terça-feira, 29 de outubro de 2013

Hermenêutica na historiografia: história dos conceitos de Koselleck

O texto que se segue é um comentário complementar do anterior, intitulado “Elos entre história dos conceitos e história social em Koselleck". Escrito por volta do final dos anos 70, o ensaio “História dos conceitos e história social” de Koselleck objetiva principalmente reivindicar um lugar de importância à história dos conceitos dentro da historiografia, seja no uso de seus métodos de investigação ou enquanto área de pesquisa histórica autônoma. A qualidade de seu trabalho não é a inovação, mas o rigor metodológico, o autor é herdeiro ao mesmo tempo da tradição alemã da hermenêutica e do historicismo.

Hermes: segundo a mitologia grega, deus da comunicação, do comércio e dos ladrões (que coincidência! “Patrono” dos jornalistas, empresários e assaltantes), é também o radical de onde a palavra “hermenêutica” deriva. Praticada na exegese bíblica, a hermenêutica designa a arte (técnica) de compreender e interpretar textos. Pode-se dizer que o pai da hermenêutica moderna é o filósofo e teólogo alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834). Mais conhecido pela recuperação e interpretação da obra de Platão, Schleiermacher foi o primeiro a tentar construir uma “hermenêutica universal”, isto é, a criação de um método único que se dispusesse à interpretação de quaisquer textos nos quais a compreensão imediata fosse impedida pela possibilidade de um mal-entendido. Intento, de certa maneira, conectado à tradição da retórica aristotélica. Schleiermacher escreve o seguinte: “O vínculo entre a hermenêutica e a retórica consiste no fato de que todo ato de compreender é a inversão do ato de falar, pelo que deve chegar à consciência qual o pensamento que está na base do discurso” (2005, p. 94). Sendo assim, a hermenêutica universal deve estar relacionada também com a crítica e com a gramática, pressupondo a união entre o pensamento e a linguagem (escrita ou falada). Daí se infere que para compreender o sentido original de um texto faz-se necessário conhecer a totalidade da linguagem e o pensamento geral de seu autor.

Segundo o filósofo e historiador da hermenêutica, Hans-Georg Gadamer (1900-2002), a principal característica da hermenêutica universal de Scheleiermacher é a pretensão de “transferir-se para dentro da constituição completa do escritor, um conceber o ‘decurso interno’ da feitura da obra, uma reformulação do ato criador” (1997, p. 292). Para realizar esta tarefa e encontrar a verdade, a operação hermeneuta descrita por Schleiermacher se articula em dois eixos: interpretação gramatical e interpretação psicológica. No entanto, Gadamer faz uma crítica ao último eixo da operação de Schleiermacher, isto é, à interpretação psicológica. Isso porque, segundo Gadamer, é preciso compreender o sentido de um texto nele mesmo, sem se recorrer à subjetividade do outro, pois a missão da hermenêutica não é promover uma comunicação entre as almas, mas participar de uma perspectiva comum (2003, p. 59). Além disso, Gadamer critica também o caráter formalista da hermenêutica de Schleiermacher, dizendo que, em vez de conceber um método válido para qualquer objeto de pesquisa, é o objeto de pesquisa que deve determinar a formação de “um projeto de compreensão que vai se corrigindo, progressivamente, à medida que progride a decifração” (2003, p. 61).

Apesar das críticas de Gadamer, a regra geral da hermenêutica se conserva. “Trata-se da relação circular entre o todo e suas partes: o significado antecipado em um todo se compreende por suas partes, mas é à luz do todo que as partes adquirem a sua função esclarecedora”, assinala o autor (2003, p. 58). Ou seja, a hermenêutica é uma operação do conhecimento que procura encontrar o sentido do texto através de uma articulação entre o particular e o geral. Esta concepção embebedou a historiografia mais do que qualquer estudante de história possa imaginar. Inclusive, um dos pontos do livro Verdade e método, escrito por Gadamer, é a demonstração de como a historiografia do século 19 e 20 foi uma evolução da hermenêutica. A busca da verdade, através do método histórico, nada mais faz do que inserir/situar o objeto de pesquisa particular (um acontecimento, um texto, um indivíduo, uma classe, um processo, etc.) dentro de um dado contexto (tempo, espaço e sociedade). Operação que pode ser conhecida também com o substantivo de “crítica externa da fonte”. Por outro lado, a “crítica interna da fonte”, também usada pela historiografia, pode ser comparada com o procedimento hermeneuta de pesquisa do conjunto de obras do autor, entretanto, neste caso, leva-se em consideração não apenas o que ele escreveu, mas também o que pensou, falou e agiu a partir da totalidade de documentos que ficou registrada pelas gerações passadas.

