terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A função social do Funk carioca

É difícil argumentarmos a favor daquilo que não gostamos. Mas, acredito que o sabor das coisas depende muito mais daquele que saboreia do que das particularidades do saboreável. Seguindo nesta "pista", vou tentar fazer um exercício intelectual dispendioso, como condição necessária para sairmos de "nós mesmos" e para nos des-individualizar, pelo menos por instantes. Procuraremos neste post falar sobre um estilo musical que usualmente reprovaríamos o gosto tal qual jiló: o funk carioca.

Baseados numa cultura bacharelesca e erudita, fundada sob a crença firme no mito social difundido pelo europeu, de que o indivíduo educado nas instituições formais do Estado será um vencedor, um homem importante, um cidadão de “bem” e um exemplo de ser humano, fica difícil não se contaminar por esses pressupostos naturalizados e excluir tudo o que não está nesse quadro geral. Tanto ateus, quanto cristãos estão imbuídos deste mesmo espírito que parece algo particularmente relacionado ao romantismo. Não ao romantismo no sentido de senso comum, sinônimo de flores para a namorada, suspiros e cavalheirismos, mas em sua acepção filosófica vinculada à noção esperançosa de otimismo, atravessada pela ideia de progresso. Por isso, as dispersões e as descontinuidades nos pressionam a declará-las como coisas atrasadas culturalmente. Não seria o funk carioca um desses objetos deslocados de nossa “era de ouro”?

Os intelectuais menos reacionários dizem que o funk é a expressão da "cultura popular" de determinados lugares. Essa colocação ao mesmo tempo em que acalenta também alija. Por que se você diz “cultura popular” (do povo), logo contrapõe uma “cultura erudita” (da elite) e, assim, opera a separação de dois mundos que só existem em nossas frágeis cabeças. Os mais conservadores, sejam intelectuais profissionais ou homens do povo, asseveram que o funk é o produto da pura degradação humana, uma apologia vil à prostituição e à criminalidade, um atentado direto contra à moral e aos bons costumes. Para os religiosos ortodoxos, é a música inventada na parceria de satanás com belzebu. Ora senão são os mesmos argumentos já usados no passado para atacar diversos tipos de comportamentos considerados inapropriados para a época. Lembremos que na Idade Média a Igreja proibia as pessoas até de rirem. Proibiam-nas de estudar e apresentar resoluções diferentes daquelas consolidadas pela instituição. A Ópera foi considerada, em seu surgimento, a mais baixa cultura. Outros estilos musicais como o Rock e o Jazz também sofreram fortes preconceitos, mas atualmente eles estão culturalmente "naturalizados" e socialmente aceitos. Não são mais barulhos, são músicas.

Assim é a arte. Cientificamente inexplicável! Aliás, a arte, já estava entre os quatro pilares do conhecimento (gnose) da civilização antiga grega: religião, filosofia, ciência e arte. Mas alguém pode dizer: “funk carioca é arte?” Quem somos nós para julgar se é ou não? O Estado, através de suas instituições burocratizadas do saber, não nos concedeu tal autorização de julgamento. Porém, temos certeza que se o funk não é arte, quer ser. E às vezes uma coisa só é um "vir a ser".

Contudo, toda essa digressão feita até aqui, como um esforço de Hércules, é apenas para chegar a um ponto que nos tem chamado atenção ultimamente. Enfim, como fãs do rock, não somente enquanto estilo musical, mas também por todo um linguajar próprio, de expressão cultural ligado ao que atenta(ria) contra o status quo e contra o que é óbvio demais para ser verdade – pois devemos desconfiar das verdades mais óbvias –, temos percebido de que o “filho do diabo” tem perdido seu espaço para o funk, dentro dos espaços culturais da juventude. Vejam bem, acho que o funk carioca não tem como destronar o rock, em sua qualidade e estilo musical próprio (e considerado sofisticado por nós). Mas, como expressão cultural de contestação aos valores morais e políticos vigentes, o rock tem ficado para trás. Acreditamos que isso se dá porque o rock está imerso naquele conjunto de sentimentos ligados ao romantismo, esteja ele expressado como revolução ou como possibilidade de um mundo melhor. Já o funk não! O funk só quer gozar o aqui e o agora. Não promete nada para o futuro. O funk se relaciona muito bem com uma particularidade de nossos “tempos safados”, que é o hedonismo. Esse conceito cunhado pela filosofia grega e reutilizado na contemporaneidade para explicar o momento social do fruir, do aproveitar, do ter prazer. Sem dúvida essas questões estão muito mais relacionadas com os desejos sexuais imediatos do que com as preocupações políticas. Aliás, o momento de maior explosão do rock n´roll foi quando apareceu no âmbito comportamental de liberação das energias sexuais.

Atualmente, estaria a música intrinsecamente vinculada ao sexo? Certo dia, nesses programas de cultura “inútil” da TV brasileira, um cantor, não lembro bem quem, disse que a música é feita para arrumar um jeito para as pessoas transarem. Juro que fiquei minutos pensando nisso e nas músicas brasileiras que atualmente fazem sucesso: “fugidinha”, “ai se eu te pego”, “vai rolar tchê tchê rê rê”, “amar não é pecado” e etc. Bom, nesse sentido, acho que o funk “proibidão” cumpre bem sua função social.

O rock hoje em dia parece coisa de velho. Os maiores roqueiros da história – exceto os que morreram de overdose ou de Aids - atualmente são senhorzinhos, velhinhos ranzinzas da cabeça branca, que por sinal devem odiar o funk. O Mr. Catra[1], maior expoente do funk carioca, diz que quando jovem tinha uma banda de rock, mas mudou para o funk porque o funk era muito mais “heavy metal”. Será que, de certa maneira, ele não está certo? O funk carioca hoje choca muito mais do que o rock. Dado Vila Lobos, ex-integrante da Legião Urbana – talvez a banda de rock nacional que mais fez sucesso dentro do país – disse que não tolera ouvir as músicas que o filho escuta (funk). Para ele, isso é sinal de que está velho, pois seu pai também detestava as músicas que ele ouvia quando adolescente. Dinho Ouro Preto, disse em entrevista que não gosta do funk, não por causa da baixa qualidade musical, mas por conta da conotação que ele considera machista e desrespeitosa, que chama a mulher de cachorra, de cadela. Bom, aí já é outro problema. Se o cara (funkeiro) chama a mulher disso é porque de certa maneira ela - a mulher em sua representação - aceita a alcunha, ou seja, ela se subjetiviza. Mas daí querer que as pessoas não aceitem o suposto desrespeito por elas sofrido por acreditarmos que elas estão alienadas e, com tal justificativa, inventarmos regras ou leis para assegurar à liberdade da imoralidade social, não seria por excelência um atentado contra a própria liberdade de escolha em se subjetivar? Não seria melhor ensinarmos através da liberdade as possíveis consequências de aceitarem essa condição? Ou seja, em vez de inventar novas grades para assegurar suas liberdades, não seria mais coerente ensiná-las a se libertarem de qualquer grade que lhes impuserem? De qualquer modo, existem pessoas que não veem problema em serem chamadas de cachorras, outras já acham um absurdo. Como dissemos no início, caímos numa questão de gosto.


