segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Desconstrução e narrativa em Munslow: repensando o pós-modernismo

Publicada em 2009, no Brasil, a obra Desconstruindo a história, do historiador britânico Alun Munslow, trata-se de uma análise das principais tendências presentes na historiografia contemporânea, tudo isso a partir de uma perspectiva explicitamente “desconstrucionista” – inspirada em Hayden White e Keith Jenkins (com o último, ele edita atualmente a revista Rethinking History). Neste livro, a maior contribuição de Munslow é o mapeamento do debate (anglo-saxônico) sobre a historiografia pós-moderna/pós-modernista e sua diferença com os demais tipos de pesquisa-escrita da história. Destinado a iniciantes e curiosos das “ciências humanas”, o texto abaixo é a apresentação (e as considerações) de alguns pontos percorridos por Munslow.

Pós-modernidade, pós-modernismo

A definição de pós-modernismo feita por Munslow demonstra mais um amadurecimento do modernismo do que uma ruptura com este. É como se a mudança estivesse localizada mais na compreensão sobre o trabalho que a história (enquanto disciplina) realiza do que numa nova proposta à prática de historiar. O “posmodernismo”, escrito sem hífen pelo autor, é um modernismo reavaliado. Na atual “era intelectual”, ele é a consciência da necessidade de uma autocrítica acerca do conhecimento (produzido aparentemente da mesma maneira). Isto quer dizer que, para Munslow, o “posmodernismo” é a condição contemporânea de “adquirirmos conhecimento”. Tal condição é marcada, sobretudo, pelas grandes dúvidas que agora temos em relação à representação exata da realidade. Antes subentendida pela partícula “pós”, a ruptura com a modernidade é então recusada a partir do pressuposto de que “um dos pontos principais acerca da era do modernismo iluminista dos séculos XVII e XVIII, estendendo-se pelos séculos XIX e XX, foi fazer questionamentos sobre como conhecemos o que conhecemos. De modo peculiar, o modernismo talvez estivesse sempre criticando fundamentalmente a si próprio”. Por isso, o autor é tentado a fazer a seguinte indagação: “Terá sido o posmodernismo uma consequência inevitável do modernismo?” (MUNSLOW, 2009, p. 10).

Parece-me então que, de acordo com Munslow, o pós-modernismo designa somente a generalização de uma consciência/prática do conhecimento, propagada a partir dos últimos 30, 40 anos.  No entanto, a maneira como a indagação do último parágrafo é formulada nos diz mais coisas. Ela infere que, a despeito de Munslow reivindicar a contribuição de Foucault, Barthes e Derrida à agenda posmodernista, há uma diferença significativa entre sua perspectiva pós-moderna e as do pós-estruturalismo (Derrida, Barthes, Butler, Lyotard, Agamben, etc.) e da Teoria Francesa contemporânea (Foucault, Deleuze, Rancière), ao passo que caberia construir um inventário das diferenças. Mas ao menos uma delas é cintilante: a descontinuidade. E aqui a descontinuidade pode ser definida não somente como ruptura de época ou criação (e ênfase) de outra temporalidade (um novo começo), mas também como sinônima de incongruência, de não-coincidência, de heterogeneidade das maneiras de ver, sentir e enunciar ainda que dentro de um mesmo espaço e de um mesmo período cronológico. Para ser mais específico, ao contrário dos teóricos citados, Munslow subentende a existência do compartilhamento de um conjunto de impressões, percepções e sentimentos que forma uma “era”, a posmodernista. Não são raras as passagens em que ele enuncia o termo “consciência” para designar essa continuidade. As “tendências” na historiografia são, para ele, três: reconstrucionista, construcionista e desconstrucionista. Mas a “consciência” é uma só. Para o autor, parece uma pena que as duas primeiras ainda dêem pouca ou nenhuma atenção a tal consciência!