É possível ver o exemplo desta tradição de pesquisa em dois trabalhos historiográficos que sequer foram produzidos por autores alemães. Refiro-me a O problema da incredulidade no século 16, do francês Lucien Febvre (1878-1956) e a O queijo e os vermes, do italiano Carlo Ginzburg (1939-). No primeiro trabalho, um precursor da história das mentalidades e conhecido pela história-problema, Febvre parte de uma indagação: “é possível que Rabelais fosse um ateu no século 16?” A tentativa era contrapor a tese do historiador da literatura, Abel Lefranc, contemporâneo de Febvre, segundo a qual afirmava, baseando-se nos escritos críticos a doutrina cristã produzidos por Rabelais, que seu autor era um descrente. Para provar o contrário, Febvre se detém inicialmente numa série de documentos da época: relatos de (eventuais) testemunhas, pessoas que conviveram com Rabelais e que trocavam cartas com ele; obras de literatura, de teatro e de filosofia do período; trabalhos de teólogos e de controversistas; enfim, todo o material produzido pelo círculo intelectual que o sujeito pesquisado possa ter tido contato. Depois o historiador se debruça sobre os escritos de Rabelais (Gargantua e Pantagruel), realizando assim a crítica interna das fontes. Por fim, uma descrição do contexto da época, para assegurar que a religião cristã estava em todos os lugares e não dava nenhuma possibilidade de qualquer sujeito ser descrente, a menos que fosse louco. A verdade histórica do problema levantado por Febvre é a de que era impossível que Rabelais fosse ateu na Europa do século 16. Para que o sujeito pudesse ser ateu era necessário que ele se apoiasse em um quadro social inscrito na atmosfera da época, coisa que não existia, já que até mesmo a ciência e a filosofia do período eram impregnadas de religião cristã. Na introdução de seu livro, Febvre diz que seu trabalho não “se trata de uma monografia sobre Rabelais, mas de um ensaio sobre o sentido e o espírito de nosso século 16” (2009, p. 29). Ao relacionar o particular (Rabelais) ao geral (contexto), o historiador compreende que seria um anacronismo dizer que o sujeito era ateu, isto porque não fazia sentido. Desta forma, Febvre promove uma co-incidência entre autor, obra e época.

Em O queijo e os vermes, a preocupação metodológica de Ginzburg é bastante semelhante ao relacionar o particular ao geral. O objeto de pesquisa é a trajetória do moleiro italiano Menocchio, perseguido pela Inquisição católica por ser acusado de bruxaria, no final do século 16. Embora o foco seja sobre o microcosmo, já que se trata de um trabalho da micro-história, o historiador italiano diz desde o início que sua empreita lhe permitiu construir uma hipótese geral sobre a cultura da Europa pré-industrial (1987, p. 12). Ao se perguntar como foi possível um sujeito das classes populares fazer uma crítica peculiar a Igreja, Ginzburg encontra o sentido no contexto da época. Isto é, nos dois grandes acontecimentos do período (a reforma protestante e a invenção da imprensa), no substrato de crenças pagãs da cultura popular, na rede de relações entre as classes subalterna e dominante a qual o ofício de moleiro tinha contato, e nos livros que Menocchio teve acesso devido a essa mesma rede de relações. Esta operação de pesquisa histórica, compartilhada tanto por Ginzburg como por Febvre, apresenta um problema grave na medida em que, ao articular o particular ao geral, acaba submetendo o primeiro ao último. Em Febvre isso fica bastante nítido quando ele declara a tese de Lefranc como “absurda” (sem sentido, anacrônica) simplesmente por ela não se submeter ao geral.