[1] Esse cidadão se declara judeu, domina os idiomas alemão, francês, inglês e hebraico, possui 20 filhos e diz que a fábrica não está fechada.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Liberdade de que somos escravos

O que é liberdade? Essa resposta parece tão óbvia. Mas é difícil de ser explicada. Liberdade é uma palavra que a gente vive usando, mas dificilmente para para pensar qual realmente é seu sentido. A liberdade pode ser um paradoxo na medida em que, se levada às raias do infinito, ela se aniquila. Vou tentar esboçar uma explicação aqui sobre pelo menos duas acepções do termo liberdade.

A primeira acepção é chamada de liberdade negativa. Acredito que esse entendimento seja o mais comum em nossos usos cotidianos. A liberdade negativa se explica pela ausência de coerção sobre nós. É quando não existe uma pressão externa física ou imaterial nos impedindo de realizar algo. Mas quando usamos a palavra “externa”, para descrever algo que age, obviamente, exterior a nós, começa o primeiro problema sério. O que de fato é "só" nosso? O que torna algo fora de mim ou dentro de mim? Imaginem o quanto "recebemos" de fora desde que nascemos, inclusive, para tornarmos quem nós somos. A própria noção de liberdade é construída como algo que chega de fora. Mas vamos deixar essas impertinências em suspensão para voltarmos a descrever a liberdade negativa.

A liberdade de ir e vir, por exemplo, é um tipo de liberdade negativa. Chamada negativa porque nega a participação-intervenção de outros. Esse tipo de liberdade é conhecido nas ciências humanas como liberdade liberal. Liberal, aqui, se refere a uma cultura política, uma “doutrina” filosófica e, por que não, a uma escolha política que se relaciona ao liberalismo. E não no sentido (senso comum) que pensamos significar, que geralmente designa uma pessoa como liberal se ela é permissiva - embora guarde uma relação intrínseca com essa caracterização sim. A liberdade liberal termina quando a do outro começa (lembram-se das tediosas aulas de história, filosofia e sociologia durante a escola?). 

A liberdade do liberalismo tem uma historicidade particular que aparece, sobretudo, a partir do momento de luta contra um Estado absolutista, centralizador, que censurava as liberdades religiosas. Daí a reforma de Lutero ser chamada de liberalismo religioso, pois representava uma reação contra os sacerdotes – padres, bispos, freis, papas - da Igreja Católica que funcionavam como intermediários entre os fiéis e Deus, submetendo os fiéis as autoridades deles caso quisessem “consultar” a Deus. As liberdades de expressão e imprensa (criticar o rei em público ou as verdades consagradas pela Igreja era assinar o “atestado de óbito”). As liberdades de ir e vir (as pessoas não podiam se mudar das cidades que nasciam. A não ser que fossem ligadas a nobreza e etc. As liberdades políticas (luta contra lideranças como Luís XIV de França, o rei que achava que era o sol). Há, além destes, outros exemplos. Nesse tipo de liberdade é suprimida a existência de intermediários; ela é, portanto, individual. A liberdade negativa se resume a liberdade de... Isto é, em relação a alguma coisa. Deve ser entendido como o seguinte: liberdade de pagar impostos. É a liberdade na qual estou "liberado" de tal tarefa/obrigação.

A segunda acepção é conhecida como liberdade positiva. Aparece conceitualizada pela primeira vez na obra Do Contrato Social do frânces Jean-Jacques Rousseau. Nesse tipo de liberdade, o indivíduo estaria livre para fazer algo. Isso dependeria de que ele já tivesse conquistado, em tese, a liberdade negativa - na qual não existem poderes externos atuando sobre ele. Agora, sem intervenção e dominação, ele estará livre para com outro estabelecer as regras que lhes convirem. Quanto mais houver acordos entre duas ou mais partes, que as satisfaçam igualmente, suas liberdades se tornarão cada vez maiores. Analisemos: a liberdade positiva agora nos possibilita que troquemos saberes, experiências, faculdades humanas, produtos sem que estes agridam a liberdade - negativa - de ninguém, conforme um acordo. A liberdade negativa levada ao extremo pode se tornar uma privação de quase tudo. Isolados, podemos fazer o que bem nos entender... pois não precisamos dos outros e quanto menos precisar deles mais livres seremos. Dominá-los e escravizá-los para que trabalhem para nós só mostraria o quanto somos dependentes deles e, portanto, não seríamos livres - no sentido de liberdade negativa. Neste caso, estaríamos livres de trabalhar, mas não estaríamos livres de precisar que alguém nos alimente. Neste sentido a liberdade positiva pode ser descrita como uma liberdade para... Uma liberdade que me concede uma possibilidade e que me dá alguma coisa. É uma liberdade social, não individual.