Foucault, em suas generalizações, indispensáveis a qualquer exercício intelectual, prefere usar o termo episteme em vez de época – algo ressaltado por Munslow. No entanto, o problema da abordagem de Munslow sobre Foucault, é a desconsideração do tratamento sobre a pluralidade de epistemes numa sociedade e época (FUNARI, 2009, online), atenção cara para se pensar a descontinuidade (e a diferença), ainda que sob uma generalização intelectual. Já Rancière pensa as épocas e as sociedades sendo atravessadas por distintas e mesmo antagônicas linhas de temporalidade, reconectar uma linha a outra, as do presente às do passado, é o que confere a possibilidade da história ser feita, caso contrário tudo seria mais do mesmo, formações ilimitadas de continuidades e consensos. Soma-se a tais ponderações, a teoria rizomática de Deleuze (não há uma raiz única, mas vários rizomas descentralizados), sinalizando uma diferença cabal com o pensamento de causa-consequência, grafado por Munslow quando questiona se o posmodernismo seria uma consequência inevitável do modernismo. A meu ver essa constatação parece menos importante para a história das ideias, que busca filiar autores e perspectivas, e mais para compreendermos que a lógica do posmodernismo não tem tanta diferença ou distância do paradigma que pretende criticar.

A desconstrução

Boa parte do público acadêmico iguala a desconstrução à destruição, entendendo-a como uma característica ou sintoma do niilismo intelectual, esse mal-estar da pós-modernidade; ou, melhor dizendo, esse não-estar da pós-modernidade, já que só declara inexistências, ausências e impossibilidades. No entanto, embora possa ser feito um paralelo discutível com um tipo de niilismo, essa compreensão é enganosa e às vezes rasteira. Desconstrução não é destruição, tampouco “fim da história”. E também não significa que a escrita da história não possa ser realizada para nos informar sobre o passado e o mundo. Em Munslow, a desconstrução é uma maneira de refletir sobre o trabalho historiográfico, sobre o processo de transformação de evidências e informações do passado em história, questionando além do que o método histórico, também a capacidade dos historiadores reconstruírem e explicarem objetivamente o passado inferindo fatos das evidências.

Ainda nesta linha, o desconstrucionismo é para Munslow um adjetivo para demarcar a diferença de sua concepção de história a dos reconstrucionistas/construcionistas (empiristas). Apesar de parecer concordar em certos aspectos com os empiristas, ao postular que, sob todo o processo de pesquisa, a história não é absolutamente idêntica a qualquer atividade literária, o autor afirma que: “a natureza genuína da história só pode ser compreendida quando ela é vista não apenas e simplesmente como um empreendimento empirista objetivo, mas como uma criação, e eventual imposição, por parte dos historiadores de uma forma narrativa particular sobre o passado: um processo que afeta diretamente todo o projeto, não simplesmente a escrita. Essa compreensão, por conveniência, eu a chamarei de consciência desconstrutiva” (MUNSLOW, 2009, p. 11).

Esta passagem demonstra que a desconstrução em Munslow está muito mais próxima ao trabalho de Hayden White do que do inventor do conceito filosófico de desconstrução, Jacques Derrida [seria necessário outro post para explicar o conceito neste filósofo]. Para White, as histórias não pré-existem como uma estória contada pelas pessoas no passado para explicarem suas vidas e a si mesmas, mas estas são impostas do presente por muitos motivos: explanatórios, políticos, ideológicos. Em sua obra mais famosa, Metahistória, White (1995) constrói um quadro para explicar como os historiadores do século 19 se utilizavam de um conjunto de recursos linguísticos (como metáforas) para enquadrar suas histórias em gêneros literários – romântico, trágico, cômico ou satírico.

Narrativa e (d)eficiências da linguagem

A “consciência desconstrutiva” não só define a história como uma narrativa escrita, produto fabricado pelos historiadores, mas também radicaliza expressando que a narrativa proporciona o modelo textual para o próprio passado. Isto é, a história é uma invenção literária que o presente impõe ao passado através dos recursos técnicos e literários que dispõe. Por isso, cabe aqui atentar-se para o conceito de narrativa que, segundo Munslow, é uma forma de posicionamento dos conteúdos explicativos como eventos em uma ordem seqüencial, de modo semelhante quando contamos um acontecimento a alguém. Para o autor não interessa os aparatos técnicos que a história pega emprestado das ciências sociais ou a capacidade de explicação do passado através da narrativa, nem “o passado tal qual aconteceu”, mas tão somente a realidade do passado como um relato escrito. Ao pensar que frequentemente os historiadores estão lendo uns aos outros, chega à conclusão de que “a história não é o estudo das mudanças através do tempo por si, mas o estudo das informações produzidas pelos historiadores ao se lançarem nessa tarefa”. Neste sentido, o trabalho do historiador numa era pós-moderna, seria não o de começar pelo passado, mas pelas representações do passado, tendo em vista que somente assim seria desafiada “a crença de que há uma verdade sobre a realidade do passado a ser descoberta e possível de ser precisamente representada” (MUNSLOW, 2009, p. 12).

