sábado, 19 de maio de 2012

Quando Nietzsche criticou os anarquistas

Os escritos nietzschianos disparam críticas para todo o lado como uma metralhadora giratória na mão de um soldado enlouquecido dos filmes de Kubrick. Não é à toa que o filósofo alemão gostava da ideia de guerra, mas essa não parecia estar restrita a um campo de batalha determinado entre nações. Acontecia a todo tempo e em todo lugar! Embora Nietzsche não tenha poupado nenhuma teoria ou movimento político (como o liberalismo e o socialismo), suas críticas políticas mais violentas foram disparadas ao anarquismo.

Contudo, é preciso considerar que algumas impressões de Nietzsche sobre o anarquismo demonstram preconceitos e desconhecimento. Atualmente, leituras contemporâneas enxergam – inclusive – pontos de encontro entre a filosofia do bigodudo e dos anarcos. Os historiadores do anarquismo gostam de enfatizar que Nietzsche educou os estômagos dos futuros leitores de Max Stirner, que após a morte e o ostracismo, teve sua obra reconhecida como ícone do anarquismo individualista. No entanto, grandes anarquistas como Kropotkin e Malatesta fizeram duras críticas a filosofia de Nietzsche. Já Emma Goldman, de modo surpreendente disse: “Nietzsche não era um teórico social, mas um poeta e um inovador. A sua aristocracia nem era de berço nem de bolsa; era de espírito. A este respeito era um anarquista, e todos os verdadeiros anarquistas foram aristocratas” (apud. JOLL, 1964, p. 199).

Na contemporaneidade, após uma atualização de Nietzsche, via Foucault-Deleuze, alguns pensadores autointitulados pós-anarquistas, estabelecem abordagens interessantes na tentativa de renovação da teoria política anarquista através dos escritos dos autores clássicos do anarquismo, de Nietzsche e dos “nietzschianos”. Porém, deixaremos para abordar estas questões “porosas” em outro post. Neste, vamos nos deter na principal crítica de Nietzsche aos anarquistas, que de certa maneira, será abordada pelos teóricos do pós-anarquismo.

Creio que a crítica de Nietzsche não se refere especificamente a um aspecto político (de ação ou estratégia), mas sim cultural e moral. Neste sentido, não tem nada de inovador em relação ao que o bigode já havia postulado sobre os cristãos. Em O crepúsculo dos ídolos (obra de 1888), o alemão compara o cristão e o anarquista, dizendo que ambos são ressentidos que postergam seu momento de gozo para um futuro. O cristão espera o Juízo Final e o anarquista, a Revolução. Os dois colocam a culpa de seu mal-estar nos outros, sendo que essa atitude de indignação e de impotência já é para tais um prazer (2001, p.75). Aparentemente, isso nem poderia ser um problema, mas os conhecedores da filosofia nietzschiana sabem que essa crítica se assenta sobre uma base ferrenha de verdadeira guerra contra a moral. Como dizia o filósofo, contra a moral dos escravos ressentidos.

O trecho citado de Emma Goldman sobre Nietzsche, no início do século 20, é algo bastante polêmico, se pensarmos que o alemão historicizou a geração de duas morais: a dos escravos e a dos senhores; uma da aristocracia, outra do rebanho. Para Nietzsche, o modo como interpretamos e impomos valores ao mundo tem uma história. “O valor de ‘bom’, por exemplo, foi inventado pelos nobres e superiores para ser aplicado a eles mesmos, em contraste com a plebe, os comuns e inferiores. Era o valor do senhor – o ‘bom’ – enquanto oposto ao do escravo – o ‘mau’” (NEWMAN, 2008, p. 146). Entretanto, a superioridade da aristocracia começou a ser rompida por uma revolta de escravos contra os valores morais existentes. Essa revolta começa com os judeus, que a partir de certo momento, vão dizer que somente os miseráveis são os bons; os sofredores, os necessitados, os feios, os fracos e os doentes serão os únicos abençoados – os nobres e poderosos são os maus, os lascivos e os malditos (NIETZSCHE, 1998, p. 62).

Neste sentido, Nietzsche contrapõe duas morais. A da aristocracia é a exaltação da vida enquanto potência criativa a partir de si mesma. A dos escravos, judeus e cristãos, é uma negação da vida, não é ação, mas reação, pois sua qualidade está baseada num fator externo, num inimigo do qual se atribui a causa do dano e da ofensa a sua classe. Portanto, esta moral do ressentimento não pode existir em si mesma, viver para si e a partir de si. Ela precisa estar sempre em contraposição, sempre negando a existência do outro, concomitantemente, também a sua. Tal moral desloca o sentido de viver para “um outro” que não é o ser que vive. Os valores morais considerados bons passam a se relacionarem à piedade, ao altruísmo, à docilidade. “Para Nietzsche, os valores de igualdade e democracia, que formam a pedra fundamental da teoria política radical, emergiram da revolta do escravo na moralidade. [...] Ele vê o movimento democrático como uma expressão da moral do rebanho derivada da reavaliação judaico-cristã dos valores. O anarquismo é para Nietzsche o mais extremado herdeiro dos valores democráticos – a expressão mais violenta do respectivo instinto de manada. Busca equalizar as diferenças entre indivíduos, abolir as distinções de classe, nivelar completamente as hierarquias pela altura do chão e igualar o potente com o impotente, o rico com o pobre, o senhor com o escravo. [...] Nietzsche considera isso como o pior excesso de niilismo europeu – a morte dos valores e da criatividade” (NEWMAN, 2008, p. 148).