A liberdade dos filósofos

Por isso Marx critica Adam Smith em O Capital. Porque, afinal de contas, Smith em A Riqueza das Nações reivindica uma liberdade negativa; uma liberdade dos monopólios, das centralizações, das corporações, da escravidão que restringiam a livre circulação (ir e vir) dos trabalhadores e dos produtos. Ele dizia que agora os trabalhadores eram livres. Mas o sentido é de que são livres de e não livres para. Por isso Marx vai dizer: “sim, são livres como pássaros, e como pássaros não possuem nada, não tem proteção, não tem propriedades, só possuem a prole, por isso são proletários”. Sem dúvida a liberdade negativa é importante, mas só ela, solta e solteira serve apenas para tornarmo-nos escravos de nós mesmos. Pensem bem: a cada dia conhecemos algo que vem do exterior, aprendemos com o que vem de fora. Até na luta por nossa liberdade. Imaginem se não tivéssemos nenhum grau de “ligação social”, nenhum pouquinho de “prendimento”. Creio que, na condição de humanos, não sobreviveríamos. Por isso, a liberdade absoluta é algo impossível. Bakunin, contrariando a máxima liberal de que “a minha liberdade termina quando a do outro começa”, disse certa vez: “a liberdade do outro estende a minha ao infinito”! Claro, aqui ele levava muito a sério a liberdade nas duas acepções, no sentido de não precisar do outro, a não ser que a liberdade desse outro e a minha aumente com nossas necessidades coletivas, o que se tornaria liberdade positiva.

Por sua vez, Maurice Merleau-Ponty disse que “nunca há determinismo e nunca há escolha absoluta, nunca sou coisa e nunca sou consciência nua”. Todas as escolhas da vida têm alguma motivação, algum resquício do que é o social, do que não é liberdade no sentido de estar completamente solto. Mas também suas escolhas não são determinadas totalmente pelo o que ele apreendeu no social. Nesse caso a liberdade é paradoxal. Ela só aparece quando pensamos em seu oposto que é a escravidão e a prisão, mas só através das últimas é possível pensar a liberdade, porque é preciso algum grau de escravidão e de prisão para nos tornarmos livres.

O pessimista Emil Cioran disse que a única explicação para querer continuar vivo é justamente a possibilidade que ele tinha de se matar. Só é vivo pela liberdade que tem de tirar a própria vida, se não a tivesse já teria se matado. Sêneca disse que um homem só é inteiramente livre quando se mata. E Nietzsche reiterou que até para se matar ele é escravo do próprio corpo.

E você, ainda acha que é livre?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Foucault nas grades do saber (sobre uma escola de prisão)

Há tempos que não escrevo aqui, mas é que depois de terminada minha experiência de professor na penitenciária, me cobrava algum post sobre tal. Então lá vai!

Por todo esse tempo que trabalhei lá sempre via as pessoas me indagarem com certa curiosidade escrutinada e às vezes maldosa sobre como era dar aulas dentro de uma cadeia. Muitas professoras que lá trabalham fazem pesquisas acadêmicas na área de pedagogia sobre o assunto. E pelo menos uma ou outra me perguntara se nunca tive vontade de fazer uma “análise histórica” sobre a escola na penitenciária. Quando dizia a alguém que trabalhava na cadeia sempre esperava as reações mais inusitadas. A única pessoa que tratou como algo corriqueiro foi um doutor professor da faculdade de educação da UFU durante a apresentação de um trabalho. Achei interessante, sobretudo a interrupção dele no alvoroço causado pelos demais apresentadores que ali estavam: algumas doutorandas, mestrandos e alunos da graduação. Depois fiquei um pouco neurótico tentando imaginar por que ele foi tão diferente. Talvez porque ele era um único a verdadeiramente achar normal, o que confesso não ser para mim. Mas não no sentido de espanto e até de indignação comum das pessoas: “Como? Lá dentro tem uma escola?” ou: “Por que você dá aulas para esses vagabundos? Eles não merecem!”  Pois é, essa última parece frase de um carcereiro, mas é de alguém da família. Mas no fim das contas a primeira frase se parece muito com a segunda. Todas as duas com seus devidos preconceitos e desconhecimentos. Bem iguais aos meus quando entrei lá.

Essa coisa de ter uma escola dentro da cadeia é ideia política de gênio. Ah! As professoras leitores de Paulo Freire e amantes de Gabriel Chalita dizem: “Que coisa maravilhosa! Agora eles vão ter a importância que nunca tiveram, terão oportunidades de andar no caminho certo e do bem”. Oh céus, dê luz a essas criaturas! Aliás, dê um pouco de trevas para enxergarem a penumbra que lhes embaça as vistas! Não é preciso colocar aqui as pseudo-comprovações estatísticas para mostrar que as escolas têm reduzido drasticamente as rebeliões dentro dos sistemas penitenciários. Por quê? As práticas disciplinares das escolas tornam os alunos (presos) mais dóceis. Sem que seja preciso bater, gritar ou algemar. É muito mais eficiente, o poder os penetra e a resistência é mínima agora, pois eles “escolhem” obedecer às normas, às regras, aos ritos escolares para estudarem. Tudo apenas com o uso de uma arma: o saber. Ou seria o mecanismo de poder-saber como Foucault andou dizendo por aí. Esse saber que é tido como uma dádiva divina do grande arquiteto que tudo faz, presente dos iluministas – alguns escravocratas - para nós, fonte de conhecimento, também é frequentemente utilizado nas relações de poder como uma prática das mais inocentes e bem-intencionadas, e por isso perigosas.

Outro dia discutia com um amigo, o Rodolffo, que também dá aula lá, sobre a eficácia desse método. Aliás, chegamos até a cogitar a possibilidade de Foucault estar corretíssimo quando comparou as escolas, os presídios, os hospitais e os hospícios, no sentido de que essas instituições sociais servem para “normalizar”, homogeneizar, docilizar os corpos e os indivíduos, os tornarem aptos para o trabalho e para conviverem em sociedade sem perturbação da ordem pública. É interessante e bastante incômodo ouvir isso, pois coloca lado a lado os profissionais integrantes (que não gostam de ser comparados uns aos outros) destas instituições sociais e seus respectivos saberes: os professores, os policiais/os carcereiros, os médicos e os psiquiatras – a burrice/a ignorância, a corrupção/a desordem, a doença e a loucura: são seus domínios e suas autoridades. Ou seriam suas pragas? É evidente que as coisas “boas” que esses conhecimentos científicos nos trouxeram vieram atreladas a outros “males”. Ou ainda além: que esses males são a condição sem a qual não seria possível utilizar o saber para fazer do outro um objeto: de pesquisa, de ressocialização, de recuperação, de civilização. O que dissemos pareceu de maneira bem semelhante àquela descrita por Foucault, quando se deu o nascimento da prisão coincidindo exatamente com o crepúsculo do "Século das Luzes" e da época de surgimento e de apelação para os direitos humanos. Ou seja, enquanto todos pensavam naturalmente em libertação e desenvolvimento, o filósofo mostrou a ascensão das tecnologias de poder agora sofisticadamente colocadas. 