Tal formulação é desenvolvida na medida em que partilha de concepções do estruturalismo e do pós-estruturalismo. Do primeiro (em Saussure) porque revela inicialmente que não há uma relação natural entre linguagem e mundo. Qualquer palavra que usamos como referência para descrever as coisas é produto de convenções sociais mais ou menos arbitrárias. Não há, por isso, uma correspondência diacrônica, tampouco metafísica da palavra a coisa. O significante (a palavra) e o significado (o conceito que a palavra representa) estão relacionados de maneira arbitrária e formam signos socialmente convencionados. Em um sistema fechado, os signos são compreendidos por oposição ou semelhança a outros. Por isso, a crítica literária estruturalista isola o texto do contexto para compreender o significado de seus enunciados em relação a outros enunciados presentes ali no próprio texto. “Se o estruturalismo reconhece a importância da linguagem, os pós-estruturalistas, por sua vez, reconhecem suas limitações como um meio de compreensão. Aceitar a natureza elusiva do texto como cheio de lacunas, silêncios e incertezas de significados – aberto e repleto de significantes – sugere que a interpretação histórica dos textos, bem como o criticismo literário, são necessariamente indeterminados e suas leituras mais ou menos inadequadas. Isso não significa, obviamente, que toda leitura é tão boa quanto qualquer outra; isso simplesmente significa que não há interpretações definitivas. E, certamente, isso não impede que as pessoas (incluindo os historiadores) busquem sentido para o mundo cotidiano, ainda que os signos sejam arbitrários” (MUNSLOW, 2009, p. 46).

Concordo totalmente com esta passagem da leitura do estruturalismo e do pós-estruturalismo realizada por Munslow. Creio que esta seja uma das qualidades de seu trabalho, explicando de maneira concisa discussões que muitos ainda tropeçam para entender. No entanto, há outra diferença no modo de utilização desta descoberta da “(in)correspondência” entre as palavras e as coisas. Pois, ao asseverar sobre a indeterminação de significante-significado na teoria linguística, o pós-estruturalismo e a Teoria Francesa não negam a existência de verdade, mas as pluraliza. Verdades existem e são construções culturais de um dado tempo e espaço, permeadas por interesses de todos os tipos, relacionadas aos jogos de poder (dominação, negociação e resistência) particulares a cada sociedade e, por isso, provisórias. Um só significante pode apontar para vários, diferentes e antagônicos significados. Mas isto não torna impossível construir narrativas verdadeiras como explanações históricas sobre o passado – algo que Munslow acaba afirmando em determinados trechos, como no que escreve o seguinte: “devemos estar mais abertos à possibilidade de não haver significado, bem como ao caráter sublime do passado” (2009, p. 15). Aqui sim o “posmodernismo” de Munslow se aproxima do niilismo na medida em que ao perceber a impossibilidade de encontrar “a verdade única”, declara que nenhuma existe e sequer pode ser construída, criada ou inventada. Só restando, a nós, falar sobre a continuidade da inexistência.

Referências:

FUNARI, Pedro P. Desconstruindo a história: resenha. História e-História, Resenhas, online, 23 dez., 2009.
MUNSLOW, Alun. Desconstruindo a história. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
WHITE, Hayden. Metahistória: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: Edusp, 1995.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Arqueologia do saber histórico: Rancière e a “geografização do sentido”

"As cartas de amor nunca falam de amor".
 Jacques Rancière


O texto a seguir trata-se de uma resenha da arqueologia feita por Jacques Rancière (1995) sobre a narrativa historiográfica da “Nova História”, a partir do livro O Mediterrâneo, de Braudel. A análise crítica de Rancière passa sobretudo por Hobbes e Michelet e é de uma densidade que qualquer resenha ou resumo deixaria a desejar. Posto isso, o que escrevo aqui tem apenas o intuito de apresentar as principais questões e levá-los à leitura do autor.

