
Os sobreviventes habitam agora o cenário depois do apocalipse, e que parece bem pior do
que o juízo final cristão. Aliás, tal lugar é a inversão dos sonhos
revolucionários. O “novo” é bem pior do que o antigo. A Nova Jerusalém dos cristãos (ou o comunismo) passa mais próxima da
descrição do Inferno de Dante. Mas nem tudo mudou. A sociedade ainda tem classes. E são duas: os vivos e os
mortos-vivos. Os vivos são a minoria nada privilegiada agora, mas a guerra (a luta
de classes) continua.
A rediscussão dos valores “humanos” é significativamente
enfatizada na série. Num mundo assim (como o nosso?) ser “bonzinho” pode representar
a morte. Esse aspecto é bem trabalhado quando um avarento recusa comida a recentes (des)conhecidos e, também, quando um fazendeiro reluta em abrigar o grupo em sua casa. Esse mesmo fazendeiro é
também um veterinário metido a médico que acredita que os membros de sua
família que viraram zumbis não morreram, mas só ficaram doentes. Por isso ele “guarda”
dentro do celeiro seus familiares “doentes” e outros zumbis que entram em sua fazenda. O ponto de vista dele
nos põe a pensar melhor sobre a possibilidade de salvar aquelas pessoas antes
de liquidá-las de vez com um tiro na cabeça e ressalta também nosso apego ao
corpóreo. É interessante porque os espectadores da série não aceitam tamanha “burrice”
(altruísmo?) do médico-veterinário. A maioria dos personagens da série pensa
igual. Mas existe um senhor no grupo que questiona se os vivos já não perderam sua humanidade há muito tempo e se não ficaram
tão cruéis quanto os zumbis que querem seu sangue.

A verdade é que a mudança das condições no ambiente
favorecem aspectos da personalidade antes considerados problemáticos, como a
agressividade e a frieza para matar. Os
anormais se tornam normais. Trazendo para nossa realidade podemos
exemplificar o caso das pessoas com Síndrome de Down. Sabe-se que elas possuem
um cromossomo a mais, num determinado par que faz com que sejam sexualmente estéreis,
mas em determinadas condições ambientais onde a emissão de radiação é maior a situação muda de figura. Pois nesses casos são eles que podem reproduzir e, nós, os normais, só assistiremos a perpetuação da espécie.
A biologia postula que essa criação é como um plano B da espécie humana. Contudo no caso de Shane o aspecto é
muito mais cultural do que biológico. Desde o primeiro episódio ele apresenta
traços históricos significativos de potencialidade para matar.
A questão da
solidão também é algo para se pensar no "mundo pós-fim do mundo". Afinal os casais ficam bastante propícios para se apaixonarem e para fazer sexo, é claro.
É o que acontece com um casal que relembra a piada de Adão e Eva no paraíso. “Existem
poucas pessoas no mundo e nunca se sabe quando morreremos, então é melhor gastarmos
essa caixa de camisinhas logo” - a moça bonita diz para o entregador de pizzas coreano.
Por que a série nos atrai tanto? Acredito que pelo
fato dela expor de maneira extrema e caricatural a sociedade contemporânea na
luta pela sobrevivência do mais esperto, utilizando quaisquer armas
disponíveis. A ausência das leis e a
descrença na religião exacerbam o desejo pela ausência de punição e
controle em nossa sociedade disciplinar, um lugar onde não existe mais um super-ego
castigador e a consciência está livre (para matar?). Em contrapartida essa
sociedade de The Walking Dead pode
ser lida como o inverso. Como aquela que nos atrai por mostrar quão mais
animada pode ser a vida longe da apatia cotidiana que nos cerca. Seríamos então
nós os zumbis dos tempos safados? Parasitas se alimentando do sangue de outros
e perambulando pelas avenidas movimentadas como seres desprezíveis. Será que nos reconhecemos nos zumbis ou nos
vivos?
Mesmo os personagens se questionando se vale a pena
estarem vivos num lugar desses e alguns escolhendo o suicídio, um
determinado princípio básico continua valendo para os dois mundos: a autopreservação da vida. Bergson
conta que o organismo vivente faz de tudo para se manter vivo, e reluta
mesmo diante da escolha “cultural” (ou psicológica) de se aniquilar. Diz-se que
alguém que tenta suicídio por enforcamento só morre se não houver possibilidade
alguma do organismo se salvar, mesmo que o cérebro não queira. Se por acaso os
pés tocarem ao chão um pouco que seja, o suicida pode desmaiar e recuperar a
consciência logo depois. A vida nua (zoé),
ou seja, a vida despossuída de cultura faz de tudo para manter sua
sobrevivência. Mas a vida cultural às
vezes joga contra o instinto. São os casos de suicídios que Durkheim classificou de egoísta, altruísta e anômico. Todos culturais. Não se sabe de
animais que se suicidam.

Assista à reportagem da época sobre o caso: https://www.youtube.com/watch?v=gEemJmzhcac
.....
Veja meu post sobre o tema. citei seu post por lá.
ResponderExcluirRealmente a discussão vai muito alem do q parece.
http://pilulamarela.wordpress.com/2012/04/29/the-walking-dead-muito-alem-do-massacre-de-zumbis/
Interessante o texto, Munís! Acho que a grande jogada da série é nos fazer pensar sobre a nossa própria humanidade. Se estamos ou não dispostos a tudo pela nossa sobrevivência. Seja nos submeter a condições trabalho ou explorar os outros(ou mesmo matar zumbis).
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