Talvez seja por isso que ainda não quis pesquisar “cientificamente” nada sobre qualquer aspecto da cadeia ou sobre a escola dentro da cadeia. Porque me parece que nós doutores dos saberes vestimos nossos jalecos brancos, calçamos nossas luvas higienizadas descartáveis e empunhamos nosso microscópio (que no caso do cientista humano é o método) para entrar no laboratório pronto para dissecarmos as cobaias e depois de realizados nos desfazermos delas junto com nossas luvas sujas. Um dia ao sair de sala, vi dezenas de estudantes de direito observando as celas com seus professores universitários e resguardados pelos diretores da segurança, olhavam como se estivessem bem ali em um zoológico, e não é de se estranhar que de fato estavam mesmo. Foi possível ouvir alguém da segurança dizer: “Falam que cadeia só tem preto e pobre, mas aqui é diferente”. Sim, aqui temos macacos também, eu reiteraria! [Inclusive guardando as celas].

Não que eu não tenha a minha curiosidade zoológica sobre eles também. Viram como a palavra “eles” soou como se fossem alienígenas? Pois então, se os tratamos assim porque eles devem nos ver como iguais? Seriam eles melhores que nós? Acho que não. São iguaizinhos! E eu acho que é isso que nos causa mais horror e indignação diante de um crime. Não é o quanto aquilo está longe de nós, mas o quanto aquilo poderia ser feito por nós. Nietzsche uma vez disse que é necessário ter cuidado ao expulsarmos todos os demônios de nós para não expulsar nós mesmos.

O que gostaria de compreender melhor ali dentro, é o modo como as pessoas que escolheram ou foram escolhidas pelo mundo do crime constroem suas identidades a partir dos objetos culturais que fabricamos para eles. Os adjetivos que lhes atribuímos são muitas vezes assumidos e ressignificados. É desta maneira que constituem suas subjetividades. O rótulo de bandido deixa de representar vergonha para se tornar status e autoafirmação em determinados locais. Como é possível mesmo acreditando que roubar é errado e que o caminho dos pecadores é o inferno ainda conseguem encontrar uma base legítima para se chamarem de ladrões e mesmo assim acharem que estão do lado do bem?  E como constroem as máscaras que utilizam para atuarem em espaços sociais diferentes? De que maneira fazem a operação personal para serem bons pais, bons maridos, bons alunos [bom no sentido do que faz bem feito], discutirem futebol, assistir novelas, cantar “ai se eu te pego” e mesmo assim forjarem sua postura “profissional” irredutível quando devem lidar com um inimigo ou devedor? Seriam também bons ladrões - entendendo sob o mesmo sentido utilizado?

De que maneira suas subjetividades religiosas são constituídas? E o quão religiosos são! Às vezes mais do que nossas tias do interior. São cristãos. Assim como o apóstolo matador de cristãos (Paulo) se tornou. “Amai o próximo como a ti mesmo!” Somos os próximos dessas pessoas? Por mais que sejamos, nós mesmos não queremos ser. E eles entendem isso.

Li antes de escrever:
CARVALHO, A. F. de. História e subjetividade no pensamento de Michel Foucault. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. USP, São Paulo, 2007.
FOUCAULT, M. Estratégia, poder-saber: coleção ditos e escrito IV. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel. Ramalhete. Petrópolis, Vozes, 1987.
NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Curitiba: Editora Hemus, 2002.
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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Hollywood manchada de vermelho: A cidade do silêncio

