segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Bebendo Schopenhauer: para que serve a obra de arte?

De acordo com o senso comum e grande parcela dos intelectuais, a obra de arte não serve para nada. Ou então serve somente para entreter e divertir os espectadores, leitores e ouvintes. Essa concepção é uma herança da recepção de algumas ideias do Iluminismo que sobrepuseram a ciência à arte, especialmente para estar em conformidade com os ideais do progresso e da técnica usada para o desenvolvimento. No entanto, podemos perceber com pouco esforço que a ciência se utiliza de recursos, ferramentas e elementos próprios na criação das obras de arte. 

Para alguns pensadores da antiguidade grega, como Aristóteles e Platão, a obra de arte como criação, representação ou imitação da vida e da natureza serve para ensinar o agir ético adequado às regras morais de uma comunidade. Tal concepção serviu para pensadores mais tardios, muitos da modernidade (como Hegel), afirmarem que a arte é, portanto, a expressão da época na qual foi produzida. Assim a partir das mensagens transmitidas por seu conteúdo poderíamos, neste sentido, ter acesso ao pensamento, imaginário ou mentalidade de uma dada sociedade. Igualmente a partir da técnica utilizada poderíamos ter acesso ao nível de sofisticação intelectual do povo/sujeito que a produziu. Nesse último caso o pressuposto já defendido pelos filósofos clássicos gregos, é somado ao fator tempo. Então as comunidades seriam diferenciadas a partir do tempo e do espaço e a obra de arte pode funcionar como instrumento de percepção desta diferenciação.

Algo comum a esses dois tipos de visões é a sobreposição da razão como elemento indispensável para apreender a arte. Schopenhauer não concorda. Ele tenta romper em certa medida com tal valoração, bem como a intermediação da obra de arte pela razão. Num capítulo do livro Metafísica do Belo, o filósofo alemão deixa claro sua defesa da superioridade da arte sobre a ciência e a razão. E mais do que isso, a arte teria a finalidade de apreender e ensinar pela contemplação a verdadeira essência das coisas: a Ideia. Exercício este, por sua vez, que a razão não conseguiria realizar, pois está atrelada aos fenômenos externos durante a percepção de algo e às vontades e os interesses dos sujeitos observadores que se propõem a conhecer. 

Vou fazer um pequeno passeio filosófico pelos autores com os quais Schopenhauer dialoga para tentar apresentar um panorama básico de como o autor chega à conclusão de que a finalidade da arte é transmitir a Ideia das coisas e de que é superior à ciência. Primeiramente o conceito de Ideia é tratado mais ou menos conforme Platão. A Ideia para Platão é a verdadeira essência das coisas, o que de fato elas são na sua continuidade, aquilo que nelas não se modifica, aquilo que as identificam enquanto iguais ou comuns. Isto é, suas formas independentemente do tempo, do espaço e do sujeito conhecedor (que são variáveis e imprecisas). 

Ainda de acordo com Platão, o problema é que neste mundo em que vivemos não temos acesso através do conhecimento racional à essência das coisas, dos objetos ou dos seres. Pois estes que aqui estão no mundo sensível nada mais são do que uma cópia imperfeita da Verdade. Como sabemos disso? Segundo Platão, o mundo que chamamos hoje de “real” só nos permite acessar a verdadeira essência das coisas a partir de uma reminiscência. Quer dizer, a partir de uma lembrança que temos do mundo de Verdade. Não o mundo sensível que podemos ver, ouvir, cheirar e etc., porém o mundo inteligível, o mundo das Ideias: “lugar” onde vivíamos em outra “vida”. Deste modo no mundo atual não apreendemos a verdadeira essência das coisas, mas somente temos uma visão turva da perfectibilidade delas. É por isso que embora tenhamos tido contato através da experiência sensível com um diverso número de “portas” (o objeto), de diferentes tamanhos, modelos, cores e formatos, ainda sim possuímos uma ideia geral na nossa cabeça de uma “porta modelo”. Isso se aplica desde as coisas mais simples como uma tesoura, uma janela, um caderno até as mais complexas, como o amor, a amizade, a liberdade, etc. Todas são perfeitas por causa das lembranças que temos de outro mundo que nós (ou nossas “almas”) já habitamos e não por causa das experiências sensíveis que tivemos nesse mundo, onde as coisas são apenas cópias mal feitas.