Na passagem em que Koselleck interpreta o texto de Hardenberg fica claro o uso do método particular-geral (objeto-contexto), indispensável à história dos conceitos. Assim o historiador escreve: “[...] o sentido exato pode ser depreendido só a partir do contexto do diário [Memorandum] de Hardenberg, mas deve ser igualmente deduzido da situação do autor e dos destinatários. Além disso, é preciso que se considere a situação política e social da Prússia naquela época, como também se deve entender o uso da língua pelo autor, por seus contemporâneos e pela geração que o precede, com os quais ele viveu em comunidade linguística”. Eventuais questões que não possam ser respondidas com essa metodologia dizem “respeito principalmente à estrutura social da Prússia de então, que não pode ser compreendida de maneira satisfatória sem que se proceda a um questionamento de caráter econômico, político ou sociológico” (KOSELLECK, 2006, p. 99-100). A particularidade (o conceito, a oração, o texto) só é compreendida, de maneira eficaz, quando relacionada à totalidade, isto é, ao sistema de linguagem (história da língua) e dentro dos conflitos sociais e políticos nos quais o conceito foi usado (história factual).

Importa aqui dizer que, ainda que tenha sido contraposta por Gadamer, a interpretação psicológica (ou da subjetividade) se enraizou na historiografia – algumas vezes de maneira até grosseira. Podemos vê-la em Koselleck? Embora não idêntica a Schleiermacher e outros, creio que sim! Por exemplo, tratando-se de conceitos como “socialismo”, “comunismo” e “liberalismo”, uma das ferramentas teóricas de Koselleck, quer seja, “horizonte de expectativa”, nos permite refletir sobre a batalha discursiva que extrapola a própria língua. Ainda hoje estes são conceitos em disputa. O termo “socialismo real” (referente à União Soviética, pós-revolução) é usado por algumas pessoas para descrever a realização da expectativa que se tinha sobre o conceito “socialismo”, ou seja, designa o futuro, tornado presente, de uma sociedade do passado. Outros não aceitam a designação, dizendo que o que houve na União Soviética foi um “capitalismo de Estado”, a partir do pressuposto de que o significado de “socialismo” não se ajusta ao significante da experiência política da URSS. Então, infere-se que o “horizonte de expectativa” é algo ainda a ser realizado (ou jamais). Por isso, na modalidade de pesquisa koselleckiana, é necessário atentar-se para em que lugar, quando e qual é o seu sentido no espaço de experiência, mas também para quem escreve, logo, necessita de uma interpretação da subjetividade do autor. Isso se não estivermos desejosos de uma verdade “neutra” ou de um sentido único.

Na tensão entre conceito e realidade empírica, a preciosidade do trabalho de Koselleck é a possibilidade de usar a interpretação psicológica sem submetê-la ao geral. Sobretudo porque uma das ferramentas teóricas de Koselleck, por exemplo, o conceito de “horizonte de expectativa” proporciona uma margem de movimentação particular ao tempo histórico, diferentemente do tempo coagulado de Febvre (época). Daí pode-se enxergar o futuro do passado, embora ele, obviamente, não exista empiricamente. Do contrário teríamos um futuro do qual ninguém espera e que nunca chega, pois o presente seria uma eternidade. Um único tempo possível, como a Europa do século 16, onde o Rabelais de Febvre vivia.

É exatamente por isso que o diacronismo (dois tempos: passado-presente e passado-futuro) da história dos conceitos se atenta como poucas modalidades de pesquisa histórica sobre o perecimento do conhecimento e, concomitantemente, sobre o caráter provisório da verdade; especialmente, por levar em consideração a transitoriedade do tempo (presente). Como o próprio Lucien Febvre já expôs, a história precisa ser constantemente reescrita, uma vez que ela se trata de um conhecimento diacrônico, não um conhecimento do passado, mas da relação passado-presente. Visto que o presente interfere nesse processo de cognição. O que parece não ter sido levado em consideração por Febvre é que, num só tempo, tantos sentidos são possíveis à medida que podemos relacioná-los a algo e tantas verdades existem conforme a quantidade de caminhos (aceitos) são traçados para construí-las.

Referências:

FEBVRE, Lucien. O problema da incredulidade no século XVI: a religião de Rabelais. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
GADAMER, Hans-Georg. O problema da consciência histórica. Rio de Janeiro: FGV, 2003.
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis-SP: Editora Vozes, 1997.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2006.
SCHLEIERMACHER, Friedrich D. E. Hermenêutica e crítica, vol. I. Ijuí: Ed. Unijuí, 2005.

