terça-feira, 29 de outubro de 2013

Hermenêutica na historiografia: história dos conceitos de Koselleck

O texto que se segue é um comentário complementar do anterior, intitulado “Elos entre história dos conceitos e história social em Koselleck". Escrito por volta do final dos anos 70, o ensaio “História dos conceitos e história social” de Koselleck objetiva principalmente reivindicar um lugar de importância à história dos conceitos dentro da historiografia, seja no uso de seus métodos de investigação ou enquanto área de pesquisa histórica autônoma. A qualidade de seu trabalho não é a inovação, mas o rigor metodológico, o autor é herdeiro ao mesmo tempo da tradição alemã da hermenêutica e do historicismo.

Hermes: segundo a mitologia grega, deus da comunicação, do comércio e dos ladrões (que coincidência! “Patrono” dos jornalistas, empresários e assaltantes), é também o radical de onde a palavra “hermenêutica” deriva. Praticada na exegese bíblica, a hermenêutica designa a arte (técnica) de compreender e interpretar textos. Pode-se dizer que o pai da hermenêutica moderna é o filósofo e teólogo alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834). Mais conhecido pela recuperação e interpretação da obra de Platão, Schleiermacher foi o primeiro a tentar construir uma “hermenêutica universal”, isto é, a criação de um método único que se dispusesse à interpretação de quaisquer textos nos quais a compreensão imediata fosse impedida pela possibilidade de um mal-entendido. Intento, de certa maneira, conectado à tradição da retórica aristotélica. Schleiermacher escreve o seguinte: “O vínculo entre a hermenêutica e a retórica consiste no fato de que todo ato de compreender é a inversão do ato de falar, pelo que deve chegar à consciência qual o pensamento que está na base do discurso” (2005, p. 94). Sendo assim, a hermenêutica universal deve estar relacionada também com a crítica e com a gramática, pressupondo a união entre o pensamento e a linguagem (escrita ou falada). Daí se infere que para compreender o sentido original de um texto faz-se necessário conhecer a totalidade da linguagem e o pensamento geral de seu autor.

Segundo o filósofo e historiador da hermenêutica, Hans-Georg Gadamer (1900-2002), a principal característica da hermenêutica universal de Scheleiermacher é a pretensão de “transferir-se para dentro da constituição completa do escritor, um conceber o ‘decurso interno’ da feitura da obra, uma reformulação do ato criador” (1997, p. 292). Para realizar esta tarefa e encontrar a verdade, a operação hermeneuta descrita por Schleiermacher se articula em dois eixos: interpretação gramatical e interpretação psicológica. No entanto, Gadamer faz uma crítica ao último eixo da operação de Schleiermacher, isto é, à interpretação psicológica. Isso porque, segundo Gadamer, é preciso compreender o sentido de um texto nele mesmo, sem se recorrer à subjetividade do outro, pois a missão da hermenêutica não é promover uma comunicação entre as almas, mas participar de uma perspectiva comum (2003, p. 59). Além disso, Gadamer critica também o caráter formalista da hermenêutica de Schleiermacher, dizendo que, em vez de conceber um método válido para qualquer objeto de pesquisa, é o objeto de pesquisa que deve determinar a formação de “um projeto de compreensão que vai se corrigindo, progressivamente, à medida que progride a decifração” (2003, p. 61).

Apesar das críticas de Gadamer, a regra geral da hermenêutica se conserva. “Trata-se da relação circular entre o todo e suas partes: o significado antecipado em um todo se compreende por suas partes, mas é à luz do todo que as partes adquirem a sua função esclarecedora”, assinala o autor (2003, p. 58). Ou seja, a hermenêutica é uma operação do conhecimento que procura encontrar o sentido do texto através de uma articulação entre o particular e o geral. Esta concepção embebedou a historiografia mais do que qualquer estudante de história possa imaginar. Inclusive, um dos pontos do livro Verdade e método, escrito por Gadamer, é a demonstração de como a historiografia do século 19 e 20 foi uma evolução da hermenêutica. A busca da verdade, através do método histórico, nada mais faz do que inserir/situar o objeto de pesquisa particular (um acontecimento, um texto, um indivíduo, uma classe, um processo, etc.) dentro de um dado contexto (tempo, espaço e sociedade). Operação que pode ser conhecida também com o substantivo de “crítica externa da fonte”. Por outro lado, a “crítica interna da fonte”, também usada pela historiografia, pode ser comparada com o procedimento hermeneuta de pesquisa do conjunto de obras do autor, entretanto, neste caso, leva-se em consideração não apenas o que ele escreveu, mas também o que pensou, falou e agiu a partir da totalidade de documentos que ficou registrada pelas gerações passadas.