Há muito não assistia a um filme que me deixasse impactado, não no sentido de despertar pensamento dúbio sobre a mensagem transmitida pelo roteiro (desses vi alguns recentemente: Dogville, A Origem, A Trilha, Código de Conduta, etc.), mas no sentido de causar certo espírito de revolta com uma narrativa limpa e objetiva. A obra ou o produto hollywoodiano que me refiro se chama “A cidade do silêncio” (Bordertown, EUA, 2006). A surpresa foi maior porque não dava nada pela história, tampouco pelo elenco (Antônio Bandeiras e Jennifer Lopez são os protagonistas). Mas o diretor e roteirista californiano (descendente de mexicanos e bascos) Gregory Nava conseguiu fazer um ótimo trabalho. Muito por conta de o roteiro ser a ambientação de uma história real vivenciada (até hoje) na cidade de Juarez no México.
O filme denuncia o “feminicídio” ocorrido na mesma proporção que a produção de televisões e monitores fabricados nas indústrias americanas instaladas em Juarez, cidade fronteiriça ao Texas. Essa escala de medida não é inteiramente ilustrativa, tendo em vista que o roteirista consegue estabelecer uma relação (in)direta entre o subdesenvolvimento do México, acentuado pelo acordo de livre-mercado com os EUA através do NAFTA, e o índice de assassinatos de mulheres da cidade mais violenta da América Latina, segundo o CCSP e outras fontes[1]. Chega ser engraçado lermos na BBC que a cidade vizinha à Juarez, El Paso no Texas, é uma das cidades estadunidenses mais seguras e pacíficas. Óbvio que a forte segurança contra a imigração ilegal e o narcotráfico contribua muito para isso; contudo, a população de El Paso  composta por 80% de latinos, mostra que, não são questões puramente étnicas as causas da criminalidade, mas principalmente fatores políticos e econômicos[2].
As empresas estadunidenses assentadas na cidade mexicana dão preferência à contratação de mulheres para trabalhar em suas linhas de montagens, pois, conforme o filme ressalta, estas reclamam menos das longas jornadas de trabalho e são menos remuneradas que os homens. Essa globalização é fruto de uma política neoliberal acordada entre governantes americanos e mexicanos, e contribui para uma desigualdade entre os países que participam do acordo, geralmente não perceptível à primeira vista por todos. O livre-mercado só é significativo, neste caso, para os EUA, tendo em vista que o México não possui esses milhares de empresas instaladas no território yankee, pelos motivos dos quais já estamos carecas de saber desde as aulas de geografia política do ensino médio.
Aliás, essa realidade macro-econômica muito me lembra uma passagem de “O Capital” de Marx, onde o trabalhador agora solto, solteiro, livre e apartado dos seus meios de produção (no caso do campesino, a terra tomada pelos cercamentos e impostos) agora é obrigado a trocar o único bem que possui: sua força de trabalho (ou sua vida, se lhes convierem); uma troca desigual, pois, já sabemos também que a força de trabalho gera mais valor do que ela mesma tem. Em disposição parecida se encontra o México no NAFTA, quer dizer, em teoria ele poderia fazer o mesmo que os Estados Unidos faz, mas na prática, assim como o campesino que perdeu a posse de seu meio de produção, o país se vê obrigado a se sujeitar alugando sua mão-de-obra, pois não possui indústrias e fábricas modernas na mesma quantidade que seu “parceiro” comercial.
Embora as autoridades políticas e policiais não queiram investigar o alto índice de homicídio de mulheres (ao contrário, querem esconder) e os proprietários das indústrias americanas façam vista grossa para as centenas de funcionárias e ex-funcionárias estupradas e violentadas sexualmente e depois executadas, a realidade está escancarada ao mundo inteiro através do barulho feito por outra indústria, a hollywoodiana. Existe um diálogo interessante no filme que retrata a indiferença e o cinismo capitalista: a jornalista americana (Jennifer Lopez) que vai até a cidade investigar as mortes pergunta ao um empresário se ele não se importa com as vítimas e propõe que ele denuncie os criminosos (inclusive empresários e senadores envolvidos), então ele pergunta: “denunciar para quem? Todos sabem e participam da matança, quem deveria se importar é quem mais está ganhando em ocultar os crimes, é mais barato escondê-los do que resolvê-los”.
No término do filme fiz uma pesquisa rápida para checar as informações transmitidas por ele, e infelizmente os acontecimentos não destoam da ficção. Depois que a mídia (aqui cumprindo uma função social de extrema importância) expôs ao mundo o que as autoridades silenciavam, houve (e ainda há) uma série de manifestações contra a violência, os homicídios e a exploração sofrida em Juarez. No começo de 2011, Suzana Chavez, uma ativista e poetiza mexicana, que participava das manifestações e criou a expressão “nem mais uma morta”, foi brutalmente estrangulada e assassinada na cidade de Juarez (da mesma maneira que outras mulheres) e teve sua mão esquerda decepada (como uma espécie de punição pelo que ela escrevia). Contudo, policiais mexicanos disseram que seu assassinato não teve relação com seu ativismo político, segundo o jornal britânico BBC.[3] No “Diário da Liberdade” uma reportagem diz que o governo mexicano tentou esconder este crime hediondo sob o pretexto de não despertar a ira social.[4] Atualmente, Suzana se tornou um símbolo da luta das mulheres de Juarez.
Imagem real em Juarez
Certos filósofos de extrema direita têm dito que Hollywood hoje é comunista, por conta dos filmes críticos ao capitalismo e ao imperialismo (Senhor das Armas, Diamante de Sangue, Clube da Luta e outros), mas não sejamos tão maniqueístas e rasos; é verdade que existe um tom anticapitalista em alguns filmes, mas não representam nenhuma conversão ideológica ao comunismo ou ao anarquismo. Longe de fazermos também análises psicologizantes como propõe o marxista lacaniano Slavoj Zizek[5], entendemos que estas expressões artísticas são apenas desilusões às conseqüências da política econômica de “livre-mercado”, da mesma maneira que Euclides da Cunha e os frankfurtianos se descontentaram com os mitos da modernidade, do progresso e da civilização como filhos do Iluminismo. O vermelho de Hollywood é não é do comunismo, mas do sangue derramado das mujeres de Juarez pelo capitalismo.

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[1] Conselho Cidadão de Segurança Pública, uma organização civil mexicana. Mas existem outras inúmeras fontes nacionais e internacionais que, ou consideram Juarez a cidade mais violenta ou perigosa do mundo, ou está na lista seleta destas estatísticas: http://www.rnw.nl/portugues/article/cidades-mais-violentas-do-mundo
[2] De acordo com a BBC, os dados do FBI apontam que El Paso é a segunda cidade mais segura dos EUA: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/07/100729_mexico_rc.shtml
[3] http://www.bbc.co.uk/news/world-latin-america-12177543
[4] http://www.diarioliberdade.org/index.php?option=com_content&view=article&id=10873:nem-mais-uma-morta-assassinada-activista-susana-chavez&catid=280:mulher-e-lgbt&Itemid=182
[5] Ver: ZIZEK, Slavoj. O mito familiar da ideologia. In:______. Em defesa das causas perdidas. São Paulo: Boitempo, 2011, p.71-112.

sábado, 29 de outubro de 2011

Professor não é super-herói...