Elos entre história dos conceitos e história social em Koselleck

Buscando substituir a tradicional história das ideias, acusada de insuficiência teórica pelos Analles, a história dos conceitos é uma área de pesquisa que ganhou notoriedade no terceiro quarto do século passado. No Brasil, o historiador alemão Reinhart Koselleck é conhecido como o principal pesquisador desta modalidade. O texto que passo a resumir e comentar nas linhas abaixo trata-se de um dos ensaios reunidos em seu livro Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. No ensaio em questão, Koselleck apresenta as características gerais da história dos conceitos e em que medida ela é indispensável à história social.  

Inicialmente, Koselleck aponta algumas diferenças entre a história dos conceitos e a história social. Enquanto a primeira se detém fundamentalmente sobre textos e vocábulos, a última serve-se deles apenas para deduzir fatos, processos e dinâmicas históricas que não se encontram ali. Isto é, a história social toma a escrita como referências que apontam para acontecimentos fora do texto e não como acontecimentos (da linguagem) que possuiriam funcionamentos particulares. Os métodos da história dos conceitos vêm da história da terminologia filosófica, da gramática e filologia histórica, da semasiologia¹ e da onomasiologia.² Seus resultados são comprovados pela retomada da exegese textual. N’outro pólo, a história social tem como objeto de investigação a formação das sociedades, estruturas constitucionais; relações entre grupos, camadas e classes; as circunstâncias nas quais ocorreram certos eventos, com foco em estruturas e alterações de médio e longo prazo. Além disso, pode pesquisar teoremas econômicos, por meio dos quais torna-se possível problematizar os eventos singulares e os desenvolvimentos políticos dos fatos. Apesar destas diferenças, a história dos conceitos e a social se alimentam de um mesmo corpus. Isto porque, segundo Koselleck, “sem conceitos comuns não pode haver sociedade e, sobretudo, não pode haver unidade de ação política. Por outro lado, os conceitos fundamentam-se em sistemas político-sociais que são, de longe, mais complexos do que faz supor sua compreensão como comunidades linguísticas organizadas sob determinados conceitos-chave” (2006, p. 98). Por isso, faz-se necessário esclarecer a relação entre tais modalidades de pesquisa histórica em três níveis.

1º] Até que ponto a história dos conceitos segue os métodos históricos-críticos clássicos e contribui para compreender os temas da história social? O historiador lança mão de alguns exemplos neste tópico para demonstrar que a história social não pode prescindir do auxílio da história dos conceitos. Um destes exemplos é o discurso reformista de Karl Hardenberg, em 1808. Após a Revolução Francesa, este estadista formulou um programa que pretendia uma reestruturação tanto econômica como social da Prússia. Para compreender tal documento é necessário que se faça uma exegese crítica dos conceitos presentes no programa. No escrito consta a substituição do conceito de “estamento” pelo de “classe”, propondo com isso uma numa organização social. “No lugar de uma sociedade estamental tradicional, deve entrar uma sociedade de cidadãos do Estado (formalmente igualitária) cuja filiação a classes (a definir econômica e socialmente) possibilite uma nova hierarquia de Estado”, escreve Koselleck (2006, p. 99). Pode-se dizer que o “estamento” é o significante de um tipo de mobilidade social muito insipiente se comparado ao de “classe”. Está mais ligado a um privilégio (um título de honra ou nobreza, por exemplo) do que a uma conquista econômica ou social. Demonstrava-se, com isso, uma crítica ao tradicional direito de soberania para reivindicar uma maior mobilidade social: constitui parte de algumas consequências da Revolução Francesa que afetaram todo o Ocidente. O emprego do conceito de “cidadão” na oração de Hardenberg também nos diz sobre elementos sócio-históricos presentes na ocasião. Tratava-se de um conceito criado recentemente e visava polemizar a desigualdade de ordens num contexto que ainda não existia o direito civil.

Ambos os conceitos (“classe” e “cidadão”) são, para Koselleck, indicadores de mudanças sociais e políticas.  Ainda que não existissem empiricamente, eles sinalizavam não só o “espaço de experiências” (passado-presente), mas também o “horizonte de expectativas” (futuro) de uma determinada sociedade no tempo. Isto porque em todas as épocas de crise, os conceitos apontam mais para o futuro do que para designar fatos. Grande parte das conquistas e privilégios políticos foi formulada, primeiro, na linguagem para que pudesse ser descrita e, depois, fosse efetivada. “Com esse procedimento, diminuiu o conteúdo empírico presente no significado de muitos conceitos, enquanto aumentava proporcionalmente a exigência futura neles contida. [No período em questão,] a co-incidência entre o conteúdo empírico e o campo de expectativa diminuía cada vez mais. Inclui-se aqui a criação de numerosos ‘-ismos’ que serviram como conceito de agrupamento e de dinâmica para ordenar e mobilizar as massas estruturalmente desarticuladas” (KOSELLECK, 2006, p. 102-103).

