segunda-feira, 11 de junho de 2012

Por que Nietzsche não é um filósofo relativista?

A afirmação de que Nietzsche é um relativista aparece frequentemente em autores acadêmicos e nos murmurinhos daqueles que se viram ofendidos pela filosofia abrasiva do bigodudo. Essa incompreensão, às vezes cínica e intolerante, permite que vinculem a filosofia de Nietzsche à chamada corrente “pós-moderna” (embora muitos sequer consigam dizer como esta se configura e quem dela faz parte). Podemos considerar que os trabalhos de alguns filósofos contemporâneos foram inspirados nos escritos nietzschianos; entretanto, isso não significa que eles seguiram totalmente Nietzsche, tampouco o utilizaram de maneira idêntica. Esta ocorrência demonstra a impossibilidade de reunir sob uma mesma escola, ou corrente de pensamento, pesquisadores tão diferentes. Independentemente da acusação de quais filósofos são relativistas, o que este post pretende sustentar é que estes não podem ser comparados à Nietzsche sob esse mesmo “adjetivo”.

A teoria nietzschiana do conhecimento é baseada não no relativismo, mas no perspectivismo. Existe diferença? A diferença é sutil, mas de uma relevante consequência. A definição didática do relativismo epistemológico, cético ou sofístico, estabelece que “as formas de apreensão do mundo variam conforme o ponto de vista”; o perspectivismo afirma a impossibilidade de atingirmos a realidade por trás de nossas perspectivas (ROCHA, 2004, p. 213). O relativismo integra o perspectivismo, mas suas consequências são distintas, porque enquanto o relativismo advoga que o conhecimento depende do ponto de vista, o perspectivismo, apesar de concordar, ressalta que não é possível um ponto de vista exterior ao mundo. Parece pouco (ou nulo) por enquanto, mas veremos logo que a diferença é significativa.

Em muitos pontos, as duas teorias vão coincidir. A noção de perspectiva sugere que para conhecer é preciso colocar-se em relação a alguma coisa. Ao assumirmos uma posição vamos, por conseguinte, excluir outras. A posição que ocupamos interfere diretamente na compreensão do que nos colocamos para conhecer. Portanto, não é possível obter um conhecimento total da coisa, apenas parcial, escasso e fragmentário. Mesmo se ocupássemos várias posições o tempo seria diferente em cada vez (no deslocamento) que formularmos nossa percepção. Ainda assim, vão existir duas posições impossíveis de se ocupar: o lugar da própria coisa que pretendemos conhecer e o lugar sensível do “conhecedor”. Pois, como afirma Wittgenstein: “vemos por intermédio do olho, mas o olho é aquilo que não vemos”.

Além da limitação do conhecimento, outro agravante sobre as perspectivas é que elas são – ou podem ser – antagônicas; assim, a soma delas é incongruente. Mais do que isto, “tudo o que oferece à consciência humana passa necessariamente pelas formas da nossa percepção e pela estrutura da linguagem, que não podemos transcender. A consciência age como uma lente que se interpõe entre o olhar e o mundo” – isso desconstrói a tese antropocêntrica do sujeito conhecedor. Entretanto, a perspectiva não é apenas o que limita nosso conhecimento, é o que o torna possível também. Não há nada para perceber além das perspectivas, até porque “esta investigação teria o lugar no interior de uma perspectiva” – a menos que fosse um ser metafísico como “Deus” (p. 215).

Bom, se tudo é relativo, esta afirmação também é relativa, certo? Se o conhecimento é uma questão de perspectiva, essa formulação é apenas mais uma perspectiva? Isso quer dizer que a própria teoria se refuta? Aqui está a distância entre o relativismo e o perspectivismo. Pois, para Nietzsche, os céticos (relativistas e negacionistas) quiseram negar toda a verdade, embora não quiseram se desfazer desta afirmação que, por tabela, era também uma mentira (dentro desta lógica de raciocínio). Alguns teóricos, como Sarah Koffman, tentaram salvar Nietzsche deste paradoxo, dizendo que sua teoria do conhecimento era uma meta-perspectiva, uma ferramenta que se encontrava acima das outras perspectivas e que, portanto, só ela estava salva do próprio método. Mas, o bigode deixa claro em seus escritos (Além do bem e do mal, Vontade de potência e Aurora) a não-contradição de sua tese sobre o conhecimento. A saída vem de duas formas: a primeira é que enquanto o cético mantém uma relação de dúvida ou de hipótese com o que quer conhecer, Nietzsche mantém o de suspeita. A dúvida é inicial e pressupõe resposta, a hipótese infere que existe uma certeza possível de ser verificada através de uma investigação, já a suspeita admite permanecer na incerteza, inclusive na incerteza da perspectiva que enuncia seus juízos sobre a coisa a conhecer.