Em O Mediterrâneo, depois de mais de mil páginas de texto, Braudel no “fim” da narrativa nos conta um acontecimento que não contara em seu “meio”: a morte do rei Filipe II. A razão para o historiador não contá-lo em “seu lugar” é a mesma de falar dele agora, no final, “fora de lugar”. Ou seja, no “não-lugar”, que passa a ser o gênero do acontecimento. Isto faz parte do programa da “Nova História” identificada aos Annales: “a morte deslocada de Filipe metaforiza a morte de uma certa história, a dos acontecimentos e dos reis” (p. 205) . A morte do rei não é mais um acontecimento, pois “eles” morreram como força da história. Ainda assim, é preciso que o historiador conte esse “não-acontecimento”, a morte do rei. Não exatamente o rei “tornar-se-cadáver”, mas o rei “tornar-se-mudo”. A cena não é de um rei em seu leito de morte, mas de “um rei sentado no trono ou em seu escritório. Ali ele é condenado à morte, persuadido de não falar, de não ter nada a dizer. Morto como a letra, mudo como o quadro a cuja solenidade tola o Fedro [de Platão] opunha ao discurso vivo” (p. 206). Esse mutismo do rei é a condição para o historiador entrar em cena, de ser recebido ao lado de um personagem que Lucien Febvre combateu: “o embaixador, o homem dos relatórios diplomáticos que eram o tesouro da velha história, a história-crônica”.

Braudel retrata o rei, diante da mesa de seu escritório, como aquele sujeito que tem por tarefa uma sucessão de detalhes, escrevendo relatórios de acontecimentos das cortes e humores dos reis. Assim, de maneira nada humilde, Braudel escreve: “Não é um homem de grandes ideias. [...] Jamais traçou em sua pena ideias gerais ou grandes planos. Não creio que a palavra Mediterrâneo tenha algum dia passado por sua cabeça com o conteúdo que nós lhe concedemos, tampouco fez surgir nossas imagens habituais de luz e de água azul” (apud p. 207). Rancière aponta que as mesmas considerações (ao rei) poderiam ser dirigidas aos historiadores da “velha história”, a Seignobos ou qualquer outro saco de pancadas dos Annales. As assertivas de Braudel marcam um deslocamento da história dos reis para a do “mar”, isto é, para a história da civilização material, dos espaços de vida, das longas durações e da vida das massas. “No entanto, dois elementos vêm complicar essa cena de adeus [à “velha história”] e transformá-la num quebra-cabeça ao qual faltam algumas peças” (p. 207).

Braudel escreve: “No século XVI, depois da verdadeira Renascença, virá a renascença dos pobres, dos humildes, obstinados em escrever, em se contar, em falar dos outros. Essa preciosa papelada é bastante deformadora, ela invade o tempo perdido, toma nele um lugar fora da verdade. É para um mundo bizarro, ao qual faltaria uma dimensão, que o historiador, leitor dos papeis de Filipe II, sentado em seu lugar, será transportado” (apud p. 207-8). Vê-se aqui que não se trata apenas do discurso da ciência historiadora contra a crônica dos príncipes e dos embaixadores. Entre o rei e o historiador, há a papelada dos pobres. Como compreender a presença dela na mesa do rei, sua relação com o mutismo e a ‘morte’ do rei e com a cientificidade e não-cientificidade da história? É o que Rancière empreende nessa arqueologia de discursos e de práticas historiográficas.

A hipótese de Rancière é a de que a “morte do rei” (na História) se deu porque ele era um produtor de papéis, quer dizer, porque a papelada dos pobres acumulava-se em sua mesa. Sua morte faz parte de um projeto político e científico para garantir o controle das palavras e das coisas. Em último, um problema de governo que precisa ser resolvido. Pois o excesso de palavras é uma das causas de desordem nos saberes e nos seres. Para quem ainda não captou, Rancière está aqui questionando a constituição deste saber-poder a partir de sua base autoritária (pois antidemocrática), porém frágil. Tais fundamentos se alastraram por toda a tradição filosófica que constitui os saberes modernos de diferentes perspectivas e áreas: ciências humanas em geral; hermenêutica, marxismo, estruturalismo, Annales, “nova história”. No entanto, a conceituação filosófica da “morte do rei” enquanto produtor de papelada só foi acontecer um século e meio após a morte de Filipe II, pela pena de Thomas Hobbes.

