sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A tragédia em “Um Filme Sérvio”

O amigo e mestrando em História, Rodrigo Dias me recomendou meses atrás um filme mais polêmico do que qualquer mamilo por aí. Trata-se de Um Filme Sérvio (Srpski Film) do diretor Srđan Spasojević (não faço ideia de como se pronuncia). O filme foi proibido em vários países por causa das cenas fortes que envolvem violência visceral, necrofilia e pedofilia. No Brasil aconteceu a mesma coisa. Somente após uma briga jurídica que durou mais ou menos um ano o filme finalmente foi liberado, mas, é claro, com classificação etária para 18 anos e com recomendações do juiz que expediu a liberação. De fato, Um Filme Sérvio é para estômagos fortes. Confesso que após assisti-lo tive pesadelos à noite. Descrevo-o, portanto, como o filme mais pesado que já vi. Depois fiquei pensando se escreveria algo sobre o assunto ou se o bania completamente da minha memória. Mas a segunda opção não foi possível. Fiquei regurgitando mentalmente as cenas e tentando captar quais reflexões poderíamos “safar” delas.

Na época em que assisti ao filme, chequei críticas e comentários em alguns sites e blogs. A maioria deles compreendia Um Filme Sérvio como “terror barato” ou “terror pelo terror” do tipo Faces da Morte - um documentário que expõe cenas reais brutais sem uma história que enreda (conectando) as partes. Posso dizer que não concordo com essa avaliação. Creio que apesar das cenas fortes, com boas doses de radicalização da violência e da crueldade, o filme conseguiu usar as imagens para produzir verossimilhança e relação com o que se propunha enquanto roteiro. Farei a seguir um breve resumo e depois alguns comentários sobre quais questões o filme me permitiu pensar.

Milos, o protagonista, é um ex-ator pornô que vive com sua esposa e seu filho de uns oito anos em uma casa humilde da Sérvia. A família passa por condições financeiras precárias até que a salvação parece chegar. Embora Milos pareça não estar mais interessado em atuar como estrela pornô, um diretor exótico lhe faz uma proposta para gravar um filme em troca de uma grana altíssima que deixaria a família muito bem de situação. Só que a condição do contrato é que ele não saiba o que se passará no filme, pois se trata de um roteiro que mistura realidade com ficção. Então o filme começa a ser gravado e logo a primeira cena é dentro de um orfanato. Enquanto Milos transa e bate numa atriz pornô com quem contracena, a filmagem é assistida por uma criança (uma menina). Logo após a tomada, ele começa a mudar de ideia sobre sua participação no filme, fica pensando em seu filho e diz que não aceita gravar com crianças. É aí que principia uma das cenas mais chocantes do filme. O diretor tenta lhe convencer de que atualmente o que público do mundo pornô espera é assistir a vítima real. É isso que dá audiência, que chama atenção. Essa é a arte, porque se mistura com a vida. Então o diretor aperta “play” em um filme pornô no qual um ator vestido de médico faz um parto. Em meio àquele sangue, aos gritos da mãe e ao choro do bebê, o ator estupra o recém-nascido. Assim, o diretor aponta para a tela dizendo: “Veja, Milos, essa é a vítima! Você não é a vítima neste filme, você é a estrela!”.

Milos (Srđan Todorović)
Depois de algumas cenas novamente envolvendo violência e crianças, Milos desiste de vez de gravar o filme. Porém é reconduzido às filmagens através do uso de drogas (colocadas em sua bebida sem que ele perceba). As drogas lhe deixam extremamente excitado e, agora, "semi-controlado" por um ponto eletrônico no ouvido, que vai ditando os passos que ele deve seguir no filme. Depois de estuprar e esquartejar uma mulher com um facão, o protagonista é conduzido a um galpão onde se encontram uma mulher e uma criança amarradas uma em cada cama, deitadas de costas, nuas, somente acima da cintura é coberta por um tecido. Seu irmão que, além de cobiçar sua esposa, invejava a carreira de Milos, está transando com a mulher e ele é motivado a estuprar a criança ao lado. Depois que esta começa a sangrar, os assistentes de filmagem retiram os tecidos que cobriam as pessoas. E ali se revelam sua esposa e seu filho. Apesar do entorpecimento, Milos recobre parte da consciência ao ver o rosto de seu filho e ataca e mata com as próprias mãos toda a equipe ali reunida. Sendo que um dos operadores de câmeras ele mata usando o próprio pênis. Sim, ele enfia o pênis no olho do cidadão até matar! Arrebenta a cabeça do diretor chocando-a no chão que, num misto de desespero e alegria doentia, morre às gargalhadas como se aquilo tudo fosse parte da cena, embaraçando arte e vida. Nas últimas cenas, a família está de volta em casa. Um silêncio sepulcral toma conta do ambiente. Eles agem agora como se fossem zumbis. É como se a tragédia que aconteceu os deixassem aquém da humanidade. A cena final mostra os três se abraçando contorcidos numa cama. Milos tem um revólver a mão e dá um tiro que atravessa todos. Então a fotografia da cena se amplia e mostra que ao lado da cama dois homens assistiam, um estava filmando, o outro dizia: “Pode cortar. Está pronto!”.

