As desavenças e os conflitos entre Bakunin e Marx são bem
conhecidos na história do movimento socialista. O lugar principal desta briga
aconteceu dentro da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Uma
instituição fundada em 1864, que reunia diversos ativistas (de esquerda) de
toda a Europa e visava à organização da classe trabalhadora para a luta
política. Havia uma grande diversidade de ideias e práticas entre os membros da
AIT e o dissenso era inevitável. Os congressos recebiam delegados,
representantes escolhidos em assembleias pelos trabalhadores de inúmeras
nacionalidades e regiões, que debatiam e decidiam os rumos e as estratégias do
movimento operário; como a própria função da AIT. A entrada de Bakunin em 1868 acirrou a disputa entre duas
tendências no seio da Primeira Internacional: o socialismo marxista
(centralista) e o coletivismo revolucionário (descentralista e autonomista).
Apesar de desde o início a maioria dos delegados da AIT
compor-se por mutualistas inspirados nas
ideias de Proudhon (falecido em janeiro de 1865), Marx e Engels conseguiam,
relativamente, controlar o Conselho Geral que regulava algumas ações importantes
da organização. No entanto, o carisma e o ímpeto do russo Mikhail Bakunin
começaram a ofuscar o brilho dos socialistas alemães, a ponto de atrapalhar seus
planos referentes às manobras políticas da AIT. Bakunin não aceitava que
a instituição se transformasse num partido político unificado e defendia a
autonomia das federações que a integravam. Marx acusava o russo de fazer
“anarquia no seio da classe operária” (o título de “anarquistas” foi conferido
pelos marxistas aos coletivistas revolucionários, que, em certas ocasiões,
assumiram-no) e de conspiração contra a própria Internacional. Após muitas
intrigas e discussões, Marx e seus seguidores conseguiram no congresso de Haia
em 1872 (setembro) expulsar Bakunin e Guillaume – ambos coletivistas. As cartas
que apresento neste post são anteriores a este acontecimento, elas explicam as
razões da divergência às ideias de Bakunin e ilustram de maneira sucinta o
imbróglio entre marxistas e “anarquistas”. Uma foi escrita por Marx a Friedrich Bolte em 23 de Novembro de 1871 e a outra por Engels em 24 de
Janeiro de 1872, endereçada ao italiano Theodor Cuno. Vou tentar descrever os
pontos principais de ambas as cartas.
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Karl Marx (1818-1883) |
Marx diz a Bolte que é preciso o
partido continuar sólido e atuante enquanto as classes operárias não estiverem
amadurecidas. Quando isso ocorrer, aí os partidos tornar-se-ão reacionários e dispensáveis
aos desejos socialistas. Neste ponto, Marx está se referindo diretamente às
críticas de Bakunin que era contra constituição de um partido na Internacional.
Marx adverte que a luta da AIT é também uma luta interna contra os
“dissidentes” e que o Conselho Geral (encabeçado por ele) estava equilibrando
esse jogo. Demonstra que, no começo, os proudhonianos eram a hegemonia na
Primeira Internacional, mas que surgiram
os coletivistas e positivistas que se opuseram a eles. Cita o caso de
Lassalle da federação alemã, que a seu ver era um sectário preocupado com
questões pessoais; e Bakunin, “homem sem nenhum conhecimento teórico” que
intentou fundar uma outra organização no seio da AIT, a Aliança da Democracia
Socialista, para controlar a propaganda científica da Internacional e criar
uma Segunda Internacional que funcionasse a seu gosto.
O programa de Bakunin, segundo
Marx, estava carregado de ideias
pequeno-burguesas. Marx resume tal programa da seguinte maneira: igualdade
das classes; abolição do direito de herança (para o alemão essa ideia não
passava de uma tolice de Saint-Simon); o ateísmo como dogma obrigatório para
todos da Internacional; e, como princípio central, a abstenção à política (ideal
baseado em Proudhon).
