terça-feira, 12 de março de 2013

Teoria, prática e limite na “operação histórica” de Certeau

Historiador francês do século 20, erudito e jesuíta, Michel de Certeau é um nome bastante conhecido na academia. Em 1974, ele publicou um texto chamado “A operação histórica”, que pela densidade e aridez linguística tira o sono de muitos estudantes de História. Apesar de Certeau ser bem recebido por historiadores de diferentes perspectivas teóricas, seu texto, ainda que lido com frequência, é pouco “refletido” e colocado em prática. O post que se segue pretende ser uma resenha comentada de tal texto.

Do que trata o texto de Certeau em linhas gerais? O autor pretende situar e descrever a particularidade do ofício do historiador através de uma reflexão teórica sobre o lugar social a partir do qual o pesquisador de história atua e escreve, como também por meio de uma descrição das práticas, das técnicas, dos métodos e dos procedimentos utilizados no trabalho histórico. Isto é, o que faz o historiador quando “faz” história? O aspecto mais interessante a se perceber é que Certeau usa o processo de análise comum a um trabalho histórico aplicando seus métodos ao próprio “trabalho do historiador”. Quer dizer, é como se um historiador historiasse o trabalho de outro historiador, descrevendo e pensando os bastidores da produção da “obra” historiográfica. O primeiro passo, nesse caso, é ligar as práticas e as ideias a um determinado lugar. Para Certeau esse é um gesto típico de historiador, para o qual compreender é estabelecer uma análise localizável. Caso contrário “cederia a um álibi ideológico se, para estabelecer o estatuto do seu trabalho, recorresse a uma verdade formada e recebida fora dos caminhos pelos quais, em história, todo sistema de pensamento está referido a ‘lugares’ sociais, econômicos, culturais, etc.” (1988, p. 17).

O lugar social do historiador não é exclusivamente um ambiente físico – uma instituição acadêmica isolada, por exemplo. Mas a comunidade de pesquisadores, a profissão, o posto de estudos e de ensino – uma “área” que está submetida a opressões e ligada a privilégios, formando uma particularidade. É a partir desses lugares e envolto a tais pressões que os métodos de trabalho são fabricados e instaurados. Quando uma pesquisa não atenta a tais regimentos, procedimentos e métodos específicos desse lugar social, (in)variavelmente ela é marginalizada ou excluída. Podemos recorrer ao exemplo de diplomatas ou jornalistas que escrevem sobre história. Alberto da Costa e Silva (2006), que escreve sobre história da África, é relativamente bem recebido por historiadores devido seus métodos e seu rigor próprios de uma pesquisa acadêmica, enquanto isso, Laurentino Gomes (2010), que versou sobre a história da Independência brasileira através de uma narrativa importada do romance literário, é totalmente desconsiderado pelos historiadores, porque apesar de se apoiar numa série de fontes históricas, não usou os critérios de pesquisa adequados, nem uma construção textual semelhante a que é empreendida no lugar social do historiador.

O trabalho do historiador, tendo o texto como produto final, contém o não-dito, e este é importante para entendermos a construção da pesquisa. A tal história “objetiva” do século 19 e sua concepção do fato histórico preconcebido foi desmontada quando se colocou a objeção de que a subjetividade do historiador interferia na escolha do assunto e dos “fatos”. Entretanto, a defesa da neutralidade da ciência à política garantiu por certo tempo que a “pluralidade de escolhas dos intelectuais” fosse a única aceita. Se por um lado essa divisão (ciência – política) colocava um limite a pretensão do saber, por outro ela tornava incontrolável a um grupo de pessoas. Contudo, no século 20, introduziram-se as técnicas de uma disciplina e os conflitos sociais no exame de uma estrutura epistemológica. Sobretudo, porque a função social da história está ligada ao grupo de historiadores, às práticas e leis do grupo e às intervenções no jogo de forças públicas, na política.