2º] Em segundo nível, Koselleck reflete sobre a história dos conceitos como uma disciplina autônoma, pois ela, além de ser metodologia de crítica da fonte, é um campo particular de estudos. Por exemplo, à história social, ela serviu para criticar as traduções descontextualizadas de determinadas expressões; promoveu uma crítica à história das ideias, tendo em vista que, esta modalidade trabalhava com grandes constantes que se articulavam sem alteração, ainda que sob distintas formas históricas (por exemplo: o liberalismo na Europa e no Brasil); na investigação da história de um conceito, foi possível pesquisar o “espaço de experiência” e o “horizonte de expectativa” de um período, ao mesmo tempo em que pesquisava a função política e social do mesmo conceito – tratando assim do espaço e do tempo, numa perspectiva sincrônica de análise. Além disso, o procedimento da história dos conceitos desenvolve a tradução de textos do passado para nossa compreensão atual, realizando um estudo diacrônico.

Denomina-se história dos conceitos o estudo que contém um conjunto desses procedimentos citados acima; disciplina próxima a filologia histórica e, neste caso, independente da história social. Como objeto de pesquisa, pode-se investigar a duração do significado de um conceito. Por exemplo, por volta de 1700, “burguês” significava um cidadão ou habitante da cidade (numa sociedade estamental na qual definições legais, políticas, econômicas e sociais estavam unidas); em 1800, significava um cidadão do Estado (definido, negativamente, como aquele que não pertencia nem ao campesinato, nem à nobreza); e, por último, por volta de 1900, significava aquele que não é proletário (membro de uma classe do ponto de vista puramente econômico, numa sociedade de economia liberal), designação válida tanto para o direito de voto de classe, quanto para a teoria marxista.

O princípio diacrônico da história dos conceitos exige que, num primeiro momento, ela deixe de lado os conteúdos extralingüísticos. Pelo aspecto somente temporal há três tipos de conceitos políticos e sociais: (a) os da doutrina constitucional aristotélica (são significados que permanecem em parte os mesmos, inclusive seus conteúdos empíricos); (b) conceitos que seus conteúdos mudaram bastante, embora possuam a mesma constituição linguística (neste caso, seus conteúdos só podem ser reconstruídos historicamente – o conceito “história”, na modernidade, parece ser ao mesmo tempo seu sujeito e seu objeto, enquanto “histórias” tem como objeto pessoas e domínios concretos); (c) neologismos que surgem em momentos específicos visando registrar ou provocar situação políticas e sociais (ex: comunismo e fascismo). Na história dos conceitos, há uma tensão entre fatos e conceitos, nunca um “espírito de época”; ora se neutraliza essa tensão, ora ela se irrompe. Por isso, tal disciplina não deve se restringir a significação das palavras e suas modificações. É preciso explicar porque vários conceitos são utilizados para descrever um único fato ou dinâmica, como no caso de “secularização” e “mundialização”.

Koselleck (1923-2006)
3º] No último nível, Koselleck pondera sobre a teoria da história dos conceitos e da história social, sobretudo, em que medida a última pode operar sem atender as exigências da primeira. A história dos conceitos aborda estados sociais, do ponto de vista sincrônico, e suas alterações ao longo do eixo diacrônico. Embora ela não apreenda imediatamente a realidade social a partir do conceito, possui como premissa refletir a co-incidência entre conceito e realidade, em estruturas e transformações. “O método da história dos conceitos é uma condição [imprescindível] para questões da história social exatamente porque os termos que mantiveram seu significado estável não são, por si mesmo, um indício suficiente da manutenção do mesmo estado de coisas do ponto de vista da história dos fatos; por outro lado, fatos cuja alteração se dá lentamente, a longo prazo, podem ser compreendidos por meio de expressões bastante variadas”, escreve Koselleck (2009, p. 114).