...nem deve ser. Existe uma célebre frase do poeta russo Maiakovski que diz o seguinte: “Triste a sociedade que precisa de heróis”. Compartilho da opinião do poeta por dois motivos. Primeiro porque o herói é um mito, uma fábula inventada. Não se encontram heróis nas sociedades, os que assim são chamados são pessoas de carne e osso, com “qualidades e defeitos” iguais aos outros. Os heróis são construções textuais, orais e simbólicas que visam preencher espaços vazios na incompletude do real - que se pretende forjar perfeito em alguma medida. Heróis são ilusões discursivamente fabricadas. Segundo, porque quando considera-se alguém "herói", atribui-se a essa pessoa uma responsabilidade incômoda e uma posterior cobrança das atitudes da mesma, como se ela pudesse pairar sobre a superfície como um ser não-social, diferente de todos aqueles que cotidianamente convivem e estabelecem relações e trocas culturais.
Cansamos de ouvir frases do tipo: “o professor precisa... o professor deve...” Deste modo, parece que o professor precisa ser impecável, pois possui uma responsabilidade imensa. Mas será que possui mesmo? Parece-me que a sociedade espera que o professor ensine-a a ser o que ela não é e o que ela não quer ser. Ou então ensine aos jovens as coisas que todo mundo já se deu conta de que está "errado", mas continua fazendo. Fico em dúvida se isso é sintoma da hipocrisia ou da esquizofrenia da sociedade capitalista.
Mesmo se a escola e a educação formal se propusessem ao desenvolvimento de um projeto sério que transformasse todos os valores atuais (de competição, de lucro, de benefício próprio, de convivência passiva às desigualdades sociais, étnicas e econômicas), seria somente um pequeno barquinho remando à mão contra a correnteza forte de um rio que o levará para uma gigante cachoeira vertical.
A escola é somente uma célula da sociedade onde se desenvolvem relações culturais, nem mais nem menos significativas do que outras esferas sociais e culturais - como a família, o trabalho, os meios de comunicação e o consumo. Aliás, estes dois últimos citados atualmente são muito mais sedutores, com seus cigarros, cervejas e programas de auditório. E, como diria o cantor: “a programação existe pra manter você na frente... na frente da TV, que é pra te entreter, que é pra você não ver que o programado é você” [1]. Deste modo, é complicado (e até arrogante) o professor se colocar na contracorrente desta avalanche que levanta uma densa poeira que a todos cega. Enquanto isso, o professor que tapa os olhos até que a poeira assente, das três assertiva a seguir uma é certeira: se recusa a fazer este serviço; é chamado de louco (como no mito da caverna); ou é demitido. [2]
Temos que aceitar o fato de que a educação não vai resolver os problemas da sociedade. Até porque os problemas educacionais são apenas reflexos dos problemas políticos. Ou altera-se completamente a ordem política ou continuaremos ouvindo discursos pedagógicos vazios sobre as “maravilhas da educação com amor”. Não foi com amor que combateram o nazismo. Foi com ação! Mas será que as pessoas, não somente os professores heróis, estão dispostas a isso?
A cada dia que passa vemos empresas construindo verdadeiros impérios econômicos à custa da exploração dos recursos naturais do planeta e dos seres humanos. A única possibilidade de não ser explorado é tornando-se explorador. Para que esta competição acabe é preciso que algumas coisas mudem.
Toda essa complexa rede social está atualmente assegurada por políticos sanguessugas que ano após ano aprovam seus frondosos aumentos de salário. Da mesma maneira, a cada dois anos, vamos feito robôs lá para legitimar que isto continue, votando e alienando nossos desejos, reivindicações e ideais a outros que sequer conhecemos. Afinal, a “cidadania” não espera, não é mesmo?
Neste contexto, o que é a Escola? Nada mais do que uma instituição estatal burocratizada projetada para reproduzir toda essa série de desigualdades e injustiças. E os professores? São somente humanos, demasiado humanos.
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[1] “Até Quando?” Música de Gabriel, o pensador.
[2] Paulo Freire diz que o profissional da educação que realmente acredita na transformação social e defende seus princípios tem de estar disposto a perder seu emprego.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Sob a insegurança e o humor: notas sobre "Busca Implacável" e "Assalto ao Banco Central"

Gostaria de tecer alguns comentários a respeito de dois filmes que me parecem bastante comuns à contemporaneidade: Busca Implacável (2005) e Assalto ao Banco Central (2010).  Mas, antes de começar, queria deixar claro que não sou especialista em análise fílmica, e por ser leigo desconsiderarei alguns detalhes técnicos, como a fotografia, a atuação, a direção e etc.

Podemos dizer que o gênero dos dois filmes é ação, mas é propriamente isso que os interliga, até porque existe um abismo de distância entre eles. Não só pelo primeiro ser uma produção estadunidense e a segunda brasileira, mas também, pelo tipo de enredo que é desenvolvido em torno da trama: um sequestro e um assalto. Ok! Os dois narram histórias sobre o crime, e é isso que os comungam entre si e com a contemporaneidade dos tempos safados, certo? Errado! Mesmo que eles abordem criminalidade, os aspectos explorados para atrair o espectador são bem diferentes: a insegurança e o humor. Contudo, ambos estão juntos no rol do que é muito próprio a nossa época.

Em Busca Implacável, o protagonista um ex-agente da CIA e pai totalmente paranoico teme em deixar a filha de 17 anos fazer uma viagem para a França com a prima mais velha, explicando que o mundo é cheio de pessoas “desumanas e sanguinárias”. Relutante ele autoriza a viagem. Mas sua teia de paranoia e insegurança (e a do público) é satisfeita quando ambas garotas são sequestradas por albaneses que pretendem drogá-las e vendê-las ao mercado da prostituição. Obviamente que, no final do filme, Liam Neeson (o ator que interpreta o pai), como todos os astros do Domingo Maior, consegue matar todos os bandidos “mauzinhos” armados com metralhadoras de Israel, usando apenas um celular e um grampo de cabelo na mão. Mas isso não importa!

Quero chamar atenção para dois elementos principais no filme, o primeiro é a xenofobia (étnica e ideológica). É interessante perceber que os personagens que fazem os papéis de algozes principais não são franceses, mas imigrantes, e de um lugar específico do qual os EUA não costuma fazer propaganda positiva, a chamada Europa Oriental. Região em parte unida à União Soviética dos comunistas satânicos. No filme existe um diálogo, onde o francês diz mais ou menos assim: “essa gente (os albaneses) veio para cá depois de uma crise em que seu povo passava fome, aqui se instalaram, se incrustaram, com sua rede de negócios sujos, tráfico e agenciamento de prostituição.” Claro, foram esses ex-comunistas leprosos que contaminaram toda a Europa, inclusive a democrática França de Sarcozy[1], com sua doença e sede por dinheiro à todo custo. Aqui, depois de tantos anos de luta anticomunista (o macartismo e outras), ainda vemos resquícios do passado e o peso da História (escrita de acordo com os interesses do autor) sobre o presente.

Em um segundo elemento, vemos a insegurança. Bom, será que ela se deve pelo passado do ex-agente da CIA, órgão que praticou/pratica milhares de crimes no mundo inteiro[2]? Acho que não, o roteirista não teria essa sofisticação de crítica ao glorioso empreendimento americano. Prefiro acreditar que a insegurança é um aspecto muito comum a nossa época e difundido (sentido) entre todos os cidadãos comuns; obviamente maior ainda pós 11 de Setembro para os americanos. O fato é que isso me parece um efeito cíclico, que liga a Indústria Cinematográfica às mídias de comunicação de massa. Esse medo, essa insegurança ao comportamento dos demais tem sido muito bem exploradas por esses ramos de negócios, que tem lucrado milhões vendendo tragédias ligadas à violência urbana, seja nos filmes, seja nos noticiários e programas de tevê policiais. Michael Moore, em seu documentário Tiros em Columbine (2003), diz que a Indústria de Armas nos EUA arrecada bilhões por ano, disseminando, através da propaganda, o medo e a insegurança nos cidadãos comuns.