Primeiro, antes de qualquer questão mais implícita, creio que o filme faça uma denúncia sobre produção e comercialização de filmes pornôs que envolvem violência, crianças e mortes. Existe um público “seleto” que financia esse tipo de “arte” no mundo todo. É gente que tem dinheiro e não vê limites morais que os impeçam de satisfazer seus prazeres sexuais. Não é novidade alguma que pessoas sejam sequestradas e drogadas para fazer este tipo de serviço - como agora as novelas da Rede Globo resolveram mostrar [Salve Jorge]. Entretanto, o filme pode ser interpretado não como uma denúncia, mas como uma apologia a este tipo de produção. Talvez porque não há nenhum diálogo explícito ou personagem que lute contra o mercado na obra. Nesse caso fica a critério do espectador decidir. Eu diria que se trata mais de uma descrição (que serve como denúncia). Por outro lado, há um diálogo no filme em que o diretor diz que a produção deste tipo de filme é o que mantém a Sérvia como nação, um país político e economicamente complicado. Chega a dizer que os filmes pornôs são a marca registrada da Sérvia para o resto da Europa. Portanto denuncia através da ironia e da tragédia o subdesenvolvimento do país no qual Um Filme Sérvio foi produzido. Neste sentido, podemos pensar o seguinte: uma nação unida graças ao sexo! Claro, assim toda nação é construída. Pela união de casais, pelo nascimento e criação de filhos naquela terra. Mas no caso da representação feita da Sérvia, esta seria um país unido pelo sexo de outra maneira. É o sexo enquanto mercadoria, artificializado a partir do ponto em que o capitalismo não possui mais barreiras em relação a moral da comunidade. Pelo contrário, é a ausência da moral e a substituição pelos valores de compra e de venda que garantem a manutenção "comunidade", no sentido do que é “comum” àquele grupo de pessoas.

Cena do filme
O filme levanta outras questões interessantes para refletirmos. Como Rodrigo já havia comentado anteriormente comigo, onde é o limite da arte? Quer dizer, existe algo que fere tanto o princípio de humanidade que não pode ser representado? Isso é complicado, pois viemos de uma tradição (aristotélica) que considera a transmissão dos aspectos morais pela mensagem que a obra de arte veicula. E sempre esperamos que, por mais trágico que seja a representação da vida, o final tenha uma “moral” da história. Pelo menos um eixo a partir do qual possamos orientar nossas condutas. Neste sentido, Um Filme Sérvio me remeteu quase de imediato a uma das maiores obras da tragédia grega: O Édipo-Rei de Sófocles. Por isso hoje reli esse clássico para escrever este texto e pensar algumas aproximações e distanciamentos no quesito enredo ou narrativa. A história de Édipo é mais do que conhecida, mas vale retomá-la. A cidade de Tebas sofre com pestes e mortes, frutos de uma maldição causada porque o rei atual matou seu próprio pai (o antigo rei) e teve filhos com sua mãe (rainha Jocasta), sem saber nada do que estava fazendo. Esta tragédia mostra que a força dos deuses, da lei ou do destino é incontornável e superior a um dado personagem. É o caso de rei Édipo, que mesmo tentando escapar por duas vezes da premonição feita pelo oráculo de Apolo, a fatalidade lhe perseguiu até ser cumprida. Porém, apesar de ser uma história triste e um drama vivido por um personagem, ao contrário de Um Filme Sérvio, ela possui uma organização artística nobre (pois conta a saga de um rei). E também atenta às regras morais de uma comunidade, exprimindo o que será punido (ou louvado). No caso, um parricídio e um incesto, que é o que leva Édipo a cegar-se e ser condenado à morte pelo oráculo a fim de que a cidade volte a prosperar.