Sob a premissa teórica de confrontar e medir permanência e alteração, tendo a última como referência a primeira, a história dos conceitos pesquisa a resistência das teorias do passado à modificação, especialmente, às disjunções entre os antigos significados lexicais referentes a um fato ou circunstâncias não mais existentes, assim como novos significados de uma mesma palavra. Permitindo também, com isso, enxergar significados que não correspondem a nenhuma realidade factual ou ver fatos que transparecem em significados inconscientes ao usuário do conceito. Nas camadas de significado encobertas pelo tempo e pelo uso cotidiano da língua, a história dos conceitos promove uma decifração. No próximo post farei um comentário sobre o ensaio de Koselleck. Clique aqui para ler!

Referências:

KOSELLECK, Reinhart. História dos conceitos e história social. In:______. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2006, p. 97-118.

1 Semasiologia: estudo dos sentidos lingüísticos partindo do significante (palavra) ao significado (coisa).
2 Onomasiologia: estudo das mutações e das diferenças de sentido, partindo do significado ao significante, ou seja, o exercício oposto da semasiologia.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Desconstrução e narrativa em Munslow: repensando o pós-modernismo

Publicada em 2009, no Brasil, a obra Desconstruindo a história, do historiador britânico Alun Munslow, trata-se de uma análise das principais tendências presentes na historiografia contemporânea, tudo isso a partir de uma perspectiva explicitamente “desconstrucionista” – inspirada em Hayden White e Keith Jenkins (com o último, ele edita atualmente a revista Rethinking History). Neste livro, a maior contribuição de Munslow é o mapeamento do debate (anglo-saxônico) sobre a historiografia pós-moderna/pós-modernista e sua diferença com os demais tipos de pesquisa-escrita da história. Destinado a iniciantes e curiosos das “ciências humanas”, o texto abaixo é a apresentação (e as considerações) de alguns pontos percorridos por Munslow.

Pós-modernidade, pós-modernismo

A definição de pós-modernismo feita por Munslow demonstra mais um amadurecimento do modernismo do que uma ruptura com este. É como se a mudança estivesse localizada mais na compreensão sobre o trabalho que a história (enquanto disciplina) realiza do que numa nova proposta à prática de historiar. O “posmodernismo”, escrito sem hífen pelo autor, é um modernismo reavaliado. Na atual “era intelectual”, ele é a consciência da necessidade de uma autocrítica acerca do conhecimento (produzido aparentemente da mesma maneira). Isto quer dizer que, para Munslow, o “posmodernismo” é a condição contemporânea de “adquirirmos conhecimento”. Tal condição é marcada, sobretudo, pelas grandes dúvidas que agora temos em relação à representação exata da realidade. Antes subentendida pela partícula “pós”, a ruptura com a modernidade é então recusada a partir do pressuposto de que “um dos pontos principais acerca da era do modernismo iluminista dos séculos XVII e XVIII, estendendo-se pelos séculos XIX e XX, foi fazer questionamentos sobre como conhecemos o que conhecemos. De modo peculiar, o modernismo talvez estivesse sempre criticando fundamentalmente a si próprio”. Por isso, o autor é tentado a fazer a seguinte indagação: “Terá sido o posmodernismo uma consequência inevitável do modernismo?” (MUNSLOW, 2009, p. 10).

Parece-me então que, de acordo com Munslow, o pós-modernismo designa somente a generalização de uma consciência/prática do conhecimento, propagada a partir dos últimos 30, 40 anos.  No entanto, a maneira como a indagação do último parágrafo é formulada nos diz mais coisas. Ela infere que, a despeito de Munslow reivindicar a contribuição de Foucault, Barthes e Derrida à agenda posmodernista, há uma diferença significativa entre sua perspectiva pós-moderna e as do pós-estruturalismo (Derrida, Barthes, Butler, Lyotard, Agamben, etc.) e da Teoria Francesa contemporânea (Foucault, Deleuze, Rancière), ao passo que caberia construir um inventário das diferenças. Mas ao menos uma delas é cintilante: a descontinuidade. E aqui a descontinuidade pode ser definida não somente como ruptura de época ou criação (e ênfase) de outra temporalidade (um novo começo), mas também como sinônima de incongruência, de não-coincidência, de heterogeneidade das maneiras de ver, sentir e enunciar ainda que dentro de um mesmo espaço e de um mesmo período cronológico. Para ser mais específico, ao contrário dos teóricos citados, Munslow subentende a existência do compartilhamento de um conjunto de impressões, percepções e sentimentos que forma uma “era”, a posmodernista. Não são raras as passagens em que ele enuncia o termo “consciência” para designar essa continuidade. As “tendências” na historiografia são, para ele, três: reconstrucionista, construcionista e desconstrucionista. Mas a “consciência” é uma só. Para o autor, parece uma pena que as duas primeiras ainda dêem pouca ou nenhuma atenção a tal consciência!

