Para quem desconhece completamente a Comuna de Paris, vale resumir o que ela foi: um governo autogestionário e descentralizado na França, em 1871, durante a guerra franco-prussiana. Infelizmente esta
experiência operária e socialista durou somente quarenta dias. Isto é, durou até quando as
tropas de Thiers (presidente da Terceira República francesa) conseguiram
penetrar à comuna e promover a execução de cerca de 20 mil pessoas, torturando e
prendendo outras 40 mil.
A exposição de Samis destacou o contexto histórico
que gestou a possibilidade da Comuna. Desde Proudhon os movimentos sociais revestiram-se das ideias
federalistas de organização social e política. O contato entre mutualistas
proudhonianos e coletivistas (sobretudo, Varlin e Bakunin) durante encontros da Primeira Internacional proporcionou o florescimento de um
socialismo antiautoritário, o qual se contrapunha ao centralismo dos projetos blanquistas e marxistas. Pode-se dizer que, por meio desta troca de experiências e da contrariedade ao socialismo
de Estado, pela primeira vez um grupo de ativistas se assumiu anarquista
(embora a "anarquia" ainda fosse uma categorização pejorativa usada principalmente
por Marx e Engels com o intuito de atacar aqueles que criticavam as propostas de Estado
de transição, de governo revolucionário e de constituição de partido político).
Varlin era
membro da guarda nacional parisiense e sua participação foi decisiva por
mobilizar forças dentro desta instituição militar que, a partir de certo
momento, expulsou os membros da prefeitura de Paris e tomou a administração
pública. A maioria da tropa da guarda nacional era composta por operários
e pequenos burgueses, socialistas e jacobinos. Neste instante, com as armas na mão e a pátria se
acovardando mediocremente na guerra contra a Prússia, o povo tinha então a possibilidade de fundar
um novo governo. Quando Thiers percebeu esse jogo de forças contrário à sua autoridade, ele determinou a contenção do
material bélico durante a surdina da madrugada. Mas já era tarde. A massa agora estava
no controle. Para Kropotkin:
"a derrubada do poder central ocorreu, mesmo sem encenação comum de uma revolução: naquele dia, não houve tiros de fuzil nem rios de sangue derramado atrás das barricadas. Os governantes eclipsaram-se diante do povo armado que descera à rua. [...] Paris, mal tendo derramado uma gota de sangue dos seus filhos, encontrou-se livre da imundície que empesteava a grande cidade. No entanto, a revolução que acabava de realizar-se, abria uma nova era na série das revoluções, pelas quais os povos caminhavam da escravidão à liberdade. Sob o nome de Comuna de Paris, nasceu uma nova ideia, destinada a tornar-se o ponto de partida para as futuras revoluções" (2005, p. 101).
Assim, as ideias federalistas dos internacionalistas
foram postas em prática neste novo governo: houve coletivização dos bens de produção; redução da jornada de
trabalho; a educação se tornou gratuita; imagens clericais e estátuas de
representantes políticos foram destruídas; em lugar dos cultos e ritos, as igrejas passaram a funcionar como grupos de discussão; o salário dos professores tornou-se o maior entre todas as
profissões; eleições foram baseadas na
democracia direta; no lugar da bandeira tricolor, uma nova foi assumida (agora vermelha); além de
outras medidas.
Mesmo as mulheres ainda não tendo direito ao voto, resquício do machismo naturalizado da época,
seus papéis na sociedade foram valorizados. Muitas delas passaram a integrar
a guarda revolucionária, bem como discutiam de igual para igual com os homens. A mais conhecida, sem dúvida, foi Louise Michel: ativista reivindicada como símbolo por
diferentes vertentes da esquerda contemporânea e um ícone do feminismo.
Entretanto, após muitas tentativas frustradas dos soldados
de Thiers (“refugiado” no Palácio de Versalhes) em retomar Paris, a França fez
acordo de paz com a Prússia a fim de derrotar a Comuna. Neste sentido, foram libertados
prisioneiros de guerra para atuarem na derrubada do autogoverno parisiense. E a comuna nada pode fazer diante do
enorme contingente de soldados que marchavam rumo à sua destruição. Varlin foi executado brutalmente e se tornou um mártir dos movimentos socialistas
europeus. O sonho da Comuna de Paris havia acabado, mas no pensamento de milhares de operários
ficou a possibilidade (agora experimentada) do surgimento de outro regime de autogestão como afirmará
Bakunin:
"Sou partidário da Comuna de Paris que, por ter sido massacrada, sufocada em sangue pelos carrascos da reação monárquica e clerical, tornou-se mais viva, mais poderosa na imaginação e no coração do proletariado na Europa; sou seu partidário, sobretudo porque ela foi uma negação audaciosa, bem pronunciada do Estado" (2006, p. 139).
Atualmente a Comuna tem sido motivo
frequente disputa entre as vertentes de esquerda: na tentativa de sacralizar um mito histórico em favor de suas
propagandas ideológicas. No entanto Samis fez
questão de destacar a impossibilidade em afirmar que a Comuna de Paris foi uma
experiência de sociedade "anarquista", mas tampouco foi "marxista" ou de qualquer outra tendência
hegemônica. O que aconteceu em Paris foi uma organização
social libertária e plural. Assim, mesmo que a maioria dos participantes optasse
pelo centralismo, a minoria federalista a convenceu pela adoção da
descentralização política. Desta forma Bakunin ressaltará à
efemeridade daquela instituição:
"É preciso reconhecer, a maioria dos membros da comuna não eram propriamente socialistas e, se agiram como tal, é que foram invencivelmente levados pela força irresistível das coisas, pela natureza de seu meio, pelas necessidades de sua posição, e não pela íntima convicção" (2006, p. 140).
Referências:
BAKUNIN, M. Textos anarquistas. Porto Alegre: L&PM, 2006.
KROPOTKIN, P. Palavras de um revoltado. São Paulo: Imaginário, 2005.
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