Em dois capítulos, um em Leviatã e outro em Do cidadão, Hobbes aponta uma causa de doença no corpo político. Mas essa “doença” não se cura ao passar simplesmente de um regime para o outro, do pior para o melhor. Ela é mais profunda! Trata-se de uma questão de vida ou morte para o corpo político, sua conservação ou sua dissolução. Que doença é essa? “...as causas de morte para o corpo político não são mais conflitos de classes ou desequilíbrios na repartição dos poderes. São antes opiniões, questões de palavra e de frases. O corpo político é ameaçado por palavras e frases que se ouvem aqui e ali, em qualquer parte, por exemplo, ‘deve-se escutar mais a voz da consciência do que a da autoridade’, ou ainda, ‘é justo acabar com os tiranos’, frases de pregadores interessados que encontram em demasia ouvidos complacentes. A doença da política é a doença das palavras. Há palavras demais, palavras que nada designam a não ser, precisamente, alvos contra os quais elas armam o braço do assassino” (p. 208). Essas palavras são problemáticas ao controle político na medida em que não há um referente “objetivo” e “particularizado” na realidade para a qual elas pretendem apontar. São nomes que não são nomes de ninguém, nem de coisa alguma. No entanto, é esta condição que permite que elas possam ser aplicadas a qualquer um. Por exemplo, as palavras “déspota” e “tirano” não designam necessariamente um ser, mas estão aí para serem encaixadas ao uso de quem deseja e dos que concordam. Eu diria que atualmente a palavra “fascista” tem servido a esta função por parte da esquerda, ao passo que a palavra “comunista” à direita. Na época de Hobbes, cumpriam o papel de tornar possível o uso de tais palavras (1º) os “homens do verbo encarnado”, pessoas que encontravam no livro da fé profecias tanto para acusar de “tiranos ou déspotas” aqueles que se opunham a expansão de sua religião, como para recrutar os simples; e (2º) os textos que davam vida e consistência à figura do déspota, são textos antigos com histórias de déspotas, com teorias de tirania e de desgraça e poemas em honra aos matadores de reis.

A revolução moderna é antes a revolução dos filhos do Livro, é a condição pela qual o verbo encarnado faz aparecer a liberdade e o despotismo, e engendra a utopia: o que para Hobbes é o mal político; isto é a proliferação dos nomes que matam porque são mal empregados, empregados por pessoas que não deveriam manejá-los. Desordem política gerada pela desordem do saber! A saída para Hobbes é a aliança entre o ponto de vista da ciência e o do lugar real, chamado de “real-empirismo” por Rancière. O “real-empirismo” vai nutrir todo um saber social, o mesmo que aparece na primeira crítica aos “Direitos do homem” feita por Edmund Burke que os chama de “direitos metafísicos”. É colocado em xeque assim a (in)consistência das palavras, há uma caça de palavras idênticas que dizem coisas diferentes (diábolos), ou palavras que não dizem coisa alguma – como se palavras e coisas já estivessem coladas desde os seus nascimentos! Esta tradição filosófica continua viva hoje através do “revisionismo” da Revolução Francesa, por exemplo, quando se denuncia a inadequação das palavras revolucionárias. Então, com esta ciência social pode-se fazer uma limpeza da papelada através da seguinte fórmula: “nada do que aconteceu se assemelha ao que foi dito. Donde a consequência pode ser facilmente deduzida: não aconteceu absolutamente nada”, o que aconteceu foi somente um engano ou um crime de fazerem forçosamente, com palavras e metafísica, uma coisa ser o que não foi.

Deste modo, “estão fundadas a equivalência epistemológica e a intermutabilidade política de dois argumentos [que alimentam o revisionismo da Revolução Francesa]. O primeiro diz que não houve Revolução Francesa, já que a centralização política da nação já tinha sido operada pelos reis e que as relações de propriedade não sofreram mudanças. O segundo diz que ela não foi senão o abismo do Terror, onde, de antemão, toda a época das revoluções e dos socialismos modernos se afundou. O problema é que a história também está ameaçada de se afundar nesse abismo. Pois a sina da história como figura discursiva está ligada a esse mínimo: que alguma coisa às vezes aconteça” (p. 212). O real-empirismo levado às últimas consequências anula o objeto da história, o acontecimento -- como sinônimo de mudança, de novidade, de dissenso, de discussão sobre a (não) relação entre palavras e coisas. No real-empirismo tudo está definido já de antemão. A história, portanto, não pode tomá-lo totalmente como seu modelo de saber. E o que ela fará então para dar conta do problema do excesso das palavras, das palavras que falam demais e que apontam para lugares múltiplos ou para lugar nenhum? É Michelet, historiador do século 19, quem cria uma terceira via que escapa do falatório da papelada e do “real-empirismo” que anula o acontecimento.