Essa carta foi escrita logo após
o desenvolvimento de um sério conflito. Em meados de 1871, o Conselho Geral fez uma reunião
secreta em Londres na qual ficou determinado que a AIT ia constituir um partido
único, tal fato, por sua vez, retirava a autonomia das federações que
integravam o movimento operário. Imediatamente as federações dissidentes a esta
decisão, que sequer participaram da reunião, emitiram através de uma circular
(de 12/11/1871) sua contrariedade a tais decisões e convidando demais
federações para se unirem acerca dos princípios de autonomia. Guillaume (2006,
p. 28) que participou do acontecimento escreve o seguinte: “A sociedade futura, dizia a circular,
será a universalização da organização que a Internacional apresentar. Devemos,
pois, ter o cuidado de aproximar o mais possível esta organização de nosso
ideal. Como poderá uma sociedade
igualitária e livre surgir de uma organização autoritária? É impossível. A
internacional, embrião da futura sociedade humana, deve ser, desde agora, a
imagem fiel de nossos princípios de liberdade e de federação e repelir de seu
seio qualquer princípio que tenda para o autoritarismo e a ditadura”. Aqui, numa
clara a alusão contrária às ideias de Marx sobre a “ditadura
do proletariado” e a centralização da revolução em torno de uma vanguarda
partidária. Marx acusa Bakunin de ser o arquiteto por trás deste movimento que
ele chama de “complô”. E num tom de convite a Bolte, reitera que a AIT “transferida”
para Nova Iorque não cometerá os mesmos erros que a europeia, que permitiu a
concatenação deste “golpe” desde o início. Porém, a associação “fundada” em
solo estadunidense não aceitará dissidentes, os expulsando caso necessário.
Possivelmente Marx já tinha em mente o que aconteceria após a expulsão de Bakunin e Guillaume (ocorrida em
09/1872), ou seja, por falta de contingente e legitimidade, a impossibilidade
de a AIT continuar na Europa.
A carta de Engels a
Cuno também faz
parte desse jogo de conquista de simpatizantes. Como tática, a descrição dos
acontecimentos e o ataque direto a Bakunin, chamando atenção do destinatário
para tomar precaução com todos que estavam ao lado do russo. Engels apresenta a
proposta política de Bakunin como uma teoria que mescla o proudhonismo e o
comunismo. O ponto principal de seu proudhonismo é dizer que o “maior mal não é
o Capital, não é, portanto o antagonismo de classe que o desenvolvimento social
cria entre capitalistas e operários assalariados, mas sim o Estado”. Enquanto Bakunin acha que o
Estado é o criador do Capital, que o capitalista o possui por conta do
Estado, os socialdemocratas concordam conosco (no caso o socialismo inspirado
em Marx) de que o Estado é apenas um
aparato criado para proteger os privilégios das classes dominantes – donos
de terras e capitalistas. Enquanto a saída para Bakunin é acabar com o Estado
para derrubar o Capital, nós acreditamos que é preciso acabar com o Capital,
que é a concentração dos meios de produção nas mãos de poucos. Quando isso
acontecer o Estado cairá sozinho, afirma Engels. Para os alemães, antes de uma
abolição do Estado deve haver uma revolução social que transformará todo o modo
de produção mediado pela supressão do Capital.
Bakunin defende que não se deve manter o Estado sob qualquer
forma de governo, por isso prega a abstenção política nas eleições. Seu
programa tem como estratégia fazer propaganda dos ideais coletivistas,
desacreditar o Estado e organizar-se (Engels talvez se refira a autogestão nesta passagem). Quando
houver conquistado a maioria dos operários então os organismos estatais serão
liquidados. O Estado abolido será substituído pela organização da
Internacional. Portanto, Engels acredita que Bakunin advoga que a AIT não foi
criada para a luta política, mas para substituir o Estado – consideração
bastante polêmica e pouco sustentável.
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Engels (1820-1895) |
Engels aponta que a teoria de Bakunin é tão radical e tão
simples que pode ser aprendida em cinco
minutos. Por isso, encontrou rápido acolhimento entre advogados e médicos
na Itália e Espanha. Mas é fraca entre a classe trabalhadora, pois esta é uma
classe política por natureza que não quer abandonar sua tradição e seus
assuntos (possivelmente reformistas: melhorias nas condições de trabalho,
aumento salarial, partidarismo, etc.). Para o alemão, pregar o abandono da
política é o mesmo que deixar a classe proletária nas mãos dos padres e dos
burgueses.