É possível ver o exemplo desta tradição de pesquisa em dois trabalhos historiográficos que sequer foram produzidos por autores alemães. Refiro-me a O problema da incredulidade no século 16, do francês Lucien Febvre (1878-1956) e a O queijo e os vermes, do italiano Carlo Ginzburg (1939-). No primeiro trabalho, um precursor da história das mentalidades e conhecido pela história-problema, Febvre parte de uma indagação: “é possível que Rabelais fosse um ateu no século 16?” A tentativa era contrapor a tese do historiador da literatura, Abel Lefranc, contemporâneo de Febvre, segundo a qual afirmava, baseando-se nos escritos críticos a doutrina cristã produzidos por Rabelais, que seu autor era um descrente. Para provar o contrário, Febvre se detém inicialmente numa série de documentos da época: relatos de (eventuais) testemunhas, pessoas que conviveram com Rabelais e que trocavam cartas com ele; obras de literatura, de teatro e de filosofia do período; trabalhos de teólogos e de controversistas; enfim, todo o material produzido pelo círculo intelectual que o sujeito pesquisado possa ter tido contato. Depois o historiador se debruça sobre os escritos de Rabelais (Gargantua e Pantagruel), realizando assim a crítica interna das fontes. Por fim, uma descrição do contexto da época, para assegurar que a religião cristã estava em todos os lugares e não dava nenhuma possibilidade de qualquer sujeito ser descrente, a menos que fosse louco. A verdade histórica do problema levantado por Febvre é a de que era impossível que Rabelais fosse ateu na Europa do século 16. Para que o sujeito pudesse ser ateu era necessário que ele se apoiasse em um quadro social inscrito na atmosfera da época, coisa que não existia, já que até mesmo a ciência e a filosofia do período eram impregnadas de religião cristã. Na introdução de seu livro, Febvre diz que seu trabalho não “se trata de uma monografia sobre Rabelais, mas de um ensaio sobre o sentido e o espírito de nosso século 16” (2009, p. 29). Ao relacionar o particular (Rabelais) ao geral (contexto), o historiador compreende que seria um anacronismo dizer que o sujeito era ateu, isto porque não fazia sentido. Desta forma, Febvre promove uma co-incidência entre autor, obra e época.

Em O queijo e os vermes, a preocupação metodológica de Ginzburg é bastante semelhante ao relacionar o particular ao geral. O objeto de pesquisa é a trajetória do moleiro italiano Menocchio, perseguido pela Inquisição católica por ser acusado de bruxaria, no final do século 16. Embora o foco seja sobre o microcosmo, já que se trata de um trabalho da micro-história, o historiador italiano diz desde o início que sua empreita lhe permitiu construir uma hipótese geral sobre a cultura da Europa pré-industrial (1987, p. 12). Ao se perguntar como foi possível um sujeito das classes populares fazer uma crítica peculiar a Igreja, Ginzburg encontra o sentido no contexto da época. Isto é, nos dois grandes acontecimentos do período (a reforma protestante e a invenção da imprensa), no substrato de crenças pagãs da cultura popular, na rede de relações entre as classes subalterna e dominante a qual o ofício de moleiro tinha contato, e nos livros que Menocchio teve acesso devido a essa mesma rede de relações. Esta operação de pesquisa histórica, compartilhada tanto por Ginzburg como por Febvre, apresenta um problema grave na medida em que, ao articular o particular ao geral, acaba submetendo o primeiro ao último. Em Febvre isso fica bastante nítido quando ele declara a tese de Lefranc como “absurda” (sem sentido, anacrônica) simplesmente por ela não se submeter ao geral.