Um Filme Sérvio não deixa uma mensagem clara que sirva de orientação ética. Como disse, o filme pode ser interpretado de várias maneiras. Como denúncia, como apologia, como os dois juntos ou como nenhum dos dois. Há um vazio. E esse vazio deve ser preenchido pelo espectador (ou não). Parece-me mais que é para mostrar o vazio que há: a ausência de moralidade, de uma conduta que leve a uma ética universal. Porque se por um lado mostra que Milos estava fazendo isso por dinheiro, ele o fazia pela sua família e não para realizar desejos egocêntricos e ambiciosos. Ele desistiu de atuar durante processo de filmagem, mas existia algo mais forte que o levava a seu destino. Acontece que entre Édipo e Milos há épocas distantes e espaços distintos. E deuses diferentes às duas obras. Na antiguidade da Grécia: deuses pagãos que apenas anunciavam o destino já traçado de um homem. Na contemporaneidade da Sérvia: um Deus uno cristão redentor que tem piedade do destino dos homens. Será mesmo isso? Ou será esse filme a celebração da morte do Deus-todo-misericordioso? Se Édipo não pode fugir a uma força maior, como é comum às tragédias, Milos também não pode. Mas a qual deus Milos não pode fugir? Bom, me parece que é a televisão, sem dúvidas. Esse nosso deus pós-moderno.

E como as coisas mudaram... Se na tragédia grega o mal era reparado, na nossa tragédia pós-moderna o “mal” prospera. Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche diz que o homem inventou a arte para não morrer de verdades. Enfim, para suportar o peso da vida, para cobrir com um véu de embriaguez dionisíaca a tragicidade densa que é o existir. Em Um Filme Sérvio isso simplesmente não acontece. Pelo contrário. Como diz o diretor, é a vida ali. É o acontecimento. É a crueza da vida sem floreios que a tornem mais bela. É outro tipo de véu. É um véu que torna o existir mais pesado e o viver mais horrível! Em A Poética, Aristóteles escreve que a tragédia grega consegue cumprir a "catarse", que é o momento em que ocupamos o lugar do outro na cena. Vemos que aqueles fatos podem se encaixar em nós, como personagens de uma história já construída. Enquanto isso, na tragédia pós-moderna de Um Filme Sérvio, nem sei se podemos (ou queremos por purificação ou compaixão) ocupar o lugar de Milos. Queremos é assistir sua tragédia. Pois não há uma "comunidade". Isto é, não há algo em comum em torno dele (o ator que sofre de verdade) e nós (os telespectadores) como regras morais, religiosas ou códigos de comportamento. Há algo em comum, sim, mas não é nada disso, esse algo em torno das pessoas é só uma televisão ligada. E nela, a tragédia alheia.

Referências:
ARISTÓTELES. Poética - coleção “Os pensadores”. São Paulo: Abril Cultural, 1984.
NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia: ou helenismo e pessimismo. São Paulo: Cia das Letras, 2007.
SÓFOCLES. Rei Édipo. Tradução J. B. de Mello e Souza. eBooksBrasil, 2005. Disponível em PDF: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/edipo.pdf
UM FILME Sérvio. Direção Srđan Spasojević. Produção Dragoljub Vojnov e Srđan Spasojević. Sérvia, Invincible Pictures, 104min, cor, 2010. 
Filme para download via Torrent (copie no seu navegador o link a seguir): http://filmescomlegenda.tv/fcl/srpski-film-srpski-film-a-serbian-film-2010
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12 comentários:

  1. Gostei muito desse seu blog, vou tentar assistir esse filme !

    Parabens foi muito bem elaborado o seu blog !
    :)

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    1. Obrigado, colega!

      Os incentivos ajudam a manter o blog no ar.

      Abraços!

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    2. O autor do texto está de parabéns. Fez uma analogia muito especial, com referências e ponderações importantes que ensejam toda a obra. Esse filme não é para pessoas que não sabem apreciar uma obra de arte. Trata-se de uma obra de ficção em que são apresentadas situações verídica, que estão explicitadas nas diversas patologias apresentadas no decorrer da trama: pedofilia, necrofilia, incesto, estupro, etc. É um filme violento e impactante sim pela sua crueza, que, de uma certa forma, denuncia os mais recônditos anseios escondidos nas personalidades da sociedade. É um trabalho primoroso. Um roteiro muito bem elaborado, um filme de arte para adultos e com um trabalho de direção espetacular. Todos os atores são excepcionais. Posso dizer que, de longe, foi um dos melhores filmes que já assisti, e, para finalizar, parabenizo novamente o texto que acabo de ler. Ressalto que, aquelas pessoas intelectuais, que escrevem e trabalham com teatro, esse filme é obrigatório. Excelente.