Já no século 18, Immanuel Kant explica que é impossível termos acesso a coisa em-si, a qual podemos entender como um conceito análogo à Ideia de Platão. Isso porque a razão está permeada por três fatores: o tempo, o espaço e a causalidade. Quer dizer, ao compreender alguma coisa temos conhecimento da coisa ligada a um desses três ou ao todos os três fenômenos sem os quais não seria possível conhecermos coisa alguma. Então ao mesmo tempo em que os fenômenos citados esclarecem, também turvam o entendimento. Sobretudo porque as condições de conhecimento mudam.  




Schopenhauer concorda em certa medida com os argumentos de Platão e Kant. Porém discorda sobre o que Kant diz a respeito da impossibilidade do acesso a coisa em-si. Ele concorda que esse exercício é mesmo impossível através da razão, porque ela é subjetiva, permeada pela Vontade e está ligada às condições enumeradas por Kant. Todavia é possível conhecer a Ideia ou a coisa em-si através da Arte. Principalmente porque para o autor a contemplação da arte pressupõe um afastamento do tempo, do espaço e da causalidade, como também da Vontade que é própria a cada indivíduo. Essa apreensão da Ideia é um conhecimento com fim em si mesmo, ou seja, ele não tem uma utilidade prática, enquanto recurso através do qual se aprende para “fazer algo”. É simplesmente pelo conhecer. Isso só é possível porque existe uma faculdade comum, que varia em diferentes graus, e está presente em todos os indivíduos: a genialidade. A genialidade não tem a ver com a ciência, com o saber fazer, mas tem a ver com o conhecimento intuitivo, o mais profundo e verdadeiro. Por outro lado, não pode ser comunicado, apreendido ou ensinado mediante doutrinas ou conceitos. Nesse sentido, o que o crítico de arte faz quando afirma que uma arte é mais bela do que outra (se baseando em critérios técnicos de sua produção) é nada mais que uma avaliação estética externa que se fundamenta em normas racionais não-artísticas. Isto é, o crítico esgota a arte pela não-arte, pois não conseguiu apreender a Ideia ao se colocar através dos olhos do artista.

A arte está acima da ciência (e da razão) porque a primeira consegue neutralizar o sofrimento que a última engendra no sujeito. Esse sofrimento ocorre porque como a ciência está baseada em princípios que mudam frequentemente (no tempo, no espaço, na causa e efeito). A ciência não tem nunca um fim, nunca está totalmente satisfeita com o que conhece, sempre é um começo sem final e está lotada por finalidades externas, ou seja, fora de si mesma. A arte, pelo contrário, possibilita que o sujeito geral (e não o indivíduo) suprima sua Vontade (que é a fonte do sofrimento) através da apreensão da verdadeira essência das coisas. A ciência é casuística e fala do particular, a arte diz sobre o geral, sobre o que está presente em tudo. A primeira, racional, voltada à vida prática, como em Aristóteles. A segunda, o todo, de que fala Platão. A primeira é uma tempestade violenta sem princípio, nem fim. A segunda é o tranquilo raio de sol que corta o caminho dessa tempestade, totalmente intocada por ela (SCHOPENHAUER, 2003, p. 59).

Referências:
SCHOPENHAUER, Arthur. Metafísica do belo. São Paulo: Editora Unesp, 2003.
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2 comentários:

  1. Matéria interessante e muito bem construída. Dilthey dirá que o artista, no caso em que ele menciona ele exemplifica com o poeta, está a frente do filósofo e do cientista, pois este não está preocupado em dizer o que é a realidade, mas apenas expressar-se artisticamente, porém desta forma ele acaba dizendo mais pra nós o que a realidade, do que o filósofo e cientista que se esforça para tal.

    Marcelo.

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    Respostas
    1. Valeu pelos elogios, Marcelo. Concordo com a posição do Dilthey a esse respeito. Pretendo escrever algo sobre ele em relação à história, em breve, aqui. Sobre o texto, na minha opinião, a arte constrói uma realidade própria e diferenciada, porém que nos coloca em reflexão sobre a que vivemos. Ou seja, não se trata apenas de representação (mimesis), mas de criação (poesis).

      Abração!

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