Foucault, em suas generalizações, indispensáveis a qualquer exercício intelectual, prefere usar o termo episteme em vez de época – algo ressaltado por Munslow. No entanto, o problema da abordagem de Munslow sobre Foucault, é a desconsideração do tratamento sobre a pluralidade de epistemes numa sociedade e época (FUNARI, 2009, online), atenção cara para se pensar a descontinuidade (e a diferença), ainda que sob uma generalização intelectual. Já Rancière pensa as épocas e as sociedades sendo atravessadas por distintas e mesmo antagônicas linhas de temporalidade, reconectar uma linha a outra, as do presente às do passado, é o que confere a possibilidade da história ser feita, caso contrário tudo seria mais do mesmo, formações ilimitadas de continuidades e consensos. Soma-se a tais ponderações, a teoria rizomática de Deleuze (não há uma raiz única, mas vários rizomas descentralizados), sinalizando uma diferença cabal com o pensamento de causa-consequência, grafado por Munslow quando questiona se o posmodernismo seria uma consequência inevitável do modernismo. A meu ver essa constatação parece menos importante para a história das ideias, que busca filiar autores e perspectivas, e mais para compreendermos que a lógica do posmodernismo não tem tanta diferença ou distância do paradigma que pretende criticar.

A desconstrução

Boa parte do público acadêmico iguala a desconstrução à destruição, entendendo-a como uma característica ou sintoma do niilismo intelectual, esse mal-estar da pós-modernidade; ou, melhor dizendo, esse não-estar da pós-modernidade, já que só declara inexistências, ausências e impossibilidades. No entanto, embora possa ser feito um paralelo discutível com um tipo de niilismo, essa compreensão é enganosa e às vezes rasteira. Desconstrução não é destruição, tampouco “fim da história”. E também não significa que a escrita da história não possa ser realizada para nos informar sobre o passado e o mundo. Em Munslow, a desconstrução é uma maneira de refletir sobre o trabalho historiográfico, sobre o processo de transformação de evidências e informações do passado em história, questionando além do que o método histórico, também a capacidade dos historiadores reconstruírem e explicarem objetivamente o passado inferindo fatos das evidências.

Ainda nesta linha, o desconstrucionismo é para Munslow um adjetivo para demarcar a diferença de sua concepção de história a dos reconstrucionistas/construcionistas (empiristas). Apesar de parecer concordar em certos aspectos com os empiristas, ao postular que, sob todo o processo de pesquisa, a história não é absolutamente idêntica a qualquer atividade literária, o autor afirma que: “a natureza genuína da história só pode ser compreendida quando ela é vista não apenas e simplesmente como um empreendimento empirista objetivo, mas como uma criação, e eventual imposição, por parte dos historiadores de uma forma narrativa particular sobre o passado: um processo que afeta diretamente todo o projeto, não simplesmente a escrita. Essa compreensão, por conveniência, eu a chamarei de consciência desconstrutiva” (MUNSLOW, 2009, p. 11).

Esta passagem demonstra que a desconstrução em Munslow está muito mais próxima ao trabalho de Hayden White do que do inventor do conceito filosófico de desconstrução, Jacques Derrida [seria necessário outro post para explicar o conceito neste filósofo]. Para White, as histórias não pré-existem como uma estória contada pelas pessoas no passado para explicarem suas vidas e a si mesmas, mas estas são impostas do presente por muitos motivos: explanatórios, políticos, ideológicos. Em sua obra mais famosa, Metahistória, White (1995) constrói um quadro para explicar como os historiadores do século 19 se utilizavam de um conjunto de recursos linguísticos (como metáforas) para enquadrar suas histórias em gêneros literários – romântico, trágico, cômico ou satírico.