O acontecimento da Revolução Francesa para Michelet não é a queda da Bastilha ou a Era do Terror, mas a festa da federação. Não é a morte regicida, mas a morte republicana do rei que distribui seus atributos de “soberania” para o corpo da nação, para o povo. Na festa da federação aparece o sentido forte da revolução, o novo objeto de amor, a pátria. Como falar desse acontecimento? Michelet diz que a maioria das federações contou sua própria história. Então intuímos que as cartas de amor à pátria, encontradas na festa da federação, vão testemunhar. Porém, o leitor que espera que Michelet dê uma amostra do conteúdo das cartas se decepciona. Ele não deixa a papelada falar! As cartas só falam na condição de testemunhas mudas. É que para conciliar a anarquia democrática das vozes presentes na papelada dos pobres e o autoritarismo do real-empirismo que suprime as vozes, o saber histórico-democrático de Michelet usa duas operações. Primeiro, ele faz o leitor ver as cartas, conta sobre seus detalhes “exteriores”, as fitas tricolores, o papel, a escrita ornada, e mostra-se lendo-as, confirmando a materialidade e, logo, a existência delas. Segundo, ele diz o que elas dizem, não literalmente, não as deixando falarem por si mesmas, porém, diz o poder delas, o amor à pátria. Sua importância é a potência de sentido delas e não o que está escrito. O sentido ali não está no conteúdo enunciado pelos escritores, mas nas cidades, nos lugares, nos hábitos, nas “coisas”. Isto porque, para Michelet, os que vivem não sabem o que é a vida, os que falam não sabem o que falam. Quer dizer, só existe ciência do escondido, do silêncio, da testemunha muda, da reserva de sentido. Aqui, para garantir a cientifização da história, o historiador fecha a porta para a literatura, para as palavras que remetem a outras palavras, e, assim, inscreve as palavras (das cartas) nas coisas (materiais). Mas aí quem fala não são as palavras, mas as coisas. A testemunha muda, fala como muda, e empresta sua voz ao que nunca falou. Para se constituir como ciência, a história empreende uma auto-anulação da literatura.

A questão dos sujeitos viverem e não saberem o que é a vida e de falarem e não saberem o que dizem, passa por uma “teoria das relações entre o sujeito, o saber, a palavra e a morte que se dá na forma de relato”. Relato este que o historiador construiu para falar do acontecimento da festa da federação como marco da Revolução Francesa e do sentido inscrito nas cartas de amor à pátria. Este relato que depende de uma testemunha muda (as cartas, os sujeitos) e seu intérprete (o historiador, aquele que diz qual é seu sentido), supõe uma certa ideia de psicanálise. É assim que Michelet define o historiador, como um Édipo. Um Édipo particular, não o decifrador do segredo que o leva a cegar-se. Mas o decifrador do enigma que matou os outros por estes não terem sabido decifrá-lo. Um libertador da maternidade de sentido. Aquele que entrega os filhos às suas mães ao desvendar seus inconscientes. Acalmar o tumulto das vozes (da papelada) que gera a desordem política e do saber é acalmar a morte. “Acalmar os mortos, reconduzir ao túmulo aqueles que morreram por não saber o que toda vida ignora – a voz que nela fala – é necessariamente a obra de alguém que deve ter ele próprio passado pela morte, esse rio que o historiador nos diz ter tantas vezes atravessado e reatravessado em prol daqueles que dizem ‘aceitamos a morte em troca de uma linha sua’” (p. 218).

Deste modo, a superioridade da história erudita sobre crônica da “velha história”, é que a primeira enfrenta a morte. A ausência de seu objeto (já morto e pronto para ser reconciliado consigo mesmo) é a condição de sua existência, de sua ciência, a ciência do escondido. Paradoxalmente, tudo fala, mas o único que diz alguma coisa é o mudo. Michelet é o pai da “Nova História”, duplamente da história da civilização material e da história das mentalidades. Pois o que fala é mundo dos objetos e dos instrumentos, das trocas comerciais, das práticas do cotidiano, dos usos do corpo e das condutas simbólicas. Há aqui um deslocamento do corpo, aquilo que não fala é o que vai dizer, um discurso proferido por coisas, “a cidade fala”, “as pedras choram”, “o oceano se emociona”. “O lado da verdade é aquele onde as palavras não estão escritas no papel ou no vento, e sim gravadas na textura das coisas”. Graças a Michelet haverá uma geografização do sentido, usada por Fernand Braudel, na qual o mar e a terra darão o sentido da história, não mais os acontecimentos. Em Michelet, a “morte do rei” dá lugar à pátria, ao povo, mas trata-se de um povo geografizado, calado.