Bom, mesmo que essa crítica tenha resquícios de verdade, ela mostra o quão Nietzsche leu mal os anarquistas (se é que leu). O que boa parte dos pensadores propõe é justamente uma quebra da homogeneidade e da padronização da sociedade. Uma libertação do Estado para que cada um possa desenvolver ao máximo suas potencialidades e capacidades criativas. Aliás, a crítica severa de Proudhon (foto ao lado com suas filhas) em O que é a propriedade? em direção aos comunistas é justamente neste sentido, ou seja, advém do medo de que o filósofo francês tinha de um regime que apagasse as individualidades e as diferenças. Por outro lado, a educação integral e a defesa da sociabilidade feita por Bakunin, responde de maneira certeira que a pretensão dos anarquistas era fundar uma sociedade autogovernada que proporcionasse as possibilidades infinitas de criações plurais de existência.

A crítica de Nietzsche aos anarquistas talvez encontre melhor fundamentação quando se volta para a questão do maniqueísmo criador de um inimigo. Enquanto o escravo atribui sua desgraça ao senhor, os marxistas ao Capital, os anarquistas atribuem ao Estado. Acho que a crítica dos anarquistas a opressão está bem à frente dos marxistas, inclusive, por enxergarem que as questões políticas sobrepõem-se às econômicas. Mas ao acreditar numa ordem natural do mundo, os anarquistas caem novamente no maniqueísmo de entender que existe algum poder neutro que harmonizaria os homens. Pois, como expõe Newman (2008, p. 154): “O anarquismo pode ser entendido como uma luta entre autoridade natural e autoridade artificial – os anarquistas não rejeitam todas as formas de autoridade como o velho cliché costuma dizer. Ao contrário, declaram sua absoluta obediência à autoridade materializada pelo que Bakunin denomina de leis naturais”. Ao fazer isso, o anarquismo engendra uma lógica binária de bom e mau, de sociedade e Estado, que acaba essencializando o próprio poder que opõe.

Assim, segundo Newman, não importa o inimigo; mas que ele exista e tenha que ser destruído, numa promessa de batalha final e de vitória final. Essa é a característica do ressentimento no anarquismo. A proposta de Nietzsche, para sair deste engodo, é que o ser não negue o poder, pois a vontade de poder é algo intrínseco aos instintos e a supressão desse desejo debilita o homem, fazendo-o voltar contra si mesmo. Neste caso, é melhor o anarquista agir do que reagir. Os princípios da ética do cuidado, da cooperação e ajuda mútua podem ser eixos interessantes já dentro do anarquismo clássico que permitam sobrepujar o ressentimento como estratégia de construção política. Além disso, é preciso negar a luta que se embasa simplesmente na oposição aos valores que estão em voga e também recusar a proposta de escolha do “menos ruim” ou daquilo que vai atacar seu suposto adversário. Em vez disso, criar novos valores, afirmar os que consideramos bons e melhores, até com certo ar de indiferença aos demais valores. Tem que fazer valer!


Referências:

JOLL, James. Anarquistas e anarquismo. Lisboa: Dom Quixote, 1964.
NEWMAN, Saul. O anarquismo e a política do ressentimento. Revista Verve. São Paulo: PUC-SP, n° 14, p. 145-178, outubro, 2008.
NIETZSCHE, Friedrich. A genealogia da moral. São Paulo: Cia das Letras, 1998.
NIETZSCHE, Friedrich. O crepúsculo dos ídolos. Curitiba: Hemus, 2001.
PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a propriedade? Lisboa: Estampa, 1975.

7 comentários:

  1. Oi Munhoz!
    parabens poe mais uma postagem enriquecedora, da ate vontade de faazer filosofia.

    Um abraco

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  2. Postagem excelente!!!! Me ajudou bastante!

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  3. É preciso tomar cuidados críticos em relação a Nietzsche. Não se deve seguir rapidamente o que dizem os textos dele.

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  4. Texto muito bem escrito, parabéns.

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  5. O blogueiro interpreta Nietzsche como um médico que faz uma anaminesia em um possível doente.
    Um antinitszcheano (representado por um filósofo[!]) não deve se deixar levar por "intuições" pessoais "...(se é que leu)...), nem incluir em sua dissertações as hominem's que diminuem e evidenciam sua tomada de partido.
    Talvez uma leitura maiscatenta à "Vontade de Potência" e a obra de Bakunin, clareem as idéias pré formadas do blogueiro e o aproximem, um pouco, do pensamento, sempre inconclusivo, do grande pensador.

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  6. O blogueiro interpreta Nietzsche como um médico que faz uma anaminesia em um possível doente.
    Um antinitszcheano (representado por um filósofo[!]) não deve se deixar levar por "intuições" pessoais "...(se é que leu)...), nem incluir em sua dissertações as hominem's que diminuem e evidenciam sua tomada de partido.
    Talvez uma leitura maiscatenta à "Vontade de Potência" e a obra de Bakunin, clareem as idéias pré formadas do blogueiro e o aproximem, um pouco, do pensamento, sempre inconclusivo, do grande pensador.

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  7. Um excelente texto que leva a muita reflexão, que deveria se voltar ao próprio autor. Acabou revelando a fragilidade do anarquismo, mas se tivesse uma visão comunista (não simploriamente "marxista") sairia deste labirinto de impossibilidades. Observação, Proudhon não serve como referencia e Bakunin era comunista). Só uma deixa: comunismo prioriza a luta entre escravo e senhor, não tem a ver com igualdade e despreza a democracia e o Estado, vai encontrar isto até mesmo em Marx se procurar.

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