Narrativa e (d)eficiências da linguagem

A “consciência desconstrutiva” não só define a história como uma narrativa escrita, produto fabricado pelos historiadores, mas também radicaliza expressando que a narrativa proporciona o modelo textual para o próprio passado. Isto é, a história é uma invenção literária que o presente impõe ao passado através dos recursos técnicos e literários que dispõe. Por isso, cabe aqui atentar-se para o conceito de narrativa que, segundo Munslow, é uma forma de posicionamento dos conteúdos explicativos como eventos em uma ordem seqüencial, de modo semelhante quando contamos um acontecimento a alguém. Para o autor não interessa os aparatos técnicos que a história pega emprestado das ciências sociais ou a capacidade de explicação do passado através da narrativa, nem “o passado tal qual aconteceu”, mas tão somente a realidade do passado como um relato escrito. Ao pensar que frequentemente os historiadores estão lendo uns aos outros, chega à conclusão de que “a história não é o estudo das mudanças através do tempo por si, mas o estudo das informações produzidas pelos historiadores ao se lançarem nessa tarefa”. Neste sentido, o trabalho do historiador numa era pós-moderna, seria não o de começar pelo passado, mas pelas representações do passado, tendo em vista que somente assim seria desafiada “a crença de que há uma verdade sobre a realidade do passado a ser descoberta e possível de ser precisamente representada” (MUNSLOW, 2009, p. 12).

Tal formulação é desenvolvida na medida em que partilha de concepções do estruturalismo e do pós-estruturalismo. Do primeiro (em Saussure) porque revela inicialmente que não há uma relação natural entre linguagem e mundo. Qualquer palavra que usamos como referência para descrever as coisas é produto de convenções sociais mais ou menos arbitrárias. Não há, por isso, uma correspondência diacrônica, tampouco metafísica da palavra a coisa. O significante (a palavra) e o significado (o conceito que a palavra representa) estão relacionados de maneira arbitrária e formam signos socialmente convencionados. Em um sistema fechado, os signos são compreendidos por oposição ou semelhança a outros. Por isso, a crítica literária estruturalista isola o texto do contexto para compreender o significado de seus enunciados em relação a outros enunciados presentes ali no próprio texto. “Se o estruturalismo reconhece a importância da linguagem, os pós-estruturalistas, por sua vez, reconhecem suas limitações como um meio de compreensão. Aceitar a natureza elusiva do texto como cheio de lacunas, silêncios e incertezas de significados – aberto e repleto de significantes – sugere que a interpretação histórica dos textos, bem como o criticismo literário, são necessariamente indeterminados e suas leituras mais ou menos inadequadas. Isso não significa, obviamente, que toda leitura é tão boa quanto qualquer outra; isso simplesmente significa que não há interpretações definitivas. E, certamente, isso não impede que as pessoas (incluindo os historiadores) busquem sentido para o mundo cotidiano, ainda que os signos sejam arbitrários” (MUNSLOW, 2009, p. 46).

Concordo totalmente com esta passagem da leitura do estruturalismo e do pós-estruturalismo realizada por Munslow. Creio que esta seja uma das qualidades de seu trabalho, explicando de maneira concisa discussões que muitos ainda tropeçam para entender. No entanto, há outra diferença no modo de utilização desta descoberta da “(in)correspondência” entre as palavras e as coisas. Pois, ao asseverar sobre a indeterminação de significante-significado na teoria linguística, o pós-estruturalismo e a Teoria Francesa não negam a existência de verdade, mas as pluraliza. Verdades existem e são construções culturais de um dado tempo e espaço, permeadas por interesses de todos os tipos, relacionadas aos jogos de poder (dominação, negociação e resistência) particulares a cada sociedade e, por isso, provisórias. Um só significante pode apontar para vários, diferentes e antagônicos significados. Mas isto não torna impossível construir narrativas verdadeiras como explanações históricas sobre o passado – algo que Munslow acaba afirmando em determinados trechos, como no que escreve o seguinte: “devemos estar mais abertos à possibilidade de não haver significado, bem como ao caráter sublime do passado” (2009, p. 15). Aqui sim o “posmodernismo” de Munslow se aproxima do niilismo na medida em que ao perceber a impossibilidade de encontrar “a verdade única”, declara que nenhuma existe e sequer pode ser construída, criada ou inventada. Só restando, a nós, falar sobre a continuidade da inexistência.

Referências:

FUNARI, Pedro P. Desconstruindo a história: resenha. História e-História, Resenhas, online, 23 dez., 2009.
MUNSLOW, Alun. Desconstruindo a história. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
WHITE, Hayden. Metahistória: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: Edusp, 1995.
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