Assim, a instituição histórica é o produto de um lugar. Tais lugares que até os séculos 17 e 18 eram ainda espaços em branco marcam a origem das ciências modernas. Foi a partir desse período que surgiram assembleias, redes de correspondência e círculos de sábios formando um conjunto de pessoas e práticas que constituiriam esses lugares. Com Bacon e Descartes houve uma despolitização dos saberes, um recuo nos negócios públicos e religiosos, instituindo um lugar científico. Deste modo, fundou-se uma instituição social associada a esse novo saber – uma sociedade de estudos, com linguagem própria, que se renova. Ainda que alguns pesquisadores defendam que o texto e o ofício científico são suficientes em si mesmos, obedecendo a regras próprias, isto não os impede de articular sobre o que eles não dizem – sobre o corpo de pesquisadores e práticas que falam a sua maneira. Há, portanto, uma relação de comunicação com esse lugar de onde o texto é produzido.

Michel de Certeau (1925-1986)
Desde o século 19 na França existe uma concepção de que a teoria não deve expressar o que se faz na prática. Sobre tal concepção Certeau escreve o seguinte: “Assim, falar-se-á de ‘métodos’ mas sem o impudor de evocar seu valor de iniciação a um grupo (é preciso aprender ou praticar os ‘bons’ métodos para ser introduzido no grupo), ou sua relação com uma força social (os métodos são meios graças aos quais se protege, se diferencia e se manifesta o poder de um corpo de mestres e de letrados). Estes ‘métodos’ esboçam um comportamento institucional e as leis de um meio (1988, p. 24). Contudo, o autor aponta que isso não invalida o saber científico. Pelo contrário, as pessoas que pensam assim, na verdade, defendem então uma ciência neutra ou “autônoma” em relação à sociedade. Não há, para Certeau, uma separação entre história das ideias científicas e uma análise social da ciência. Elas estão imbricadas num encontro entre teoria e prática. Da mesma forma, a expressão “os historiadores na sociedade” demonstra que o pesquisador é um ser que vive, pensa, fala, escreve a partir de relações sociais, culturais, políticas, econômicas, linguísticas, sendo por isso influenciado pelas mesmas. Para Certeau, por exemplo, não é por acaso que no período entre guerras a história social teve uma virada à economia, trata-se da “influência” da crise de 1929, por outro lado, a ascensão de uma história cultural está diretamente relacionada à expansão da Indústria Cultural e das mídias de massa. Portanto, o lugar é o que permite e o que interdita o que pode ser dito. O lugar é uma condição para que dela surja alguma fala com relação ao corpo social, e a interdição são as impossibilidades de falar relativas aos limites do próprio corpo social. Talvez por isso os trabalhos de história sobre literatura, de certos autores, encontrem tantas dificuldades em adestrar os enunciados (que mais parecem sonhos) para exaurir significações de realidades sociais já aceitas.

Após discorrer sobre o lugar social, finalmente Certeau fala das práticas historiográficas. Estas também possuem relação direta com o lugar social. Isto é, as técnicas de produção da história são fabricadas a partir de um lugar e de um tempo específicos. O estabelecimento de fontes ou a redistribuição do espaço é uma operação técnica na qual o historiador transforma um objeto em documento através da seleção e da reunião. Esse exercício pode servir tanto para manter seguro o poder de uma dinastia, por exemplo, expressando que alguns objetos reunidos num arquivo são a verdade da tradição de um povo como acontecia nos séculos passados, quanto para estabelecer um quadro estatístico através do computador selecionando diversos conflitos e guerras após a criação da ONU em 1948 com o intuito de desmontar um “modelo discursivo hegemônico” de que a fundação do órgão internacional promoveu a paz entre as nações.

No primeiro caso, funciona um tipo de história que pretende excluir acidentes, descontinuidades, diferenças e exceções em prol de um projeto político coeso e conservador. No segundo, uma história que faz aparecer as diferenças mostrando o desvio ao modelo – antes essa atividade historiográfica agia para desestabilizar ou apontar os limites de um modelo criado pela história tradicional, atualmente ela pode construir modelos a partir de um a priori para sua própria pesquisa, depois aferir ou testar os limites desse modelo mostrando as diferenças e atribuindo posteriormente significado aos resultados. Contudo, tanto uma operação histórica quanto a outra promove uma articulação entre natureza e cultura, porque transforma objetos naturais em culturais, modificando assim a paisagem. O passado deixa de ser um dado e se torna um produto. Um exemplo hipotético: pode ser natural para um homem chinês comer gafanhotos e escorpiões, ele nem reflete sobre seu ato alimentar, porém o historiador pode usar esse “dado” como “documento” mostrando que a prática de comer insetos/aracnídeos é recente na China e remonta um período de conturbação política em que a população passava fome.