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    3. "Um Filme Sérvio" tem lá suas qualidades mesmo, Domingos. Queira ou não, é um filme corajoso. Agradeço muitíssimo pelo comentário aqui. Abraços!

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  2. Sem chances de eu assistir a esse filme... Se eu fosse dono de uma rede de cinemas, também não o exibiria. (Uma curiosidade: qual é a trajetória profissional do diretor do filme? O que fez antes, e o que está fazendo agora?)

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    1. Olá, Oswaldo. Desculpe-me pela demora em lhe responder. Procurei informações sobre o diretor mas não encontrei nada além de outro filme dele em um viés, ao que tudo indica, bem parecido ao "A Serbian Film".
      Realmente, é um tipo de filme complicado de assistir. Não faz meu gênero.

      Abraços

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  3. Parabéns pela bela crítica ao filme.
    Mas deixo aqui um comentário de certa forma interessante.
    A frase do final do filme que vi não foi traduzida da maneira que você citou no texto: "Pode cortar. Está pronto".

    Se você observar, um dos câmeras na cena final está abrindo o ziper enquanto o "lider" fala. A tradução ficou como "Vamos lá. Pode começar com o pequeno". A sugestão desta frase sugere um final ainda mais agressivo.. Mas precisaríamos de um tradutor pra ajudar a definir a real frase final do filme.
    Abraços,
    Rodrigo Moreira

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    1. Interessante mesmo, Rodrigo!. Baixei o filme pela Internet, bem como a legenda (que deve ter sido feita de maneira autônoma pelos colaboradores da rede, sem vínculo com empresas de dublagem). Da maneira que eu vi, deu ideia de algo próximo ao Show de Truman. Mas como não entendo nada de sérvio, pode ser que o final sugira uma continuidade ainda mais abissal. Obrigado pelo comentário. Abraços!

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  4. Gostei muito da crítica,
    o meio carece de leituras inteligentes como esta a cerca de obras complexas, que chamam de perturbadoras.

    Gostaria apenas de fazer uma observação quanto a considerar que se faz necessário vincular a estória com uma moral da estória, através de um eixo que seria a própria interpretação do diretor do filme.

    Acredito que esse tipo de obra é provocante no sentido que não externaliza opiniões, apenas age como uma crônica, o discernimento cabe ao espectador, visto que tudo que o Humano faz tem raiz em si mesmo.

    Diante disto, cada espectador terá diferentes sentimentos em relação à película que externam exatamente sua própria natureza.

    O fascinante deste tipo de obra é que você pode descobrir sentimentos que nem era capaz de imaginar ter.

    Tudo isso feito com um estimulador que o diretor utiliza no filme, que é o sexo.

    Havendo um estímulo, combina-se com deturpações do comum, gerando esse caos agradável que é provocar as próprias sensações.

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    1. Valeu pelo comentário, Paulo. Não tenho nada a acrescentar e tendo a concordar contigo. Abraços!

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  5. Filme bizarro e chocante, Na minha opinião acho que o filme faz referências a Deep Web pois la circulam muitos filmes reais dos assuntos abordados no, Um Filme Sérvio. Sem relatar que no leste europeu existe muita coisa bizarra. Mais na frase final posso dizer tenho quase certeza que e "Vamos, Pode começar com a criança/pequeno"
    Sou fascinado por línguas eslavas e já estudei um pouco de Sérvio.

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    1. Obrigado pelo comentário e informação, Matheus. Acho que daria para fazer um paralelo entre nossa censura (a que proibiu o filme em vários lugares) e a Deep Web. Mas também não sei em que medida seria interessante que o material veiculado pela Deep Web estivesse disponível na Surface. Já tem muito insano no mundo, vai saber em que medida isso não estimularia a imaginação ou incentivasse a tornar realidade quem já tem uma imaginação capaz de conceber tais coisas. É um assunto bem delicado. E acho que tais práticas não se restringem ao leste europeu, talvez, sim, a maneira de lidar com elas. Abraço!

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