiano Carlo Ginzburg) e Eu, Pierre Rivière que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão... (organizado pelo filósofo francês Michel Foucault). Na primeira parte iniciei o debate sobre as concepções de acontecimento da historiografia, na segunda abordei o uso das fontes e da biografia do personagem histórico nas obras citadas, para logo depois, na terceira, tratar da irrupção do acontecimento. Neste post finalizo apresentando um último elemento diferencial na narrativa dos dois autores e proponho uma reflexão sobre a importância do acontecimento para a história.

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Por conta dos objetivos de cada obra, diferentemente de Ginzburg, Foucault não intenta desvendar através de um contexto sócio-histórico as causas e as condições de possibilidade do acontecimento ligado a Rivière – seja seu crime, sua narrativa ou a relação conflituosa dos saberes judiciários e psiquiátricos ao lidar com seu caso. Mas se engana quem acredita que Foucault se desfaz do contexto em privilégio de uma análise formalista ou semântica dos textos. Pois da mesma forma que Ginzburg recorre a textos antigos e novos para construir uma determinada cartografia social, econômica, política e cultural da Europa e, sobretudo, de Friuli, Foucault também apresenta um breve contexto da cultura popular francesa da época, que serve mais como canais para compreendermos a importância do acontecimento, de assassinatos, por exemplo, do que para explicar suas irrupções.

Assim, é assegurada uma relação entre o memorial escrito por Rivière e a série de narrativas que formavam uma espécie de memória popular dos crimes (FOUCAULT, 2007, p. 215). Formando uma “textura”, os folhetos jornalísticos do período, relatavam os crimes que circulavam pelas vilas, aldeias e cantões, onde eram contados e até cantados pelos habitantes destes lugares. De certa forma, era a única maneira de pessoas comuns dividirem espaço nas manchetes de jornais com soldados, personagens poderosos e reis e de fazerem parte da história escrita, ainda que abaixo do poder e em choque com a lei (Idem, 216). Para Foucault, esses dois tipos de história são atravessados por um acontecimento particular: o assassinato.

“O assassinato é o ponto de cruzamento da história e do crime. É o assassinato que faz a imortalidade dos guerreiros (eles matam, fazem matar e aceitam eles mesmos o risco de morrer); é o assassinato que assegura o sombrio renome dos criminosos (eles aceitaram, vertendo sangue, o risco do cadafalso). O assassinato estabelece o equívoco do legítimo e do ilegal. [...] Com ele se colocam sob uma forma absolutamente despojada a relação do poder e a do povo: ordem de matar, proibição de matar; suicidar-se, ser executado; sacrifício voluntário, castigo imposto; memória, esquecimento” (FOUCAULT, 2007, p. 217).

Ademais, o autor expõe que a História durante tanto tempo, seguindo a receita da poética aristotélica, excluiu de sua narrativa determinados personagens, nomes, gestos, diálogos, objetos por considerá-los indignos ou sem importância social.

É possível notar que além de Foucault não estabelecer uma hierarquização causal de acontecimentos, também não hierarquiza os discursos produzidos por personagens ou instituições, mas constrói uma relação de vizinhança e de similitude entre eles. Inclusive, podemos perceber isso na forma de organização do dossiê. Ao invés do autor apresentar o “assassino”, neutralizando suas palavras, procura lidar com seu discurso da mesma maneira que tratou os relatórios médicos, jurídicos e as notícias dos jornais, valorizando os escritos de Rivière e deixando que ele fale por si mesmo. Essa atitude fez parte de um exercício no qual o grupo de pesquisadores (GIP) promoveu encontros, palestras, reuniões e diálogos nas prisões francesas na década de 1970, dando voz aos prisioneiros, aos silenciados (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2007, p. 101).

Em O queijo e os vermes ocorre o contrário. Pois, ainda que se distancie da História que se dedicava a estudar exclusivamente “as gestas dos reis”, Ginzburg não dá voz a seus personagens, ou, quando dá, neutraliza-os com os saberes da historiografia. É ele quem fala no lugar de Menocchio quando o apresenta no início do livro: “Chamava-se Domenico Scandella, conhecido por Menocchio. Nascera em 1532 [...], em Montereale, uma aldeia nas colinas do Frioli, a 25 quilômetros de Pordenone, bem protegida pelas montanhas” (GINZBURG, 2007, p. 37).