Na passagem em que Koselleck interpreta o texto de Hardenberg fica claro o uso do método particular-geral (objeto-contexto), indispensável à história dos conceitos. Assim o historiador escreve: “[...] o sentido exato pode ser depreendido só a partir do contexto do diário [Memorandum] de Hardenberg, mas deve ser igualmente deduzido da situação do autor e dos destinatários. Além disso, é preciso que se considere a situação política e social da Prússia naquela época, como também se deve entender o uso da língua pelo autor, por seus contemporâneos e pela geração que o precede, com os quais ele viveu em comunidade linguística”. Eventuais questões que não possam ser respondidas com essa metodologia dizem “respeito principalmente à estrutura social da Prússia de então, que não pode ser compreendida de maneira satisfatória sem que se proceda a um questionamento de caráter econômico, político ou sociológico” (KOSELLECK, 2006, p. 99-100). A particularidade (o conceito, a oração, o texto) só é compreendida, de maneira eficaz, quando relacionada à totalidade, isto é, ao sistema de linguagem (história da língua) e dentro dos conflitos sociais e políticos nos quais o conceito foi usado (história factual).

Importa aqui dizer que, ainda que tenha sido contraposta por Gadamer, a interpretação psicológica (ou da subjetividade) se enraizou na historiografia – algumas vezes de maneira até grosseira. Podemos vê-la em Koselleck? Embora não idêntica a Schleiermacher e outros, creio que sim! Por exemplo, tratando-se de conceitos como “socialismo”, “comunismo” e “liberalismo”, uma das ferramentas teóricas de Koselleck, quer seja, “horizonte de expectativa”, nos permite refletir sobre a batalha discursiva que extrapola a própria língua. Ainda hoje estes são conceitos em disputa. O termo “socialismo real” (referente à União Soviética, pós-revolução) é usado por algumas pessoas para descrever a realização da expectativa que se tinha sobre o conceito “socialismo”, ou seja, designa o futuro, tornado presente, de uma sociedade do passado. Outros não aceitam a designação, dizendo que o que houve na União Soviética foi um “capitalismo de Estado”, a partir do pressuposto de que o significado de “socialismo” não se ajusta ao significante da experiência política da URSS. Então, infere-se que o “horizonte de expectativa” é algo ainda a ser realizado (ou jamais). Por isso, na modalidade de pesquisa koselleckiana, é necessário atentar-se para em que lugar, quando e qual é o seu sentido no espaço de experiência, mas também para quem escreve, logo, necessita de uma interpretação da subjetividade do autor. Isso se não estivermos desejosos de uma verdade “neutra” ou de um sentido único.

Na tensão entre conceito e realidade empírica, a preciosidade do trabalho de Koselleck é a possibilidade de usar a interpretação psicológica sem submetê-la ao geral. Sobretudo porque uma das ferramentas teóricas de Koselleck, por exemplo, o conceito de “horizonte de expectativa” proporciona uma margem de movimentação particular ao tempo histórico, diferentemente do tempo coagulado de Febvre (época). Daí pode-se enxergar o futuro do passado, embora ele, obviamente, não exista empiricamente. Do contrário teríamos um futuro do qual ninguém espera e que nunca chega, pois o presente seria uma eternidade. Um único tempo possível, como a Europa do século 16, onde o Rabelais de Febvre vivia.

É exatamente por isso que o diacronismo (dois tempos: passado-presente e passado-futuro) da história dos conceitos se atenta como poucas modalidades de pesquisa histórica sobre o perecimento do conhecimento e, concomitantemente, sobre o caráter provisório da verdade; especialmente, por levar em consideração a transitoriedade do tempo (presente). Como o próprio Lucien Febvre já expôs, a história precisa ser constantemente reescrita, uma vez que ela se trata de um conhecimento diacrônico, não um conhecimento do passado, mas da relação passado-presente. Visto que o presente interfere nesse processo de cognição. O que parece não ter sido levado em consideração por Febvre é que, num só tempo, tantos sentidos são possíveis à medida que podemos relacioná-los a algo e tantas verdades existem conforme a quantidade de caminhos (aceitos) são traçados para construí-las.

Referências:

FEBVRE, Lucien. O problema da incredulidade no século XVI: a religião de Rabelais. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
GADAMER, Hans-Georg. O problema da consciência histórica. Rio de Janeiro: FGV, 2003.
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis-SP: Editora Vozes, 1997.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2006.
SCHLEIERMACHER, Friedrich D. E. Hermenêutica e crítica, vol. I. Ijuí: Ed. Unijuí, 2005.

Um comentário:

  1. Amigxs do Sobre História. Ajudem a divulgar: http://www.sobrehistoria.org/barba-cabelo-bigode-completo/

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