Em Braudel, o rei dá lugar ao mar. O mar como um espaço material e um espaço de discurso, coincidindo coisas e palavras. A revolução epistêmica da história acontece na medida em que há uma desconsideração da literatura, do rei e de sua papelada em prol da geografização do sentido. Mas o rei não morreu, tornou-se mudo, tornou-se mar. Na longuíssima duração das profundezas abissais da história, só um livro agora tem sentido. O livro do mar. O Mediterrâneo.  

Referências:

RANCIÈRE, Jacques. As palavras da história. In:______. Políticas da escrita. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995, p. 216-218.

Recomendações:

BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo: e o mundo mediterrânico. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
HOBBES, Thomas. Do cidadão. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
MICHELET, Julles. História da Revolução Francesa: da queda da Bastilha à festa da federação. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Palestina contemporânea em três filmes

Este post é bem simples. Quero compartilhar com vocês a indicação de três filmes que assisti recentemente e que considero interessantes para conhecer e pensar as questões políticas ligadas ao conflito Palestina-Israel a partir do século 20; sobretudo para serem trabalhadas em sala de aula. Obviamente, isso deve ser feito através dos aparatos técnicos e teóricos de cada disciplina para estabelecer a crítica fílmica. No texto que se segue não farei uma análise das três obras cinematográficas, apenas uma apresentação dos enredos e algumas questões que podem ser suscitadas por cada um deles. Feito isso, compartilharei links para baixá-los via torrent.

[1º] Ocupação 101: a voz silenciada da maioria (Occupation 101)

“O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância... é a ilusão do conhecimento”. É com esta frase do físico Stephen Hawking que este documentário produzido em 2006 nos Estados Unidos se inicia. O filme procura fazer uma abordagem histórica do conflito no território a partir do sionismo do final do século 19, que seria então uma forma de resposta ao repúdio que os judeus sofriam em toda a Europa antes mesmo do Holocausto. Defendendo a ideia de que o lugar era densamente ocupado por palestinos e não se tratava de uma terra devoluta, como algumas posições antipalestinas advogam, a obra almeja demonstrar que havia um acordo após a Segunda Guerra Mundial para a constituição de dois Estados: um israelense e outro palestino. No entanto, embora a população fosse majoritariamente palestina, o projeto fronteiriço recortava uma parte maior destinada à criação do Estado de Israel que, por sua vez, obteve também o solo mais produtivo.

A isto se seguiu uma ocupação forçada das cidades tidas como dentro do território israelense. Pessoas foram retiradas de suas casas através da violência do aparato bélico de Israel. É a partir daí que começarão os conflitos que assistimos hoje entre israelenses e palestinos, entre judeus e árabes, naquela terra. E não como a visão hegemônica costuma entender, dizendo que sempre existiu essa “guerra” ou que ela dura mais de dois mil anos. Por meio de entrevistas com intelectuais (como Noam Chomsky) e de depoimentos de testemunhas, o documentário afirma que, antes da ocupação forçada, árabes e judeus conviviam pacificamente na Palestina. Outra questão interessante alçada pela obra refere-se aos lobbies políticos que os judeus possuem com o governo dos EUA, financiando campanhas eleitorais e se beneficiando do acordo entre empresas judias e políticos estadunidenses. Aspecto este retratado também numa recente série de sucesso na terra do Tio Sam, chamada House of Cards.

Não encontrei o trailer do filme com legendas em português, por isso deixarei abaixo um trecho do filme legendado. Nesta cena se destaca as crianças como personagens do conflito e a maneira como este as afeta psicológica e fisicamente.
 
Link para baixar o filme completo via torrent: clique aqui!