Por mais que Ginzburg escreva uma história de um indivíduo da classe popular e valorize a presença de uma camada de crenças camponesas conservada pela cultura oral, o autor acaba estabelecendo uma hierarquia contextual na qual os acontecimentos ligados à classe erudita e ao macrocosmo possuem um grau de importância maior a ponto de condicionar uma existência. Assim ele escreve:

“Dois grandes eventos históricos tornaram possível um caso como o de Menocchio: a invenção da imprensa e a Reforma. A imprensa lhe permitiu confrontar os livros com a tradição oral em que havia crescido e lhe forneceu as palavras para organizar o amontoado de idéias e fantasias que nele conviviam. A Reforma lhe deu audácia para comunicar o que pensava ao padre do vilarejo, conterrâneos e inquisidores [...]. As rupturas gigantescas determinadas pelo fim do monopólio dos letrados sobre a cultura escrita e do monopólio dos clérigos sobre as questões religiosas haviam criado uma situação nova, potencialmente explosiva” (GINZBURG, 1987, p. 30).

Não é o intuito questionar aqui as hipóteses que levam às conclusões de Ginzburg, que me parecem muito válidas e coerentes, porém sendo a proposta do trabalho construir uma análise teórica sobre a produção, cabe ressaltar a hierarquização de acontecimentos feita de maneira a priorizar estes dois que apresentei.¹ Também vale ressaltar que este aspecto não é incomum em produções historiográficas, sobretudo às que lidam com a separação classificatória entre “classe dominante” e “classe subalterna”, como Ginzburg faz.

O problema, neste caso, apresenta-se da seguinte forma: para além do aceite ou não da separação da comunidade em classes, que traz em si uma hierarquia de comando e dependência, acaba-se caindo no modelo historiográfico que compreende a classe popular como vítima de uma imposição cultural da classe erudita, justamente a prerrogativa da qual Ginzburg diz querer escapar. Mas sua fuga é muito tímida. O uso do conceito de circularidade cultural de Bakthin, que poderia servir para dar conta do recado, cumpre apenas parte de sua função. Pois se é verdade que diálogos, pessoas, textos de diferentes classes circulavam nas redes de relacionamentos e que dentro da classe popular já existiam elementos críticos ao catolicismo hegemônico, para Ginzburg esse choque só foi possível porque ocorreram acontecimentos ou aglutinaram-se elementos da classe erudita que eram correspondentes ao pensamento e às atitudes críticas, até então, ocultas na classe popular. Quer dizer, é como se as classes populares não pudessem gestar criações e pensamentos no interior de suas próprias comunidades e desenvolver formas de resistências, independentemente de serem afetados por “grandes acontecimentos” ou do contato inevitável com a chamada “cultura erudita”.

Esta operação empreendida por Ginzburg ainda é bastante comum na escrita da história. Muitos historiadores relutam em abandonar ou em relativizar a hierarquização de acontecimentos que estabelece uma prioridade, às vezes determinista, às estruturas políticas, econômicas e culturais em nível nacional ou internacional. Neste caso, o micro acaba sendo apenas uma prerrogativa para continuar dando maior atenção ao macro, aos “grandes acontecimentos” ou às estruturas.² Como reflexão, penso que seria difícil compreender os pensamentos e as ações de uma família de camponeses no interior do centro-oeste brasileiro, entre 1960 e 1970, reduzindo-os ao Golpe Civil-Militar, de 1964, como marco de análise.

Considerações finais: a importância do acontecimento na História

Em Políticas da escrita (1995), o filósofo Jacques Rancière desenvolve uma reflexão interessante sobre a importância do acontecimento na e para a História. Contribuição esta que, infelizmente, tem sido ignorada pela maioria dos historiadores.

Para Rancière, na tentativa de retirar a prioridade dada aos acontecimentos pela história praticada no século 19, os modelos historiográficos do século 20, especialmente com a participação decisiva dos Annales, empreenderam uma neutralização do objeto próprio do saber histórico: o acontecimento. Esta neutralização se deu sob a negação da racionalidade própria do acontecimento que “é aquela do real, que não se preocupa em se fazer preceder, justificar, fundamentar por sua possibilidade” (RANCIÈRE, 1995, p. 242). Na busca de uma narrativa mais próxima ao real, a história acabou recorrendo ao “realismo” que submete o real apenas àquilo que é possível a partir das estruturas que o precedem. Desta forma, o jogo da realidade, enquanto relação de dependência ou de independência, entre o já existente e a surpresa do acontecimento é suprimido pela assertiva do realismo que diz que somente o possível é contável na história. Com isso, a racionalidade historiadora, “chega a identificar o tempo como o sistema das condições dessa possibilidade” (Idem). Para Lucien Febvre, por exemplo, Rabelais não poderia ser ateu no século 17 porque seu tempo não lhe dava tal possibilidade. Neste caso, o termo “tempo” adquire o significado do conjunto das condições linguísticas e culturais que encarnava as estruturas de crença em sua época. Seria, portanto, um anacronismo, uma “insubmissão ao tempo”, pensar desta maneira (cf. RANCIÈRE, 2011).