Está mais do que claro, o que essas imagens provocam na população. Mesmo com a redução da criminalidade, a impressão que se tem, através dos noticiários e programas policiais, é de que a violência só tem aumentado e tornado cada vez mais brutal. Isso faz com que os cidadãos virem reféns de seus próprios medos. O medo de assaltos e sequestros esvazia os espaços públicos das cidades, a convivência com os outros se torna apenas virtual, as pessoas se trancafiam em suas casas com dispositivos de alarmes, proteções como cacos de vidros ou seringas contaminadas de HiV[3] são colocadas nos muros, se estão andando na rua se assustam com alguém que corre, se consideram alguém suspeito à alguns metros trocam de calçada. O assaltante nem precisa estar armado para agir, aliás, nem precisa ser assaltante para assaltar, perguntar as horas em voz alta já faz com que a pessoa lhe entregue o celular e a carteira, de tanto medo. Um aluno meu (preso por roubo), disse que já assaltou diversas pessoas na rua com uma torneira. “Pois é, quando eu não tinha arma porque tinha vendido para comprar droga, e precisava de mais dinheiro para comprar mais crack, eu colocava uma torneira cromada embaixo da camisa e mostrava para a vítima o reflexo, ela nem se preocupava em saber o que realmente era, e me passava tudo”, explicou ele.

Agora vamos falar sobre a produção cinematográfica brasileira. O filme Assalto ao Banco Central como se sabe retrata um acontecimento real recente na história do Brasil, qualificado como o maior roubo a banco já noticiado do país. Claro, porque se formos considerar os desvios aos cofres públicos (vulgar banco do povo), esse “assaltinho” de 164 milhões de reais ficaria no chinelo.

O que mais me chamou atenção no filme foi o tom de humor do roteiro. Em se tratando de um roubo, um crime à própria população (por conta do banco ser estatal), com cenas de violência, inclusive assassinatos e de um filme de ação (embora já soubéssemos minimamente o final) não era para (dentro da lógica) causar risos descomedidos na plateia, como os que eu vi e participei.

Parece-me que este aspecto é muito próprio a nossa época. Assuntos sérios geralmente estão sendo levados sob uma dinâmica de humor. Os programas de televisão, como exemplo (CQC e A liga), que prestam-se a fazer críticas e denúncias de descaso da administração pública, que geram sérios problemas aos cidadãos, como desmoronamento de encostas, interdição de vias públicas, sucateamento de escolas e hospitais e favorecimentos de pessoas e empresas ligadas aos governantes; como também apontar o caos na vida urbana, a violência, a prostituição, o estresse no trânsito, os subempregos, as drogas, os preconceitos raciais e etc; tem sido conduzidos por comediantes ou por pessoas que se esforçam para serem engraçadas, assim como faz o comentarista de política da Globo, Arnaldo Jabor.

Como diria uma certa música, “não vemos graças nas gracinhas da tevê, morremos de rir no horário eleitoral”. O humor pelo humor tem nos deixado irritado, em vez de alegres. Hoje o humor está mais para o político e para o crítico, do que para o pastelão. Tanto é, que o seriado de maior sucesso na tevê aberta brasileira tem sido um que critica severamente o racismo e a discriminação racial na sociedade americana, sobretudo, da virada dos anos 80, conhecidíssimo e muito reprisado Todo Mundo Odeio o Chris. A verdade é que a Sociedade do Espetáculo[4], onde tudo que é do cotidiano, do tempo “real”, do reality show, está passando por uma nova fase, que o autor Gilles Lipovetsky (na imagem ao lado) chama de Sociedade Humorística[5]. Aqui, no fenômeno da dramatização direcionado e retroalimentado pela mídia de massa: clima de crise, insegurança urbana (que lembra Busca Implacável), catástrofes naturais (terremotos, tsunamis) e não-naturais (soterramento dos mineiros chilenos), onde as informações caminham para o “pseudo-acontecimento”, para o sensacionalismo, para o suspense; quase não temos percebido brotar dessa subjetividade um outro código, o humorístico. Estampados nas manchetes de jornais, revistas semanais, artigos científicos ou filosóficos, e sobretudo, nas conversas e comentários cotidianos, mesmo se for para falar da morte de alguém ou de qualquer outra desgraça “alheia”.



[1] Que expulsou os ciganos e pretende expulsar os muçulmanos e, se pudesse, expulsaria também os argelinos, os marroquinos e demais imigrantes considerados “inferiores”. Ver: http://www.jornalagora.com.br/site/content/noticias/detalhe.php?e=4&n=800
[2] A CIA comete cerca de 100 mil crimes por ano. Revista Mundo Estranho. São Paulo: Editora Abril. Abril/2008, p.29.
[3] Uma médica levou do hospital esses materiais os colocando em cima dos portões que cercavam sua casa para assegurar-se com os ladrões. Ver: http://diariodoestado.com/?p=1875
[4] DEBORD, Guy. A sociedade de espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
[5] LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Barueri, SP: Manole, 2005.

sábado, 9 de julho de 2011

A natureza do homem é (des)fazer-se.

Tenho duas amigas de nomes bastante peculiares, Fayga e Sálua, com as quais dialogo cotidianamente sobre política, história e outros assuntos. A primeira é “recém-chegada” de uma experiência de intercâmbio em Portugal e, se mostra pouco paciente com o comportamento social dos brasileiros em relação ao desrespeito com o próximo. A última está beirando um niilismo essencialista, se mostrando descrente com o ser humano em geral e chegando a postular que o homem constrói a sociedade partindo do ponto de seu “egoísmo de nascença”. Todas as duas colegas instigam meus pensamentos; ou com suas posições definidas, ou com suas dúvidas inquietantes e provocativas que me lançam. Certamente que esta discussão em torno da natureza humana atravessa milênios, mas gostaria de em poucas linhas expor alguns comentários.

Para começo de conversa, se pudermos adiantar os postulados de Aristóteles, “o homem é um ser social”. Mas que significa dizer isso? Significa que o homem é um único animal que modifica seu meio ambiente e as relações com os de sua mesma espécie. É ele que constrói, em conjunto, seu próprio ambiente e o modo como se relaciona com os Outros, sobretudo, através da cultura. É esta que nos diferencia dos demais animais, e que nos tornam humanos; sem apreender e aprender seríamos somente “animaizinhos” com nossa constituição biológica. Prova disso são os chamados meninos-lobos: crianças encontradas depois de longos anos vivendo em isolamento da sociedade, as vezes, convivendo com animais selvagens e, que por isso, demonstraram comportamentos bem semelhantes a eles. Defecavam em público, não sentiam frio, não sabiam falar, utilizar o banheiro, tampouco assistir o “Vai Dar Namoro”.

