
Mas após certo tempo as coisas começaram
a desandar. Problemas apareceram. Os planos de soberania do Liberalismo não saíram
da maneira planejada. Ele acreditava que a essência dos seres era boa, mas ao
ver que alguns descontentes estavam sujando as águas do Iluminismo, pois não
viam justiça em suas regras, começara a usar sua corpulência e autoridade para
punir os infratores e os descontentes. O sangue derramado por sua violência fez
nascer alguns pequenos sistemas filosóficos políticos como o Fourierismo e o
Saint-Simonismo, porém, apesar de resmungarem ideias aparentemente mais
igualitárias não conseguiram viver muito tempo para derrubar o Liberalismo.
Contudo, os problemas se seguiam, e quanto mais violência para resolvê-los, mais
suja a água ficava e menos refletia a luz. Até que nasceu um outro sistema
filosófico, o Anarquismo. Sujeito revoltado que praguejava aos quatro ventos,
reclamava da situação daquele lugar e do insucesso dos outros sistemas
filosóficos, acusava o Liberalismo de autoritário e egoísta. Mas apesar do
espírito eruptivo, o Anarquismo no fundo tinha um bom coração, uma solidariedade
ímpar e um olhar esperançoso muito parecido com o do Iluminismo na infância. O
Anarquismo tinha um plano excelente, mas aparentemente irrealizável para limpar
as águas da piscina. Pois, para que desse certo era preciso que o Liberalismo
se desfizesse de seus privilégios e de seu autoritarismo, pois ele entendia que
a solução para os problemas era dar mais liberdade e igualdade, enquanto, o
Liberalismo já estava convicto de que a liberdade sem coerção era um mal.
Mesmo que o Anarquismo interpelasse os
outros eles não acreditavam em seus sonhos, pois diziam que as águas jamais
seriam limpas. O Liberalismo, muito maior e, já impaciente com o Anarquismo lhe
deu algumas bofetadas. Mas o Anarquismo teria agora um parceiro com que podia
unir forças, nascera o Marxismo. Sujeito inteligente, crítico, tinha um forte
poder de persuasão, entendido das realidades nas profundezas das águas, possuía
ideias igualitárias que propunham a limpeza das águas, porém bastante
burocráticas e que teriam que passar diretamente por sua arrogância de
sabedoria. O Marxismo era mesmo de dar nos nervos, rapaz brigão, sempre
arrumando confusão, mesmo menor que o Anarquismo lhe deu vários socos na cara.
E o Anarquismo como um bom cão voltava a ter amizade com ele.
Durante uma época de bastante sujeira
nas águas, o Liberalismo aparentemente infectado ficara doente. O Marxismo e o
Anarquismo aproveitaram para lhe encher de porrada e tomar um pedaço
considerável da piscina. Foi então que o Anarquismo viu quem era seu amigo,
pois quando tentou estabelecer um diálogo com suas ideias, o Marxismo, agora
mais forte e soberbo, lhe espancou como nunca antes e expulsou-o de seu lado
dominado. Assim, o Anarquismo teve que voltar para o lado do Liberalismo, que
era mais resiliente e permissivo. Após este acontecimento o Marxismo construiu
um muro para salvaguardar seu mundo particular, mas era um muro baixo que
permitia olhar para o “quintal” do vizinho e até tramar uma futura invasão. O
Marxismo propôs a limpeza das águas, mas seu plano era algo autoritário e que
parecia não terminar nunca. Era necessário obedecer com sofreguidão suas
regras.

A partir de certo tempo o crescimento do
Nazismo estabeleceu companheiros tão autoritários e violentos quanto ele, o
Fascismo era um desses. Sua hegemonia começou a preocupar o Marxismo e o
Liberalismo, seus eternos rivais. Foi então que o Nazismo aproveitando da
doença do Liberalismo começou a avançar sobre sua área usando de métodos de
horror explícito. Foi preciso, por isso, uma união impensável, entre Marxismo e
Liberalismo para que as águas uma vez límpidas do Iluminismo não se tornassem
negras de tanto sangue. Graças ao Marxismo, forte e guerreiro, e a inteligência
e experiência do Liberalismo, o Nazismo e o Fascismo foram derrotados. Contudo,
alguns filhos militares ilegítimos ainda apareceram, como o Franquismo, o
Salazarismo e o Costa-e-Silvismo sob a resiliência do Liberalismo.

Mas o Liberalismo sofreu fortes abalos e
quase teve uma parada cardíaca há pouco tempo. O Anarquismo que esteve sumido
durante muito tempo é olhado com mais cautela nos tempos safados. Mas alguns
dizem que ele precisa se libertar dessa piscina, se reinventar, desistir dos
sonhos de uma piscina eternamente limpa aceitando que o lodo que se forma em
seu chão é um ser natural e irremovível. Seria então melhor sair logo desta
piscina. Alguém te estende à mão do lado de fora. É o Pós-Estruturalismo,
rapazinho desacreditado da piscina, odeia líquido, prefere o ar, nem fez
questão de entrar na água. E mesmo sem nela ter mergulhado já xingou o
Liberalismo de santo e rapadura e colocou em vexame o Marxismo, que por sua
vez, está dramaticamente se afogando e às vezes estende a mão na superfície
pedindo socorro ao velho amigo surrado Anarquismo, enquanto o Liberalismo
assiste a cena de digna de Hollywood num canto da piscina.

Nenhum comentário:
Postar um comentário