Para Certeau, a história não tem mais a função social de prover a sociedade de representações globais de sua gênese, de mostrar o Espírito da Época ou a mudança oculta no corpo social, tampouco a função totalizante de dizer o sentido à sociedade como fazia no século 19. Agora o historiador trabalha sobre o limite, experimentando os modelos sociológicos, econômicos, psicológicos e culturais através de testes de (in)validades. A concepção do “fato” histórico, que se colocava às vezes como verdade supressora de outros fatos e de outras verdades, uma vez desmontada, volta à tona (com Paul Veyne) na medida em que ao invés de comprovar um modelo, como era antigamente, agora promove um desencaixe, não é mais totalidade, mas diferença. Sendo assim, a história tendo especialidade no particular concebe a posição deste enquanto limite do pensável. Através do particular o historiador pode demonstrar o limite do generalizável introduzindo interrogações e significações referentes aos atos, aos indivíduos e a tudo que foge ao discurso e ao saber – assim como fez Veyne (2010) que, apesar de lançar inúmeras hipóteses, não soube explicar por que o imperador Constantino se tornou cristão em 313. Por último, para Certeau a história deve introduzir-se no passado a partir de uma diferença, de uma alteridade. “[...] o passado é, inicialmente, o meio de representar uma diferença. A operação histórica consiste em recortar o dado segundo uma lei presente, que se distingue do seu ‘outro’ (passado), distanciando-se com relação a uma situação adquirida e marcando, assim, por um discurso, a mudança efetiva que permitiu este distanciamento” (1988, p. 40). Ao falar do passado como diferença, a história mostra seu presente no qual é escrita, mostrando uma ausência no passado e um limite no interior do presente do qual é possível ultrapassar.

Pitacos safados!

Exposição de Fernando Pessoa(s)
O texto de Certeau é, além de instrutivo, propositor. Sua proposta de praticar uma história usando o particular como limite-teste para as generalizações ou as formalizações me parece uma maneira interessante de usar essa arma contra o próprio Certeau. Quando ele escreve que o modo de procedimento próprio da pesquisa em história é ligar as ideias, as coisas, os objetos aos lugares ele está corroborando numa cristalização de como deve ou não trabalhar os profissionais da área, como se os métodos do historiador não pudessem ser outros já que acompanham a descontinuidade do tempo. Quer dizer, se resolvo analisar um livro escrito por Fernando Pessoa, esta só é uma pesquisa histórica (verdadeira sobre o passado) a partir do momento em que conecto as práticas, as ideias, os instrumentos linguísticos usados pelo autor a um determinado lugar social? Um conjunto de escritores? Uma escola literária? Uma universidade? Uma cidade? Um país? Uma época (que em vez designar o tempo geralmente é descrita como um ambiente)? Sabemos que Fernando Pessoa tinha mais de cem heterônimos, todos eles diferentes, com pensamentos distintos, estilos de linguagem diferentes, nesse caso como juntar tudo numa coisa só e ligar esta coisa a um lugar? Como apontou Bourdieu (1998), será que isso não é utilizar a ilusão de um nome próprio para conferir sentido e coesão? Talvez isto demonstre apenas que o “modelo” da operação histórica possui um limite e ele seja, acertadamente, o particular.

Referências:

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: AMADO, J. ; FERREIRA, M (Coord.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1998, p. 183-191.
CERTEAU, Michel de. A operação histórica. In: LE GOFF, Jacques (comp.). História: novos problemas. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1988, p. 17-48.
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.
GOMES, Laurentino. 1822. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.
SILVA, Alberto da Costa e. A enxada e a lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.  
VEYNE, Paul. Quando nosso mundo se tornou cristão (312-394). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
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