Outra possibilidade é assistir o filme através do YouTube. Porém, ele se encontra fragmentado em nove partes. Segue aqui a primeira:

[2º] Cinco câmeras quebradas (Five broken câmeras, 2011)

Este documentário singular, em todos os sentidos, foi gravado por um camponês palestino, Emad Burnat, em 2005, ano em que houve a construção de um muro (como tantos outros) numa cidade na região da Cisjordânia com a justificativa de proteção, porém com o intuito de ocupação de terras palestinas pelos colonos judeus. A produção que concorreu ao Oscar 2013, como melhor documentário estrangeiro, narra e vivencia o cotidiano dos diversos conflitos, imposições e resistências na cidade de Bil’in. As cinco câmeras quebradas as quais o título do filme se refere são os aparelhos de filmagem utilizados por Emad e que são destruídos pelas mãos ou por balas dos soldados israelenses durante os conflitos que ele gravou. O que me chamou atenção na obra foi a ligação da família palestina com o Brasil, afora as crianças vestidas com uniforme da seleção brasileira de futebol, há também bandeiras do Brasil na porta da casa de Emad e em uma de suas câmeras. No filme diz que durante algum tempo, sua esposa, Soraya, morou no Brasil. Outro fato curioso, externo à produção em si, foi a breve detenção de Emad e de sua família no aeroporto estadunidense quando aportaram em Los Angeles para a festa de premiação do Oscar deste ano. Michael Moore foi quem mediou a liberação de Emad. “Parece que eles não conseguiam entender como um palestino podia ter sido indicado ao Oscar”, afirmou Moore. Vejam a notícia completa e uma apresentação mais detalhada do filme no Brasil de Fato.

Trailer do filme com legendas em inglês (não achei em português):



Link para baixar o filme completo via torrent: clique aqui!

Cabe aqui também apresentar as importantes intervenções feitas pelo um grupo anarquista, formado por israelenses, conhecido como “Anarquistas Contra o Muro”. Esta organização luta em favor da derrubada dos muros em construção ou já construídos pelo governo israelense, pois entendem que estes são dispositivos de um Apartheid que cerceia a liberdade dos palestinos. Para saberem mais deixo alguns links:

Site da organização (em inglês).
Apresentação do grupo pelo Wikipedia.

[3º] O limoeiro (Lemon Tree, 2008)

Dirigido pelo israelense Eran Riklin, O limoeiro, diferentemente dos outros dois filmes mencionados, não se trata de um documentário, mas de uma narrativa representada por atores profissionais, baseada em acontecimentos reais. Sem dúvida é um dos filmes mais doces e singelos que já assisti. A trama se inicia quando o Ministro da Defesa israelense muda-se para a fronteira entre Israel e Cisjordânia (o lado oeste do rio Jordão). Sua vizinha Salma Zidane é uma viúva palestina que mora sozinha e possui uma humilde plantação de limão, da qual retira sua renda. Os governantes israelenses então entendem que a plantação representa um perigo a suas integridades, alegando que ela poderia ser usada como esconderijo para ataques terroristas. E decidem através da lei destruir as árvores da sra. Zidane. Daí segue-se um longo litígio que repercute internacionalmente. O interessante no filme é perceber como questões macro-políticas interferem de maneira direta na vida cotidiana das pessoas comuns. A posição delicada de uma mulher viúva na cultura islâmica também é colocada em xeque na medida em que a personagem principal relaciona-se com seu advogado e sofre repúdios de membros de sua comunidade, para os quais a figura do marido falecido deve ser sempre respeitada.

Trailer do filme em espanhol (não encontrei com legendas em português):

Link para baixar o filme completo via torrent: clique aqui!

Espero que gostem!
 
Referências:

ABRÃO, Baby Siqueira. A palestina vai ao Oscar. E é detida no aeroporto. In: Brasil de Fato: uma visão popular do Brasil e do mundo. São Paulo, 21 fev. 2013.
CINCO Câmeras Quebradas (5 Broken Cameras). Direção: Emad Burnat & Guy Davidi. Gênero: Documentário. País: Palestina/Israel/França/Holanda. 2011. DVD, colorido, 94min.
LIMOEIRO, o. (Lemon Tree – Etz Limon). Direção: Eran Riklis. Roteiro: Eran Riklis e Suha Arraf. Gênero: Drama. País: Israel/França/Alemanha. 2008. DVD, colorido, 106min.
OCUPAÇÃO 101: a voz da maioria silenciada (Occupation 101: Voice of the Silenced Majority). Direção e produção: Sufyan Omeish & Abdallah Omeish. Gênero: Documentário. País: Estados Unidos. 2006. DVD, colorido, 90min.
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