No entanto, Rancière adverte sobre alguns riscos de uma adoção irrestrita deste modelo de pesquisa histórica. A ineficácia de uma réplica aos negacionistas do Holocausto é um deles. Um dos argumentos destes é o seguinte: apesar da existência de indícios não há um encadeamento de causa e efeito entre seus materiais a ponto de ser completado através de um processo objetivo, e para que possa servir como prova de que aquilo aconteceu. Realmente, se formos pensar o conceito de acontecimento (definido no início deste escrito), percebe-se que o raciocínio é coerente, já que o acontecimento não é simplesmente uma reunião de fatos, mas também uma interpretação por quem e para quem este designa um sentido. Logo, depende não só de uma objetividade, mas de uma subjetividade.

Mas o argumento mais problemático sobre a inexistência do acontecimento do Holocausto é o que diz que não era possível ele acontecer, pois era impensável a partir das mentalidades, num período de pós-guerra, que almejavam paz e sentimento de união à humanidade. Vidal-Naquet respondeu aos negacionistas dizendo que não se devia perguntar como tecnicamente aquilo foi possível, pois foi possível porque aconteceu. Logo, ele inverteu o raciocínio do saber histórico que submete o acontecimento à possibilidade, agora priorizando o acontecimento (RANCIÈRE, 1995, p. 245). E talvez esta seja a saída para que captemos a mudança e o movimento na história. É preciso, neste caso, mais do que nunca, acreditarmos no acontecimento ainda que ele não tenha uma relação de submissão com as estruturas (mentais, políticas, econômicas, etc.).

Em última instância, pode ser que o maior risco da supressão do acontecimento seja o de cairmos num imobilismo da história ou, como apontou Rancière, chegarmos num “fim da história”, no qual só conseguimos declarar a inexistência dos acontecimentos, e num “fim da política”, no qual só conseguimos lamentar a inexistência de valores, de mudanças, de sentimentos, de sonhos e de futuro.

Referências:

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. História: a arte de inventar o passado. Bauru, SP: Edusc, 2007.
FOUCAULT, Michel. Os assassinatos que se conta. In: ______ (coord.). Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão... um caso de parricídio no século XIX. 8ª edição. Tradução de Denize Lezan de Almeida. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2007, p. 211-221.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Tradução de Maria Betânia Amoroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
GINZBURG, Carlo. O nome e o como: troca desigual e mercado historiográfico. In:______. A micro-história e outros ensaios. Lisboa: Difel, 1991, p. 169-178.
RANCIÈRE, Jacques. O conceito de anacronismo e a verdade do historiador. In: SALOMON, Marlon (org.). História, verdade e tempo. Chapecó-SC: Argos, 2011, p. 21-49.
RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

Artigo publicado originalmente em:

[1] Albuquerque Júnior assevera que tal raciocínio se dá porque Ginzburg não considera o que foi dito como acontecimento autônomo e o reduz às condições de sua produção enquanto exigência de uma metodologia totalizante (2007, p. 109).
[2] Em uma comunicação proferida, de 1979, Ginzburg diz o seguinte sobre seu método: “A análise micro-histórica é, portanto, bifronte. Por um lado, movendo-se numa escala reduzida, permite em muitos casos uma reconstituição do vivido impensável noutros tipos de historiografia. Por outro lado, propõe-se indagar as estruturas invisíveis dentro das quais aquele vivido se articula. O modelo implícito é o da relação entre langue e parole formulado por Saussure. As estruturas que regulam as relações sociais são, como as da langue, inconscientes. Entre a forma e a substância há um hiato, que compete à ciência preencher” (GINZBURG, 1991, p. 177-178, grifos meus). Creio que o problema seja o de tentar entender a articulação entre a estrutura e o vivido, porém acreditar que o vivido está submisso, irrestritamente, à estrutura; por isso destaquei a palavra “dentro” para compreendermos a relação de dependência do primeiro ao segundo, segundo este método de pesquisa.  
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