Se viver na incerteza pode ser algo angustiante, mesmo sabendo que se acredita nas mentiras apenas pela segurança, a segunda saída parece mais atraente. O conceito “vontade de potência” demonstra o deslocamento da reflexão nietzschiana em relação ao conhecimento: trata-se de por em questão o valor do conhecimento, e não mais sua verdade. Ou ainda: trata-se da concepção de que o valor do conhecimento não reside em seu teor de verdade, mas em sua capacidade de criar e instituir valores que prescindem dessa “verdade”. É por isso que Nietzsche escapa da crítica ao ceticismo (relativista ou negacionista) ao passo que o cético pretende dizer a verdade quando afirma que não há verdade, enquanto o filósofo alemão recusa essa pretensão (p. 220).

Martelada nos relativistas e nos positivistas: a filosofia de Nietzsche não ensina apenas que o mundo admite uma pluralidade de interpretações, nem que o ser tem por essência mostrar-se segundo uma infinidade de pontos de vista; pois a primeira implicaria num antropocentrismo onde o conhecimento só depende do homem, e o segundo acaba mantendo um ser por trás das aparências, quando na verdade só é possível compreendê-lo e existir através das aparências mediadas pelas perspectivas. Esta crítica incide de modo capital sobre o conhecimento da “coisa em-si” ou da superioridade dos fatos sobre as interpretações. Não existe “coisa em-si” a priori, já que o conhecimento que pressupõe uma relação que é sempre um a posteriori. O objeto do conhecimento não tem uma fase verdadeira pura, são apenas máscaras, por mais que se retire uma, aparece outra, e outra, e outra...

Colocando de uma maneira mais clara, Nietzsche não desconsidera que exista um mundo para além das representações. Mas, conhecê-lo somente é possível por uma dobra ativada pela relação que percebe que “as construções perspectivas são a representação de um mundo constituído” (p. 217).

O crucial da teoria do conhecimento de Nietzsche é sua afeição ética e coerente. O conhecimento não busca uma verdade universal, mas uma “verdade” que tenha valor para a própria vida. Da mesma maneira, o perspectivismo não é capaz de aceitar sua absolutização, até porque não pode se fundamentar epistemologicamente. Tendo em vista que em Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche escreve o seguinte: “o que precisa ser demonstrado não tem grande valor”. Demonstrar é o mesmo que buscar um fundamento e um repouso sobre outra coisa que não si mesmo. “Em contrapartida, o que não precisa ser demonstrado revela por si mesmo seu caráter inteiramente afirmativo. Não recorre ao exterior para se legitimar. A filosofia de Nietzsche não precisa ser demonstrada, pois retira sua validade e coerência dessa impossibilidade. O caráter indemonstrável do perspectivismo em vez de comprometê-lo, é a prova de sua coerência. Ao contrário do ceticismo, o perspectivismo não pretende excluir das ilusões que denuncia, ao se incluir nas ilusões que procura descrever, retira seu próprio fundamento em si mesmo” (p. 221).

Referências:

*Este texto segue a inspiração (e resenha) de: ROCHA, Silvia Pimenta Velloso. Os abismos da suspeita: Nietzsche e o perspectivismo. Revista ‘O Que Nos Faz Pensar’: Cadernos do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Rio de Janeiro, n° 18, set., 2004, p. 213-226.

NIETZSCHE, F. O crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
NIETZSCHE, F. Humano, demasiado humano. São Paulo: Cia. das Letras, 2005.
NIETZSCHE, F. Aurora. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
WITTGENSTEIN, L. Cadernos: 1914-1916. Lisboa: Edições 70, 2004.

4 comentários:

  1. Quanto a esse tema tenho algo a dizer:
    Diferença que pra mim é central: Para o relativismo existem tantas verdades quanto cabeças e essas verdades são independentes, cada uma vive dentro de um mundo próprio. Já para o perspectivismo todas as perspectivas coexistem dentro de um mesmo mundo, de modo que elas interferem umas nas outras.
    Desta forma são estabelecidas relações de dominação e submissão entre as verdades, relações de rivalidade (na noção de ressentimento, por exemplo, está expressa a produção de uma verdade que é produzida justamente em função de outra, visando uma resposta, uma vingança).
    Para o perspectivismo é central que a produção de uma verdade não seja desassociada do campo da ética. As verdades são produzidas em meio às relações que os seres humanos estabelecem entre si.
    Outra diferença é que o relativismo peca por não exigir nenhum rigor na aceitação das verdades. Todas elas são niveladas e tem o mesmo peso. Já para o perspectivismo as interpretações não se equivalem. Dentro de uma mesma perspectiva (essa que pode ser partilhada por muitos) existem aqueles que produzem conhecimento com maior alcance, precisão e coerência (em relação ao conjunto: sujeito, objeto, sociabilidade)

    Gostaria de saber o que você, Munis, pensa disso que escrevi.

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    1. Exceto pela questão do "rigor" (que me parece uma construção social bastante frágil, usada, muitas vezes, para sobrepor um saber a outro, logo, não é necessariamente um quadro vazio e consensual, mas está na disputa de poder-saber), eu concordo com tudo o que você escreveu, colega. Obrigado pelo acréscimo. Abraços!

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  2. Um texto para qual é digo "UAU"! Grandioso. Abraços! Parabéns!

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