Na sociedade idealizada por Bakunin – segundo Engels –, não
haverá autoridade, entretanto o russo não diz como os cidadãos devem se
comportar para continuar o funcionamento das fábricas, das ferrovias, dos
transportes marítimos sem uma
vontade que decida em última instância e em única direção. Cada indivíduo e
comunidade serão autônomos, mas ele (Bakunin) não diz como vai funcionar se
pelo menos um, numa comunidade de dois membros, não renunciar parte de sua
autonomia. Temos que considerar que, para além do desconhecimento de Engels
sobre a proposta coletivista de Bakunin, há também nessas críticas intenções
tácitas de desmerecer o outro para afirmar a superioridade de seus ideais. Mas,
não queremos preencher as lacunas apontadas por Engels neste post, nosso
interesse é somente descrever os posicionamentos de Marx e Engels para
explicitar os choques principais e as tensões políticas na história da esquerda.
Por fim, Marx e Engels acusam a teoria de Bakunin de ser um zero
a esquerda, onde o que importa é a prática (o que não deixa de ter certa
verdade), mas que utiliza seus preceitos para esconder seus interesses
pessoais. Engels, ainda, menciona o vínculo de Bakunin com Nechaiev, o
terrorista que é uma das figuras mais obscuras e controversas do movimento
anarquista. Para denegrir a imagem dos “bakuninistas”,
Engels afirma, por último, que apesar de reivindicarem a abstenção política,
eles estavam naquele momento fazendo propaganda para o retorno de Napoleão III
ao trono, como única saída para arrancar o general Thiers do poder francês.
Leia também: "Liberdade para Bakunin"
Leia também: "Liberdade para Bakunin"
Referências:
As duas cartas podem ser encontradas
no site marxists.org, porém eu utilizei uma versão em espanhol da obra A liberdade de Bakunin, no qual elas
aparecem em anexo no princípio do livro.
BAKUNIN, Mijail. La
liberdad. Kolectivo Conciencia Libertaria. Traducción: Santiago Soler
Amigó. Digitalización: KCL. Disponível em: http://www.kclibertaria.comyr.com/lpdf/l141.pdf
GUILLAUME, James. Bakunin, por James
Guillaume. In: BAKUNIN, Mikhail. Textos anarquistas. Seleção e notas
Daniel Guerin; tradução de Zilá Bernd. Porto Alegre: L&PM, 2006.
JOLL, James. Anarquistas e anarquismo. Lisboa: Dom
Quixote, 1964.
PRÉPOSIET, Jean. História do anarquismo. Coimbra:
Edições 70, 2007.
Ou seja, Marx e Engels inventam sobre Bakunin e nessas mentiras, acham que são verdadeiras.
ResponderExcluirNa realidade a falta de leitura é impressionante, bastava ler Socialismo, Federalismo e Antiteologismo, como Principio do Estado e outros escritos para que Marx e Engels sejam desmascarado.
Marxistas sempre serão inúteis
(o título de “anarquistas” foi conferido pelos marxistas aos coletivistas revolucionários, que, em certas ocasiões, assumiram-no)
ResponderExcluirNa verdade Proudhon cunha esse termo ao se declarar Anarquista - os marxistas passam a chamar todos os coletivistas de anarquistas - Quando Bakunin entra na AIT com o federalismo além da associação com o termo ele também de fato se converte/declara anarquista.
Olá Bruno!
ExcluirVocê está correto. Proudhon se anunciou anarquista em 1840, na obra "O que é a propriedade?". Porém este não virou um termo corrente a partir de então, até porque Proudhon não utilizou em seus escritos posteriores, não o definiu. Não havia um movimento anarquista até a fundação da AIT (pouco tempo depois da morte do filósofo francês). Os seguidores das ideias de Proudhon eram chamados, em geral, de "mutualistas". O substantivo "anarquista" só veio tempos depois, no interstício da atividade intelectual e revolucionária de Bakunin e Kropotkin. Minha pesquisa do TCC em história foi sobre este assunto.
Muito obrigado pelo comentário. Abraços!