Gostaria de salientar que não é somente com a instrução oral sobre o que é certo e o que é errado que aprendemos a nos comportar, aliás, isto representa um ínfimo de nossa educação humana, e talvez possa ser até anulada se as práticas sociais que observamos e com a qual nos inserimos no meio são contrastantes. Nossa condição (e não natureza) humana se edifica sobretudo através das experiências sensíveis que envolvem o pensar, o agir e o sentir. Não é possível que o homem se torne mal, desrespeitoso, egoísta, se essas possibilidades não estiverem dispostas, oferecidas e aprendidas no meio social. Também é quase impossível (a não ser que seja divino e não-humano) que seja altruísta, misericordioso, benevolente vivendo em um meio social onde quem pratica esses valores são desfavorecidos ou considerados otários. Depois de um pouco de teoria, vamos para um estudo de caso.

Uma de minhas amigas diz andar contrariada com as atitudes dos brasileiros. O desrespeito, o machismo e o assédio rude com as mulheres; a intolerância e impaciência com os “deficientes”, idosos e homossexuais; o “jeitinho brasileiro” de querer tirar proveito das coisas e das pessoas; a indiferença com o meio ambiente; a lei da selva no trânsito; a violência; são aspectos que fazem com que ela pense em se mudar, impreterivelmente, para Portugal. O senso comum pode dizer que ela está certa, afinal, o Brasil é um país de “terceiro mundo”, economicamente atrasado e com uma série de problemas sociais diretamente relacionados com a falta de dinheiro.

Mas vejam bem! Portugal passa por uma das maiores crises econômicas de sua história, pessoas desempregadas, cadernetas de poupanças reduzidas, idade para aposentadoria aumentando, políticas de contenção à imigração, recorrência a empréstimos pela União Europeia e etc. Então, como ainda conservam a educação, o respeito e a tolerância com próximo se são as condições do meio que “determinam” a estratégia de comportamento dos indivíduos? A experiência histórica do país contribui para entendermos isso.

Como todos estamos carecas de saber, nós brasileiros, fomos colonizados por Portugal. Pode-se dizer que o Imperialismo representou um degrau significativo para o Capitalismo[1]. Neste período, os bigodudos usaram e abusaram das colônias portuguesas. Foram séculos de coação e exploração. Comportamento nada “civilizado”, né? Mas, após terem mergulhados em piscinas cheias de moedas de ouro extraídas do Brasil através do trabalho escravo africano, os portugueses atingiram um nível econômico considerável, depois, procuraram distribuir a renda de modo mais igualitário[2] aos seus cidadãos para conter revoluções que solapariam o capitalismo[3].

Nesta etapa de luta por uma melhor qualidade de vida, o atropelamento desenfreado de uns pelos outros no capitalismo ascendente representava um entrave para atingir tal estágio. Quando as condições de renda possuem uma paridade maior, é possível que outros valores, que não o da disputa por espaço e por dinheiro, ganhem uma alavancada relevante. Aqui, os cidadãos já podem reconhecer que o respeito, a tolerância, a solidariedade são condições imprescindíveis para uma boa qualidade de vida. O outro deixa de ser concorrente e passa a ser colaborador numa espécie de ajuda mútua[4]. Deste modo, a cultura do respeito gestada nesses longos anos consegue sobressair à luta de todos contra todos, que já não faz mais sentido algum. Neste momento histórico contemporâneo em Portugal, mesmo diante da crise, a cultura do respeito ao próximo consolidada representa um entrave no pisar na goela do próximo para conquistar a todo custo um lugar ao sol numa sociedade capitalista de recessão econômica. Agora, caso a crise perdure por muito tempo não sabemos até quando essa cultura vai resistir.

E no Brasil? Me parece que essa cultura do respeito ainda não foi “ovulada”. Primeiro porque nossa experiência histórica é muito diferente de Portugal. Nós fomos a colônia! Somos um país muito maior, com uma diversidade étnica, regional e geográfica bastante significativa, conseguimos nossa independência a menos de 200 anos (será que conseguimos mesmo?), acabamos de sair de uma Ditadura Militar e temos muito ainda a aprender com as experiências recentes.

Mesmo que atingir uma determinada ascensão social atualmente aqui seja mais “fácil” que em Portugal, ainda estamos na fase de pisar na goela do outro para conseguir nosso espaço, não tem vagas de emprego para todos; essa é uma dinâmica constante no capitalismo em ascensão. É deste modo que vemos reinar acontecimentos cotidianos como: esvaziar o pneu do concorrente da mesma vaga de emprego que almejamos; acotovelar as pessoas para entrar no transporte coletivo e sentarmos sem amarrotar nossos uniformes; acelerarmos o carro para passar no sinal amarelo mesmo quando pessoas já se posicionam na faixa de pedestres; estacionar na vaga de deficientes e idosos para que nosso belo veículo comprado em 400 prestações não descasque no sol; ou seja, estabelecer nossos princípios morais e éticos logo após as consequências que nos gerarão lucro e vantagem sobre o outro. Como disse, a cultura do respeito ainda precisa ser gestada no Brasil, mas até que as condições dignas de renda estejam ao alcance de todos, se torna quase que impossível um “santo nascer” altruísta, cordial e respeitoso.

As coisas mudarão? Provavelmente! Agora, se para melhores isso não podemos prever, pois o ser humano é imprevisível nas diversas maneiras de surpreender a si mesmo.
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1E caminham de mãos dadas hoje sob outra forma: o imperialismo de mercado. No qual os países desenvolvidos economicamente entopem de produtos materiais e simbólicos os países “periféricos”, exercendo desta maneira forte influência na formação dos valores morais, nos padrões estéticos e outros.
2Chamado Estado de Bem-estar Social, ou Welfare State.
3Este apontamento é somente uma hipótese bem generalista que desconsidera outros fatores.
4Aristóteles afirma que só é possível existir Justiça entre Iguais.
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